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Carlos Alberto Marinho do Brasil, também conhecido como Beto ou ainda como Manteiga. O apelido Manteiga vem de sua infância na Rua Visconde de Pirajá, do bairro de Ipanema, na cidade do Rio de Janeiro. Ele chegou nesta rua, no ano de 1962, aos oito anos onde fixou um ponto de engraxate na esquina da Rua Garcia D'Ávila, em frente ao que na época chamávamos de Bar do "seu" Almeida, mas que tinha o nome de Café Bar dos Almeidas. | |
![]() Aos 16 anos, no ano de 1970, engraxando sapatos na esquina das ruas Visconde de Pirajá e Garcia D´Ávila. (A porta na extrema esquerda da foto é a do Bar do "seu" Almeida.) |
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O apelido Manteiga surgiu porque, quando criança, quando seu Almeida lhe dava o café da manhã, ele só aceitava o pão se estivesse com manteiga. Por isso, Pavão, personagem conhecido em Ipanema nos anos 60, o apelidou de "Manteiga". E o apelido colou. Hoje, para os da velha guarda de Ipanema, seu nome ainda é Manteiga. Poucos, dessa época, o conhecem por Beto.
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![]() Chegando para armar a Barraquinha com o carrinho que o salvou de morrer de fome |
![]() Arrumando as mercadorias |
![]() Trabalho de arrumação |
Nunca freqüentou escola. Aprendeu a ler e a fazer contas nas ruas com os amigos que iam à escola e repassavam seu saber a ele. Da mesma forma nunca estudou administração de empresas para administrar os seus negócios, que, bem ou mal, é a razão de ser de sua sobrevivênccia até hoje. Nunca teve um patrão, nunca foi empregado de ninguém. Pode-se dizer que Beto é um verdadeiro e autêntico autodidata. Tudo o que ele aprendeu, aprendeu nas ruas, por sua própria conta. |
![]() Esquina das Ruas Visconde de Pirajá e Farme de Amoedo |
![]() Barraquinha do Beto armada |
| Nasceu na Ilha das Dragas, favela vizinha a da Praia do Pinto, que, como foi comentado na época pela oposição ao Governo Carlos Lacerda, foi incendiada a mando de Sandra Cavalcante para que seus moradores fossem transferidos para a Cidade de Deus e Vila Kennedy. Nascido com paralisia infantil, começou a andar somente aos quatro anos e aos oito já estava trabalhando nas ruas do bairro de Ipanema, vizinho à favela onde morava. Desde então jamais tirou férias ou parou de trabalhar. Mesmo com seus problemas de dores na coluna, em função da deficiência de sua perna direita, nunca esmoreceu diante do trabalho. Chega mesmo a dizer aos amigos que "gosta de trabalhar". | ![]() Esperando a freguesia |
![]() Detalhe das mercadorias |
![]() Beto e a Barraquinha do Beto |
![]() A amiga Paulinha |
Não me lembro o nome delas, mas também eram moradoras de Ipanema duas velhinhas gêmeas que ficaram conhecidas na Banda de Ipanema. Elas permitiam que Beto pegasse algumas mangas e dormisse na varanda de sua casa. Quando a casa foi alugada para uma loja de eletrodoméstico, chamada Big Lar, seu João, o vigia, continuou permitindo que Beto dormisse na mesma varanda. Esta casa se tornou na Churrascaria Carreto, onde hoje, desfigurada de sua forma original, está instalado o Banco Itaú, em frente a Galeria dos Correios. |
![]() Paulinha e Marcely ajudam o tempo passar |
![]() Outra amiga |
| Um pouco mais crescido Beto passou a acumular a função de engraxate com a de vendedor de refrigerantes e cerveja na praia de Ipanema. Mesmo com a perna deficiente levava do bar do "seu" Almeida até a praia, pesados engradados de refrigerantes e cerveja. Não demorou muito nesta função, já que ganhou da Prefeitura o direito de montar um ponto, na esquina da rua Visconde de Pirajá com a Farme de Amoedo, para trabalhar como camelô. Era um direito que todos os possuidores de alguma deficiência tinham. | ![]() Vendendo a última sombrinha |
![]() A Barraquinha sem a sombrinha |
Não esmoreceu nem mesmo diante de sua deficiência visual adquirida numa briga de bar onde ele não tinha nada a ver com a história. Entrou num bar para tomar um copo d'água quando começou uma briga do outro lado do balcão. Um dos que brigavam jogou um copo no seu rival, que se abaixou, e, desafortunadamente, foi acertar o olho direito do Beto que bebia tranqüilo sua água. Com isso, além da perna, perdeu um olho. |
![]() Esse é o Beto, empresário da Barraquinha |
![]() Você pode |
Como se não bastasse tanta desgraça perdeu seu ponto durante a segunda gestão do "humano" senhor Cesar Maia na Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, que cassou sua licença para trabalhar. Pobre, sem dinheiro, sem amigos influentes, não teve nem mesmo a chance de entrar na justiça para reclamar seus direitos.* Viveu então um período muito difícil em sua vida. A única coisa que sabia fazer era comprar e vender suas mercadorias nas ruas. Perdendo a licença para montar sua Barraquinha, perdeu também sua possibilidade de trabalho e de sobrevivência. |
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![]() A esquina e o freguês |
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| Mas isso foi "apenas" mais um obstáculo no seu caminho de trabalhador. Logo depois da proibição ainda tentou voltar a trabalhar no esquema de "correr do rapa". Mas a idade, sua perna e sua vista não permitiam mais estas estrepolias próprias de quem é jovem. Foi então que mais uma vez colocou em prática os ensinamentos adquiridos na rua e saiu-se com uma idéia brilhante: conseguiu um carrinho de supermercado, destes que se levam as compras até o caixa (visto na primeira foto desta página), colocou lá dentro suas mercadorias e saiu arrastando pelas ruas. Desta forma, os fiscais não podiam caracterizá-lo como camelô, já que não tinha um ponto fixo. Dizia sempre a eles que estava levando as mercadorias de um lugar para um outro. Assim, então, tem sobrevivido e conseguiu até construir uma casinha. | ![]() Hora do café, com o diretor de cinema Felippe |
Apesar de ter acesso de diversas formas às drogas, nunca se envolveu com elas ou com algum tipo de ato ilícito. Compra e vende suas mercadorias na maior lisura, sem dever (por muito tempo!) nada a ninguém. Podemos dizer que Beto é um comerciante "legal". |
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![]() Meu grande amigo Beto e eu |
Beto, ex-Manteiga, já vendeu de refrigerantes na praia até bolsas, sacolas, lenços de cabeça para mulher, canga para praia, bonés e guarda-chuvas, passando por objetos de casa como desentupidor de pia, ralos, tampas, colheres de pau e utensílios diversos para casa. |
Se você, que está lendo esta Página, é morador das redondezas do bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, dê uma passadinha na esquina das ruas Visconde de Pirajá e Farme de Amoedo, em frente ao número 75. Lá, dê um "alô" pro Beto e olhe pra ele com todo respeito, porque você estará diante de um herói do cotidiano. Desses que, diante de nossos apertados passos para se chegar a algum lugar, estão lá e deixamos de ver. Todos conhecem os ilustres personagens de Ipanema, nem todos moradores do bairro: Jaguar, Ziraldo, Roniquito, Zé Bello (outro, que não eu!), Albino Pinheiro, Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes, Helô Pinheiro, entre outros. Todos conhecem Zepelim, Bofetada, Jangadeiros, Castelinho, Veloso, Sorveteria das Crianças ("seu" Morais), Banda de Ipanema, Feira Hippie, entre outros. É preciso também que saibam que Ipanema teve a Barraquinha do Beto e o ilustre morador de rua Carlos Alberto Marinho do Brasil, o Manteiga ou o Beto. |
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Da minha parte, tive a felicidade de ter acompanhado esta história e o maior orgulho em ser considerado por ele como um amigo. Mesmo diante de minhas limitações, sempre que puder vou ajudá-lo. Tenho por ele a maior admiração e respeito.
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Zé Bello
morador do bairro de Ipanema
desde o nascimento