a viagem para o
e um pouco sobre a educação cubana
Congresso Pedagogia 2001
Encuentro por la unidad de los educadores latinoamericanos
Agradecimentos:
à professora Nilda Teves e sua equipe, pelo estímulo e pela fé;
ao meu irmão Fernando, pelo exemplo e pela força;
à minha cunhada Marlene, por sua dedicação descompromissada;
aos primos Jane/Zé e Clio/Consta, pela acolhida e pelo carinho fraternal;
ao primo grego/brasileiro Constantinos Lambrinidis, pelas sugestões de mudanças no texto desse Diário,
e à professora Ana Cristina Coutrim Gonçalves, pela ajuda na língua portuguesa.
Ao povo cubano, pela lição de vida.
Dia 31 de janeiro de 2001 - quarta-feira
Rio de Janeiro. Passei o dia resolvendo problemas de viagem (pegar fotos no Claudinho e Neresgton para levar para prof. Carlos Valdívia, pegar passagem e voucher de hotel, acabar de arrumar as malas, dar os últimos telefonemas etc.). No Final do dia, jantei na casa de minha mãe, onde me esperava minha filha, a Crica, que me levaria para a Rodoviária para pegar o ônibus para São Paulo.
Dia 1o de fevereiro - quinta-feira
São Paulo. Cheguei às 5 e meia da manhã, quando esperava chegar às 7 e meia. O motorista, literalmente, voou na estrada. Tive de esperar um pouco para ligar para Constantino e Clio e pedir orientação de como chegar na sua casa.
Às 7 e meia consegui chegar na casa dos primos. Constantino foi trabalhar, Clio foi ao dentista e eu esperei o Consta voltar. Chegando ele me levou para a casa da Jane e Zé, outros primos, ela irmã da Clio, onde estava hospedado meu irmão Fernando.
Almocei com Zé, Jane e Fernando e achei Fernando muito bem, apesar dos pesares. A quimioterapia e a radioterapia não tinha deixado, na sua aparência, tanto estrago quanto da outra vez. Desta vez ele não emagreceu tanto, seu cabelo não caiu, apesar dele ter cortado o cabelo rente à cabeça e aqueles soluços malucos sumiram, mesmo que ainda tivesse discretos soluços e tossisse muito.
Depois do almoço Jane e Zé foram trabalhar e eu fiquei de papo furado com Fernando até o fim da tarde, quando peguei um taxi para voltar para Consta e Clio, onde jantei e fui dormir.
Dia 2 de fevereiro - sexta-feira
Acordei cedo e Clio me levou para o Fernando e de lá fomos para o Hospital Albert Einstein, para que ele fizesse seu tratamento. Um lindo hospital que nem parece hospital, mas com uma organização e atendimento mais-que-perfeito, de fazer inveja aos países do "primeiro-mundo".
Ficamos lá por, mais ou menos, uma hora e depois fomos almoçar no Clube Pinheiros, com Jane e Zé.
Fomos e voltamos andando devagar por causa do Fernando e, quando chegamos em casa, Fernando foi dormir um pouco, Jane e Zé trabalhar e eu fui dar umas voltas pelas redondezas. À noite Clio e Adriano, seu filho, chegaram na Jane e Zé, jantamos, assistiram ao último capítulo de uma novela e voltamos para a casa da Clio, onde esperava Constantino. Atualizamos a Home Page dele, tomei um banho e já fiquei pronto para a viagem.
Iria viajar comigo uma aluna da Universidade Veiga de Almeida, a Tatiana, e foi sua mãe, Theodora, quem me facilitou as burocracias da viagem, já que ela trabalha com turismo. Marquei com o táxi às 4 e quinze da manhã, porque Theodora havia me pedido para acordar a Tatiana, que iria dormir num hotel no aeroporto de Guarulhos e ela estava com medo da filha perder a hora. Só que acabou não servindo para nada e iria chegar cedo demais ao aeroporto. Descobri que o hotel onde deveria pegar a Tatiana era muito longe do aeroporto e não daria para ir até lá de táxi. Tive de desmarcar o encontro com ela e remarcar no próprio aeroporto.
Dia 3 de fevereiro - sábado
Cinco hora da manhã, primeiro desencontro. Cheguei cedo demais ao aeroporto e fiquei esperando Tatiana num canto do aeroporto. Só que o balcão da Aviación Cubana era do lado totalmente oposto donde eu estava. Telefonei para ela às 5 e meia, como sua mãe Theodora havia pedido. Ela disse que já estava saindo do hotel. Às 6 e meia ainda esperava por ela. Acabei por achar que eu estava em algum lugar errado e saí pelo aeroporto para procurar Tatiana. Quando descobri o lugar certo, a fila do check-in da Cubana tinha uma fila enorme. Por sorte, Tatiana me viu e, da fila, gritou: "- Professor!". Não gosto e não tenho hábito de fazer isso, mas não entrei no final da fila e sim onde estava Tatiana. Foi feio, mas nem tanto, já que, provavelmente, fui o primeiro a chegar ao aeroporto. Na fila encontrei Márcia, mulher do Aristeu e mãe da Camila, do Ogá Mitá. Camila, estudante da PUC/RJ, ia participar do Congresso. Para que fique registrado, e as outras Universidades particulares possam seguir o exemplo, parte da viagem dela foi financiada pela PUC.
Entramos na área de embarque, fizemos um lanche, visitamos o free-shop e logo depois entramos no avião. O avião era um DC-10 (Como pode? E o embargo econômico?). Estava literalmente lotado. Não havia um lugar vago e acho que todos os passageiros iam para o Congresso. Isto fez com que a viagem se tornasse numa espécie de festa comportada. Quem já não se conhecia, conhecia alguém do nosso ciclo de amizades e convivência profissional do outro.
Havana, Cuba. Depois de oito horas de viagem, chegamos a Cuba. Tudo muito demorado na chegada. Como o avião estava muito cheio tivemos de enfrentar uma fila enorme na passagem pela aduana. Chegamos no aeroporto por volta de 1 hora da tarde (horário cubano) e só saímos de lá as 3 e meia. O aeroporto de Havana fica meio afastado da cidade e pegamos um ônibus. Logo que entrei nele, percebi que era um Marcopolo brasileiro (Como pode? E o embargo?). No estacionamento cheguei a ver carros como Gol (da Volks), Renault e Audi, mas quase todos os carros são realmente muito velhos. Já neste primeiro dia vi alguns carros quebrados pelas ruas. Um deles, inclusive, tinha perdido a roda.
Descobri depois que os cubanos, para driblar o embargo econômico, estão encontrando saídas de comercializar bens através de países que também passam por problemas com os Estados Unidos. Segundo me disseram, o avião americano foi comprado através da China e os ônibus brasileiros através da Líbia. Não me aprofundei nesta questão e a informação que passo aqui recebi de pessoas cubanas.
A primeira impressão que tive de Havana é a de que é uma cidade pobre. As casas são de arquiteturas suntuosas, mas parece que falta conservação. Depois me disseram que, em função do embargo, eles não têm cimento, tinta para pintar paredes, ferros e outros materiais necessários para conservar as casas. Notei que as ruas estavam um tanto vazias. Uma guia turística foi nos falando dos monumentos que encontrávamos pelo caminho.
Cheguei finalmente ao Hotel Presidente e lá nos esperava um agente de viagem da Cubanatur encarregado de nos alojar. Tudo tranqüilo e rápido. Fiquei com o quarto 516. Subi, tomei um banho e desci para saber da Tatiana, que havia se separado de mim no aeroporto, porque iria para outro hotel, o Riviera. Como o hotel dela era próximo do meu, em vez de telefonar, resolvi dar uma caminhada até lá. Já devia ser umas 6 horas da tarde. Quando cheguei na entrada do hotel Riviera dou de cara com Tatiana, saindo do hotel com a mesma roupa de viagem e toda sua bagagem. Apesar da reserva, o hotel recusou um monte de gente. Essas pessoas iriam ser transferidas para outro hotel. Corri de volta para meu hotel para ver se encontrava o agente de viagem que me recebeu pela tarde e ver se ele colocava pelo menos a Tatiana e a Fátima, uma professora de Psicologia que conhecemos na viagem, no meu quarto até o dia seguinte. No meu hotel não encontrei mais o agente de viagem que deveria sair as 8 horas da noite e ainda eram 7 horas e 10 minutos. Pronto. E agora? Voltei correndo para o hotel da Tatiana mas ela já tinha saído. Como ela me falou que talvez ficasse no Novotel Miramar telefonei para lá e eles não sabiam dar informações sobre uma hóspede chamada Tatiana Santiago. É que no momento que liguei ela ainda estava cumprindo as burocracias de praxe para se alojar. Tentei ligar para Theodora, mãe dela, mas em Cuba não se faz ligação a cobrar dos hotéis. Como estava com medo do dinheiro que levei não durar até o fim da viagem, não pude ligar. Disseram-me que não fazem ligação a cobrar por causa do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. Tudo que tentei fazer deu errado; então resolvi relaxar. A Tatiana não estava sozinha e, se ela não se separasse do grupo, não iria ter problemas maiores. De mais a mais deixei com ela o número do telefone do meu hotel e o número do meu quarto. Por qualquer problema ela me ligaria. Então resolvi dormir e esperar para ver o que ia dar.
Dia 4 de fevereiro - domingo
Acordei tarde (8 e meia) e perdi não só o café da manhã, como o primeiro ônibus para fazer a inscrição no Congresso Pedagogia 2001. Telefonei para o hotel onde Tatiana me disse que ia ficar e lá me disseram que ela estava no quarto 393, mas que não estava no momento. Finalmente pude ficar mais calmo e ir fazer minha inscrição.
Na inscrição tive uma outra surpresa: pensei que minha inscrição tinha sido paga no Brasil; ledo engano. Tinha de contar centavos para durar até o fim da viagem e tive que pagar 120 dólares (cerca de 240 reais) para me inscrever. Sem contar que não pude participar de nenhum curso (20 dólares cada) e tive que cortar algumas visitas oficiais (5 dólares cada). Mas não há de ser nada. Vamos tentar aproveitar o máximo que pudermos, mesmo sem dinheiro.
Outro problema na inscrição: este não comigo, mas com uma professora brasileira, do ensino fundamental, que estava um pouco a minha frente na fila. A inscrição era feita assim: era uma fila de mesas, uma ao lado da outra; na primeira entregava-se nossos documentos (passaporte, carteira de identidade ou outro qualquer); na segunda pagava-se a inscrição com um cupom recebido na primeira mesa; na terceira recebia-se o crachá; em outra sala recebia-se o material para o Congresso e em outro balcão o Certificado de participação. Esta professora entregou seu documento a uma das duas mulheres que atendiam na primeira mesa, junto com os 120 dólares. Quando chegou na segunda mesa o rapaz lhe cobrou os 120 dólares. Ela respondeu que já havia entregue para a moça da primeira mesa. Só que a moça, depois que atendeu esta professora, saiu da sala (eram duas atendendo na primeira mesa). Esperaram a moça voltar e, quando voltou, ela disse que não tinha recebido dinheiro nenhum. Ficou um impasse: a professora dizia que pagou e a moça, é claro, dizia que não recebeu. Ficou a palavra de uma contra a da outra. Eu não sei qual das duas estava com a razão, já que a professora podia também ter se enganado. Um outro professor, que estava com esta professora, formalizou um protesto e a acusação foi feita diante da moça suspeita. A coordenadora do Congresso interferiu para serenar os ânimos. A professora teve de pagar mais 120 dólares, se é que realmente entregou esse dinheiro a moça da primeira mesa. O que não concordei com tudo isso foi que a moça permaneceu no mesmo posto após a acusação. Eu, por via da dúvida, colocaria a moça em outro lugar. É claro que não se poderia acusá-la de nada. A não ser que sua bolsa e ela mesma fossem revistadas.
Depois da inscrição feita fiquei circulando pelo Palacio de Convenciones de La Habana esperando encontrar Tatiana porque, apesar de saber que ela estava alojada, não tive mais notícias dela. Toda vez que ligava para ela não estava em seu quarto.
Andando de um lado para o outro encontrei-me com Luzia, professora do Departamento de Educação da Universidade Veiga de Almeida, minha colega de trabalho, acompanhada de seu professor no mestrado, e ficamos conversando. Seu professor iria apresentar um trabalho. Conheci muita gente neste primeiro dia de Congresso. Não só brasileiros, como também mexicanos, cubanos e uma panamenha que irá apresentar um trabalho.
Como Tatiana não chegava para a inscrição, aproveitei para almoçar lá mesmo, já que a comida lá custa apenas 6 dólares. Só que achei a comida horrível. O prato, tipo bandejão, veio com arroz, um pedaço grande de frango e umas batatas fritas horrorosas. De sobremesa goiabada com queijo. Mas acho que vai ter que ser assim mesmo, porque paguei 4 dólares por um sanduíche furreco de misto-quente, uma Coca-Cola (mexicana) e um cafezinho. Só o cafezinho foi 1 dólar (no hotel custa 1 dólar e 75 centavos!).
Esperei até as 2 horas e a Tatiana não apareceu para fazer a inscrição. Voltei a ficar preocupado. Voltei para o hotel para telefonar. Telefonei da portaria e ela não estava no quarto. Deixei um recado para ela me telefonar. Quando subi para o quarto encontrei um bilhete, deixado pelo hotel: "Zé. Estou mesmo no Novotel Miramar, apto 393. Ligue para lá quando puder. Está tudo bem. Um beijo, Tatiana". Ah! Alívio, enfim. Resolvi tirar um cochilo e no meio do cochilo liga a Tatiana. Disse que estava tudo bem, o hotel era bom e elas estavam pensando em ir a uma boate que tem no saguão do hotel deles. Convidou-me para ir lá, mas preferi continuar dormindo. Perguntei se ela tinha telefonado para Theodora e ela me disse que ia fazer isso em seguida.
De noite choveu.
Dia 5 de fevereiro - segunda-feira
Acordei cedo e hoje consegui tomar meu café da manhã que vale por um almoço. Tem ovo, bacon, salsicha, lingüiça, leite, iogurte, sucos, frutas diversas, diversos tipos de pão e tudo mais à vontade. Comi até não poder mais e quando ia voltar para o quarto ouvi uma freada forte do lado de fora e fui ver o que era. A freada não foi nada, mas, chegando lá fora, ouvi aquele barulho típico de qualquer escola do mundo: aquele vozerio de muitas crianças falando ao mesmo tempo. Fiquei excitado e dei mais dois passos para a frente tentando encontrar a origem do barulho. De repente, na casa da frente, vejo umas cabecinhas de crianças passando pelo lado de dentro das janelas. A casa, igual a todas as outras, com uma discreta placa que só fui perceber mais tarde, era uma escola!
Como a Tatiana ficou de passar no meu hotel para conhecermos Havana Velha, com o grupo que está no hotel dela, voltei para o quarto para esperar seu telefonema. Liguei a televisão para passar o tempo.
Em Cuba só tem dois canais de televisão para os cubanos. Um deles se chama Rede Rebelde. Os estrangeiros, nos hotéis, além dessas duas TVs cubanas, têm acesso também a CNN, Dicovery, Superstation, Cartoon Network, ESPN, TV5 (francesa) e DW (alemã). As americanas são transmitidas em inglês e legendadas também em inglês. Alguns filmes são dublados para o espanhol, mas a legenda é em inglês. Quase todos os programas das TVs americanas são legendados, provavelmente para atender aos deficientes auditivos. Assisti, em Cuba, ao filme Matrix, dublado para o espanhol e legendado em inglês.
Nesta manhã, por volta de 9 horas, quando cheguei de volta ao quarto, não havia nenhuma TV cubana no ar. Mas logo depois entrou no ar uma programação infantil. Apresentou o funcionamento do coração e a circulação sangüínea, um desenho animado sobre a História do Transporte e, depois de um breve filme sobre José Martí, com um bonito fundo musical de voz e violão, entrou uma mulher apresentando o quadro Cuento que cuento. Ela conta histórias para crianças e, antes disso, apresenta umas charadas para as crianças resolverem. Uma delas foi: "o que é que sobe cheio e desce vazio?". A colher, que sobe com a comida e desce sem ela. Depois disso, no mesmo programa infantil, uma linda homenagem a Camilo Cienfuegos, com imagens da Revolução cubana, com Fidel e "Che", além de Camilo, acompanhada de uma canção: "Porque estás vivo Camilo...".
No intervalo da programação assisti a um anúncio interessante. Vai ser realizado em julho um Congresso só para crianças: o Pioneril. Este Congresso se presta a ouvir as crianças sobre o que pensam de tudo que se passa ao seu redor. Na parte educacional a escola vai ser criticada por eles, a seu jeito. Só precisamos saber como se dará a interferência dos adultos nesta prática. Se a proposta for realmente democrática, a idéia é ótima.
Já que falei de José Martí, acima, preciso dizer que ele é o grande mentor intelectual do país. É um dos maiores, se não for o maior, herói do povo cubano. Encontra-se bustos de José Martí, espalhados pela cidade de Havana. Comprei alguns de seus livros e realmente Martí foi, talvez, o primeiro cubano a divulgar o ideário de liberdade de um povo. Além de lutar pela libertação de Cuba da Espanha, foi um pensador que deu à educação uma ênfase significativa: "Um povo livre é um povo culto", dizia ele. Os ideais da Revolução de 59 foram inspirados nele. Era jornalista, poeta e revolucionário, criador do Partido Cubano Revolucionário. Nasceu em 1857 e morreu em 1895, na batalha de Boca de los Rios, lutando pela libertação de Cuba contra o colonialismo espanhol. Mesmo tendo falecido com 38 anos deixou uma obra enorme e parte dela dedicada à educação.
Finalmente chegou Tatiana, duas horas depois do combinado, e saímos andando em direção a Malecon, uma das vias principais de Havana, que margeia o mar. No caminho para Havana Velha, encontramos o resto do grupo. Passamos em frente a uma escola e resolvemos entrar e pedir para visitá-la. Nada estava preparado e os técnicos e funcionários nos receberam com a mais alta cortesia. Todos se prontificaram em mostrar a escola e a responder a todas as perguntas que fizéssemos. A escola se chamava Escuela Arturo Montori. Caramba! Quanta coisa aprendi ao mesmo tempo. Primeiro sobre a estrutura do ensino em Cuba. Vejamos:
- Creche: até os 5 anos.
- Pré-escola: 5 e 6 anos.
- Primário: 7 a 12 anos - 1o ao 6o grau.
- Secundário: 13 a 15 anos - 7o ao 9o grau.
- Pré-Universitário: 16 a 18 anos - 10o ao 12o grau.
Todas as crianças de Cuba têm direito à educação gratuita da creche ao fim da Universidade. A educação é obrigatória para os cubanos da pré-escola (6 anos) até o 12o grau (18 anos) e a lei é cumprida (não é como no Brasil). As crianças, em todas as escolas, passam a ter representação na administração da escola através de uma organização chamada de Pioneros José Martí.
A administração das escolas é assim montada:
- 1 diretora
- 2 Vice-Diretoras
- 1 Administrador Geral
- 1 representante do Sindicato de Trabalhadores
- 1 representante da organização Pioneros José Martí (aluno da própria escola)
- 1 representante do município (pai ou mãe de algum aluno)
Em função do bloqueio econômico a aparência da escola é bem pobre. Eles não têm tinta para pintar as paredes e os alunos, nos trabalhos de artes, pintam com piche ou carvão, dando uma aparência escura aos trabalhos de artes. Também os móveis são velhos e os livros da biblioteca poucos e velhos. As bibliotecas de todas as escolas tem a obra completa de José Martí, que, apesar de ter falecido jovem (38 anos), deixou uma obra imensa que, nesta escola, ocupava 27 volumes. Os técnicos e professores da escola nos informaram que faltam, para eles, cadernos, lápis, canetas e livros. Nos cadernos eles escrevem nas folhas, acompanhando as linhas delas, e quando acabam escrevem nas bordas das folhas para economizar. Uma turma de 5o grau, cerca de onze anos, aprendia a falar a língua portuguesa. Algumas pessoas do nosso grupo ficaram de enviar livros em português para ela.
Chegamos a essa escola na hora do almoço e as crianças estavam comendo arroz integral, canja e salsicha; bebendo leite de soja. Uma das crianças estava ajudando a professora a organizar o almoço. Aqueles(as) alunos(as) que desejam seguir a carreira do magistério começam desde cedo como auxiliares dos professores. A menina, que deveria ter entre 8 e 10 anos, ajudando sua professora, trazia em seu braço uma fita com os dizeres: "Serei professora". Infelizmente a fotografia que tirei dela não saiu muito boa e não é possível ler o que está escrito em sua fita branca.
A professora me explicou que é com aproximadamente 8 anos que eles começam como auxiliares. Achei que era pouca idade para que os alunos pudessem fazer uma opção. De qualquer forma, o fato deles, tão cedo, optarem em ser ajudante dos professores, não implica que eles serão obrigados a seguir a carreira do magistério. Os que seguirem foi porque tomaram gosto pelo trabalho.
Quando entram na faculdade de Pedagogia, para ser tornarem professores, começam a trabalhar nas escolas a partir do segundo ano do curso. Esta é uma das características da educação cubana: a partir do nível pré-universitário (dos 16 aos 18 anos, aproximadamente) a educação está estreitamente ligada ao trabalho.
Não existe em Cuba nenhum professor desempregado e existe um professor para cada grupo de 42 habitantes da Ilha. A relação professor/aluno, este ano (2001), é de um professor para cada trinta alunos e eles tem planejado para o próximo ano baixar esta relação para um professor para cada vinte alunos.
A educação cubana dá igual importância para a educação especial. Nestas escolas a relação professor/aluno é de um professor para cinco alunos, sendo que, em alguns casos onde a dependência é extrema, esta relação chega a um professor para atender a somente um único aluno.
Na educação especial não existe o sistema de Inclusão (atender alunos portadores de necessidades especiais nas turmas regulares de ensino). Mesmo nas escolas especiais os alunos são agrupados por nível de necessidade de atendimento. Desta forma os portadores de síndrome de Down são atendidos em turmas onde os cinco alunos apresentam síndrome de Down. Não se junta, no mesmo grupo, alunos com paralisia cerebral e autistas, por exemplo.
Esta prática, defendida por alguns colegas piagetianos de minha relação profissional, é controversa e gera polêmicas. Trabalhei numa escola montessoriana, na cidade do Rio de Janeiro, o Colégio Constructor Sui, que aplicava o sistema de Inclusão. Pelo que pude observar, mesmo que não tenha me aprofundado na avaliação dos resultados, o trabalho tinha suas vantagens. O que mais me chamou a atenção, nesta escola, foi como os alunos que não tinham necessidades especiais cuidavam daqueles que precisavam de mais atenção. A sensação que tive foi a de que os alunos assumiam uma postura de maturidade em relação àqueles que necessitavam de atendimento especial. Por outro lado, eu penso ainda, contribuía para que os alunos sem necessidades especiais fossem educados, desde cedo, para se relacionarem normalmente com os demais, sem assumirem atitudes discriminatórias ou preconceituosas.
Aprendi muito nesta escola. Fiquei profundamente apaixonado por tudo que vi. Tirei muitas fotos e tentarei ajudar, de alguma forma, aqueles meus novos amigos cubanos.
Saímos da escola e fomos para Havana Velha. No caminho passamos por um prédio enorme que era o Hospital Hermanos Almeijeiras. Em Havana Velha nos limitamos a conhecer uma Feira de Artesanato e a Casa de Artesania. Achei tudo muito fraco. Não vi nada do que a Feira Hippie, da Praça General Ozório, no Rio de Janeiro, não já tivesse. Nada muito diferente e tudo muito caro. Eu, com meu dinheirinho contado, não comprei nada.
Fomos para o hotel onde Tatiana estava hospedada e lá mesmo jantamos. De todos no grupo somente quatro (Monica, um paulista, um capixaba e eu) foram para a abertura do Congresso Pedagogia 2001 - Encuentro por la unidad de los educadores latinoamericanos, no Teatro Karl Marx. O teatro estava lotado com cerca de 6 mil participantes do Congresso. A cerimônia começou com uma apresentação de crianças que cantaram músicas típicas cubanas, onde não faltou a tradicional Guantanamera, dançaram e apresentaram pequenas peças teatrais. Foi impressionante ver a desenvoltura, o desembaraço e a desinibição de todos eles.
Depois das crianças tomou a palavra o Sr. Ministro da Educação de Cuba, Dr. Luis Ignacio Gómes Gutiérrez. Falou por uma hora e meia. Mas seu discurso foi impactante. Uma das questões levantadas por ele foi a seguinte: "Se terminou a 'guerra-fria', por que se gasta em armamentos cem vezes mais do que o necessário para erradicar o analfabetismo, educar a todas as crianças e elevar a qualidade da educação?".
E terminou seu discurso citando José Martí: "As árvores formarão fila para que não passe o gigante de sete léguas! É hora da contagem e da marcha unida, e andaremos unidos, como a prata nas raízes dos Andes".
Depois de tanta razão e sensibilidade saímos do teatro e, do lado de fora, encontrei-me com Camila, filha do Teteu e Marcia, do Ogá Mitá. Junto dela estavam Sabrina, Amélia, Maria e Letícia. Todas jovens encantadoras que me convidaram para tomar um mojito em Havana Velha. Estava pensando em ir para o hotel dormir, mas resolvi acompanhá-las. E que fim de noite maravilhoso. As cinco esbanjaram vida, alegria e juventude. Andamos um pouco por Havana Velha, conheci a Catedral e lá tinha um velho dançando sozinho na rua. Pois não é que a Letícia tirou o velho para dançar? A praça em frente à Catedral, num estilo bem espanhol, era cheia de mesas e um conjunto tocava músicas de ritmos cubanos. Todos que estavam nas mesas voltaram-se para a Letícia e o velho. Depois fomos caminhar por Havana Velha. Tiramos fotografias em frente ao bar que Hemingway freqüentava, o El Bodegita del Médio. Mas, como este bar estava muito cheio, fomos para o Café O'Relly, onde se apresentava o Quinteto Café Express. As meninas tomaram conta do bar: dançaram, cantaram e trouxeram mais alegria ao lugar. Lá comemos e eu, finalmente, experimentei o mojito. Bebida deliciosa. É feita de rum, limão, açúcar e hortelã, eu acho. Ao mesmo tempo em que é deliciosa é uma bebida perigosa, já que é muito saborosa, leve, parece um refresco e é feita à base de álcool. Para se ficar completamente bêbado não custa nada. Mas eu me limitei a apenas um mojito, já que, cada dose de um copo, custava 2 dólares.
Neste bar comprei minha primeira lembrança para Fernando e Marlene, meu irmão e cunhada: o CD do Quinteto Café Express com direito a autógrafos de todos os componentes.
Enquanto estava sentado na mesa, um garoto na rua, do lado de fora do bar, fez minha caricatura, sem que eu percebesse. Vou mandar emoldurar como lembrança de Havana Velha.
Finalmente voltei para o meu hotel e as meninas foram para a Vila Panamericana, onde estão hospedadas.
Dia 6 de fevereiro - terça-feira
Primeiro dia efetivo do Congresso Pedagogia 2001 - Encuentro por la unidad de los educadores latinoamericanos. Não encontrei na programação nenhuma palestra que me agradasse completamente para assistir. Sendo assim, fui assistir à apresentação da Maria Comes Muanis, a mesma Maria que na noite anterior tomava comigo um mojito em Havana Velha, sobre a Crise de Leitura, dentro da Conferência Temática La lectura: experiencia y formación humana, ministrada pela profa. Maria Dolores Ortiz, assessora do Ministério da Educação Superior. Maria deu um verdadeiro "show" de inteligência, sabedoria e seriedade. Enquanto a conferencista leu toda sua apresentação, Maria, com segurança, apresentou algumas lâminas no retroprojetor enquanto ia explanando sobre o assunto em pauta. Na verdade ela questionava a crise de leitura, dizendo que o que havia era uma falta de leitura e que o livro tradicional, inventado por Gutemberg, não se acabaria com o advento da informática. A informática poderia facilitar o acesso à informação, mas mesmo os que usam o computador imprimem o que querem ler. Diga-se, de passagem, que sua apresentação foi em língua espanhola. Conquistou a platéia e recebeu calorosos aplausos no final de sua parte. Acho que essa geração que está vindo por aí é bem melhor do que a da minha época. A quantidade de informações que recebem os fazem mais sábios e mais cedo.
Depois da apresentação dela saí da sala para comprar alguns livros para subsidiar meu trabalho sobre educação em Cuba. Quando estava examinando alguns livros num "stand" um homem se aproximou de mim e me mostrou uma fotografia. Era eu! O sangue me gelou nas veias e quase morri de susto: pronto, o "serviço secreto da KGB cubana" me descobriu e vou sair daqui direto para o aeroporto ou para a cadeia. Encarei o homem com os olhos arregalados e ele insistiu em me mostrar a foto, sem falar nada. Só depois, quando olhei melhor a foto, vi que o outro homem que estava na foto comigo era o Carlos Valdívia, um professor da Escola de Pesca que conheci no Rio de Janeiro e, graças ao Claudinho, Diretor da Escola de Pesca de São Gonçalo, e Neresgton, professor de História desta mesma escola, tornou-se meu amigo. O homem, com cara de "agente da KGB cubana", era o professor de matemática Felix Revilla Mengana, assessor do Ministério da Educação, vizinho e muito amigo de Carlos Valdívia. Carlos havia entregue a foto a Felix pedindo para me localizar para marcar um encontro. Passado o susto Felix se prontificou a me ajudar a juntar material para meu trabalho.
Encontrei-me com Monica, uma amiga da Tatiana, que acabou ficando comigo para terminar a tarde. Fui assistir a um Grupo de Trabalho sobre Qualidade em Educação e, novamente, achei tudo muito fraco. Parece que só tinha mexicanos na sala, já que 80% das intervenções forma feitas por eles. Mas sempre colocando experiências próprias baseadas numa estrutura pedagógica falida e sem expressão. Nada de novo. Discursos longos para dizer que qualidade em educação é "educar para a vida". Já passei por isso há tanto tempo que quase achei que a educação no Brasil estava a mil anos-luz na frente dos outros. Até a intervenção do representante cubano baseou-se nestas idéias vagas sobre educação. Ninguém lembrou de que a educação é um ato político e que, independente do sistema ou do país, atende aos interesses do Estado. Ninguém lembrou de dizer que um alto índice de analfabetismo, ou até mesmo a erradicação dele, poderia representar um indicativo de qualidade em educação... a serviço do Estado. Ninguém lembrou de levantar a questão da liberdade individual e as conseqüências dela. Ninguém falou de verificação de resultados a partir de objetivos claros e discutidos com a coletividade. Ninguém levantou a questão de que a educação cubana, pelo menos em teoria, propõe-se a isso. Cada vez mais me convenço de que participo de uma farsa, onde as discussões das questões pedagógicas não passam de meros "bla-bla-blás", sempre contornando o tema central que é a libertação humana.
O interessante aconteceu depois, quando Monica e eu fomos entrevistados, nada mais nada menos, do que pela Rádio Havana. É claro que isso não tem a menor importância, mas fiquei lisonjeado. Não havia motivo para isso, já que a escolha da jornalista foi aleatória, no meio dos participantes.
Por fim perdi a última palestra que desejava assistir. Ela foi perdida não por minha culpa, mas a organização do Congresso falhou. Esta parte da programação era cumprida em outro prédio distante do Palácio das Convenções e só poderia ir para lá de ônibus (!?). Como eu não sabia disso, perdi o ônibus.
Fiquei esperando a Mônica terminar de assistir a palestra dela. Quando ela chegou me propôs ir à casa de um amigo cubano. Topei. Ia ver, pela primeira vez, como morava uma típica família cubana. Antes de chegar lá passamos por uma padaria, comemos e levamos alguns doces para o amigo e sua mãe. Chegando lá recebeu-nos Jésus e sua mãe. Jésus trabalha na biblioteca da Casa de las Americas. Simpático, permitiu-nos usar seu telefone e aproveitei para tentar localizar Carlos novamente. Não consegui falar com Carlos, mas falei com sua filha Daiami. Vou tentar outra vez amanhã. Aproveitei para conversar com Jésus e sua mãe, D. Dolores. Jésus me explicou como era feito o racionamento em Cuba. O racionamento, ou melhor dizendo, o controle de consumo sempre existiu após a Revolução de 1959, mas ficou mais difícil depois que a União Soviética se desfez e deixou de suprir as necessidades básicas dos cubanos. Cada cubano, por exemplo, tem direito a um pão por dia. Cada pão extra custa-lhes 1 peso, o que, para eles, é muito dinheiro. Numa família de três pessoas, três pães. E assim é com a carne, galinha, arroz etc.. Toda família tem uma espécie de cadernetinha que controla o que se é recebido e consumido. Jésus se mostrou favorável ao regime cubano, mas fez algumas críticas. Por exemplo: ele disse não haver possibilidade de ninguém tomar a liderança num movimento de protesto contra o governo. Não lhe questionei, já que não estava ali para criar polêmicas, mas, pelo que tenho conversado com as diversas pessoas, esse movimento realmente é impossível, não por imposição do sistema e sim porque não terá respaldo popular. De mais a mais, qual o sistema político que permitiria que se estruturasse um movimento de derrubada do poder?
Emocionante foi conversar com sua mãe, D. Dolores. Ela, idosa e cega, contou-me que participou da Revolução comandada por Fidel Castro. Perdeu seu marido na Revolução e até hoje seu espírito é altamente revolucionário. Quando lhe perguntei sobre o sistema cubano e as dificuldades que tinham que passar, ela me respondeu: "É o preço que temos que pagar por nossa liberdade".
Contou-me ainda que duas irmãs suas foram para os Estados Unidos, sendo que uma delas atravessou para Miami nas divulgadas e perigosas balsas, do tipo que matou a mãe do menino Elián. Disse ainda que uma dessas irmãs participou da Revolução com ela. D. Dolores já havia ido aos Estados Unidos duas vezes para tratar de sua vista, mas voltou para Cuba para continuar lutando.
Perguntei a ela qual o sentimento que ela nutria pelos americanos e pelos Estados Unidos. Ela respondeu: "Não posso ter um bom sentimento por aqueles que nos oprimem e tentam tirar nossa liberdade. Mas isso não me incomoda mais." Se tivesse ido a Cuba somente para conhecer a mãe de Jésus, D. Dolores, e voltar para o Brasil, a viagem já teria valido a pena. Recebi dela uma das maiores lições de sensibilidade e doçura que já pude ter em toda minha vida. Daqui deixo meu agradecimento a ela. Gostaria de ter levado alguma coisa para ela. Como trouxe um sabonete para uso pessoal, e não usei, vou deixar de lembrança para ela. Deixo ainda minha solidariedade por sua incansável luta pela liberdade de seu povo. Apesar do racionamento ela me ofereceu café, que eu recusei peremptoriamente, mesmo sendo viciado num cafezinho. Não tive coragem de aceitar para que eu pudesse deixar minha humilde contribuição para diminuir as dificuldades por que passa para garantir sua liberdade.
De lá fomos, Monica e eu, para o teatro Karl Marx, onde haveria uma apresentação de jovens cubanos, o Gala Arte Joven del Tercer Milenio. Um bonito espetáculo de dança e música. Parece que Alicia Alonzo deixou uma boa escola em Cuba. Eles dão à arte o mesmo valor que dão as outras atividades profissionais. O Sistema de Enseñanza Artistica foi criado pela Revolução em 1962 e é integrado por 45 escolas, em toda Cuba, onde estudam 11 mil alunos.
Saímos de teatro e combinamos ir ao Jazz Café. Monica foi para seu hotel e eu peguei o ônibus para ir para o meu. O motorista do ônibus em que eu estava era fã do Roberto Carlos e colocou uma fita a toda altura. Impressionante o sucesso que Roberto Carlos faz em todos os países da América Latina. Quase todos no ônibus, de diversas nacionalidades de língua latina, acompanharam Roberto Carlos cantando Detalhes e outras músicas. Só eu não sabia a letra de nenhuma. Graças a isso, quando o motorista passou pelo meu hotel, não ouvi quando ele disse: "Hotel Presidente". Desta forma fui obrigado a deixar todos os outros para voltar com o motorista para meu hotel. Não fui o único a perder o ponto. A música atrapalhou também duas colombianas que não ouviram o motorista dizer o nome do seu hotel. Mas saí lucrando, já que conheci uma chilena maravilhosa, a Patrícia Millaray Orellana, que chegou a Cuba antes do Congresso para trabalhar no campo com os cubanos. Achei essa idéia ótima e vou procurar saber como se concretiza isso. Mas voltei sozinho com o motorista, que continuou ouvindo Roberto Carlos, até próximo do meu hotel, na famosa Malecon. Quando desci do ônibus, na rua escura de Havana, olhei para o céu e uma esplendorosa lua cheia iluminou-me o caminho. Telefonei para Monica que estava cansada para sair naquela noite. Então dormi em paz.
Dia 7 de fevereiro - quarta-feira
Na noite anterior pedi na portaria do hotel para me acordar. Não deram a menor bola. Como se eu não tivesse pedido nada. Com isso acordei às 8 e vinte, tendo que estar no Palácio das Convenções às nove. Tive, desgraçadamente, de pegar um táxi e gastei 9 dólares (18 reais). Por que será que toda hora isso acontece em Cuba? Parece que eles não tem senso de responsabilidade; que eles não se importam em cumprir o que combinam.
Chegando no pátio do estacionamento para fazer a visita programada ao Instituto Preuniversitario Vocacional I. V. Lênin, encontrei Camila, Letícia e Maria. Elas iam visitar a Escola de Música.
Não gostei da visita. Na verdade o instituto era enorme. O prédio principal tinha cerca de 1 quilômetro de comprimento por cerca de 300 metros de largura, além de outros prédios isolados. Dentro do complexo tinha até hospital para atender aos alunos através de um trabalho preventivo. Reunimo-nos no auditório, onde o diretor explicou o funcionamento da escola. Foi inaugurada em 31 de janeiro de 1974, financiada pela extinta União Soviética, no governo Brejniev, e atende hoje a 4 mil e quinhentos alunos. Cada classe tem, no máximo, 30 alunos e a carga horária semanal dos professores é de 20 horas, sem contar as atividades extra-classe, que somam cerca de 40 horas semanais. Os professores são selecionados através de exames teóricos e práticos. Para ingresso é necessário que os alunos prestem um exame de seleção, mas a reprovação é mínima. Os alunos permanecem na escola por um período de 3 anos, aproximadamente dos 14/15 aos 17/18 anos, e os mesmos professores acompanham os alunos neste período. Os estudos estão vinculados ao trabalho e todos os alunos têm que trabalhar na escola. O sistema é de internato e os alunos vão para suas casas nos fins de semana em condução própria da escola. Dos que entram, 90% se formam e, destes, 95% entram na Universidade. Todas as províncias de Cuba têm uma escola como esta. A escola é administrada como todas as escolas, de qualquer nível, de Cuba. Além dos diretores, participam da administração os alunos e o sindicato de trabalhadores. A participação dos pais é ativa, através de reuniões freqüentes.
Perguntei aos alunos se eles eram obrigados a exercer as atividades da escola. Um deles me respondeu que "não se trata de obrigar, mas de convencer". Perguntei também sobre a liberdade de credos religiosos e uma aluna me respondeu que era evangélica e que todos tinham o direito de seguir a religião que bem entendesse. Esta aluna, de cerca de 16 anos, me informou também que em Cuba não existem restrições a credos religiosos e que um pastor, Raul Soares, participava da Administração do governo cubano, na Assembléia Nacional.
Interessante registrar é que fomos recebidos por uma apresentação onde cantaram a tradicional Guantanamera e um aluno recitou uma linda poesia ("Nocturno", da poetisa chilena Gabriela Mistral). Uma das professoras, não sei de que país, deu de presente um grande saco de balas, já aberto, para este aluno. Imediatamente ele chamou uma outra pessoa da escola, colocou de volta para dentro as balas que estavam caindo e entregou o saco, sem tirar nenhuma. Perguntei porque ele tinha feito isso. E ele respondeu: "- Aqui na escola tudo é dividido."
Depois passamos por três salas distintas que estavam montadas para a visita. Visita demorada e pouco produtiva, já que poderíamos ter aprendido o que aprendemos lá no próprio ambiente do Congresso, sem que fosse necessário o deslocamento demorado.
Voltando para o Palácio das Convenções encontrei Tatiana, Sami, Josi e Monica. Almocei com elas mas logo nos dispersamos, já que cada um iria cumprir uma atividade diferente. Eu assisti a uma mesa redonda sobre questões ambientais. Novamente achei que as pessoas não se aprofundam nas questões. Teorias não faltaram, mas ninguém lembrou, por exemplo, que no ambiente do Congresso, ali mesmo onde estávamos, quase não tinha lata de lixo.
Fui assistir a esta Mesa Redonda porque conheci nos corredores do Palácio das Convenções, as alunas da Universidade Einstein, de Limeira, São Paulo, Rosangela Bacillar e Silvana Maria da Silva. Elas trabalham na Escola Mamãe Coruja e lá fazem um trabalho de conscientização das crianças para a velha questão do lixo. Elas foram traduzidas por Jesus Wilker Pulido Córdova, de Havana, Cuba, que acabou ficando meu amigo e me fez várias perguntas sobre o Brasil, em português.
Saí de lá antes de terminadas as discussões já que, para chegar na palestra seguinte, tinha que pegar um ônibus. Fui para o prédio da PABEXPO para assistir Sabrina e Amelinha e depois Camila apresentarem seus trabalhos. Sabrina e Amelinha apresentaram seus trabalhos, realizados através da PUC, sob a coordenação de Sonia Kramer, referente a formação cultural dos professores. Sabrina esteve perfeita. Pediu desculpas por falar em português, mas falou pausadamente e esforçando-se na dicção. Aparentemente ela estava tranqüila, mas depois contou-me que suas bochechas estavam duras de tanto nervoso. Coitada... Mal sabe ela que com os professores formados há muito tempo e já com vasta experiência também é assim. Mas apesar de seu nervosismo, nota 10. Amelinha apenas leu depoimentos de alguns alunos de Pedagogia. Ao contrário de Sabrina, apesar de sua bela figura, demonstrou estar muito nervosa. Não reparou nem mesmo quando o microfone se deslocou no pedestal, apontando para baixo. Não sei se os de língua espanhola puderam compreendê-la muito bem.
Depois Camila apresentou seu trabalho de arte-educação na Rocinha. De chapeuzinho na cabeça, falou em português, colocando algumas palavras em espanhol e, de vez em quando, perguntava à platéia: "Estan entendiendo?". Terminada a mesa-redonda Camila fez um comentário: "Estou achando tudo isso uma palhaçada". Concordo com ela. Em todas as mesas redondas de que participei só consegui ouvir os velhos chavões típicos de quem está trabalhando em educação há 30 anos. Ninguém ousa; ninguém propõe nada de novo; ninguém revoluciona e ninguém corre o risco de ser diferente. É como se Paulo Freire e José Martí, de quem eles tanto falam, não tivessem existido. Até mesmo os temas são os mesmos de sempre: formação de valores nas crianças, formação permanente do professor, importância da integração da família e da comunidade no processo educativo, educação ambiental, qualidade e eficácia para melhoria da educação e agora, já que esta prática virou moda (apesar de já existir há mais de um século!), educação a distância, entre outros assuntos que já estamos cansados de ouvir. Ninguém contesta nada; ninguém denuncia práticas pedagógicas visivelmente execráveis; ninguém tenta desvelar os artifícios que caracterizam a educação como uma prática de injustiça (um jogo de cartas marcadas, que sabemos de antemão quem serão os perdedores); ninguém fala da invasão no planejamento da educação de áreas alienígenas ao conhecimento pedagógico, administrando a educação como se fossem profundos conhecedores e, ainda, ninguém revela a incompetência que nos circunda. Pobres de nós, pedagogos e, mais ainda, pobres dos alunos e estudantes de todas as escolas do mundo.
Terminada a palestra das meninas resolvi voltar ao hotel e descansar. Hoje não foi um dia bom para mim. Tive a sensação de que estava sendo logrado e que o sacrifício financeiro poderia não estar valendo a pena. O dia de hoje me fez lembrar a terrível depressão psicológica que tive quando fui aos Estados Unidos e que me fez adiantar a viagem de volta ao Brasil. Aliás, por falar em Estados Unidos, talvez o dia tenha valido a pena porque soube, na Escola Lênin, que os americanos efetivaram vários ataques bacteriológicos contra Cuba. Eles introduziram vírus, fungos e bactérias nas plantações e nas criações cubanas para destruí-las. Na Escola Lênin, quase todo o apiário foi destruído. Infelizmente o filme da minha máquina fotográfica acabou exatamente quando estava vendo os estragos provocados nos apiários. Mas vejam que absurdo! Quando os americanos (entenda-se governo americano) fazem isso não estão mais combatendo uma questão ideológica, mas tentando assassinar uma nação, entendendo-se como nação um conjunto de seres humanos ocupando um mesmo território.
Consegui falar com Carlos e aceitei jantar em sua casa. Só que depois que desliguei o telefone me lembrei do racionamento e me deu um arrependimento muito grande em ter aceitado o convite. Comida para eles não é como nos países capitalistas. Vamos ver. Amanhã eu resolvo este problema. Combinei também que na sexta-feira vou conhecer a escola de pesca onde ele trabalha.
Dia 8 de fevereiro. - quinta-feira
Como na noite anterior fiquei estudando até tarde acordei quando já eram 8 e meia. Mas não faz mal. Hoje só vou ao Palácio das Convenções para confirmar minha passagem de volta para o Brasil na agência da Aviación Cubana. Tomei um ótimo café da manhã e passei toda manhã no Centro de Información para la Educación, que é bem perto do hotel. Recolhi lá muitos dados importantes, mas ainda me faltam as metodologias. Vamos ver se consigo no museu da alfabetização e educação. Neste Centro fui recebido pela Sra. Ismany, que me atendeu com toda a simpatia e me forneceu todos os dados de que precisava. Tirei algumas fotocópias sobre a estrutura do ensino em Cuba, anotei dados sobre a história da educação e saí. Na saída vi que ela colocou uma dedicatória na fotocópia que tirei: "Exito en su vida personal y laboral. Ismany. Cuba 8/2/01". Esta é a percepção que vou levar do povo cubano: sempre simpáticos, atenciosos e sensíveis.
Esqueci de anotar que no café da manhã encontrei-me com Sandra e Celina. Coincidentemente já conhecia Sandra, que é amiga da Soninha, moradora no meu prédio. Eu a conheci quando nos encontramos no Cosí Caffé para ouvir Bion tocar e cantar músicas bonitas. Elas me disseram que, conversando com as pessoas cubanas nas ruas, perceberam o alto grau de insatisfação do povo em geral. Será que estamos visitando a mesma cidade? A minha impressão é diametralmente oposta. Se eles têm todas as necessidades básicas satisfeitas, para que mais? Hoje mesmo, deslocando-me para o Museo de la Alfabetizacion, conversando com o motorista de táxi ele me dizia: "Sapato e roupa se usa qualquer coisa. Mas comida todos tem que ter. E isso nós temos." Bem, no fundo, no fundo, tudo não passa de visão ideológica. Resta saber qual de nós dois estamos nos deixando enganar por nossas ideologias. Uma outra pessoa, a Léa, de Belém do Pará, no Brasil, conversando comigo na lanchonete do Palácio das Convenções disse-me a mesma coisa. Não lhe respondi nada, mas, ato contínuo, chamei o rapaz cubano que nos servia e lhe perguntei, diante de Léa: "Você gostaria de deixar Cuba?" E ele nos respondeu: "Para visitar outros países sim, mas voltaria a Cuba. Eu quero morar em Cuba. Não me falta nada." Essa é a característica que tenho percebido no povo cubano. Todos dizem que a situação piorou muito depois que a União Soviética deixou Cuba, mas o espírito da Revolução está presente em quase todos os corações cubanos.
Esqueci ainda de dizer que, quando estava no Centro de Información para la Educación, contei para a Sra. Ismany minha vista e minha conversa com D. Dolores, mãe de Jesus, e seus olhos encheram-se de lágrimas. Mas, voltando aos que acham que o povo cubano está revoltado com o sistema, não é democrático obrigar aos que não querem ver, a ver. E eu prefiro ficar com minha percepção: é mais bonita e mais sensível. Perceber um povo feliz é sempre melhor do que ver um povo oprimido. De mais a mais, saber que eles só comem um pão por dia porque sabem que se comerem dois vai faltar para alguém, dá um toque extremamente poético e humanista às pessoas esmagadas pelas patas do imperialismo americano. O que eu não gosto é de saber que no sistema brasileiro o índice de mortalidade infantil na cidade do Rio de Janeiro é de 20 mortes de crianças para cada mil nascimentos. Provavelmente, sem que eu me predisponha a perceber, meus excessos contribuem significativamente para que isto ocorra. Só que isto ocorre com os filhos dos outros, que estão longe do meu olhar, da minha percepção e do meu sentimento. Em Cuba, ouvi isso várias vezes, a preocupação é com o coletivo e não com o individual.
Depois do Centro de Información para la Educación fui andando até a Casa de Las Americas procurar Jesus para deixar um sabonete para sua mãe. Não era exatamente lá que ele trabalhava e sim na biblioteca desta instituição que ficava quatro quarteirões depois, mas na mesma rua. Andei mais um pouco e cheguei lá. Como ele estava para chegar aproveitei para adiantar este diário. Ele não demorou muito e entreguei o sabonete para sua mãe. Aproveitei para agradecê-lo e pedi para agradecer a sua mãe por tudo que me permitiram aprender. Anotei seu endereço e saí para pegar um táxi para o Palácio das Convenções, onde iria somente para confirmar minha passagem de volta para o Brasil no balcão da Aviación Cubana. Foi lá que conheci a paraense Léa que dizia que os cubanos odiavam tudo ao seu redor. Na fila da companhia aérea também conheci Ana, uma simpática professora da República Dominicana, que fez com que o tempo gasto na fila passasse mais rápido.
Confirmada a passagem de volta saí correndo para ir para ao Museo Nacional de la Campaña de Alfabetización. Este lugar é de deixar qualquer educador sério arrepiado. Um lugar extremamente emocionante. Lá tivemos uma exposição ministrada por uma professora da faculdade de Pedagogia, que não anotei seu nome, sobre como se realizou o processo de alfabetização de todos em apenas um ano. A Campanha de Alfabetização iniciou-se em 28 de janeiro e foi até 22 de dezembro do ano de 1961. Alfabetizou-se num primeiro nível os "alfabetizáveis", crianças e adultos que não tinham maiores problemas para serem alfabetizados. Ficaram fora deste primeiro passo os haitianos, os dominicanos (que tinham por língua-pátria o francês), os deficientes de quaisquer tipo etc.. A estes deram o nome de analfabetos residuais e foram alfabetizados em outro momento, dentro deste ano.
O método de alfabetização utilizado nesta Campanha foi o global silábico, muito semelhante ao do nosso conhecido Paulo Freire, baseado em palavras chaves para serem decodificadas e análise de figuras para discussão. Foram utilizados dois manuais: um manual de orientação para alfabetizadores, os professores, e um manual de alfabetização para os analfabetos, os alunos. Uma característica marcante foi que os que aprendiam a ler tornavam-se professores dos que ainda não tinham aprendido. O lema da Campanha foi: "Quem sabe ensina; quem não sabe aprende." Como curiosidade, 52% dos alfabetizadores eram mulheres e o mais jovem, o menino Elián Manuel Gonzales (não confundir com o menino Elián, seqüestrado pelos americanos recentemente), com apenas 7 anos de idade. Este menino, agora um senhor, está vivo até hoje e mora no interior de Cuba.
Na verdade o sistema da Campanha era o mais simples possível. E, coincidentemente, é o que venho pregando desde que trabalhei no CEUNES, da UFES, em São Mateus, norte do Estado do Espírito Santo. O sistema funcionou mesmo a partir do momento em que os professores habilitavam outros para serem alfabetizadores e isso se tornava uma reação em cadeia. Já escrevi sobre isso em vários trabalhos e está registrado em minha home page, mas vou repetir mais uma vez:
Repetirei sempre, até que realizem: imaginem o dia em que os alunos de Pedagogia, ao invés de estarem estudando teorias sobre alfabetização, estiverem alfabetizando em campo as comunidades com alto índice de analfabetismo; imaginem todas as faculdades de Pedagogia do Brasil agindo integradamente para colocar seus alunos a serviço do fim do analfabetismo em cada região do país. Parece tão fácil realizar tal tarefa, independentemente do tamanho do Brasil. Mas para se concretizar isto é preciso vontade política. É preciso que o governo esteja realmente interessado em erradicar definitivamente o analfabetismo. Um dos fatores que contribuiu para o sucesso da Campanha em Cuba foi que toda a população foi mobilizada para tal pelo governo. Os professores tinham um uniforme caracterizado por uma bota, uma boina e um lampião para que pudessem ensinar à noite. Quando alguém com estas características chegava a algum lugar era sempre bem recebido.
No final da apresentação a professora abriu o debate para as perguntas. Muitas perguntas foram feitas. Lá pelas tantas, um mexicano pediu a palavra e disse que estava sentindo que o que se tentava passar era que Cuba só mostrava as suas qualidades, mas esquecia que os outros países também tinham muito o que ensinar. Mas que colocação reacionária e infeliz! Logo um mexicano e com um anel de ouro cravejado de brilhantes no dedo. O que o México tem para nos ensinar a respeito de educação? Sua colocação foi imediatamente respondida pelo Professor Mario Rodrigues Domingues, um senhor simpático que trabalha no Ministério da Educação de Cuba. Ele disse que a intenção era apenas de apresentar uma experiência que deu certo. Não havia obrigação de ninguém aplicar em seu país de origem. Como meu espanhol é sofrível, calei minha boca para não me atrapalhar com as palavras, mas fiquei engasgado. Fui resgatado por uma professora brasileira (felizmente!), a Professora Maria Salete da Costa, que trabalha na Alfabetização Solidária, em São Paulo, que lembrou ao jovem mexicano que no Brasil temos um índice alarmante de 20% de analfabetos e que nossas experiências na erradicação do analfabetismo foram todas fracassadas. Disse ainda que este fenômeno era constatado em todos os países da América Latina. Foi calorosamente aplaudida.
Saímos de lá para ir a Tribuna Antimperialista "José Martí", onde iria haver uma manifestação. No ônibus que nos levou conheci Yamiris Deus Monte e Thais Sanches Alvarez, duas cubanas adoráveis que aprendiam o português como opção de estudo extra e serviam de intérpretes no Congresso Pedagogia 2001, apesar de serem enfermeiras em Havana. Dei meu dicionário Português-Espanhol-Português para Yamiris e fiquei de enviar uma gramática e livros para elas exercitarem a língua portuguesa.
Como Havana Velha ficava próximo da Tribuna Antimperialista, resolvi dar um pulo lá para entrar em contato com Carlos, já que tinha combinado jantar na casa dele. Felizmente eu liguei e ele ainda não havia chegado. Com isso me desobriguei de ir comer em sua casa e dar-lhe um desfalque na comida racionada para sua família. Fui e voltei para Havana Velha numa lambretinha em forma de coco. É um transporte muito ágil, só que com a maresia vinda do mar acabei por ficar imundo.
A Tribuna Antimperialista fica em frente a uma representação americana que não soube o que ela faz lá. É lá que se realizam todas as manifestações de protesto contra os Estados Unidos e foi lá que foi realizado o protesto contra o seqüestro do menino Elián. Por falar nisso o menino voltou para Cuba e não houve nenhum ato em sua chegada para não se correr o risco de prejudicá-lo psicologicamente mais do que já foi.
Achei a apresentação da Tribuna Antimperialista cansativa e, além do mais, ventava muito e fazia frio. A maresia, soprada do mar em frente, deixou, por várias vezes, meu óculos embaçado. Valeu somente para ver a alegria contagiante do povo cubano e o festival de bandeirinhas cubanas sendo agitadas ao mesmo tempo por componentes de todos os países.
Quando terminou procurei o ônibus oficial para me levar de volta ao hotel. O guia, no meio de uma confusão de 6 mil pessoas querendo encontrar seus ônibus, sugeriu, na maior "cara de pau", que eu fosse a pé. Apesar de ter achado um absurdo sua sugestão, já que, além de participante do Congresso, era estrangeiro, gostei da idéia. Por que não me misturar ao povo cubano? Perigo não teria, já que o índice de criminalidade em Cuba é próximo do zero. As ruas não são policiadas a não ser pelos guardas de trânsito (é o resultado de se investir em escolas ao invés de presídios... Como faz um certo país que conhecemos bem.).
No trajeto para o hotel descobri o sistema de ônibus metropolitano de Cuba. Funciona assim: nos pontos de ônibus não se formam filas. Quando alguém chega no ponto grita: "Ultimo!". Então alguém levanta o braço. O que chegou fica sabendo depois de quem ele entrará no ônibus. Chegando uma outra pessoa depois deste ela também gritará: "Ultimo!". Então o que chegou antes dele levantará o braço. Quando ele fica sabendo depois de quem ele entrará e quem entrará depois dele, ele poderá sair do ponto, já que os ônibus em Havana são muito demorados, para dar uma volta, tomar um sorvete ou fazer qualquer outra coisa porque ele já sabe quem entrará na sua frente e quem entrará depois dele. Se neste ponto passar mais de uma linha de ônibus, além de gritar "último", ele dirá também qual a linha que vai tomar. Outra coisa interessante: se o ônibus chegar ao ponto muito cheio só entrarão 5 pessoas. Perguntei porque isso. Um rapaz me respondeu: "Pode ser que no próximo ponto tenha mais pessoas para entrar". Outra característica é que os ônibus param em todos os pontos, mesmo que não tenha ninguém para subir ou para descer. Os ônibus não têm as nossas campainhas que avisam ao motorista que vamos descer.
Desci num ponto distante do hotel e andei mais um pouco até lá. Chegando fiz um lanche, já que estava morrendo de fome, e subi para o quarto para dormir. Quando abri a porta do quarto, que funciona a cartão magnético e este cartão também serve para fazer funcionar a eletricidade no quarto, percebi que tinha alguma coisa em cima da cama que, no escuro, parecia um pato. O que está fazendo este pato na minha cama? Será um atentado do "serviço secreto da KGB cubana"? Enfiei o cartão magnético no lugar apropriado e acendi a luz. Então percebi que o que estava em cima da cama era uma toalha enrolada, em forma de uma ave, com um bilhete ao lado, escrito numa letra bonita: "Estimado huesped. Espero que haya tenido una estancia feliz en Cuba. Le deseo para mañana un buen viaje. Salud. Su camarera, Aracelia." Deixei também um bilhete para ela, agradecendo sua atenção comigo. Não podia deixar de ter uma última noite em Cuba de forma diferente. Na polêmica sobre a felicidade do povo cubano, referida anteriormente neste Diário, acho que estou com a razão. Os cubanos são especiais. Gostaria de poder considerar Cuba como minha segunda pátria. Fui dormir sensibilizado, mais uma vez, e emocionado.
Dia 9 de fevereiro - sexta-feira
Último dia em Cuba. Acordei as 7 horas, arrumei a mala, tomei um banho e desci para tomar o café da manhã. Quando esperava o elevador para descer conheci finalmente a Aracelia, a camareira. Muito simpática, agradeci-lhe pessoalmente a gentileza que me dispensou. Ela me perguntou de onde vinha e eu respondi que era brasileiro. Isso rendeu uma longa conversa, que quase perco meu último café da manhã em Cuba. Mas com isso pude perceber a diferença entre uma camareira cubana e uma brasileira. Em primeiro lugar a conversa foi travada com olhos-nos-olhos; ela conversou comigo como todas as professoras cubanas com quem tive contato. Nenhuma postura de submissão; nada que a pudesse colocar numa situação maior ou menor do que a minha. Conversamos sobre a situação cubana, sobre a educação em Cuba, sobre o imperialismo americano e sobre a situação brasileira. "Se o Brasil não tomar cuidado vai ser engolido pelo processo de globalização", disse-me ela. Mas concluiu dizendo que éramos uma grande potência e tínhamos tudo para trabalhar a favor da libertação de nosso povo. Ela me falou que estudou até o 12o grau, o que equivale ao pré-universitário ou a idade de 17 anos, mas surgiu a oportunidade de trabalhar no hotel e estava bem neste trabalho, porque, além do salário, recebia algumas "propinas" (gorjetas, em espanhol) dos hóspedes do hotel. Deixei meu endereço com ela, para que, caso viesse ao Brasil com sua família, procurasse por mim.
No café comi e bebi tudo a que tinha direito. Não sabia se ia ter tempo para almoçar. O agente de turismo que me recebeu na chegada me avisou que deveria deixar as malas na portaria e que o ônibus para o aeroporto sairia as 4 e meia. Por via da dúvida estarei pronto as 3 horas. Achava que minha diária iria até o dia 9 e o dia 9 termina às 24 horas e não às 12 horas. Se o avião só sai à noite achava que teria direito de permanecer ainda no hotel e que minha diária venceria ao meio-dia do dia 10. Mas deixa estar. Para mim não vai fazer diferença, já que vou visitar a Escola de Pesca, com Carlos Valdívia, e chegarei praticamente na hora de pegar o ônibus para o aeroporto. Só não vou tomar um banho, antes da viagem.
Fiquei impressionado com a quantidade de turistas alemães em Cuba. Na Tribuna Antimperialista "José Martí" encontrei-me com uma brasileira, Valéria, casada com um grego, Theo, que moram na Alemanha. Ela me explicou que o filme Buena Vista Social Club, de Win Wenders, fez um enorme sucesso por lá e isso os estimulou a viajar para Cuba. Aliás o casal é encantador. Ela, professora de línguas, era mais simpática, já que podia falar em espanhol, português, inglês e alemão. Como ele só falava alemão e grego aparecia menos, mas também muito simpático. Tirei uma foto dela para enviar. A mãe de Valéria mora no Leblon, quase minha vizinha, no Rio de Janeiro.
Esperando Carlos assisti a uma cena interessante na escola em frente ao hotel: dois garotos jogavam bola no pátio da escola, quando a bola caiu na rua. Um dos garotos saiu para pegar a bola. Quando ele estava do outro lado da rua, pegando a bola, uma outra menina, um pouco mais velha, chegou no portão e gritou: "Que haces?". O menino mostrou a bola e ela esperou o menino voltar para fechar o portão (o portão não tinha trancas ou cadeados). Depois ela voltou a brincar com as outras meninas daquela brincadeira de uma ficar de frente para outra batendo as mãos ao ritmo compassado de uma música cantada. Aqui no Brasil, pelo menos no meu tempo de criança, a música era o "Pirulito que bate, bate. Pirulito que já bateu. Quem gosta de mim é ela, quem gosta dela sou eu." Como já foi dito, a conduta desta aluna é porque em Cuba as alunas que querem ser professoras, desde cedo, ajudam as professoras.
Finalmente chegou Carlos Valdívia. Que alegria em vê-lo. Ele também chegou feliz e nos demos um forte abraço, como velhos amigos que há tempos não se viam. Ele me levou até o carro que estava próximo do hotel e partimos para a Escola de Pesca. A estrada, paradoxalmente, era ótima, sem buracos, com acostamentos e pouco movimentada. No caminho passamos pela Escuela Latino Americana de Ciencias Medicas, onde estudam muitos brasileiros. Um prédio enorme que, a distância, parecia bem conservada.
Depois de cerca de 1 hora de viagem chegamos na escola que, na verdade, chama-se Instituto Maritimo Pesquero "André Gonzales Lines". André Gonzales é um herói da Revolução, oficial da Marinha cubana, que, após a vitória de Fidel Castro e seus companheiros, lutou pela abertura de uma escola que preparasse os homens para a pesca, já que, até então, era artesanal. Não chegou a ver seu sonho posto em prática, uma vez que desapareceu em alto mar quando seu barco foi afundado pelos americanos, em 1961.
O Instituto foi inaugurado em 1962 e, atualmente, atende a 300 alunos, sendo que a maioria internos, de segunda a sexta-feira, no horário de 8 horas e 10 minutos (manhã) as 4 horas e 25 minutos (tarde), com intervalo para almoço. As férias são em dezembro (dez dias no período de festas de fim de ano) e julho e agosto. Nos fins de semana a maioria dos alunos vão para suas casas e os que moram distantes permanecem na escola.
São 4 os departamentos docentes: Biologia de Pesca, Instalações Motoras, Navegação e Formação Geral (idiomas, Educação Física, História, Geografia etc.). A carga horária se divide em 70% de conteúdos técnicos e 30% para conteúdos gerais. Na parte de conteúdos técnicos a escola forma Mestres (pilotos), Maquinistas (especialistas em motor de barco) e Pescadores. Existe uma ênfase na questão ecológica onde os alunos aprendem o tempo de reprodução, o tamanho do peixe, os perigos de extinção das espécies etc.. Nos períodos em que não podem pescar os pescadores voltam para o Instituto para se aperfeiçoar e continuam a receber seus salários. No momento em que eu estava lá o Instituto estava recebendo pescadores de lagostas, já que elas (as lagostas) estavam agora entrando no período de reprodução.
Para estes 300 alunos o Instituto tem 40 professores, o que dá uma média de 8 alunos, aproximadamente, por professor. Mas as turmas nunca passam de 20 alunos por professor. Em toda Cuba existem duas escolas como esta: uma na parte ocidental outra na parte oriental (a que visitei).
Este Instituto Pesquero é administrado pelo Ministerio de la Industria Pesquera, mas a orientação pedagógica e metodológica é exercida pelo Ministério da Educação. Soube que todos os Ministérios cubanos têm seus institutos profissionalizantes e de aperfeiçoamento.
Os estudos são interrompidos para o Serviço Militar obrigatório para os homens e voluntário para as mulheres. O Serviço Militar também tem sua parte de formação profissional para as especializações militares. O cumprimento do serviço tem a duração de dois anos e é realizado após a conclusão do 12o grau (18 anos aproximadamente). Se quiserem entrar na Universidade assinam um compromisso (que chamam de Ordem 18) para só cumprir um ano e voltar caso não concretize seus objetivos.
Almocei no Instituto, com Carlos Valdívia, a equipe da Escola e com o Diretor que havia chegado de uma reunião, e voltei para o meu hotel, onde um ônibus me levaria para o aeroporto.
Esperei um pouco e logo o ônibus estava lá para o transporte. Despedi-me do agente de viagem que estava lá para os desembaraços finais e entrei no ônibus, onde já estava a Tatiana e todos que ficaram no seu hotel. Sentei-me ao lado da Tatiana e, em silêncio, fui observando a paisagem até o aeroporto. Senti uma certa tristeza em estar indo embora. Estava sentindo que poderia ficar mais um pouco e aprender um pouco mais. Mas na segunda-feira deveria voltar ao trabalho. Quem sabe, então, não poderei programar uma volta?
Ainda há pouco estava no El Bodeguita del Médio tomando um mojitos. Neste bar Hemingway gostava também de beber esta mesma bebida. Agora estou no avião de volta ao Brasil e Tatiana dorme, cansada, na poltrona ao meu lado. Penso que viajo então para me reencontrar com meus 20% de analfabetos, com minha violência cotidiana, com 20 crianças morrendo em cada mil que nascem na cidade do Rio de Janeiro, com minhas crianças que brincam nos esgotos a céu aberto, quando têm onde morar, com meu capitalismo selvagem, com meus políticos corruptos e com toda sorte de corrupção, com os presídios lotados, com a falta de vagas e de professores nas escolas, com a minha falta mesmo de escolas e com minha deliciosa democracia, onde posso sonhar em ser um feliz proprietário de um veleiro para me aventurar na liberdade do mar aberto, sem me preocupar com isso tudo e com os outros.
As luzes do avião se apagaram quase que completamente, deixando no ar uma sonolenta penumbra. Vou dormir, também cansado, com a sensação de que pesquei um grande peixe, como n'O Velho e o Mar. Tomara que Hemingway me inspire e eu sonhe, com os olhos lacrimejantes, "magoados pelas areias brancas da praia dourada, com os leões... que brincam na areia como gatinhos."
Muchas gracias, las personas cubanas, para todo.
Yo espero repasarlos pronto.
Para referência desta página:
BELLO, José Luiz de Paiva. Diário de Cuba. Pedagogia em Foco, Havana/Rio de Janeiro, 2001.
Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/cub01.htm>. Acesso em: dia mes ano.