EDUCAÇÃO EM CUBA


Escolas Feias, Escolas Boas?(*)


Claudio de Moura Castro
Rio de Janeiro, 1999.     

 

RESUMO



        Muito se discutia e se duvidava da qualidade das escolas cubanas. A pesquisa da OREALC/UNESCO resolveu tal assunto. Cuba tem excelentes escolas, melhores do que nos outros países latino-americanos. Portanto, a pergunta que substitui é por que a s escolas são boas?
        Baseado em visitas rápidas e superficiais demais para que se possam considerar tais resultados mais do que especulação, identificamos alguns fatores que parecem explicar o desempenho superior de Cuba.
        O ensino é sério e quase convencional. Certamente, não é pela presença de inovações ou novas soluções milagrosas que se obtém qualidade. As instalações são horríveis. As bibliotecas são desatualizadas e os laboratórios velhos (mas usados com freqüência).
        No entanto, a jornada escolar é enorme, passam-se muitas horas na escola e o calendário é longo. Em segundo lugar, os professores, presentes 40 horas por semana, são muito dedicados e bem preparados. Não é que os professores ganhem muito, mas ganham pelo menos tanto quanto engenheiros e médicos. E, em uma economia com poucas alternativas, o magistério acaba sendo uma ocupação muito central valorizada.
        Que lições os países latino-americanos poderiam tirar da experiência cubana? Difícil reproduzir a enorme carga horária e competitividade da profissão diante de outras exigindo mesmo nível de educação. Mas há várias outras lições mais viáveis, discutidas pelo ensaio.

        Palavras-chave: Qualidade da educação - Professores - Salários de professor - Jornada escolar - Cuba - América Latina - Inovações.

Escolas Feias, Escolas Boas?
        Ao subir as escadas da escola primária, cresceu nossa surpresa. Que mensagem os funcionários do Ministério da Educação estavam tentando nos passar? Por que diabos escolheram uma escola tão maltratada para ser visitada? O edifício é de estilo "moderno" e lembra a arquitetura dos anos sessenta. Mas se foi construído de forma lambona, a manutenção foi pior ainda. Melhor dizendo, nunca ocorreu. Os corredores estão imundos, as salas de aula quase em ruínas e o escritório do diretor em mau estado. Nem os professores e nem o diretor tinham um aspecto bem cuidado ou estavam bem vestidos.
        A escola secundária reflete um passado mais majestoso. Tinha sido uma escola de freiras, servindo à aristocracia local. A construção é espaçosa, os tetos são altos e, realmente, o prédio oferece tudo que uma escola séria deveria ter. Exceto Manutenção. O chão perdeu todos os vestígios de cera. As carteiras e cadeiras estão em um estado lamentável, quebradas, arranhadas e implorando reparos. As janelas das salas de aula há muito tempo não existem, quando chove, também chove dentro das salas de aula. Os laboratórios realmente existem, para a nossa surpresa. O laboratório de física é uma coleção de instrumentos da Polônia, Checoslováquia, Hungria, Rússia e Espanha. Estão operacionais, mas não causam muito entusiasmo. A biblioteca exibe, na sua maioria, livros velhos, alguns muito velhos. Tem também uma inesperada coleção de livros de literatura clássica brasileira, mas a da Rússia é maior ainda. De livros novos, somente algumas publicações da UNESCO.
        No geral, as escolas não estavam particularmente limpas, estão duramente maltratadas e não vêm recebendo nenhuma manutenção há muito tempo. Estes são os últimos lugares onde podíamos esperar uma boa educação. Faz sentido, má manutenção anda lado a lado com má instrução. Como uma educação séria pode acontecer nesses lugares tão desleixados?
        Entretanto, a dedução acima está frontalmente errada. Estas são as escolas cubanas que obtiveram pontuações muito acima das outras de todos os países da América Latina, na pesquisa da OREAL/UNESCO em dez países(1). Realmente, enquanto Brasil, Argentina e Chile empataram em segundo lugar, Cuba foi o país vencedor, por uma sólida margem. Em outras palavras, gostemos ou não, a educação de Cuba é a melhor da América Latina.
        As duas escolas foram selecionadas, de última hora, para a nossa visita, porque eram as mais perto de onde nós estávamos na hora do almoço. Tudo indica serem amostras representativas das escolas cubanas. De acordo com os próprios professores, nem melhores, nem piores.
        Como é que os cubanos conseguem ter a melhor educação latino-americana? Nossa visita indicou que não há segredos, mas a simples aplicação de bom senso e, sobretudo, muita dedicação.

A Escola Primária (1ª a 6ª série)
        Mais ou menos a metade de aproximadamente um milhão de crianças com até cinco anos de idade freqüenta algum tipo de pré-escola. Trata-se de uma taxa muito alta, sob qualquer ponto de vista. Segundo os professores entrevistados, as pré-escolas enfatizam sobretudo o brincar. No entanto, os alunos aprendem também o alfabeto. Alguns aprendem a ler, sem pressões ou a presença de um currículo para ser seguido rigidamente.
        A escola primária tem 5 ou 6 horas de aula todos os dias. Quando incluímos os esportes, a presença na escola chega perto das 8 horas, em ano escolar que dura aproximadamente 200 dias. Este é o segredo número um da educação cubana: muitas horas nas escola. Aqui está em vigência a teoria simples de que quanto mais se estuda, mais se aprende. Ao que parece, o total de horas escolares por dia é muito maior que em qualquer outro país da América Latina.
        Há 20 ou 30 alunos por turma. Este é o padrão para as escolas ocidentais (contrastado com os 40 alunos por turma da Coréia e Japão).
        A escola visitada perde não mais que 1% de seus alunos nos primeiros seis anos. A evasão é residual e tem a ver com a mudança dos pais para outro lugar. Reprovações e repetência de ano simplesmente não acontecem (as estatísticas nacionais mostram proporções de 1,9%, 2,8% e 1,8% para as escolas primárias, médias e secundárias, respectivamente). No final do 4° ano, há um teste pelo qual todos os alunos tem que passar. Pelo que os professores dizem, todos que apresentam resultados normais em testes de Q.I. não tem nenhuma razão para falhar. Se o interesse dos alunos está diminuindo(ou se são preguiçosos, uma expressão de que os pedagogos não gostam muito), os professores procurarão alguma coisa que lhes interesse. As aulas estão sintonizadas com as necessidades individuais dos alunos. Mas além disso, os professores alegam que há uma forte pressão social para fazer as coisas bem feitas na escola, já que isso é o orgulho nacional, uma das áreas em que Cuba tem se apresentado melhor. De fato, através de conversas aqui e acolá, dá para acreditar na força da pressão social por educação em Cuba.
        Ao terminar o primário, os alunos são automaticamente matriculados na escola secundária mais próxima. É dado por certo que todos os alunos passarão para a escola secundária.
        Tentamos sondar os professores e os diretores sobre as modas pedagógicas. Que tal Vigotsky, perguntamos, para ver a que grau o grande guru da América Latina havia alcançado a ilha? De fato, havia desembarcado. Mas os professores não estavam cativados ou hipnotizados por ele, no mesmo paroxismo observado no território continental. Tais modas pedagógicas não haviam eletrizado os professores com que conversamos. Entenderam Vigotsky dizer aos professores que tentem fazer os alunos descobrir o mundo, que o explorem, que tentem encontrar suas próprias soluções para os problemas. Mas não virou religião.
        Os professores indicaram que a "leitura fluente" é o maior objetivo nos anos iniciais. Querem assegura que as crianças possam dominar essa habilidade que é a mais central da educação. Nada a discordar.

A Escola Média (7ª a 9ª série)
        A escola média é organizada com um único formato, com todos os alunos estudando as mesmas onze matérias. Esse número excessivo de disciplinas é claramente antiquado, já que a nova tendência mundial é oferecer menos disciplinas com mais profundidade.
        Esta tendência parece ser levada em conta no novo programa experimental que está sendo experimentado em 280 escolas médias cubanas. Nessas escolas, Espanhol, Matemática e História recebem muito mais atenção. As disciplinas restantes se tornam "subordinadas" às três. Pelo que entendemos, irão apoiar as três principais disciplinas, por via de uma cooperação interdisciplinar.
        Foi muito instrutivo ver como as aulas de ciências são ministradas. Os alunos tem três horas de Física por semana e boa parte desse tempo é gasto no laboratório. Os alunos fazem experiências, utilizando equipamentos modestos. Por exemplo, aprendem a Lei de Ohm conectando uma fonte de força a um amperímetro e uma lâmpada As medidas dos alunos devem confirmar o que a fórmula matemática teria previsto.
        Todos os alunos tem duas horas de informática por semana. A terrível pobreza que se manifesta no mau estado de reparação dos edifícios mostra sua cara no laboratório de informática. Há meia dúzia de computadores. Quatro são MSX, uma tentativa falida da Microsoft para criar um sistema operacional para computadores escolares ou caseiros. Seu fracasso e abandono aconteceu em meados dos oitenta. Os computadores que vimos são programados por gravadores de fita e usam televisores velhos como monitores. Os outros dois computadores são os primeiros modelos MS-DOS. Não há impressoras operacionais. Os alunos aprendem a trabalhar no DOS e no WordStar. Não há nenhum esforço para ensinar a usar os dez dedos no teclado. Na realidade, os rapazes acham que datilografia é uma atividade feminina. No geral, os esforços com a educação informática são plenamente frustrados pelas deficiências de hardware.
        Foi curioso ver o termo "aprendizagem frontal" sendo usado. Entendo que foi E. Schiefelbein quem o fez popular. E o termo foi igualmente usado em um tom crítico. O professor de Física afirmou que alternava aprendizado frontal com experimentos de laboratório.
        Espera-se que todos os alunos tomem parta na "educação para o trabalho". Isso soa como uma relíquia da influência soviética, ou, talvez uma relíquia ainda mais velha dos "trabalho manuais" da educação ocidental. Todos os alunos, homens e mulheres, cursam um ano de desenho. No ano seguinte, há um pouco de talha em madeira, usando os modelos desenhados no primeiro ano. Este curso é também para ambos os sexos. No terceiro ano, os garotos vão trabalhar com madeira e as moças para a costura. Na realidade, as escolas russas de hoje já avançaram muito mais, tendo uma variedade muito maior de atividades e menos delimitação de gênero nas opções.
        O dia escolar é ainda mais longo que no primário. Os alunos chegam na escola às 7:30, almoçam entre 12:30 e 14:00, e saem da escola às 17:30. No geral, oito horas e meia na escola, dez meses por ano. As tardes são menos acadêmicas, com esportes, visitas ou outras atividades mais leves. Os estudantes devem passar mais ou menos uma hora adicional em casa fazendo pesquisas e projetos especiais. Isto chega perto das dez horas diárias de educação, durante um longo ano escolar.
        A nota média dos alunos no final do 9° ano tem um papel forte na determinação do tipo de educação secundaria que eles cursarão. Notas altas significam um acesso mais fácil às carreiras pré-universitárias, as mais desejáveis para pais ambiciosos. Aqueles que tem notas mais baixas serão matriculados em algum dos vários cursos técnicos, uma coisa que nem todos os pais gostam, mas parece que não lhes resta muito a fazer.

Escolas como Instituições Totais
        Os cubanos seguem a tradição russa de fazer das escolas instituições totais. As escolas exercem muitas funções, incluindo educação, saúde e lazer. A educação cívica recebe muita atenção. É curioso notar que o "anti-imperialismo" é listado como um dos valores cívicos a ser desenvolvido pelas escolas.
        Há um médico e uma enfermeira responsáveis pela escola. Os alunos tem a sua saúde geral checada a cada semestre e, a cada semana, escovam os dentes com flúor. Também nessa época verificam se tem piolho. Altura e peso são periodicamente medidos, para assegurar que os alunos estão bem nutridos e saudáveis. As vacinações são igualmente feitas na escola.
        O almoço oferecido pela escola parece ser objeto de muita preocupação, para assegurar que o menu esteja nutritivamente balanceado. Usam muito os derivados de soja, para equilibrar o conteúdo de proteína. A escola recebe comida do governo e a prepara de acordo com um menu semanal. A presença de leite e arroz é cuidadosamente balanceada para assegurar uma nutrição apropriada(2). Obviamente, o almoço é grátis.
        A cada ano os alunos recebem um conjunto grátis de livros, que devem ser retomados no final das aulas. Os professores fazem uma estatística aproximada de quatro anos de vida útil para os livros. No princípio, os livros vinham da Rússia. Atualmente, Espanha e México são os principais fornecedores. É interessante contrastar os altos gastos na compra de livros, com extremo estado de deterioração em que se encontram os prédios e equipamentos. Em outros países, a maioria das administrações escolares presta mais atenção aos edifícios que os livros.
        No começo das férias, os pais são convocados para uma reunião com os professores. A presença dos pais é considerada importante para assegurar que os alunos não faltem às aulas. Qualquer estudante que falte mais que dois dias provocará uma visita a sua casa.
        Os professores alegam que as relações com os pais são fáceis e cooperativas. Em outras palavras, o medo comum de que os pais se choquem com as doutrinas e orientações pedagógicas é negado por esses professores e diretores. Todos os dias, os primeiros dez minutos de aula são dedicados ao hino nacional, moral e cívica, diálogos e assuntos organizacionais. Os pais são convidados a participar.
        Em um claro ato de fidelidade ao modelo escolar russo, as atividades do Programa Pioneiro ainda podem ser vistas nos quadros de aviso. Isso indica que o programa sobreviveu à saída precipitada da assistência técnica russa, depois da desintegração da União Soviética.
        Seguindo a mesma tradição russa, os alunos passam um mês em acampamentos, colhendo laranjas ou trabalhando nas plantações de cana-de-açúcar ou tabaco (a participação na colheita da cana e tabaco não funcionou, devido às exigências de destrezas não possuídas pelos alunos). Os professores alegam que os alunos amam o acampamento, de resto, mais do que eles, já que se tornam babás e mães de trinta alunos durante um mês. Igualmente remanescentes da influência soviética são os mutirões de trabalho para limpar as escolas durante as férias ou consertar os seus móveis. Tudo isso vai muito na linha dos objetivos marxistas-leninistas de criar um novo ser humano e de combinar o trabalho físico com o intelectual. Minha própria observação é que na Rússia os resultados não são muito impressionantes(3). Os alunos ganham larga experiência no trabalho manual, mas não necessariamente o respeitam, gostam dele, ou vêem uma clara conexão com o trabalho intelectual. Será que Cuba consegue melhores resultados?

Os Professores
        Todos os professores tem um diploma de educação superior, obtido após cinco anos em uma instituição especializada na preparação de professores. Este alto nível de escolaridade contrasta fortemente com a maioria dos países latino-americanos.
        No regime de trabalho do professor, é de se notar também algumas diferenças notáveis com relação às escolas latino-americanas. Os professores cubanos são contratados por 40 a 44 horas por semana e espera-se que ensinem de 16 a 20. São reservadas, portanto, 20 horas para preparar as aulas e interagir com os alunos. As salas de professores estão disponíveis para estas atividades extraclasse. Espera-se que, de fato, os professores permaneçam as 40 horas na escola. E o que é mais importante para qualidade do ensino, boa parte da preparação das aulas e materiais pedagógicos feita em regime colegiado. Os professores discutem e debatem seu trabalho entre si, bem como suas estratégias e seus problemas.
        Tendo tanto tempo a sua disposição, os professores tem excelentes possibilidades de aumentar o seu nível de educação. De fato, é permitido que dediquem um dia por semana para seu aperfeiçoamento profissional. Na escola secundária visitada, todos os 59 professores tinham feito cursos de pós-graduação (embora nenhum tenha terminado o mestrado). Além da possibilidade de alocar parte das 40 horas para o estudo, os cursos de pós-graduação conduzem a um adicional de salários, criando um grande incentivo para continuar os estudos.
        Os salários dos professores são sempre uma dimensão crítica para explicar o êxito ou fracasso das escolas. Pelos padrões internacionais, os professores cubanos recebem salários miseráveis. Eles começam com 235 Pesos, para professores primários, e alcançam um máximo de 600 para aqueles que se tornam diretores. Convertendo em dólar, o nível mais baixo corresponde a 10 dólares por mês. Entretanto essa conversão monetária tem que ser vista com muito cuidado, já que Cuba tem uma economia monetária dupla. Os professores, como a maioria das outras pessoas, permanecem no antigo sistema da economia soviética. Pagam de um a três dólares pelo aluguel, têm educação e seguro de saúde grátis. A comida é comprada através de uma caderneta que especifica as quotas permitidas para cada alimento. Em conversas informais com cubanos, o maior problema é a comida, já que as quotas são realmente parcas e não há muita variedade. Todos concordam que aqueles cubanos vivendo na economia do Peso - a maioria - têm uma vida espartana, mas têm o básico para sobreviver. De fato, são menos propensos a reclamar publicamente do que os russos no final da era soviética.
        Mas, inevitavelmente, o drama começa quando essa economia cruza com a economia do dólar, hoje totalmente legalizada. Um professor tem que trabalhar mais que dois dias para comprar uma Coca-Cola. Comprar um sorvete para um filho no fim de semana já é uma extravagância. Um almoço simples, em um restaurante de turistas, ou uma corrida de táxi custam o equivalente ao salário mensal de um professor. Como a economia do dólar fica cada vez maior, a coabitação dos dois sistemas se tornará crescentemente tensa e desconfortável, já que pessoas com menos escolaridade e menos talento recebem de vinte a trinta vezes mais que um professor ou um médico.
        Mas a questão relevante aqui é que exceto para os operam na economia do dólar, todos ganham quase o mesmo. Um engenheiro receberá mais ou menos de 300 a 400 Pesos. Um médico de família recebe 430 Pesos. O que significa que os professores não estão em desvantagem, em comparação com outros profissionais, alguns até com mais diplomas. Quando adicionamos essa relativa igualdade com a importância dada à educação, é razoável pensar que a educação consegue atrair uma boa parcela dos jovens talentosos que se formam nas escolas secundárias. Não é um aspecto trivial, até mesmo em países industrializados. Isto é talvez uma das mais críticas vantagens das escolas cubanas.
        Outro fator crítico é que o pagamento do professor está de alguma forma relacionado com o desempenho dos seus alunos. Aqueles professores cujos alunos fracassam, obtendo notas abaixo das normas, arriscam-se a perder os seus suplementos de salário. Diretores e um comitê de professores examinam a performance dos alunos, medida nas provas (que são as mesmas para toda a escola) e concedem os complementos salariais aos professores cujos alunos se saem bem. Isto é pagamento por mérito, um dos mais persistentes desafios para qualquer sistema educacional. De uma visita rápida pode ser imprudente tirar tantas conclusões. Entretanto, há um fato claro: Cuba tem um sistema de pagamento por mérito, enquanto outros países discutem, brigam e terminam atolados em infindáveis discussões.
        Os professores das escolas primárias ficam com a mesma turma durante os quatro graus iniciais. Nas duas séries seguintes, a turma passa para um segundo professor. Isto significa que os professores podem melhor conhecer seus alunos, podem adaptar sua instrução a cada um, e podem reagir às necessidades emocionais e intelectuais de cada um deles. Um bom professor investirá quatro anos no desenvolvimento de cada aluno, podendo, por tanto, apreciar o progresso e lidar com os problemas encontrados. O lado negativo é que um professor terá efeitos devastadores nos seus alunos. Mas outra vez, o lado bom é que qualquer que seja o impacto, ele está bem documentado e somente pode ser atribuído ao professor. Na medida em que haja mais que um aluno prejudicado pelo desempenho deficiente de algum professor, isto se torna dolorosamente claro para todos. Portanto, trata-se de um sistema onde os professores realmente tem que prestar conta do seu desempenho. Não surpreende que uma alta dedicação por parte dos professores seja um dos pontos fortes do sistema cubano. A combinação da necessidade de prestar contas com o prestígio social da educação é uma fórmula poderosa.

Feia mas boa!
        Que as escolas cubanas são boas, já sabíamos, através dos resultados dos estudos da UNESCO-OREALC. A pergunta que resta é porque elas são boas. Uma rápida visita a duas escolas não é certamente uma credencial confiável para alguém discutir por que as escolas cubanas são boas. Mas por que não especular?
        O primeiro choque foi a aparência física. As escolas são feias. Estas visitas demostraram que escolas feias podem ser boas, talvez uma surpresa. Até aí, nada que ajude a entender.
        Mas claramente, estas escolas devem estar fazendo alguma coisa certa. Passemos a rever algumas das explicações mais razoáveis:

1 - Quanto mais se estuda, mais se apreende. Os estudantes cubanos passam uma extraordinária quantidade de tempo na escola. Realmente, pouco tempo sobra para fazer qualquer outra coisa. Ademais, há muita pressão social para atingir esses objetivos. Educação é um componente central da sociedade cubana.

2 - As escolas são capazes de individualizar a instrução para cada aluno. Os professores tem uma hora adicional na escola para cada hora em sala de aula, podendo, portanto, dedicar-se mais aos seus alunos. Eles podem usar esse tempo para um atendimento individualizado, ensinando a cada aluno o que quer que seja mais apropriado a cada um (com uma relação de 1 professor para cada 11 alunos em Cuba, o professor tem bastante tempo para cada aluno).

3 - Os professores são bem recrutados e bem treinados. A educação tem um alto reconhecimento social e paga o mesmo que outras carreira superiores. Os professores não estão em desvantagem comparados com outros profissionais. Portanto o recrutamento de professores pesca bons candidatos. Além disso, em uma sociedade com altos níveis de escolaridade, os professores são treinados por um longo período de tempo.

4 - Prestação de contas por parte dos professores. Os alunos são avaliados e o professor tem que prestar contas do desempenho deles. O pagamento depende da competência de cada um, para impedir um desempenho insuficiente dos seus alunos. Em outras palavras, como um economista diria, a estrutura de incentivos está correta. Quem se sai mal, paga seus pecados no salário do fim do mês.

5 - A escola é uma instituição total. É muito central na vida dos alunos. Captura o tempo e a imaginação deles. E lida, igualmente, com todas as suas necessidades.


        Em contraste com essas dimensões altamente positiva, as escolas cubanas são bastante convencionais nos seus modelos de ensino. Oferecem um ensino sólido, mas não inovador. E, como mencionado, o fato de as instalações serem particularmente inadequadas não parece fazer qualquer diferença, em um país onde é deplorável o estado geral de manutenção dos edifícios. Uma forte preocupação é saber se Cuba pode continuar gastando 10% do seu GNP na educação, considerando a pouco que ela parece ajudar em economia travada por razões outras.


        Quais são as lições que poderiam servir para os outros países latinos americanos?

1 - Mais meia horas de presença na escola é certamente uma lição fácil de deduzir. As crianças latino-americanas não passam um tempo suficiente na escola. Entretanto, manter professores em tempo integral é caro, muito caro mesmo. Neste momento, seria impossível para qualquer país latino-americano praticamente dobrar o número de horas contratadas com seus professores, embora quaisquer esforços para aumentar a jornada de trabalho provavelmente dariam resultados significativos.

2 - Recrutar melhores professores é uma outra área onde Cuba se destaca e onde os outros países latino-americanos poderiam se sair melhor. Há um número de possíveis estratégias para fazer isso. Mas nem é possível diminuir os salários de outras profissões e nem aumentar os salários dos professores para níveis que fariam a profissão muito mais atraente. Algum aumento de salário faz sentido, quando nada, ele atenua as confrontações com sindicatos e reduz as perdas de tempo de estudo devidas às greves.

3 - Aperfeiçoar a preparação dos professores é certamente possível e desejável. No presente momento, ninguém na América Latina parece concordar com a melhor fórmula para formar professores. Mas quase todos concordam que é importante fazer alguma coisa e que as experiências mais bem sucedidas devem ser replicadas.

4 - Tomar os professores responsáveis pela performance dos seus alunos é o sonho de muitos administradores educacionais. Os cubanos parecem fazer isso bem. Mas essa é uma área politicamente eletrizada. Os sindicatos dos professores tem posições ferozes contra quaisquer dessas políticas. Experimentos aqui e acolá (por exemplo, no Chile) estão começando a acontecer, mas os resultados permanecem inconclusivos.

5 - O uso de mais instrução individualizada é uma alternativa atraente. As novas modas pedagógicas vão nesta direção. Mas a sua implementação certamente requer mais tempo dos professores. Em muitos casos, isto até seria possível.

6 - Finalmente, há a política de valorização social da educação, aumentando a consciência pública do que acontece nas escolas e envolvendo a sociedade nesse apoio. Essas são medidas que podem ser adotadas e, de resto, tem tido sucesso em outros lugares(como por exemplo, o esforço de Minas Gerais de aumentar a participação dos pais na vida da escola).


        Este trabalho não precisou mostrar que a educação. de Cuba é boa. Os dados empíricos da OREALC sobre o rendimento superior dos seus alunos mostram isso de forma mais eloqüente e confiável. Apenas tentei especular sobre os porquês da boa educação em Cuba. Nas minhas visitas, o que vi foi uma dose salutar de bom senso e soluções convencionais aplicadas por professores sérios que tem muito tempo para dedicar aos seus alunos e muitos incentivos para fazê-lo. E tudo que acontece na escola se dá durante uma jornada escolar muito longa.
        Este trabalho é o resultado de duas visitas a escola e de conversas com alguns poucos cubanos e com estrangeiros que conhecem o país. Obviamente, não fiz uma pesquisa acadêmica séria. Meus propósitos foram mais modestos e não visam mais do que convidar os leitores a pensar na educação latino-americana e especular acerca do que podemos aprender com Cuba.
 


(1) - Citation of IDB newsletter

Voltar para a
marca da nota 1

(2) - Como um comentário à margem, lembrei-me dos meus dias de Brasil (no início dos anos oitenta) quando estava envolvido na política da merenda escolar e testemunhei a forte oposição da esquerda a todas as tentativas de se usarem alimentos enriquecidos e preocupar-se com nutrição. A principal razão é que a comida enriquecida era produzida por indústrias privadas, enquanto a comida natural podia ser comprada de pequenos produtores. O abandono da "vaca mecânica", uma máquina para a preparação de leite de soja, foi comemorado pela esquerda como uma grande vitória. A "vaca mecânica" foi morta pelo Presidente Figueiredo, que estava inaugurando uma nova instalação e provou o leite de soja. Parece que a mistura não estava ainda pronta e Figueiredo fez uma careta à frente dos jornalistas presentes e da televisão. Todavia, quando Fidel Castro visitou o Brasil, um pouco depois, adorou a "vaca mecânica" e quis importar algumas para Cuba, criando certo embaraço para a esquerda. Como reconciliar o descaso pelas refeições nutritivamente balanceadas e alimentos enriquecidos quando "El Comandante" os estava elogiando? Como ficavam todas as comemorações pelo sucateamento das "vacas mecânicas", se Fidel queria levar de volta para Cuba as que soube estarem abandonadas?

Voltar para a
marca da nota 2

(3) - CASTRO, C. M., FEONOVA, M. Education and production in Russia. Paris: IIEP/UNESCO, 1995.

Voltar para a
marca da nota 3


(*) CASTRO, Claudio de Moura. Escolas feias, escolas boas?. Ensaio, Rio de Janeiro:
     Fundação Cesgranrio, v. 7, n. 25, p. 342-354, out./dez. 1999.