EDUCAÇÃO EM CUBA


Mais que piedade, solidariedade

 

A EDUCAÇÃO ESPECIAL EM CUBA
Dar é melhor do que receber, mas o descapacitado tem também o direito a contribuir. A maior das Antilhas pode falar de atenção ao 98 por cento das crianças com impedimentos físicos e mentais. Os êxitos não são poucos embora fiquem muitas batalhas por ganhar.

Maria Elena Alvarez
Havana, 2000.     
Especial da Agência de Informação Nacional

        Mais uma vez me surpreendi olhando piedosamente a um cego, a um surdo-mudo, a um inválido ou a um retardado mental. O nó na garganta se torna insuportável se se trata de uma criança, mas então reajo e me censuro esse involuntário gesto de compaixão, pois sou dos que pensam que esses a quem consideramos seres desamparados precisam de nós mais que piedade, solidariedade.
        Conceituada como virtude, a piedade pode, no entanto, fazer destas pessoas indivíduos hostis, retraídos, dependentes e com uma auto-estima muito baixa.
        Não será a piedade, a compaixão, a pena, as que façam de todos os descapacitados seres felizes e plenos. Que uma mão piedosa ofereça uma esmola a um cego, não o libera de sua triste condição de mendigo, como não o salvará a comiseração a uma pessoa disforme de ser a atração principal e até um bufão de um circo ambulante.
        A misericórdia e as dádivas não bastam. A prova está no qualitativo de temporário empregado pela UNESCO para avaliar a atenção que hoje recebem as ¾ partes dos habitantes do planeta com algum impedimento físico ou mental. A sociedade não pode desinteressar-se de nenhum de seus membros e, no caso dos descapacitados, não abandona-los a sua sorte significa muito mais que um gesto de caridade ou o pagamento de pensões ou outro tipo de ajuda material, que a maioria das vezes termina sendo uma condenação perpétua por inutilidade.
        Melhor que isso é prepara-los para a vida responsável; fazer deles pessoas ativas que recebem e contribuem; propiciar seu desenvolvimento individual até onde seja possível; ensinar-lhes a valer-se por si mesmos; permitir-lhes desfrutar de uma existência digna; integrá-los a sociedade.
        Tais são os propósitos da educação especial em Cuba e para satisfação de seus habitantes, a maior das Antilhas pode falar já da atenção ao 98 por cento das crianças descapacitadas.
        Se de sucessos da Revolução Cubana na educação se trata, o ensino especial constitui uma de suas mais genuínas obras, porque antes de 1959 havia somente pouco mais de uma dezena de instituições, financiadas por patronos e outras com alguma doação privada, com uma escassa matrícula geral de apenas 150 crianças.
        A capital tinha quase a exclusividade, e nem sonhava com uma rede nacional ou um sistema de atenção especializada e políticas educacionais que deram organização e coerência aos afazeres nestes asilos.
        Hoje são 428 escolas especiais: 100 para crianças com retardo mental, 80 para alunos com retardo no seu desenvolvimento psíquico e dificuldades na aprendizagem, 30 para menores com transtornos emocionais e de conduta, 20 para surdos e que ouvem pouco, sete para cegos e com deficiência visual, 13 para estrábicos e ambimíope, uma dezena para crianças com transtornos severos de linguagem e uma escola nacional para deficientes físico-motores.
        Nessa cifra total há que incluir, além do mais, mais de 160 mistas, sobretudo escolas primárias que incorporam a crianças com retardo, e outras, sim especiais, que reúnem a alguns destes últimos e a adolescentes com retardo mental, o primeiro porque a integração é um objetivo, no entanto de fato existiam estas escolas especiais, e o segundo porque é preciso aproveitar ao máximo a capacidade instalada e vários centros foram habilitados para atender mais de uma deficiência.
        Estas escolas especiais gratuitas assistem 85 por cento das crianças com deficiência do país e para abranger o resto se aplicam modalidades como a atenção particular e por pessoal especializado de criança cuja reabilitação possa ser conseguida enquanto cursam os estudos em um colégio comum.
        O sistema de mestres itinerantes é outra variante, pois a missão destes educadores (260 em todo o país) é que as crianças hospitalizadas por longo tempo não percam as aulas nem o vínculo com a escola enquanto isso se restabelece e que, quem por seu impedimento físico ou mental não possam comparecer a sala de aula nem interrelacionar-se e conviver em um centro de estudo, tenham acesso também ao ensino. Nesse caso há 509 crianças.
        Nas 428 escolas especiais trabalham uns 15 mil mestres (sete educandos por professor), além de cerca de três mil docentes especializados e 4.500 trabalhadores não diretamente vinculados com a docência.
        Os mestres estão preparados para trabalhar com as crianças deficientes são: logopedagogos, psicólogos, psicoterapeutas, psicopedagogos, professores de música, educação física, de laboratório, etc.
        Em idêntica situação estão as crianças com personalidades desajustadas e conduta e com problemas de adaptação social em seu meio familiar, ou os que por determinada circunstância, possa ter um coeficiente intelectual normal, não consigam desenvolve-lo ao mesmo nível e ritmo igual aos das outras crianças.
        Nestas escolas especiais, os que cursam o primário e o secundário básico, cada aluno aprende um ofício de acordo com as suas possibilidades, mesmo que logo continue estudando até chegar inclusive a universidade, se suas condições o permitir.
        Assegurar a todos um ensino básico e um ofício é algo sumamente importante. Dos 50 mil matriculados no curso 1999-2000, mais de 24 mil tem retardo mental, pelo que em sua preparação para a vida terão que lutar duramente.
        No treinamento profissional, a educação especial tem grandes metas: ampliar o perfil ocupacional e lembrar as prioridades do lugar onde reside o aluno na hora de ensinar-lo um ou outro ofício, para assim assegurar-lhe emprego e conteúdo real de trabalho no futuro.
        O pessoal e o equipamento são de primeira e, das escolas, muito e melhor há para contar, ainda quando poderiam ser mais e melhores. Ao final dos anos 80 o governo cubano empreendeu um programa especial, suficiente para satisfazer a demanda e substituir os imóveis edificados especificamente para tal fim, outros adaptados e alguns antigos.
        A contração estrema da economia na Ilha após o desmoronamento do socialismo na Europa, a desintegração da União Soviética e o reforço do bloqueio norte americano, obrigou a parar este e muitos projetos. Somente foi possível construir 46 escolas, quatro delas terminadas nas províncias orientais entre 1992 e 1993, já em plena crise.
        Este é um ensino caro. Na educação especial se investem anualmente ao redor de 65 milhões de pesos do orçamento estatal (um dólar equivale a um peso no câmbio oficial) e como em Cuba o ensino é absolutamente gratuito, pode afirmar-se que no curso escolar 1999-2000 o custo médio de um aluno é de 116 mil pesos, mesmo que em algumas províncias o investimento seja maior, em dependência da matrícula e das especialidades.
        Esses 65 milhões de pesos são exclusivamente por conta dos salários, base material de estudos, transporte e alimentação dos educandos e alojamento dos internos. O equipamento é coisa aparte, e, por exemplo, somente para construir a escola nacional para deficientes físico foram desembolsados 324 mil dólares.
        Para Cuba estes são tempos difíceis, não obstante o qual, nenhuma escola foi fechada e as condições de vida e estudos se mantêm inalteradas, tanto para o ensino em geral como o especial.
        A maior das Antilhas não figura entre os países com uma taxa elevada de crianças deficientes posto que os programas de saúde, a atenção a mulher desde o início da gravidez, favorecem a prevenção e a detecção precoce de qualquer anomalia.
        O precedente explica por quê para Cuba é um princípio o que em outras nações pela insuficiente atenção ao deficiente, poderia parecer um desatino: a importância da educação especial não será maior por ter mais escolas, alunos e professores sim porque um eficaz trabalho preventivo permite ter menos alunos e escolas, que assista unicamente a criança necessitada e estritamente pelo tempo necessário, tanto menos quanto melhor seja a atenção e mais pronta a reabilitação.
        Mas, sejam quantos sejam, aí estão essas escolas, comovedora e irrefutável prova do que podem o amor, a solidariedade e o respeito ao ser humano.

VALORIZAÇÃO LATINO-AMERICANA
        Ao completar em 1997 35 anos de existência em Cuba da educação especial, Havana foi cenário do II Congresso Ibero-Americano dessa especialidade docente, cuja conclusão foi felicitar ao país caribenho por seus altos avanços e sucessos na esfera. Após destacar o exemplo cubano, se informou que na América Latina somam 16 milhões de menores com necessidades de uma educação especial, enquanto somente dois por cento deles recebem algum tipo de atenção.
        Aproximadamente uma em cada oito criança da região sofre de alguma deficiência e na Ilha esta proporção é de cinco em cada cem, indicador próprio de nações desenvolvidas.


Tradução de Elizabete Domingues P. da Silva



 


Para referência desta página:
ALVAREZ, Maria Elena. Educação Especial em Cuba. Pedagogia em Foco, Havana, 2000. Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/cub04.htm>. Acesso em: dia mes ano.