EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA



Educação ou instrução a distância?
Skinner venceu?


José Luiz de Paiva Bello
Rio de Janeiro, 2002.

 


        Neste momento histórico, no mês de dezembro do ano de 2002, existe um assunto na moda: a questão da escola inclusiva. Dos cinqüenta e quatro (!!!) Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) recebidos para orientar, seis foram sobre a questão da Inclusão.
        Mas existe um outro assunto que está permeando as mentes dos acadêmicos. sem que tenha sido aberta uma discussão mais geral: a questão das novas tecnologias e, embutido nela, a questão da educação a distância, que também vem sendo chamada de EAD.
        A educação a distância, ou não-presencial, vem perturbando o sono de muitos educadores, já que, por se tratar de um assunto pouco explorado pela educação, deixa lacunas de entendimentos que, muitas vezes, parece que os professores perderão o seu emprego com o advento desta nova tecnologia.
        Essa ignorância (sem sentido pejorativo) por parte dos profissionais vinculados à educação fez com que a utilização das novas tecnologias na sala de aula, e no concerne à educação a distância, fosse liderada por alienígenas à formação pedagógica. Enquanto os educadores, por ignorarem realmente do que se trata, e por desconhecerem o potencial da máquina computador, não tomam iniciativas de assumir o controle técnico pedagógico desta nova prática, já colocada em uso em larga escala não só em outros países do mundo, como também no Brasil. Profissionais de outras áreas descobriram o filão e se apoderaram dela. Se fizermos um levantamento da formação dos que coordenam os cursos de educação a distância, vamos descobrir que a maioria deles são da área de exatas, predominantemente da engenharia e da análise de sistema. Muitos ainda fazem um curso de pós-graduação na área da educação, como Informática na Educação ou similar, para "legalizar" suas situações, mas a maioria tem sua graduação em outras áreas que não a da educação.
        É possível entender que, por serem detentores do conhecimento da programação e manipulação deste meio eletrônico, eles tenham tomado a iniciativa de aplicar esta nova tecnologia a serviço da educação. Difícil entender é a liderança que eles assumiram numa área que desconhecem. Ou melhor, só não é tão difícil entender porque alguns autores, como Lauro de Oliveira Lima, já denunciaram a educação como "terra de ninguém". Duvido que tenha um pedagogo gerenciando um centro de processamento de dados, um pedagogo gerenciando um hospital, um pedagogo administrando...
        Essa distorção de gerenciamento, gera, por conseqüência, uma outra distorção mais grave, relativa à filosofia da educação. Muitos destes alienígenas ainda sabem de Piaget, Paulo Freire, têm noções do que se entende por "construtivismo", mas o encaminhamento para as novas descobertas filosóficas a respeito da educação, por uma questão de formação e de experiência prática no manejo das questões didáticas, está prejudicado.
        É possível colocar em prática as idéias de escola cidadã ou da pedagogia dialogal, de Paulo Freire, na educação a distância, mas o que se vê é uma educação oferecida de forma diretiva e não-dialogal. Sendo assim o que tem sido oferecido em termos de "educação a distância", na verdade não passa de mera "instrução a distância". Muitas vezes os cursos de educação a distância nada mais fazem do que transcrever apostilas para o meio eletrônico e fazer testes de conhecimento ao fim de cada módulo. Poderíamos também dizer que é a sobreposição das idéias de Skinner sobre as idéias de Dewey, da Pedagogia Ativa, da Escola Nova, de Montessori, Freinet, Piaget, Paulo Freire, entre outros.
        Não é porque estamos falando de um meio eletrônico, onde o professor está localizado em ambiente diferenciado do estudante, que devemos, por conseqüência, negar a possibilidade da utilização de uma pedagogia dialogal e democrática entre professor e estudante. A relação pedagógica na educação a distância pode absorver todo o contexto de relação democrática, proposta pelos mais modernos pensadores do processo de educação. O potencial do meio eletrônico permite isso. Ele permite o diálogo constante entre os dois principais personagens da relação pedagógica (professor e estudante), como também a relação entre grupos de estudantes, tendo o professor como mediador.
        A relação assíncrona, onde professor e estudante relacionam-se em tempos diferenciados, pode se dar através do email ou do fórum de discussão, e a relação síncrona, onde a relação entre professor e estudantes, ou entre os próprios estudantes, podem se dar em tempo real, pode se dar através de programas tipo ICQ, web-cam ou o Chat. O Chat, aliás, pode reproduzir o ambiente de sala de aula, sem que um veja a cara do outro.
        Acredito que a educação a distância esteja engatinhando em termos de aplicação de novas tecnologias como processo didático. Ainda temos muito o que descobrir, experimentar e crescer. Acredito que seja necessário um processo de discussão mais amplo do que seja realmente a educação a distância, baseada na utilização da informática, como processo de aquisição de aprendizagem, para que possamos atingir a otimização na utilização deste recurso. Uma boa forma de se permitir com que os educadores assumam a necessária hegemonia sobre esse processo é inserir nos currículos de formação de pedagogos disciplinas que tratem desta questão.
        Para concluir chamo a atenção para o fato dos autores de programas didáticos em educação a distância estarem sendo chamados de "conteudistas" e os professores que atuam nesta mesma área estarem sendo chamados de "tutores" é um desrespeito a uma categoria profissional. É bem verdade que o termo é importado do inglês, mas "tutor" em português quer dizer protetor, defensor. Modernamente dizemos que o professor é o profissional especialista que ajuda o estudante a aprender. Tutor é sinônimo de preceptor, aio, mentor, ou professor encarregado de educação de crianças no lar, uma babá qualificada. Tratar a categoria profissional dos professores desta forma, mais do que uma simples questão semântica, é uma agressão a uma classe profissional. Provavelmente os que tratam os professores desta forma não conseguem nem mesmo perceber que este termo é desrespeitoso e agressivo.



Para referência desta página:
BELLO, José Luiz de Paiva. Educação ou instrução a distância? Skinner venceu?. Pedagogia em Foco, Rio de Janeiro, 2002. Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/ead02.htm>. Acesso em: dia mes ano.