Entrevista com o pedagogo
Professor Hilário Hermenegildo
Rio de Janeiro, outubro de 2008.
Pedagogia em Foco: Professor, onde foi que o Sr. se formou?
Professor Hilário Hermenegildo: Eu morava numa cidade de porte médio para pequeno, vizinha a outra grande cidade. Tinha lá um supermercado que estava falindo e a parte do almoxarifado foi desativada. Uma grande universidade alugou o galpão para criar uma faculdade de Pedagogia, uma de Letras e uma de Direito. Tinha aula só nos fins de semana com os professores que vinham da cidade grande. Os professores faltavam muito e nós éramos aprovados até mesmo sem fazer provas. Teve um professor que só foi uma vez e no final do semestre deu dez pra todo mundo.
Pedagogia em Foco: E o vestibular?
Professor Hilário Hermenegildo: Vestibular? No dia da prova nós ficamos numa sala que não tinha nem fiscal. Colamos a prova inteira. Acho que todo mundo respondeu a mesma coisa. A minha redação foi o rascunho de outro que amassou e jogou no chão. Fui lá, peguei o papel, desamassei e entreguei assim mesmo. Só tive o trabalho de escrever meu nome. Dos que fizeram a prova todos entraram na faculdade. Tinha mais vaga do que candidatos. Aliás, eu nem entendo para que o vestibular. Acho que é para a instituição faturar mais uns trocados. Se tem mais vaga do que candidatos bastaria um pedido de matrícula, apresentando documentos que comprovassem a conclusão do Ensino Médio.
Pedagogia em Foco: Como foi que você começou a trabalhar em educação?
Professor Hilário Hermenegildo: Eu era motorista de ônibus. Aí, um amigo meu disse que ia abrir uma faculdade de Pedagogia no supermercado. Eu era motorista de uma empresa e tinha acabado de ser demitido porque bati em três carros e ainda derrubei um poste de luz. Eu estava bêbado. Desempregado, resolvi fazer o tal curso que eu nem sabia o que era. Aí, um colégio perto da minha casa abriu outra faculdade de Pedagogia. Esta seria um curso regular, aproveitando os habitantes da cidade viinha. Foi um sucesso. A faculdade lotou no primeiro semestre de matrícula. Nunca tinha dado aula antes em lugar nenhum, em nenhum nível do ensino, mas como a faculdade estava precisando de professor eu fui lá pedir emprego. O diretor foi com a minha cara e me deu um monte de aula pra dar. Eu dava aula de Didática, História da Educação, Filosofia da Educação, Currículos e Programas, Alfabetização e Letramento, Fundamentos de Psicomotricidade e Tecnologias Aplicadas a Educação. Nunca tinha ouvido falar dessas matérias. Aí, eu pedi uns livros emprestados, para não passar muita vergonha, e só dava aula por seminários. Eu mandava os alunos prepararem seminários e eu mesmo não dizia uma palavra. Eu era uma espécie de organizador dos seminários. Os alunos me achavam um gênio. E eu não estava nem aí se os alunos estavam aprendendo alguma coisa.
Pedagogia em Foco: Mas o MEC não fazia fiscalização nesta instituição?
Professor Hilário Hermenegildo: Fazer fiscalização, fazia. Você já parou para pensar no que o MEC fiscaliza? Nossa biblioteca não tinha um livro sequer. Só que o MEC avisa com antecedência os dias de visita. Como o diretor da faculdade conhecia diretores de outras universidades da região, ele pedia emprestados os livros das bibliotecas das outras. Quando o MEC chegava a nossa biblioteca era a que tinha mais livros da região, mesmo sem ter um livro. Depois que o MEC ia embora tudo era devolvido e a sala da biblioteca dava até tristeza. A mesma coisa acontecia com os laboratórios de informática e com a briquedoteca. Nas vésperas de visita do MEC era um tal de Van indo e voltando, carregada de computador, livros e brinquedos. Ainda bem que nós vivemos no Brasil, né?
Pedagogia em Foco: E a titulação dos professores, não era examinada pelo MEC?
Professor Hilário Hermenegildo: Claro que era. Só que o nosso diretor não era bobo. Todos os professores que davam aula no curso de Pedagogia tinham curso de especialização em pós-graduação: Docência do Ensino Superior. Nenhum tinha feito um curso de Mestrado, mas todos eram especialistas em Docência do Ensino Superior. Até eu sou pós-graduado: sou especialista em Docência do Ensino Superior; com muita honra! Nosso diretor assinou um convênio com uma universidade particular que oferecia este curso de pós-graduação e todos os professores foram lá fazer. Alguns freqüentaram só umas poucas aulas, mas eu freqüentei pelo menos a metade das aulas.
Pedagogia em Foco: O que os alunos diziam da instituição?
Professor Hilário Hermenegildo: Os alunos "metiam o pau" na instituição. As palavras que mais se ouviam nos corredores da faculdade eram: "incompetência", "bagunça", "vou procurar outra faculdade para estudar", "desrespeito", "isso é charlatanismo", entre outras coisas piores que eu não posso repetir aqui. Isso não era passado para o MEC porque, um pouco antes da visita do MEC, o diretor reunia todos os alunos para orientar sobre o que eles deveriam dizer para os "professores fiscais". O diretor dizia para os alunos que a avaliação do MEC era tão cruel para a instituição, como para os alunos, já que uma avaliação ruim criava problemas para a instituição, mas, esta mesma avaliação ruim, desvalorizava o diploma deles e o mercado de trabalho não aceitava funcionários formados por instituições que tinham sido mal avaliadas pelo MEC. Então a reunião dos fiscais do MEC com os alunos era um festival de mentiras: "A biblioteca de vocês é boa?" Perguntavam os fiscais do MEC. "Maravilhosa! Tem todos os livros que precisamos!" Respondiam os alunos, mesmo que a faculdade nem tivesse uma biblioteca.
Pedagogia em Foco: E os professores, não revelavam ao MEC a situação?
Professor Hilário Hermenegildo: Com os professores era a mesma coisa, com a agravante de que os professores temiam perder o emprego. Dias antes da chegada dos fiscais, os professores eram convocados para uma reunião e, nesta reunião, eles eram orientados a dizer o que interessava à instituição. E tome mais um festival de mentiras.
Pedagogia em Foco: E os resultados obtidos pelo ENADE?
Professor Hilário Hermenegildo: A prova do ENADE avalia o que os alunos decoraram. Então a instituição se preocupava mais com o conteúdo que iria cair na prova do ENADE do que com o conteúdo necessário para a formação do profissional. Alguns meses antes da prova tinha início uma espécie de "curso pré-ENADE". Tinha aula até no sábado. O diretor convidava até professores de outras instituições para orientar aos alunos. Eles não iam muito bem nas provas, mas também não iam mal. Na verdade toda a grade curricular era montada a partir das perguntas feitas nas provas anteriores do ENADE. Então eu posso até dizer que o curso de formação profissional era, na verdade, um grande "pré-ENADE". O exercício prático da profissão não interessava; o que interessava era a teoria dos conteúdos do que iria "cair no ENADE". As demais categorias avaliadas pelo MEC eu já falei: biblioteca, laboratório, equipamentos de sala de aula, titulação de professores, tudo era arranjado para a visita do MEC.
Pedagogia em Foco: Então a avaliação feita pelo MEC é uma farsa?
Professor Hilário Hermenegildo: A avaliação proposta pelo MEC é baseada nos padrões de qualidade deles. Foram eles, do MEC, que se reuniram lá com eles mesmos e decidiram que para a instituição educacional ter qualidade deve cumprir esses critérios de avaliação. Não perguntaram nada a ninguém; simplesmente baixaram um "pacotão" legal. O critério deles é avaliar os meios de se fazer educação. O resultado para eles não interessa. A instituição que eu trabalho, por exemplo, não se saiu tão mal na prova do ENADE, nem na avaliação feita pela visita dos ficais do MEC. Só que, como a maioria dos alunos mora perto da faculdade, nós sabemos que nenhum deles, dos trinta e quatro que se formaram no semestre passado, está trabalhando na área em que se formaram. A maioria é atendente de Tele-marketing. Tem uma que é caixa de supermercado e outra que conseguiu um emprego num banco. Todas recebem um pouco mais do que um salário mínimo. O que é avaliar? Não é medir o resultado de uma ação qualquer? Então o MEC não avalia, mas cobra um padrão estipulado por eles mesmos como se fosse uma medida de qualidade. O interessante é que ninguém reclama. Como se a ciência da educação não existisse. Resumindo: a avaliação imposta pelo MEC é uma grande mentira; uma farsa! Eles não avaliam, mas impõe um modelo a ser seguido, como se esse modelo representasse qualidade em educação. Não ouvem a ninguém. Pode ser uma heresia, mas a educação hoje está mais autoritária do que na época da ditadura militar.
Pedagogia em Foco: O MEC nunca avalia os resultados?
Professor Hilário Hermenegildo: Avalia sim. No ano de 2003, por exemplo, uma pesquisa feita pelo próprio MEC mostrou que 57,79 por cento dos alunos que concluíam a quarta série do Ensino Fundamental não sabiam ler e escrever. É um número significativo. Praticamente 60 por cento dos alunos fracassavam nos objetivos da educação. Quais foram as medidas tomadas pelo MEC para resolver a situação? Qual foi a solução técnica proposta pelo MEC? Quais foram as mudanças pedagógicas realizadas para contornar o problema detectado na pesquisa? Foi realizada outra pesquisa para avaliar as causas desse fenômeno? Nada disso. O que o MEC fez, alguns poucos anos depois, foi aumentar em um ano o primeiro segmento do Ensino Fundamental. Além disso, ao invés de série, passou a chamar de ano. O primeiro segmento do Ensino Fundamental passou a ser do primeiro ao quinto ano. Resolveu o problema? Claro que não. Só as estatísticas foram alteradas. Estatisticamente o índice de acesso aos primeiros anos cresceu significativamente. Se não se buscar soluções na esfera pedagógica pode aumentar a duração do primeiro segmento do Ensino Fundamental para cem anos que o problema não será resolvido. Nem sempre qualidade tem relação com quantidade. Nesse caso, muito menos.
Pedagogia em Foco: Qual a razão que o senhor dá para que isso aconteça?
Professor Hilário Hermenegildo: Nós vivemos num mundo regido pelo sistema capitalista. Essa é a regra do jogo. No mundo capitalista só uma minoria ocupa espaços de liderança. Esses sessenta por cento que concluem o primeiro segmento do Ensino Fundamental sem saber ler e escrever já estão fora do jogo do processo de liderança logo na largada da corrida. Sobram quarenta por cento que vão caindo pelo trajeto do resto da corrida. Qual a percentagem que chega lá no final? Com certeza uma minoria. É parte dessa minoria que vai nos liderar. Às vezes eu acho que para o sistema capitalista a educação é feita até bem demais. Atende direitinho aos interesses de desigualdade social da sociedade capitalista.
Pedagogia em Foco: Então o senhor está propondo, para melhorar a qualidade da educação, uma mudança de sistema?
Professor Hilário Hermenegildo: Não se trata, em princípio, de mudar o sistema. Trata-se de mudar a dinâmica do sistema. O sistema capitalista não tem uma base na democracia? Trata-se então de dinamizar os princípios democráticos, com características democráticas. Para os políticos democratizar a educação é encher as salas de aula de alunos. Eles acham que democratização do ensino é garantir vagas para todos nas escolas. Isso não é necessariamente democratizar o ensino. Isso é massificar o ensino para atender a estatísticas satisfatórias. Acesso à Educação não é uma questão democrática, mas de direito de qualquer cidadão e uma obrigação do Estado de assegurar esse direito. Democratizar o ensino é dinamizar o ensino com características democráticas. Democratizar o ensino é democratizar a relação da escola com seus personagens e, principalmente, a relação em sala de aula entre professores e estudantes. Se os alunos se exercitam nas salas de aula para uma prática democrática, eles vão se habituar a vivenciar a prática democrática na sua vida pública. Sendo assim a sociedade será verdadeiramente democrática e a tendência é a diminuição das diferenças sociais. Além de que democratizar o ensino, ou democratizar a relação entre professores e estudantes, não é fingir que o aluno aprendeu, mas permitir que todos aprendam.
Pedagogia em Foco: Se isso parece tão bom, por que então não muda?
Professor Hilário Hermenegildo: Porque estamos anestesiados. Cada vez mais a ciência da educação deixa de ser valorizada. Qualquer um hoje em dia fala de educação, como se fosse um grande especialista. Educação virou "terra de ninguém". Até mesmo os ministros da educação são economista, advogado, político, engenheiro e agora, em 2008, um filósofo. O ministro economista administrou através de programas. E tome programa disso, programa daquilo, mas um planejamento e uma política própria para a educação, nada. Mesmo mudando o governo e o partido hegemônico, o atual ministro deu continuidade ao que o anterior começou. Já parou par pensar na quantidade de programas? Bolsa Escola, Currículo em Ação, Acorda Brasil, É hora da escola!, Alfabetização Solidária, entre tantos outros. Sem contar o fim da pedagogia. Na prática a administração, supervisão e orientação escolar deixaram de ser uma tarefa própria dos pedagogos. O curso de Pedagogia agora é para formar professores para a Educação Infantil, Ensino Fundamental e o absurdo de formar para o Ensino Médio, ou para o curso Normal, que, na prática, também já não existe mais.
Pedagogia em Foco: O MEC não regulamenta estas questões?
Professor Hilário Hermenegildo: Regulamenta sim, mas veja o exemplo da administração escolar. Nas escolas públicas a direção é escolhida em eleição. Então quem é eleito é o professor de matemática simpático, o professor de história carismático, o professor de biologia esperto e assim por diante. A escola particular tem um dono e quem manda na escola é o dono e não o coordenador pedagógico que é empregado deste dono. A legislação ainda diz que o diretor da escola deve ter o curso de pedagogia, mas hoje o curso de pedagogia não tem mais as habilitações em Administração Escolar, Supervisão Pedagógica e Orientação Escolar. Então, na prática, está valendo qualquer coisa.
Pedagogia em Foco: O Sr diz que o curso Normal não existe mais, mas a legislação do ensino ainda prevê a existência dele.
Professor Hilário Hermenegildo: Sob o aspecto legal ainda existe a formação de professores no Ensino Médio, o curso Normal. Se você for dono de uma escola você vai preferir contratar o professor com formação no Ensino Médio ou no Ensino Superior? Nos concursos públicos o que vale mais, um diploma de um curso superior ou de nível médio? Sem contar que, com essa confusão de pode e não pode existir curso Normal, muitas instituições, que ofereciam o curso Normal de qualidade há anos, fecharam suas portas.
Pedagogia em Foco: O número de matrículas no curso superior aumentou significativamente. Isso não mostra que o acesso aos cursos superiores está mais democratizado?
Professor Hilário Hermenegildo: Eu não tenho dados concretos, baseados em pesquisa, mas é bem provável que o nível dos cursos superiores tenha caído bastante. Entre todo o governo do presidente anterior e o primeiro mandato do presidente atual foram abertos seis cursos superiores por dia. Até um idiota pode supor que, com o aumento da concorrência entre as instituições de ensino, o Ensino Superior virou a "casa da mãe Joana"; entra qualquer coisa. Com o sistema de cotas, então, nem se fala. Novamente eu não tenho dados sobre isso, mas quantos são os alunos formados numa graduação que entram no mercado de trabalho na área em que se formaram? Qual o índice dos que entram pelo sistema de cotas que se formam e exercem a profissão de nível superior que escolheu? Quem trabalha numa instituição de nível superior nunca ouviu um diretor, um coordenador, um colega dizer que "nós não podemos perder um aluno sequer!"? Para não perder alunos algumas instituições evitam até reprovar alunos. A concorrência entre as instituições de ensino gerou um ensino mais medíocre, além de gerar atitudes anti-éticas absurdas como, no dia do vestibular de uma instituição, a congênere parar um carro de som na porta para oferecer um vestibular sem taxa e ingresso na faculdade também sem taxa de matrícula. Soube que algumas instituições pagam a determinados alunos para se matricularem nas instituições concorrentes para convencer aos alunos de lá a saírem para ingressar na outra. Soube de uma que oferece o primeiro período inteiramente grátis aos seus alunos. Outras oferecem viagem aos Estados Unidos, automóveis, descontos nas mensalidades, para aqueles que trouxerem mais alunos. A única vantagem do ingresso indiscriminado nos cursos superiores, se é que nós podemos falar assim, é que nós teremos caixas de supermercado, atendente de tele-marketing, funcionários públicos, bancários, vendedores de cachorro quente, pipoqueiros e por aí vai, com diploma de curso superior.
Pedagogia em Foco: Sua visão sobre educação é bem negativa.
Professor Hilário Hermenegildo: Esse é o discurso típico da incompetência. Qualquer crítica que se faça ao sistema é tida como falta de colaboração. Quando nós construímos qualquer crítica em relação à educação tem sempre alguém para dizer que somos negativos, que trazemos energia negativa, perguntam por que somos educadores se vemos a educação assim e por aí vai. Como se não pudesse criticar a educação, mesmo que você baseie a sua crítica em critérios técnicos da ciência da educação. A impressão que dá é que nós estamos vivendo a era da incompetência. Quem se propõe a denunciar as falhas do sistema é tido como rebelde. Qualquer planejamento deve ser apoiado numa análise crítica da situação. Para a educação isso não vale. O planejamento da educação é feito a partir do bom senso dos homens de Brasília e é proibido avaliar a ação dessas pessoas. Enquanto nós pensarmos desta forma nada vai mudar. Negativos são os resultados do trabalho educativo e não a minha maneira de ver a educação. Quem não denuncia é alienado, ou omisso.
Pedagogia em Foco: Mas a sua crítica não poderia ser construtiva?
Professor Hilário Hermenegildo: Não existe crítica construtiva. Toda crítica é destrutiva, por si só. Quando alguém diz que aceita crítica desde que ela seja construtiva é uma maneira sutil de dizer que não aceita crítica. Quando eu faço uma crítica a qualquer coisa, em princípio, minha intenção é destruir o que eu estou avaliando. A construção vai depender da maturidade de quem recebe a crítica. Quando se faz uma crítica à dinâmica da educação o que se pretende é que as pessoas pensem. Uma crítica não é necessariamente uma expressão de verdade; é simplesmente a opinião da pessoa que faz a crítica. Quem faz uma crítica pode até dar alguma sugestão, mas não necessariamente.
Pedagogia em Foco: Então qual a sua sugestão?
Professor Hilário Hermenegildo: A minha maior sugestão é um debate generalizado. Eu tenho minhas opiniões, mas são minhas opiniões. Viver sob condições democráticas é muito mais difícil, no entanto é muito mais eficaz. Dominar é fácil, mas se você domina centraliza as decisões. Centralizando as decisões você, conseqüentemente, empobrece o resultado. O que eu tenho como sugestão é para provocar a reflexão de outros. Em minha opinião são tantas as coisas óbvias que podem ser feitas na educação que parece ridículo que ainda não tenham sido feitas. Além da discussão nacional sobre a questão da educação, coordenada por pessoas que entendam do que estão falando, outro problema é a questão da formação dos professores. Os professores não podem ser utilizados como "bodes expiatórios" pelo fracasso generalizado do ensino. Os professores são as maiores vítimas do processo. Os tecnocratas da educação decidem e impõem uma conduta a professores completamente perdidos, que não conseguem entender o que os "mandões" estão querendo dizer. Os cursos de formação de professores precisam ser aprimorados para formar profissionais competentes para trabalhar em sala de aula. Ouvir os professores, de todos os níveis, seria uma grande sugestão. Outra sugestão que eu poderia dar para melhorar a dinâmica da educação é racionalizar a legislação. Quem pode dizer que conhece a legislação educacional, além da LDB? É uma floresta impenetrável de Leis, Decretos, Resoluções, Pareceres, Portarias, Medidas Provisórias, que, para entender, temos que fazer um curso sobre legislação do ensino. E ainda tem o problema de que estão sempre mudando. Li uma Resolução, de um Estado brasileiro, que dispunha que a freqüência dos alunos seria medida a partir do início da sua matrícula, quando a LDB exige setenta e cinco por cento de freqüência do total de horas letivas. Parece que a legislação da Educação brasileira é feita propositalmente para ninguém entender e para não dar certo. Tenho outras sugestões menores, mas também importantes, em minha opinião: horário integral na Educação Básica, cento e oitenta dias letivos de aula e estímulo para que os professores, no período de suas férias, participem de Cursos, Encontros, Congressos ou invistam na sua formação. No entanto a minha sugestão principal é abrir a discussão sobre educação e parar imediatamente de planejar educação a partir de Brasília.
Pedagogia em Foco: É possível?
Professor Hilário Hermenegildo: Por vontade política eu não acredito que seja possível. Eu só acredito na possibilidade de mudança quando a educação estiver definitivamente sem sentido ou então quando os capitalistas da educação estiverem tendo prejuízo. Estamos vivendo um momento histórico em que ninguém se interessa em discutir educação. É como se não houvesse espaço para debates relacionados à educação. Os Encontros, Congressos e similares, que se faz hoje em dia em educação, são dinamizados por "conferencistas profissionais". São sempre os mesmos a dizer as mesmas frases bonitas sobre educação, mas que não tem nenhuma repercussão prática. Estamos vivendo um momento histórico difícil para mudanças.
Pedagogia em Foco: Mudando um pouco de assunto, o que o senhor acha da violência no meio escolar?
Professor Hilário Hermenegildo: A violência é outra questão que gera uma série de distorções de análises. Sempre que nos referimos à violência nas escolas falamos da agressão sofrida pelo professor, do aluno que vai para a sala de aula armado, das brigas entre "gangs" rivais, do aluno que matou outro e assim por diante. Como se a violência estivesse limitada no lado dos alunos. Esquecemos, no entanto, que o sistema educacional é extremamente violento, em todos os sentidos. A entrada em alguns cursos superiores, por exemplo, é marcado pela violência inexplicável do trote e as instituições educacionais praticamente nada fazem para coibir. A violência exercida sobre os estudantes é infinitamente maior do que as provocadas por eles. A arrogância e a prepotência de muitos professores é uma forma de violência; as provas pontuais é outra forma de violência; a negação da participação dos estudantes, outra; o atendimento aos estudantes pelas instituições, mais uma. A violência exercida pelos estudantes ao sistema educacional é mínima diante das violências sofridas por eles. Não são só os estudantes que sofrem violências. Os professores também são vítimas desta violência quando se deparam com coordenadores, diretores ou quaisquer outros superiores hierárquicos, que, por insegurança ou incompetência, solicitam tarefas absurdas e inexplicáveis. A própria instituição escolar sofre a violência de ser obrigada a cumprir as determinações emanadas pelos "pacotões" legais. O ambiente escolar é violento naturalmente na sua dinâmica.
Pedagogia em Foco: Existe alguma coisa que se poderia fazer para minimizar esta violência?
Professor Hilário Hermenegildo: A sociedade é violenta. Não é nenhuma novidade; sempre foi. O que se precisa definir é se a escola existe para reproduzir a sociedade ou se a escola existe para aprimorar a sociedade. Enquanto a escola for reprodutora dos modelos sociais ela será violenta. Se é isso que nós queremos da sociedade então a escola está funcionando muito bem. O fim da violência na escola depende de um planejamento coerente, baseado numa avaliação de ações. A escola, como modelo social, serve de exercício para a prática da cidadania. O planejamento escolar deveria estar vinculado à resposta da pergunta "que cidadãos queremos formar para a sociedade?". Enquanto não se levar isso em consideração a escola e, por conseqüência, a sociedade serão violentas. A decisão sobre que sociedade queremos está relacionada com a educação e esta deve estar baseada num suporte técnico e uma decisão política.
Pedagogia em Foco: E em relação à função do professor, o que o senhor tem para dizer?
Professor Hilário Hermenegildo: Já disse que os professores são as maiores vítimas da dinâmica do sistema educacional. As violências sofridas pelos professores são imensas. Talvez não exista outra profissão em que o desgaste emocional seja tão grande como a do professor. O professor é a base da "cadeia alimentar" do sistema educacional, a alimentação de todos os "predadores". No ambiente escolar ele está entre os estudantes e o corpo técnico. O corpo técnico faz do professor um mero tarefeiro e os estudantes esperam que os professores os "ensinem" sem que precisem estudar. No ensino superior, com essa concorrência absurda entre as instituições e com a filosofia do "não podemos perder um aluno", os professores são alvos de todos os tipos de agressões que se pode imaginar. O salário é aviltante e, mesmo assim, nem sempre se recebe. Existem instituições do Ensino Superior que estão há anos sem pagar os salários dos professores e, quando estes vão reclamar, recebem a instrução de ir reclamar na justiça. Como reclamar na justiça demora um tempo enorme, os professores acabam por serem obrigados a fazer acordos sempre favoráveis às instituições. Isso os legisladores não vêem. Em relação aos professores, os políticos legislam sempre os deveres, nunca os direitos. Em relação aos direitos, os políticos inventam suas próprias leis e, lá de cima, determinam o que tem que ser feito pelos professores. Uma coisa é o que está escrito, outra coisa é a compreensão do que está escrito. Inventam o sistema de ciclo, por exemplo, não sendo consideradas reprovações nas cinco primeiras séries, mas avaliando o rendimento no final do ciclo. Ninguém entende a proposta, alegando que a "aprovação é automática", e a responsabilidade recai sobre os professores "incompetentes".
A formação do professor tem vários aspectos. Quando se fala na Educação Básica a formação deve ser feita nos cursos de Licenciatura. Esses cursos, no entanto, não formam profissionais professores, mas formam teóricos de teorias exóticas. Os professores saem dos cursos de Licenciatura sem conhecer um método sequer. Sabem, por exemplo, quando e onde Montessori nasceu, sua filosofia, mas não sabem aplicar seu método na prática da escola montessoriana. Com Piaget é a mesma coisa. E tome assimilação, acomodação, equilibração, desequilibração, equilibração majorante, função semiótica etc., mas os futuros professores não sabem como deve ser uma didática baseada na teoria da epistemologia genética. Como a sociedade pode esperar bons professores, no Ensino Básico, formados desta maneira? Os professores não podem ser responsabilizados pela sua má formação, já que é uma questão sistêmica.
No Ensino Superior a situação é mais grave. Pegue-se o exemplo do curso de Direito. Quem são os professores? É o juiz competente, o renomado desembargador, o bom advogado e poucos, ou até mesmo nenhum, passaram por cursos de formação de professores. A quase totalidade destes professores não sabe dizer o que é didática, como se processa a aprendizagem ou quais as possibilidades de avaliação. O mesmo acontece com os cursos na área da saúde e nos das ciências exatas. Como se pode responsabilizar alguém que está lá para "quebrar galho"? O resultado disso nós podemos observar nas avaliações do ensino.
Os aspectos quantitativos estão sendo tão valorizados ultimamente que o professor, cada vez mais, está se tornando um tarefeiro. Se alguns autores dizem que os professores devem ser encantadores e fascinantes, o que está acontecendo na educação é que os estudantes ficam numa postura de espera de receber o conhecimento pronto, sem a necessidade de buscar, eles mesmos, a construção do seu conhecimento. Os professores das instituições particulares de ensino são obrigados a, além da burocracia pertinente à sua função, preparar aula, elaborar provas e corrigi-las, preencher pautas, atas etc., são obrigados a atender às características empreendedoras das instituições, praga que virou moda nas instituições de ensino superior. Nas instituições públicas são obrigados a atender aos desvarios dos políticos criadores de leis. No final de todo esse processo são acusados como responsáveis pelo fracasso da aprendizagem dos seus alunos.
Criticam-se muito os baixos salários dos professores, mas esse não é o maior mal sofrido por eles. Existem males maiores do que esse. A carga excessiva de tarefas, por exemplo, praticamente anula a possibilidade do exercício da qualidade no seu trabalho. Por outro lado os professores trabalham com grupos totalmente heterogêneos, onde é possível encontrar até mesmo psicopatas irascíveis prontos para provocar situações de conflito incontornáveis. Como a filosofia do ensino particular é a de que "não se pode perder um aluno sequer", a tendência é a de que a solução do conflito termine com a culpabilidade do professor. Com isso, os professores perderam o respeito de que desfrutavam até pouco tempo atrás.
A situação dos professores, hoje, é tão trágica quanto a realidade da educação.
Pedagogia em Foco: O senhor gostaria de dizer alguma coisa para encerrar nossa entrevista?
Professor Hilário Hermenegildo: Eu queria dizer que eu acredito na educação como principal instrumento de libertação humana, embora reconheça que a questão da liberdade mereça uma abordagem mais aprofundada. Eu entendo como libertação humana a possibilidade de qualquer um viver uma vida satisfatória. Montessori fala de liberdade responsável e é esse princípio que deve ser ministrado como prática da educação. A grande função do sistema de ensino é criar uma consciência de cidadania. A própria legislação faz referência a isso. A solução da relação humana se resume à questão do respeito. O dia em que todos respeitarem a todos, a vida, seja de quem for, estará salva. Eu acredito nos objetivos da educação quando voltados para o desenvolvimento humano. Eu acredito na educação; não esta que está aí, servindo a interesses poucos claros, mas na educação que gere bem-estar do indivíduo e da sociedade.
Pedagogia em Foco: Obrigado pela sua gentileza.
Professor Hilário Hermenegildo: Não tem o que agradecer.
Para referência desta página:
BELLO, José Luiz de Paiva. Entrevista com o pedagogo Professor Hilário Hermenegildo. Pedagogia em Foco, Rio de Janeiro, 2008.
Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/ent01.htm>. Acesso em: dia mes ano.