FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO



Marte!
E nós aqui; na Terra...


José Luiz de Paiva Bello
Rio de Janeiro, 1998.

 


Mars Pathfinder


      Navegava pela Internet quando entrei no "site" da NASA (http://www.mars.jpl.nasa.gov/default.html) que me levou, nada mais, nada menos, do que ao planeta Marte. Lá pude fazer o trajeto do jipinho (se é que ele pode ser chamado assim) Mars Pathfinder. Fantástico! Mil vezes fantástico! Do meu computador, localizado num pequeno ponto do planeta Terra, pude passear pela paisagem árida de Marte.


Paisagem marciana


      Parecia mentira. Lembro que quando tinha lá meus vinte anos, olhos pregados na televisão, vi o homem descer na Lua. Minha avó, também entretida, comentou: "Eu não acredito nisso." A incredulidade de minha avó era compreensível. É difícil aceitar que a inteligência humana tenha se desenvolvido a tal ponto para mandar homens pisarem em solo lunar. O que era ficção nos livros de Julio Verne tornou-se realidade. O que fazia parte da imaginação humana estava lá concretizada no monitor do meu computador: o ser humano no deserto de Marte, mesmo que ainda através de uma parafernália tecnológica.
      Bem, então corta! Voltamos à Terra. A fabulosa aventura dos seres humanos mandarem um jipinho ao planeta Marte já está registrada na história e faz parte do passado. De lá até os dias de hoje a tecnologia espacial já evoluiu.
      E a tecnologia educacional? Quando penso que a aula expositiva tem sua origem há quase cinco mil anos, fico pensando: se a tecnologia humana evoluiu tanto, por que os métodos pedagógicos, no seu aspecto prático, custam a evoluir?
      O professor Lauro de Oliveira Lima (1975a) nos lembra que na medicina, quando há uma nova descoberta em qualquer parte do mundo, logo todos os países passam a adotar os novos procedimentos descobertos. O mesmo não acontece com a educação.
      A característica mais comum de didática aplicada nas escolas, a aula expositiva, é a forma com que os antigos filósofos gregos passavam para seus discípulos analfabetos o que elaboravam em seu pensamento ou liam nos pergaminhos. Não haveria outra possibilidade de ministrar uma aula já que a aquisição da leitura era um privilégio de poucos (LIMA, 1975b).
      Hoje uma aula expositiva tem três interpretações:

            - em primeiro lugar é uma agressão e um acinte a inteligência dos alunos, já que o que os professores aprenderam para poder "ensinar", através da aula expositiva, poderia também ser aprendido pelos alunos através da pesquisa e da leitura;

            - em segundo lugar a aula expositiva é a negação do uso da biblioteca, local que deveria ser o mais freqüentado numa instituição de ensino e,

            - por fim, a aula expositiva é a prova da ignorância dos mestres nos métodos de apoio ao ensino e na aplicação dos recursos didáticos disponíveis para a educação.

      Com a evolução da informática estamos começando a ter contato com um novo tipo de educação a distância: a aula via Internet. Esta nova maneira de se ministrar educação muda radicalmente a característica do professor. Aquele professor que insistir em ensinar, ao invés de ajudar o aluno a aprender, estará condenado ao fracasso. Algumas pesquisas indicam que os professores, seja por que motivo for, não têm o hábito da leitura. Talvez por isso reajam tanto quando se fala em novos métodos na educação.
      O avanço tecnológico da educação tem que ser entendido concomitantemente ao avanço teórico da pedagogia. Não se pode mais falar de educação pré-piagetianamente. Ou falar de educação sem conhecer Montessori, Paulo Freire, Freinet e tantos outros educadores que se fazem críticos daquela educação tida como tradicional.
      A educação mudou. O que falta agora é que os professores consigam mudar-se com o que os novos métodos e técnicas propõem como uma nova pedagogia.
      Na minha concepção a aula expositiva está condenada à morte, assim como os seres humanos estão condenados a pisarem no planeta Marte.



 



Referências:

LIMA, Lauro de Oliveira. Mutações em educação segundo McLuhan. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 1975a. 64 p.

________ . O "enfant sauvage" de Illich e a sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1975b.


 



Para referência desta página:
BELLO, José Luiz de Paiva. Marte! E nós aqui; na Terra.... Pedagogia em Foco, Rio de Janeiro, 1998.
Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos03.htm>. Acesso em: dia mes ano.