FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO


 



Poder e aprendizagem:
uma breve análise das relações entre aluno e professor


 


Mylín Samaniego Luque
Úrsula Férras Peçanha,
estudantes dos cursos de Letras e História da UFRJ.
Rio de Janeiro, 1998.

 


 


Servir, ao invés de ajudar, é, de certa forma,
lesar o indivíduo na sua conquista pelo desenvolvimento.

Maria Montessori

 



      Introdução:
      Este trabalho se concentra nas relações entre alunos e um tipo de professor comum de ser encontrado nas escolas: o professor-controlador. Com base no estudo do livro "Autoridade do professor: meta, mito ou nada disso?", de Lúcia Maria Teixeira Furlani, levantamos uma questão em torno do fato de que, embora os objetivos pedagógicos deste professor seja levar o aluno a se tornar um indivíduo autônomo e criativo no processo de construção do conhecimento, seus métodos de trabalho o levam a tolhir do aluno o seu potencial de criatividade e autonomia.
      O tipo de professor-controlador não consegue levar o aluno a desenvolver seu potencial de criatividade e autonomia, pois sobre este professor pesam fatores determinantes como salário, a formação, as múltiplas funções, a burocracia escolar, o currículo, os especialistas, a atualização e as ideologias, que, em seu conjunto, o sobrecarregam fazendo com que o mesmo se utilize de métodos de disciplinamentos dos alunos e desta forma, desvia o professor de seu objetivo inicial. Ao alcançar tal objetivo, o professor promoveria a formação de um aluno que representaria mais uma sobrecarga ao seu trabalho.


      Desenvolvimento:
      1) O poder
      2) As relações de autoridade
      3) Os fatores determinantes no comportamento do professor
      4) A visão do aluno
      5) A aprendizagem
      Conclusão



      1) O poder
      Primeiramente, achamos conveniente fazer uma rápida análise sobre o significado do conceito de poder para ter a compreensão das relações entre professor e aluno.
      Para uma grande parte dos cientistas sociais, o poder é a capacidade de um agente em produzir determinados efeitos, sendo uma decorrência da relação social entre indivíduos, grupos ou organizações onde uma das partes controla a outra.
      Na definição de poder existe um destaque também para a indeterminação dos efeitos produzidos, o controle exercido ou a obediência obtida são muito variáveis.
      Segundo Foucault o poder não existe, o que existe são práticas ou relações de poder. O poder é algo que se exerce, que se efetua, que funciona; ele não pode ser explicado inteiramente quando se deseja caracterizá-lo por sua função repressiva.
      "O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente porque ele não pesa como uma força que diz não, mas que de fato permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir" (FOUCAULT apud FURLANI, 1991: 18).


      2) As relações de autoridade
      Para o nosso trabalho é válida a observação da relação de autoridade entre um tipo de professor-controlador ou seja, que mantém com os alunos uma relação que se baseia na desigualdade. Este professor manda e deixa claro ao aluno que se não obedecer sofrerá sanções. Isto gera um clima emocional de conflito, hostilidade, ressentimento ou inferioridade, mas por outro lado também pode gerar uma autonomia e uma coragem moral da parte do aluno.

Poder
Autoridade como reprodução
da hierarquia escolar e social.
Posição hierárquica.
Desigualdade no exercício do poder.
Ocultação do exercício do poder.
Modelos autoritários no relacionamento
com os alunos: o professor como informador,
controlador e classificador do produto do aluno.
Função: garantir a eficácia do objetivo
de manutenção da desigualdade de poder.
Sistemas de normas externas ao grupo.
(FURLANI, 1991: 26-27)


 


      3) Os fatores determinantes no comportamento do professor:
      Separamos uma crônica interessante para ilustrar a conduta do professor na comunidade escolar:


      "Carbono para planejamento


      - Alô, é da casa da D. Mariazinha?
      - Sim,. com quem deseja falar?
      - Com a própria. Aqui é Carmen, lá da mesma escola onde ela trabalha.
      - Pode falar Carmen, aqui quem fala é Mariazinha.
      - Mas que ótimo te pegar em casa. É sobre o maldito planejamento do ensino. Eu nem sei por onde começar e o meu diretor quer essa coisa para amanhã cedo.
      - Olha: pegue o mesmo do ano passado. Muda uma ou duas sentenças e entregue. Todo mundo faz isso.
      Só que eu comecei a lecionar este ano, sabe? E a outra professora que eu substituí nem tinha plano. Dá pra você me ajudar?
      - Eu aqui em casa só tenho a minha cópia carbono. Acho que ela não dá xerox - está meio apagada...
      - Cópia carbono?
      - Lá na escola quem faz o plano é a D. Chiquita. Ela datilografa as cópias com carbono para facilitar. Imagine se eu vou perder tempo com isso. O diretor nem verifica: ele pega, dá uma olhada por cima e tranca na gaveta.
      - É mesmo é? E você tem por acaso o telefone da Chiquita? Vou entrar nessa também!
      - Deixa eu ver... Aqui está: 23-8166. Só que ela cobra, viu?
      - Cobra? Quanto?
      - Serviço profissional, minha filha! Ou você acha que a colega ia trabalhar de graça? Já basta a exploração do governo. E com essa inflação, não sei o preço atual do plano. Mas vale, viu? Vem com capa e bem datilografado. Máquina elétrica e tudo... Nem precisa revisar...
      - Obrigado pela recomendação. Vou ligar agora mesmo para casa dela pra encomendar. Um abração, tá!
      - Só mais um conselho antes de desligar: guarde uma cópia com você. Assim no ano que vem você não precisa tirar dinheiro do bolso de novo. É isso aí, tchau!
" (SILVA, 1996: 35-36).



      SALÁRIO - CURRÍCULO - ATUALIZAÇÃO
      FORMAÇÃO - ESPECIALISTAS - IDEOLOGIA
      MÚLTIPLAS FUNÇÕES
      BUROCRACIA ESCOLAR
            


      4) A visão do aluno
      E o aluno? Qual a sua visão do professor e do ensino?
      Para responder a esta pergunta trazemos a redação de uma aluna de uma turma de 2a série do 2o grau, de uma escola de Campinas, no Estado de São Paulo:


      "A escola nos dias de hoje


      Pipipi... Pipipi.
      - Me chamo Maria, acordei agora para mais um belo dia. Bebo um café com um cigarro, pego o ônibus.
      Agora estou na escola sentada em minha cadeira; ele entra, diz bom dia para nós. Ele não tem cara de 'bom-dia', usa um avental branco, tem uma perna e um braço mais comprido que os outros, carrega uma mala preta retangular de couro e em dias de prova a coloca em cima da mesa na sua frente e espia por trás dela para ver se algum aluno está colando. No ano passado, setenta por cento de seus alunos ficaram de recuperação. Talvez alguém o veja como um professor rigoroso; para mim e para os outros, ele e seus ensinamentos são como uma comida estragada que deve ser deglutida, para logo em seguida (quando ninguém está olhando) ser vomitada.
      Converso comigo: 'Maria, não dorme não; mas é difícil, ele é meu melhor sonífero'.
      Triiim... Bate o sinal, acordo, ela entra.
      - Abram o livro na página 23 a 30 e façam os exercícios.
      Penso que ela deve se achar muito bela, para tanto lixar unha e pentear cabelo.
      Triiim... Outra 'ela' entra em cena. Dizem que ela é esclerosada e não devia mais dar aulas. Um dia um aluno comentou com outro professor a idéia de fazer um movimento e tirá-la da escola, este professor falou-nos para não fazermos nada porque é desgastante e ninguém faz nada.
      Triim... Ah! Finalmente uma 'ela' interessante, esta não dá sono e trabalha a matéria de forma que me seja inútil. Faltou um professor, não vou assistir a última aula. É que me despeço dessa história escolar
" (A.R. apud SILVA, 1996: 32-33).


      A relação entre trabalho pedagógico e o destino do aluno coloca para o professor diversas questões filosóficas e políticas revela a impossibilidade da neutralidade no espaço do magistério.
      Pedagogias que servem ao capitalismo tentam arrefecer essa dimensão filosófica e política do trabalho pedagógico, instituindo o conformismo ou mascarando as contradições existentes na sociedade de classes, atribuindo ao professor o papel de guardião do sistema capitalista...


      5) A aprendizagem
      Nesse processo o aluno constrói o seu conhecimento sozinho, sem trocar com o grupo e com isso ele se habitua a este tipo de comportamento, ou seja, o de trabalhar isoladamente, levando esta conduta para sua prática profissional.


      Conclusão
      Tentamos neste trabalho analisar os processos em que a relação autoritária do professor com o aluno representa uma barreira que impede este de desenvolver o seu potencial de criatividade e autonomia, sendo deste forma reprimido pelos diversos métodos utilizados pelos professores-controladores. Cabe aos futuros professores atuarem junto aos seus alunos de uma maneira auxiliar: sugerindo, estimulando, cooperando, mas não decidindo, incutindo nestes o espírito de equipe e a capacidade de troca com diferentes indivíduos.



      Referências:


LIMA, Lauro de Oliveira. Mutações em educação segundo McLuhan. 11. ed. Pretrópolis: Vozes, 1978.

FREIRE, Paulo; SCHOR, Ira. Medo e ousadia: o cotidiano do professor. 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

FURLANI, Lúcia Maria Teixeira. Autoridade do professor: meta, mito ou nada disso? 3. ed. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1991.

SILVA, Ezequiel Theodoro da. Magistério e mediocridade. 3. ed. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1996.
 



Para referência desta página:
LUQUE, Mylín Samaniego; PEÇANHA, Úrsula Férras. Poder e aprendizagem: uma breve análise das relações entre aluno e professor In.: BELLO, José Luiz de Paiva. Pedagogia em Foco, Rio de Janeiro, 1998.
Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos04.htm>. Acesso em: dia mes ano.