FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO


 



QUALIDADE NAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO


                                                                        Denise Schulthais dos Anjos Monteiro
                                                                        Marilza Rodrigues Sarmento
                                                                        Tânia Maura de Aquino

 


        Trabalho apresentado à disciplina Gestão Democrática, ministrada pela professora Lucia de Fátima Assis Rocha, no 6º período C, do curso de Pedagogia da FACULDADE DE EDUCAÇÃO E COMUNICAÇÃO SOCIAL - FAESA.
        Vitória, 2000.
 


        (Texto publicado com autorização das alunas.)
 


        Aos professores e colegas
        que enriqueceram o nosso trabalho
        contribuindo com suas opiniões,
        os nossos sinceros agradecimentos.
 


INTRODUÇÃO
        A globalização que aí se apresenta torna evidente que todo o mundo passa por transformações, e que a escola não pode ficar alheia a uma série de acontecimentos diários, uma vez que a sociedade torna-se cada vez mais exigente quanto ao perfil do homem moderno.
        O mundo moderno diluiu os limites divisórios do mundo humano. Os anúncios de rua, as imagens de televisão, a navegação pela Internet, as manchetes dos jornais, as telenovelas, os temas das canções e a moda dos ídolos invadem nosso mundo cultural, diminuindo a distância entre os povos.
         Para que a nova geração possa ter seu rumo definido e visão clara da realidade, precisamos, a partir da escola, dar os passos concretos para melhor ensinar a pensar, desenvolvendo o senso crítico e resgatando os valores que os tornam cidadãos competentes e adequados ao seu meio.
        Tornou-se muito freqüente o discurso acerca da qualidade, em todos os setores da vida humana. Na educação, é preciso entender que a mudança começa a acontecer de dentro para fora. Nenhuma mudança significativa acontecerá, se não passar pelos caminhos da educação. Educar é ensinar a pensar, e não reproduzir conteúdos.
        Se pretendermos fazer valer a educação, a escola deverá ser, não um reduto de cultura transformado pela sociedade, mas sim um espaço aberto e atuante, capaz de se posicionar como um agente transformador da sociedade.
        Nossa pesquisa foi realizada tendo por base a literatura existente sobre o tema "Qualidade" e expandiu-se para a fala de educadores e educandos, pois os consideramos os mais importantes envolvidos em todo esse processo.


O PARADÍGMA DA QUALIDADE TOTAL
        Esse modelo é composto por um conjunto de princípios e propõe uma visão holística, integrada e globalizadora.
        Ramos, (1994) vislumbrou quatro focos: O primeiro, orientado para as pessoas. Nesse ponto ela menciona a qualidade humana para todos os profissionais que direta ou indiretamente atuam no processo educacional. O segundo foco está voltado para os processos. Diz respeito a qualidade funcional das atividades técnicas, pedagógicas e administrativas de cada setor da escola.
        Outro foco vislumbrado pela autora é orientado para as ferramentas. Ela considera importante a Qualidade técnica dos instrumentos e das metodologias empregadas. O quarto foco diz respeito aos grupos. É a Qualidade coletiva das equipes que efetivam o trabalho de forma solidária.
        Ramos afirma que a Qualidade total é o ponto de convergência desses quatro focos.
        Três aspectos são relevantes quando se trata da cultura da melhoria contínua dos processos: a Qualidade dos Processos, os Processos e as pessoas e a melhoria das Atividades da Escola.
        A vinculação direta entre a Qualidade e os Processos desenvolvidos em uma instituição permite verificar que a maioria dos problemas é decorrente da forma de realização das atividades. Portanto, deve ser dado ênfase a percepção de como o trabalho é realizado. Apontar culpados não deve ser a preocupação, mas esta deve voltar-se para buscar as causas.
        Ramos cita Scholter, que enfatiza a necessidade de aperfeiçoar a rotina de trabalho. É óbvio que o resultado final depende diretamente de como as atividades acorreram no dia-a-dia. Para Scholter, deve-se partir do sistema atual e aperfeiçoá-lo, planejando cuidadosamente e implementando a inovação.
        O segundo aspecto relevante é a relação entre o Processo e as pessoas. Pode-se afirmar, que o sucesso depende exclusivamente dos indivíduos envolvidos. Portanto, é essencial desenvolver o conhecimento e a competência das pessoas, bem como o seu comprometimento em termos de vontade e determinação. Trata-se de oportunizar a pessoa a utilizar plenamente suas capacidades.
        Nesse envolvimento com as pessoas, existem algumas vantagens colhidas, quando se possibilita que cada indivíduo se sinta responsável pelo processo que executa. O estímulo ao trabalho em grupo também é vantajoso, devido a união das competências e forças para melhoria do serviço. Além da construção de alianças entre os profissionais de um mesmo setor ou de diferentes departamentos.
        O terceiro aspecto – A melhoria Contínua das Atividades da Escola – enfatiza o movimento permanente de repensar e revisar o trabalho.
        A construção da melhoria das atividades é permanente em busca de novos patamares. Os critérios padrões (indicadores) definidos para "O Prêmio Nacional de Qualidade" (Brasil), permitem avaliar a escola, e a partir dessa avaliação, transformá-la em uma Escola de Qualidade Total.


PREMIO NACIONAL DA QUALIDADE- BRASIL
CATEGORIAS E ITENS DE AVALIAÇÃO
PONTUAÇÃO MÁXIMA
1. LIDERANÇA
100
1.1. Liderança de alta direção
40
1.2. Valores da empresa quanto à Qualidade
15
1.3. Gestão para a Qualidade
25
1.4. Responsabilidade comunitária
20
2. INFORMAÇÕES E ANÁLISE
70
2.1. Abrangência e gestão de dados e das informações sobre Qualidade
20
2.2. Comparações com a concorrência e referenciais de excelência
30
2.3. Análise de dados e informações sobre Qualidade
20
3. PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO PARA A QUALIDADE
60
3.1. Processo de planejamento estratégico para a Qualidade
35
3.2. Metas e planos para a Qualidade
25
4. UTILIZAÇÃO DE RECURSOS HUMANOS
150
4.1. Gestão de recursos humanos
20
4.2. Envolvimento dos funcionários
40
4.3. Educação e treinamento em Qualidade
40
4.4. Reconhecimento e medição do desempenho dos funcionários
25
4.5. Bem –Estar e moral dos funcionários
25
5. GARANTIA DE QUALIDADE DOS PRODUTOS E SERVIÇOS
140
5.1. Projeto e introdução no mercado de produtos e serviços
35
5.2. Controle da Qualidade de processos
20
5.3. Melhoria contínua de processos
20
5.4. Avaliação da Qualidade
15
5.5. Documentação
10
5.6. Qualidade do processo, do negócio e dos serviços de apoio
20
5.7. Qualidade dos fornecedores
20
6. RESULTADOS OBTIDOS QUANTO À QUALIDADE
180
6.1. Resultados obtidos quanto à Qualidade de produtos e serviços
90
6.2. Resultados obtidos quanto à Qualidade no processo do negócio, operações e serviços de apoio
50
6.3. Resultados obtidos quanto à Qualidade de fornecedores
40
7. SATISFAÇÃO DO CLIENTE
300
7.1. Determinação dos requesitos e das expectativas do cliente
30
7.2. Gestão do relacionamento com os clientes
50
7.3. Padrões de serviços aos clientes
20
7.4. Compromisso com os clientes
15
7.5. Solução de reclamações objetivando a melhoria da Qualidade
25
7.6. Determinação da satisfação do cliente
20
7.7. Resultados relativos à satisfação dos clientes
70
7.8. Comparação da satisfação dos clientes
70
TOTAL DE PONTOS
1000

Fonte: Ramos, 1994: p. 253.


        Bello (2000), faz severas críticas a avaliação proposta pelo MEC. Para ele, esse é mais um equívoco da política educacional, quando analisa que a avaliação está interessada em avaliar os procedimentos e não o resultado final. Ele faz uma série de questionamentos:

        "(...) que adianta o MEC examinar os procedimentos se o produto é ruim? Será que um percentual pré-estabelecido de professores com cursos de Mestrado e Doutorado garante qualidade? Será que uma biblioteca grande e com uma quantidade considerável de material garante qualidade? Será que o resultado de um exame, conhecido como 'provão', garante qualidade? Na minha opinião avaliar os meios e não os fins é uma maneira de impingir aos meios um conceito equivocado de qualidade" (BELLO, 2000).

        Bello analisa a universidade enquanto centro de produção de conhecimento. Em resumo, segundo ele, a universidade tem se tornado uma ilha dentro da sociedade, se interessando apenas se a instituição tem uma biblioteca, se os professores tem curso de Mestrado ou Doutorado e se os alunos tiraram boas notas no "Provão".
        Um dos pontos bastante discutidos entre os alunos do curso superior é quanto a autonomia em construir o seu saber. As instituições de ensino recebem severas críticas à falta de apoio aqueles que poderiam ser designados autodidatas. As instituições se prendem à burocratização relegando a segundo plano a capacidade do próprio aluno construir o seu aprendizado.
        Omar Carrasco Delgado (1995) , enfocou a forma como as escolas agem para garantir o resultado positivo nas provas de seus alunos. Segundo ele, o melhor meio para passar nos exames consiste (...) em desenvolver o conformismo, submeter-se, o que é chamado 'ordem' .
        Esse pedagogo ainda acrescenta que "Assim, o docente trabalha com três objetivos bem demarcados na instituição escolar: conformidade ao programa, obtenção da obediência e êxito nos exames" (DELGADO, 1995).
        Aquino – Educadora gaúcha do CEED – Conselho Estadual de Educação, revela que a escola tem que romper com uma série de vícios. E exemplifica citando a organização do horário.
        Ela acrescenta que seria mais produtivo uma aula alicerçada na pesquisa, no projeto, na construção e na busca.
        Bello é outro educador que valoriza a forma livre do aluno buscar o seu conhecimento. Segundo ele, quando o aluno se sente estimulado para a pesquisa, que deveria ser uma característica básica de qualquer Universidade, ele procura qualquer biblioteca, não sendo necessariamente a da sua instituição de ensino.
        Os educandos possuem características e necessidades específicas, que todavia são desconsideradas pelas instituições de ensino, que continuam a seguir o tradicionalismo que impunha severa obrigação quanto à freqüência às aulas e ao cumprimento de uma carga horária presencial. Mais uma vez Aquino cita que a flexibilidade existente na legislação assusta a escola, devido a uma cultura histórica de que alguém precisa dizer o que ela deve fazer.
        A avaliação das instituições pelo critério de titulação do corpo docente, é uma questão bastante discutida e que gera controvérsias entre os estudantes e também divide a opinião dos educadores.
        Na fala de muitos alunos, a titulação do professor é um dos critérios mais importantes para avaliar uma instituição. Todavia, em proporções idênticas, outros alegam que mais importante que os títulos é a postura e a metodologia aplicada em sala de aula. Bello declara que encontramos nas faculdades de Pedagogia professores de Psicologia preocupados em "ensinar" Freud, Klein, Jung, Reich e não conseguem "ensinar" Piaget. Professores de Filosofia que falam de Platão e Kant, mas desconhecem Paulo Freire, Dewey, Freinet, Comenius e outros.
        Nesse sentido, estão obviamente fazendo aquilo que a proposta do MEC enfoca: o professor depositar uma quantidade de conhecimentos nos alunos e medir no final do período, a quantidade, através do "provão".


QUALIDADE DAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO
        A discussão acerca da qualidade do ensino superior no Brasil iniciou-se em meados da década de 1980. As propostas de avaliação, partiram inicialmente dos pesquisadores e não das instituições de ensino.
        Todavia, foram determinadas algumas iniciativas que visavam a implementação de avaliação para todo o sistema de ensino superior.
        Durante algum tempo, o grau de titulação dos docentes foi o parâmetro mais marcante para a avaliação das instituições. Entretanto, no inicio dos anos 90, algumas instituições privadas deram início à questão, incluindo em seus projetos educacionais o tema melhoria da qualidade.
        Ocorreram vários eventos a fim de discutir essa problemática. Um exemplo foi o 1º Congresso Brasileiro de Qualidade do Ensino Superior, em 1993. Com a regulamentação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação – Lei 9394/96, esse ciclo de eventos encerrou suas atividades.
        Os temas discutidos tendiam a tratar a qualidade dos serviços prestados pelas instituições tendo em vista a relação empresa/cliente. Melhorar a qualidade significava, portanto, buscar estratégias que garantissem a satisfação do cliente-aluno.
        Atualmente, estamos diante de uma realidade onde a competitividade é marcante e por isso aumentou o grau de exigência. Entre os cuidados necessários, está o preparo adequado do individuo para competir em condições de igualdade na sociedade capitalista.
        Hoje existem critérios objetivos para avaliar até que ponto as organizações estão preparadas para enfrentar os desafios do mundo globalizado.
        Os critérios de excelência PNQ – Premio Nacional de Qualidade – proporcionaram a avaliação global de uma instituição, além de permitir o alcance do desempenho e conseqüentemente a melhoria da competitividade, além da ampla troca de informações sobre métodos e técnicas de gestão que alcançaram êxito, uma vez que os critérios são utilizados em âmbito nacional e mundial.
        Por isso, consideramos que diante do estabelecimento de parâmetros, as instituições são norteadas por critérios comuns, o que facilita o alcance de suas metas.
        A criação dos critérios de excelência PNQ se deu através da troca de experiências entre as organizações dos setores públicos e privados. Os referenciais de excelência tem seu equivalente americano na forma da Lei Malcolm Baldridge de Melhoria da Qualidade Nacional de 1987.
        Um termo bastante utilizado nesse contexto é BENCHMARKING – que equivale a um procedimento pelo qual se procura aprender a partir de exemplos externos bem sucedidos. Portanto, o benchmarking possibilita que a instituição tenha um referencial com o melhor. É óbvio que a instituição de ensino tem suas especificidades e, portanto, precisa adaptar soluções encontradas em outras instituições de acordo com a sua realidade. Isso significa, que nem sempre o que dá certo em uma instituição dará certo em outra.
        Tachizawa e Andrade ([19??]) citam que desde a criação da FPNQ – Fundação Premio Nacional de Qualidade – seus critérios de excelência formam uma base consistente para o fortalecimento da competitividade das organizações, porque auxiliam a melhoria das práticas de gestão, do desempenho e da capacidade das organizações.
        Eles citam ainda, que esses critérios facilitam a comunicação e o compartilhamento das melhores práticas em todos os tipos de organizações e que servem como modelo de referencia para melhorar o entendimento e aplicação das práticas de gestão.
        Os critérios foram construídos a partir de valores e conceitos e foram estruturados de forma a auxiliar as organizações a aumentarem sua competitividade através de duas metas:

        · Proporcionar aos clientes um valor crescente que resulte em sucesso na participação no mercado;
        · Aprimorar a capacitação e o desempenho da organização como um todo.

        Para o alcance dessas metas, alguns pressupostos devem ser observados. O primeiro deles diz respeito a qualidade centrada no cliente. Aqui se encontra uma estratégia para preservar a clientela.
        Outro pressuposto a ser considerado é a liderança. A alta direção precisa estar comprometida com o desenvolvimento de todos os funcionários, estimulando a participação e a criatividade.
        Deve-se ainda atentar para a melhoria contínua. Esse Campo refere-se à inovação. Essa melhoria inclui sugestões de todos os funcionários, pesquisa, comparações de desempenho, entre outros fatores.
        A continuidade de propósitos e percepção de longo prazo deve ser outra preocupação. É preciso ter forte orientação para o futuro, e assumir compromissos de longo prazo com todas as partes interessadas.
        Quanto a gestão com orientação para resultados, é necessário perceber que a gestão de uma IES depende de medição, informação e análise. Esse conjunto forma a base do planejamento.
        O desenvolvimento de parcerias implicam na cooperação entre a direção, professores e demais funcionários. É uma estratégia de desenvolvimento dos recursos humanos. As parcerias externas envolvem os fornecedores e outras instituições no relacionamento, que podem ocorrer em forma de convênio.
        Finalmente, a participação e desenvolvimento dos recursos humanos, que diz respeito na necessidade das IESs investirem no desenvolvimento dos seus funcionários, através de educação, treinamento e oportunidades. Nesse ponto, encontram-se o rodízio de funções e a remuneração baseada nas habilidades e criatividade.


DIRETO DA FONTE - FALAM PROFESSORES E ALUNOS DA FAESA
        Alguns professores e estudantes da FAESA – Faculdade de Educação e Comunicação Social contribuíram fornecendo opiniões a respeito da qualidade nas instituições de ensino.
        Propositalmente, essas opiniões surgiram em conversa informal e em momento de descontração.
        O professor Adalvo Paixão citou três critérios nos quais se baseia para definir a qualidade. Ele avalia a instituição enquanto promotora de ensino, pesquisa e extensão. Nesse aspecto cita a importância do professor estar respaldado para tal, tendo em sua carga horária além das horas-aula, o tempo reservado para a pesquisa e extensão.
        Adalvo enfocou a necessidade de envolvimento da comunidade acadêmica com a comunidade externa Esta só tem acesso após o concurso de vestibular, quando passa a integrar o corpo discente. Mas reflete que a postura das instituições tem amadurecido nesse sentido. E citou que existem algumas que já estão buscando essa integração.
        Ainda, segundo Adalvo, devem ser observados os projetos culturais desenvolvidos, como os eventos, palestras, teatros e outras. Ele ressalta a importância da arte. O professor tem que ensinar com arte.
        Quando Adalvo cita que a instituição deve estar devolvendo para a comunidade externa o apoio recebido e envolvê-la no processo, percebe-se semelhança ao pensamento de Bello, que cita existirem casos isolados de atuação junto à comunidade. Bello sugere:

        "Imaginem quando todas as faculdades de Pedagogia, ao invés de 'ensinarem' alfabetização nas salas de aula, estiverem alfabetizando a parcela analfabeta de nossa sociedade. Imaginem quando todas as faculdades de Medicina colocarem seus alunos para atenderem a população pobre, sem direito a cuidados de saúde, ao invés de prendê-los em sala de aula. Imaginem os estudantes de Direito atendendo pessoas sem condições de pagar um advogado para defender seus direitos, ao invés de aprender a fazer petições em sala de aula. Imaginem os estudantes de Engenharia contribuindo na construção de estradas, pontes. Imaginem os estudantes de Arquitetura sugerindo projetos e materiais para a construção de casas populares. Imaginem os estudantes de Odontologia aprendendo através do atendimento às populações pobres. Imaginem a Universidade verdadeiramente em contato com a sociedade, ao invés de se esconderem atrás dos muros desse 'feudo' inatingível" (BELLO, 2000).

        A professora Marluza define três critérios para avaliar a qualidade: Produto, processos e infra-estrutura. Ela coloca esses três no mesmo patamar, embora considere que podem ser avaliados separadamente.
        O produto a que se refere Marluza, é o resultado do trabalho quando o educando conclui o seu curso e passa a agir enquanto profissional.
        O professor Marcos fala da complexidade em analisar a "Qualidade". Ele alerta quanto a especificidade da qualidade em educação – dizendo que avaliar educação não é avaliar empresa. Exemplifica: avaliar qualidade do produto – "parafuso" é fácil, mas avaliar "gente é diferente".
        Ele cita que deve ser levado em conta o contexto. E que um dos critérios normalmente utilizados na educação é quanto ao índice de aprovação e reprovação. Entretanto, a aferição dessa qualidade já pode estar distorcida. Dentro de uma mesma instituição, o noturno e o diurno apresentam condições diferentes para o alcance do sucesso.
        Não escapou ao professor a observação das especificidades das instituições públicas e das particulares, e dos alunos que tem de conciliar trabalho e estudo.
        Diante dessas questões, Marcos questiona: avaliar em que sentido? Em que aspecto? Ele assinala que se fala muito em qualidade sem saber realmente o seu significado. E critica o modismo, segundo ele, muito comum na educação.
        Outro alerta do professor: não se pode medir o nível de conhecimento de uma população pelo nível de escolaridade.
        A professora Dalva se pronunciou a respeito da análise de qualidade das instituições, dizendo levar em conta muitos aspectos, mas enfocou a importância dos conteúdos significativos.
        Conforme Dalva, "se existe o feedback na vida prática do aluno, se o aluno construiu o seu conhecimento e se adquiriu a autonomia de aprendizagem então esse ensino foi de qualidade".
        Para Dalva, a função primeira da escola é instrumentalizar o aluno. É contribuir para que ele adquira a sua autonomia enquanto aprendiz e enquanto cidadão.
        Percebe-se alguns princípios da linha rogeriana na postura da professora. Entretanto, apesar de assumir ser "simpatizante" de Carl Rogers, assinala que tem algumas ressalvas. Em sua concepção, o que procura fazer, é "ensinar o aluno a pescar e não dar o peixe". Assim, o aluno estará buscando com consciência o seu conhecimento, e não permanecerá na dependência do professor.
        A posição de Dalva coincide com o pensamento de Aquino, que diz ser o papel do professor o de dinamizador, e não um elemento respondedor, nem "fazedor" de coisas. Ela menciona que precisamos romper com a escola da cola que funciona assim: o professor lê o texto e cola na sua memória. Na sala de aula, descola o conteúdo verbalmente ou através da escrita. Os alunos ouvem ou lêem e colam na sua memória. Aí o professor que através de um instrumento escrito chamado "prova", pensa avaliar o aluno tem que descolar tudo aquilo que ele "pseudo-ensinou".
        E questiona, assim como Dalva: Qual é o momento em que o aluno busca, através do seu saber, interpretar, entender, reelaborar?
        Aquino não nega que estão acontecendo mudanças na educação. Segundo ela, vivemos hoje a dinâmica da busca: a escola está querendo se recompor, está querendo ser um espaço em reconstrução. O aluno quer e pede essa mudança, assim como os pais e professores.
        O discurso do Governo Federal acerca da qualidade, segundo o professor Omar, é um discurso ideológico. Sendo defensor da escola pública, Omar diz que a mídia contribui para a desvalorização da escola pública, e consequentemente trabalha a favor da escola particular.
         Sobre os critérios para definir a qualidade nas instituições, considera três pontos básicos:

        - Autonomia - mais forte que a parceria;
        - Construção do Projeto Político e Pedagógico – define a participação dos integrantes e a filosofia de tal instituição;
        - Relação escola-comunidade – Qualidade não é uma "receita pronta". Não é um plano de ações burocráticas. Se constrói no cotidiano escolar.

        Omar afirma que o importante não é o controle de qualidade e sim "produzir qualidade". Para isso, é necessário dar espaço para o indivíduo sonhar e crescer enquanto indivíduo. Qualidade é a cumplicidade de respeito ás diferenças.
        Ele ainda acrescenta a importância do comprometimento, dizendo que hoje a sociedade é aberta e que o profissional que não tenha comprometimento não terá sucesso profissional, qualquer que seja a sua área.
        Diante dessa exposição, acreditamos que o comprometimento parte de dentro do indivíduo. Não serão pressões internas que farão o indivíduo integrar-se com afinco e responsabilidade as suas tarefas. O aluno quando comprometido com o saber muitas vezes "foge" as normas estabelecidas pela instituição burocrática.
        Nesse ponto, citamos um grupo de educandos que mostraram-se insatisfeitos quanto à valorização burocrática – freqüência, assiduidade às aulas em detrimento da liberdade de aprender por seus próprios métodos. O nome dos alunos que contribuíram com suas opiniões não serão citados. Participaram 35 alunos dos cursos de Pedagogia e Comunicação do noturno da FAESA.
        Uma das alunas citou que quando está empenhada em um trabalho de grupo, gosta de pesquisar na biblioteca e discutir com os colegas o assunto pesquisado. Entretanto, a obrigação em permanecer na sala de aula tira o incentivo do grupo, que acaba por fazer uma pesquisa de menor qualidade.
        Outro estudante se diz inconformado com a tradicional "chamada" onde o aluno sente-se "obrigado" a permanecer na aula mesmo sabendo que poderia estar produzindo mais e melhor em outras situações. Ele questiona: a qualidade da educação está na produção do aluno ou na quantidade de horas que permaneceu "preso" dentro da sala de aula?
        Os critérios que os alunos dos cursos de Pedagogia e Comunicação elegeram como principais para definir a qualidade de uma instituição foram bastante variados.
        Os mais indicados, entretanto, se referiam à titulação dos professores e condições físicas do prédio. Entretanto, quando provocados a relacionar o bom desempenho do professor com a escolaridade (titulação), os alunos não confirmavam que a competência dependa da titulação do professor.
        Quanto as dependências físicas, o que mais os alunos demonstraram valorizar é o conforto das salas de aula e uma biblioteca que atenda as necessidades dos cursos.
        Algumas alunas – curiosamente essa observação não ocorreu entre os entrevistados do sexo masculino – citaram como fator de entrave para a obtenção da qualidade (no que se refere as aulas) , o retorno de pessoas que durante muito tempo estiveram ausentes da escola após a conclusão do ensino médio, ingressando no curso superior, quinze, vinte anos depois. O argumento utilizado é que esses estudantes freqüentaram a escola quando esta ainda era extremamente tradicional, onde imperava a memorização. Portanto, ao retornar, trazem consigo costumes característicos, como decorar a matéria, falta de argumentos para troca de experiências, visão acrítica da realidade, cultura da obediência e outras mais.


PESQUISA COMPLEMENTAR
        Uma pesquisa realizada pelo professor Zinder (1998), no estado de São Paulo, retrata o pensamento dos alunos sobre a escola que fazemos no dia-a-dia. Foram entrevistados 3026 estudantes de escolas particulares, com idade média entre 16 e 17 anos. A pesquisa revela, nas proporções mencionadas.

É preciso estudar, pois a escola prepara para a vida90%
O que é ensinado deveria ser exemplificado com coisas do dia-a-dia79%
Seria bom ter atividades diferentes, como teatro, dança, etc.79%
É mais fácil prestar atenção quando o professor brinca com a classe74%
A escola me prepara para discutir vários assuntos68%
Há várias matérias que não servem para nada68%
Seria melhor se pudessem opinar na maneira que as aulas são dadas67%
Seria melhor se os estudantes pudessem pensar mais a respeito das coisas, e não que viessem prontas50%


CONCLUSÃO
        A pesquisa proporcionou compreender o quanto é grande o desejo de mudanças na escola. Todos os envolvidos no processo educativo percebem a necessidade de transformar a forma como se processa a prática pedagógica, a fim de garantir a Qualidade nas instituições.
        Entretanto, é visível que a caminhada é longa, e que é preciso saber contornar os obstáculos. É preciso que o grupo de educadores conscientes da importância da educação para a libertação do indivíduo se empenhe a desenvolver em sua sala de aula um trabalho que vise ampliar essa conscientização para seus educandos, e mais que isso, que este não fique só no campo da conscientização, mas que atinja o campo da prática.
        De nada adianta a consciência sem ação. Podemos ter consciência de que todos temos o direito a uma educação de qualidade, podemos ter consciência de que é preciso oferecer uma educação que propicie o indivíduo a transformar a sua realidade, podemos ter consciência de que só uma educação transformadora forma o cidadão crítico e consciente.
        Todavia, só ter consciência não transforma o indivíduo nem a sociedade. Ter consciência de estar doente não cura ninguém.




"Visão sem ação
não passa de um sonho.
Ação sem visão é só um passatempo.
Visão com ação
pode mudar o mundo"

Joel Artur Barter



 


REFERÊNCIAS:
 


AQUINO, Libia Serpa. Escola deve reconstruir e não reproduzir. In: Educação em Revista. n. 13 - [online]. 1998. Disponível em: http//:www.klickeducação.com.br

BELLO, José Luiz de Paiva. Avaliação da Universidade: mais um equívoco da política educacional do MEC . Pedagogia em Foco. Disponível em: http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos07.htm

DELGADO, Omar Carrasco. Construção da cidadania por meio do discurso escolar. Vitória: Ita, 1997.

RAMOS, Cosete. Pedagogia da qualidade total. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1994.

TACHIZAWA, Takeshy, ANDRADE, Rui Otávio Bernardes. Princípios de qualidade aplicáveis a uma instituição de ensino. Cap.13. In: Gestão das Instituições de Ensino. São Paulo, Fundação Getúlio Vargas. [19??].


 



Para referência desta página:
MONTEIRO, Denise Schulthais dos Anjos, SARMENTO, Marilza Rodrigues, AQUINO, Tânia Maura de. Qualidade nas instituições de ensino. In.: BELLO, José Luiz de Paiva. Pedagogia em Foco, Rio de Janeiro, 2001.
Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos10.htm>. Acesso em: dia mes ano.