OI, MESTRES! VALEU!
DIÁLOGOS SOBRE EDUCAÇÃO,
AVALIAÇÃO DA UNIVERSIDADE,
DIDÁTICA, SENSIBILIDADE E ESPERANÇA
Claudionor Delgado do Nascimento
Rosmarie Weigel Rotermund
Rio de Janeiro, outubro, 2001.
1 - INTRODUÇÃO
Este trabalho se concentra em alguns dos principais temas abordados durante as disciplinas: Fundamentos Biológicos da Educação, Fundamentos Psicológicos da Educação e Dinâmica de Grupo.
Despretensiosamente inspirado nos diálogos platônicos, nos livros "O Primeiro Homem" de Albert Camus e "Minhas Universidades" de Máximo Gorki e nos textos do pedagogo José Luiz de Paiva Bello, tem por objetivo exercitar a criatividade e transmitir uma mensagem de amor e sensibilidade na escola, para gerações de professores que vivem sob a expectativa de uma 3a guerra mundial.
2 - DIÁLOGOS
MAURY - Cara ! Que polêmica ! O que é o ser humano ! Como podemos ser tão divergentes ?
CLAUDIO - E o tema da aula era "acoplamento estrutural" ...
ANNA - (dirigindo-se para Claudio ) Cheguei atrasada, mas fiquei curiosa com um ponto : quem é esse tal de BELLO que você citou durante o debate ?
CLAUDIO - Não sei bem ainda. É um pedagogo. Li uns textos dele que estavam na internet. As suas opiniões dão caldo para muitos debates!
MAURY - Opiniões sobre o que ?
CLAUDIO - Bem, li alguns textos sobre : o equívoco da política de avaliação da Universidade aplicado pelo MEC, sobre o professor e a didática e também uma crítica / proposta de pós-graduação em educação.
ANNA - Mas sobre o que propriamente ele é contra ? Você está fazendo um mistério ! Ou tá enrolando a gente ?
CLAUDIO - Não estou enrolando não ! É que é muita coisa !
MAURY - Então fala só sobre uma, ora vejam ! Onde está sua didática, professor ?
CLAUDIO - Tá bom . Achei muito corajoso e honesto o que ele pensa sobre a avaliação do MEC, o "provão ".
ANNA - Explica melhor . . .
CLAUDIO - Bem. É o seguinte. Ele considera um equívoco o MEC avaliar os procedimentos, os meios, como exemplo: biblioteca com número x de livros, o percentual de professores com mestrado / doutorado e o "provão" , sem se preocupar com os resultados finais. Os alunos serão bons profissionais nas suas áreas de atuação ?
MAURY - Mas pelo menos o MEC está tentando. Se os procedimentos estiverem corretos o resultado final será bom.
CLAUDIO - Nem sempre. O BELLO dá o exemplo de uma fábrica de parafusos. Digamos que a fábrica tenha um padrão de procedimentos excelente, mas o produto final entorta, quebra, enferruja e tem dificuldades para entrar na superfície.
ANNA - Mas tem o "provão" !
CLAUDIO - O "provão" tem uma história pitoresca. O BELLO cita um conceito de PAULO FREIRE. É a "educação bancária" . O professor deposita uma determinada quantidade de conhecimentos nos alunos e tira no final do período através da prova. Conclusão : a "prova" não prova o conhecimento do aluno ; apenas mede o que o aluno decorou.
MAURY - tenho minhas dúvidas quanto a essas críticas, afinal, o nível do corpo docente vai melhorar muito com o percentual de mestres e doutores exigidos e assim, os alunos vão aproveitar melhor as aulas.
CLAUDIO - Isso vai depender muito. Se o professor não tiver boa didática, como é que fica ? Esse cara aí, o BELLO, diz que não adianta o professor ter cursos e mais cursos de pós-graduação se sua postura em sala de aula é arrogante, autoritária e insensível com os alunos. E ele manda outra : a educação talvez seja a única atividade em que o trabalhador pode não se preocupar com a responsabilidade pelo resultado do seu trabalho.
ANNA - Pode crer ! Mestrado é perseverança. A criatividade, em poucos momentos é testada, estimulada ou aproveitada.
MAURY - Falando assim, até parece que mesmo com um diploma de "doutor " nas mãos, um ou outro indivíduo pode estar muito próximo da imbecilidade !
CLAUDIO - É mais ou menos isso que o BELLO fala nos seus textos. Concordo e se quiserem cito casos que já testemunhei. Sabe de uma coisa ? Podemos dizer que os processos didáticos são esquecidos por
muitos professores no 3o grau. Nota-se que quanto mais elevado o nível de ensino, menos didática é aplicada em sala de aula.
ANNA - É preciso que se estipulem pesquisas que tentem analisar o desempenho dos professores. Esclarecer a eficácia do exercício profissional. Sem essa de que altos índices de reprovação são ou porque o professor é "durão" ou então "os alunos não querem nada" .
MAURY - Como o PAULÃO ( Paulo Freire ) já dizia : "não se pode falar de educação sem amor" .
CLAUDIO - Nós temos um bom exemplo disso com os nossos mestres, nas aulas de hoje : Celso, Angela e Cristie.
ANNA - Pois é. Educação deveria ser um processo de alegria de viver. A escola, uma fonte de prazer.
MAURY - E muitos ainda querem transformar a escola num circo de terror, com provas neurotizantes, presenças impostas, repreensões sem motivo, reprovações injustificáveis etc. etc.....
ANNA - Estou lendo um livro onde alguns trechos tem muito a haver com o que conversávamos : "O Primeiro Homem " de Albert Camus. Olha a carta que o Camus mandou para o seu professor lá do curso primário, assim que foi premiado com o Nobel de literatura, em 1957:
MAURY - Tá chorando, Claudio !
CLAUDIO - Claro ! Esta carta é pura emoção. Um ícone do amor e da sensibilidade na educação.
ANNA - Esse Monsieur Germain precisava ser clonado e espalhado pelo mundo.
CLAUDIO - Aí pessoal, vamos nessa !
CENÁRIO - Alguns colegas da Pós-Graduação em Docência Superior se encontram no Café do Candinho ao término de mais um sábado de aula.
Maury, Claudio e Anna estão sentados à mesa enquanto comem pão de queijo com café e trocam idéias.
De que adianta o MEC examinar os procedimentos se o produto final é ruim ?
Caro Monsieur Germain,
Deixei que passasse um pouco o movimento que me envolveu todos esses dias antes de vir falar-lhe de coração aberto. Acaba de me ser feita uma grande honra que não busquei , nem solicitei. Mas quando eu soube da novidade, meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para você.
Sem você, sem essa mão afetuosa que você estendeu ao menino pobre que eu era, sem seu ensino, sem seu exemplo, nada disso teria acontecido. Eu não faço questão dessa espécie de honra. Mas essa é ao menos uma ocasião para dizer-lhe o que você foi e é para mim, e para assegurar-lhe que
os seus esforços , o seu trabalho e o coração generoso que você coloca em tudo que faz, sempre de maneira viva em relação a um de seus pequenos discípulos que, não obstante a idade, não cessou jamais de ser seu aluno reconhecido. Eu o abraço com todas as minhas forças.
E vamos também pensar com carinho sobre nossos discípulos que são também nossos mestres.
3 - CONCLUSÃO
Tocamos em questões essenciais para o futuro da educação superior no Brasil, como critérios de avaliação das Instituições de Ensino Superior (IES) utilizados pelo MEC, didática e qualidade dos professores de 3o grau e amor e sensibilidade na educação. Talvez sendo este último, o ponto mais importante entre tantos problemas que envolvem a qualidade do ensino e que tem relação direta com um século que se inicia de forma tão tumultuada.
Baseados na análise da Declaração Mundial Sobre a Educação Superior para o Século XXI, observamos que a principal missão das IES , atualmente, é educar cidadãos , desenvolvendo função crítica na busca da verdade e da justiça empregando rigor ético e científico, contando com liberdade acadêmica que preserve sua autonomia.
A educação deve ser considerada um bem público, com adequação entre o que as instituições fazem e as expectativas da sociedade.
Será que os critérios de avaliação aplicados nas IES pelo MEC facilitam a preservação da autonomia e liberdade acadêmica ?
Os padrões cartesianos empregados, estimulam a interdisciplinaridade tão necessária para o desenvolvimento do pensamento independente e crítico ?
Enquanto produtora de um bem público , as IES estão satisfazendo as expectativas sociais ?
Infelizmente, observamos as IES cada vez mais fechadas em seus muros, isoladas da realidade social e preocupadas em cumprir exigências de avaliação, com seus professores tentando manter a relação de dominação gerada pelo saber.
A sensibilidade para o "outro" está sendo esquecida por muitos. Não se pode considerar como educado, aquele que não desenvolveu a sensibilidade e o amor para com os seus semelhantes.
4 - BIBLIOGRAFIA
BELLO, J.L.P.. Avaliação da Universidade: mais um equívoco da política educacional do MEC. Pedagogia em Foco. Disponível em: htp://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos07.htm. Acesso em: 20 set. 2001.
BELLO, J.L.P.. Pós-graduação em educação: uma crítica e uma proposta. Pedagogia em Foco. Disponível em: htp://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos06.htm. Acesso em: 20 set. 2001.
BELLO, J.L.P.. Didática , Professor ! Didática ! Pedagogia em Foco. Disponível em: htp://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos02.htm. Acesso em: 20 set. 2001.
CAMUS, Albert. O primeiro homem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1998. ISBN 85-209-0581-1.
LUQUE, M.S., PEÇANHA, U.F.. Poder e aprendizagem: uma breve análise das relações entre aluno e professor. Pedagogia em Foco. Disponível em: htp://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos03.htm. Acesso em: 15 set. 2001.
MONTEIRO, D.A., SARMENTO, M.R. , AQUINO, T.M. . Qualidade nas instituições de ensino. Pedagogia em Foco. Disponível em: htp://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos04.htm. Acesso em: 12 set. 2001.
REIS, E.S.. Projeto político pedagógico: moda, exigência ou tomada de consciência? Disponível em: htp://members.tripod.com/pedagogia/projetopolíticopedagógico.htm. Acesso em: 08 set. 2001.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS. Síntese da Declaração Mundial Sobre Educação Superior para o século XXI. Disponível em:
htp://www.ufscar.com.br/declaração.htm. Acesso em: 20 set. 2001
Para referência desta página:
NASCIMENTO, C. D., ROTERMUND, R. W.. Oi, mestres! Valeu! Diálogos sobre educação, avaliação da universidade, didática, sensibilidade e esperança. Pedagogia em Foco, Rio de Janeiro, 2001.
Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos16.htm>. Acesso em: dia mes ano.