Considero uma das piores coisas da educação, nos cursos superiores, o problema da avaliação. Fico indignado em ter que "dar" notas para um estudante que concluiu o semestre, após cumprir todas as etapas de trabalho propostas pelo professor.
Sem querer ser repetitivo, e sendo, não consigo ver uma lógica em dar uma nota 7 a um estudante. Se esse 7 representasse que ele aprendeu 70% do conteúdo da disciplina, tudo bem. Mas não é assim. Nas disciplinas de conteúdo ainda podemos "fingir" que o processo se dá assim. Mas nas disciplinas de orientação, como nas de estágio, monografia etc., os critérios são os mais malucos e ilógicos possíveis. Nestas, a partir do meu entendimento, ou os estudantes cumpriram as metas propostas, ou não. Não existe meio termo. Mas os critérios e as exigências das instituições de ensino nos obrigam a "dar" uma nota.
Professor Gadotti diz que, nos cursos superiores, deveriam existir apenas dois tipos de conceitos: aprovado ou reprovado. Ou o estudante tem condições de continuar seus estudos ou não. E os critérios de avaliação não podem se prender às medidas objetivas, mas também, e principalmente, às subjetivas, como participação em sala de aula, interesse, assiduidade, cumprimento das tarefas, senso de responsabilidade, criatividade etc.
Já o professor Lauro de Oliveira Lima diz que esses dois conceitos deveriam ser o 0 (zero) ou 10 (dez), sendo que aqueles que receberam um zero ainda teriam a oportunidade de se recuperar.
Apesar de minha racionalidade técnica concordar com os professores Gadotti e Oliveira Lima, minha racionalidade política diz que devo "dar" notas entre o zero e o dez parta avaliar os estudantes das salas de aula onde coordeno o processo de aprendizagem. Mesmo não vendo nenhuma lógica nisso lanço nas Atas notas diversificadas a partir de critérios de participação, esforço, interesse, colaboração com o grupo, questionamentos levantados etc..
Um dos meus critérios, por exemplo, é o de não "dar" notas, por isso o "dar" entre aspas, mas o de oferecer um conceito para que o estudante aceite ou não. Melhor dizendo: eu não "dou" notas, eu ofereço um conceito para ser discutido. Se eu ofereço um oito ao estudante e ele, através de uma argumentação lógica e fundamentada, diz que merece dez, quem sou eu para dizer que não?
Certa vez um coordenador de curso disse para mim, e para outros professores que estavam junto, de forma irada: "professor que dá nota dez para a turma inteira deveria ser demitido!". No que eu respondi, de forma duplamente irada: "então pode começar por mim! Ou então não me escale para as turmas do seu curso.".
| O objetivo principal da relação entre professor e estudantes é a aprendizagem (dos dois!) e não a nota. |
Será que os professores têm o prazer sádico de torturarem os estudantes através da nota? Será que eles não têm consciência do que se passa por trás dessa nota? Será que eles não sabem que o objetivo principal da relação entre professor e estudantes é a aprendizagem (dos dois!) e não a nota? Será que eles não se lembram quantas injustiças eles mesmos sofreram nos seus cursos de graduação? Será que eles não se lembram que Einstein foi reprovado na disciplina de matemática e se tornou quem ele foi? Será ...?
Estou redigindo este texto na sala dos professores de uma das instituições em que trabalho, no final de um período cansativo ("pela volta dos 180 dias letivos ao ano"!) e depois do período de provas. O que me incentivou a redigi-lo foi que uma colega foi chamada no lado de fora da sala (os estudantes não podem entrar na sala dos professores!) por uma estudante e, ao passar por mim, dirigindo-se para fora com expressão de insatisfeita, disse: "é hora do choro". Ai! Então choro eu, pensando na angústia e no drama da estudante do lado de fora da sala. Por que tem que ser assim? Por que em todo final de período vários estudantes têm que chorar? Por que a educação, e o conseqüente processo de aprendizagem, não é uma constante alegria e felicidade para todos? Que maldito complô, monstruoso e maligno, faz com que consigamos transformar a alegria natural e contagiante dos estudantes em tristeza? Chego a conclusão que a escola, por si só, é uma alegria viva; somos nós, professores, que estragamos tudo.
Poderia ter questionado a colega do porque ser "a hora do choro" e não da alegria, mas penso que isso só provocaria atrito entre nós.
Mas e aí? O que vocês, colegas e estudantes, acham? É isso mesmo? Será que tem mesmo que existir "a hora do choro" em todo final de semestre? As lágrimas dos estudantes nos finais de período, após a avaliação, fazem parte da educação? Será que a educação é sinônimo de dor e sofrimento? Será que professor e torturador são "profissões" afins? Será que eu estou ficando (ou devo me convencer que já sou) maluco? Ou será "que só sei que nada sei"? Sei lá... Sei lá... Mas que eu não concordo com isso, eu não concordo.
Para referência desta página:
BELLO, José Luiz de Paiva. "É hora do choro". Pedagogia em Foco, Rio de Janeiro, dez. 2000.
Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos20.htm>. Acesso em: dia mes ano (acessado pelo leitor).