Feminino e
masculino unindo forças
Cláudia Arbex
São Paulo
Janeiro/2005
Nas
pesquisas envolvendo educação, muito se tem visto, revisto e questionado. Os
sistemas de avaliação, os métodos e filosofias adotadas nas instituições, o
olhar para os educandos, as funções e posturas dos professores e coordenadores,
o currículo, o espaço pedagógico, tudo isso tem sido observado e
redimensionado. E é importante que seja assim.
Mas há
questões mais subjetivas, nem por isso menos abrangentes, que têm sido negligenciadas
sistematicamente. Neste artigo quero chamar atenção para uma delas, que me
parece de extrema importância e por alguma razão que desconheço nunca ouvi
dizer que estivesse sendo debatida ou abordada como um problema.
Trata-se da desproporção visível entre a atuação de mulheres e homens nos
ciclos iniciais de ensino (educação infantil e ensino fundamental). Esta
desproporção não é fruto do acaso. Penso que é conseqüência de algo maior
envolvendo padrões sociais e culturais enrijecidos e estabelecidos, que
necessitam ser revistos.
Acredito que este desequilíbrio prejudica, mesmo que de maneira sutil
para a maioria das pessoas, o desenvolvimento sadio e pleno das crianças.
Meu ponto de vista é de que a presença de homens atuando nos ciclos
iniciais, ao lado das mulheres, pode trazer enormes benefícios aos alunos, às
instituições de ensino e, conseqüentemente, à sociedade.
Parece-me que há uma “falta de interesse” dos homens em relação à
educação, e especialmente em relação à profissão de professor. No entanto,
considero esse desinteresse apenas aparente. Creio firmemente que há outros
fatores cerceando a manifestação desta tendência nos homens.
Conheci, durante 25 anos de atuação em escolas, homens com evidentes
inclinações para o exercício dessa profissão; conheci homens intuitivos,
perspicazes e perceptivos, “educadores natos” atuando como engenheiros,
arquitetos, administradores...
O que impede uma maior participação dos homens na educação, em especial
dos ciclos iniciais de ensino? O que os afasta desta experiência tão
enriquecedora e gratificante?
Atualmente não podemos dizer que a resposta esteja vinculada apenas a
questões econômicas, embora ainda se justifique esse desinteresse pelos baixos
salários da profissão (baixo salário é uma realidade de quase todas as
profissões em nosso país).
Não se pode dizer tampouco que se trata de uma profissão feminina, cujas
habilidades somente as mulheres possuem.
Muitas hipóteses podem ser levantadas para explicar este fenômeno, menos
a tão usada e falsa idéia de que homens não têm paciência ou não gostam de
crianças.
Orientada pela Prof. Dra. Eloísa Quadros Fagali,
fiz uma pesquisa intitulada “O Professor Oculto, mitos e tabus na relação de
aprendizagem - valores de uma cultura patriarcal”. Procurei investigar as
razões dessa desproporção nas instituições de ensino através de alguns estudos
envolvendo os universos feminino e masculino, as manifestações de suas
características, as influências desses universos no âmbito cultural e social, e
conseqüentemente na educação formal e informal.
Foquei meu olhar nas poderosas influências dos padrões culturais sobre as
relações familiares e sociais.
Busquei na história da cultura os traços deixados pelas forças
matriarcais e patriarcais para entender os fortes valores patriarcais da nossa
civilização atual.
Pensei no homem e nos universos masculino e feminino; pensei na mulher e
em ambos universos mais uma vez... depois lembrei da criança, do aluno, e de
como se dá esta relação entre pais e filhos,
educadores e educandos. Tentei compreender esses vínculos sob o ponto de vista
masculino, ou melhor, do universo masculino.
Entrevistei pessoas ligadas à educação por meio de suas profissões ou de
seus filhos. Baseada na pesquisa e nas análises dos
resultados das entrevistas realizadas, pude constatar que os valores da
cultura patriarcal permanecem muito presentes na consciência da maioria das
pessoas, traduzindo a idéia de trabalho como algo ascético, frio e rígido. E
essa idéia, a meu ver, gera um profundo distanciamento da função da educação
como atividade profissional.
A educação de crianças tem um caráter que entra em conflito com a noção
patriarcal de trabalho, valorizando e se valendo de qualidades como a
intimidade, o afeto e o diálogo.
Essa divergência de percepção da realidade pode ser uma das causas do
afastamento dos homens desta atividade profissional e também, por outro lado, a
razão de algumas pessoas considerarem a escola simplesmente uma extensão do
lar.
Certamente muitas explicações podem justificar esse fenômeno, mas nenhuma
delas, conclusivas ou não, modificam o fato de haver um desequilíbrio
significativo nas instituições de ensino no que se refere à atuação de mulheres
e homens.
Finalmente devo confessar que durante a pesquisa foram levantadas novas
perguntas que ficaram sem respostas, por isso acredito ter dado um passo em
direção ao início de uma discussão mais ampla.
Gostaria de colocar esse assunto em pauta, e espero que possa ser através
deste artigo.
Cláudia Arbex:
Psicopedagoga formada pela PUC de São Paulo;
professora especializada em educação infantil e licenciada em educação física.
Trabalha como
educadora desde 1979 em escolas da rede particular de ensino de São Paulo.
Atualmente
coordena a escola de educação infantil Capítulo I, da qual é sócia fundadora.
Com formação em dança clássica
e moderna, desenvolve um trabalho extracurricular de expressão corporal e
teatro nas escolas Móbile e Nossa Senhora das Graças (Gracinha).
Para referência desta página:
ARBEX, Cláudia. Feminino e masculino unindo forças. São Paulo, jan.
2005. Pedagogia em Foco, ago. 2006.
Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/filos25.htm>. Acesso
em: dia mês ano.