A OBRA DE
LAURO DE OLIVEIRA LIMA



CONSIDERAÇÕES INICIAIS




"Fiz uma opção de vida: só permanecer na planície se minhas asas não tiverem forças para arrancar-me do chão; mesmo com as asas curtas tentarei voar. Não admito que não tenho asas".



                                                            Lauro de Oliveira Lima
 



      É importante frisar que tive a intenção neste trabalho de deixar para a educação uma contribuição que viesse a ter alguma utilidade prática. Algo que pudesse desenvolver o saber dos educadores de uma forma geral. Tentei apresentar o Professor Lauro como um crítico da educação brasileira e, ao mesmo tempo, como um planejador capaz de oferecer propostas decisivas para a mudança da dinâmica dos atores que interagem no confuso cenário educacional.
      A obra de Lauro de Oliveira Lima é extensa e intensa e resumi-la num trabalho não foi tarefa fácil. Baseado na escola estruturalista de Jean Piaget, perpassa por toda a obra uma nova visão de educação que foge do lugar comum dos críticos tradicionais.
      Se formos falar em seriedade de trabalho não podemos mais pensar a educação “pré-piagetianamente”, assim como não poderíamos falar em meios de comunicação de massa sem levarmos em consideração a existência da televisão. As descobertas científicas de Jean Piaget abriram novo campo para a didática. Se não são discutidas ou aplicadas é porque não são conhecidas. A teoria de Jean Piaget revoluciona a didática, não só no seu sentido político e psicológico, mas, principalmente, no seu sentido pedagógico.
      Agora sabemos que há um novo caminho. Sabemos como se dá o processo de aprendizagem e sabemos como facilitar esta aprendizagem. E para aplicar esta nova didática basta que se conheça as teorias de Jean Piaget. A categoria profissional dos professores tem algo de estranho que não cobra de seus profissionais uma postura ética, ou mesmo de competência. Talvez seja uma das poucas categorias que não possui um órgão de controle de qualidade profissional, como acontece com os Conselhos de Medicina, Psicologia, a Ordem dos Advogados, etc.. Por isso também é provável que os professores, por não serem cobrados, não se preocupem em evoluir no seu saber profissional. “O professor que não lê revistas de sua especialidade é um embusteiro”, diria Lauro de Oliveira Lima (1975a: 55).
      Em trabalho realizado com os colegas Luiz Alexandre Oxley da Rocha e Erineuza Maria da Silva, colegas do curso de mestrado, fizemos uma pesquisa sobre as influências da educação da mulher na infância. Uma das questões objetivava saber que tipo de literatura consumiam. No universo geral de entrevistadas constavam 29 professoras (30,53% do total de profissionais). Destas, apenas uma lia regularmente uma revista técnica de educação e outra lia uma revista de psicologia.
      Podemos então concluir, mesmo que primariamente e sem generalizações, que os professores não se preocupam em evoluir o seu saber pedagógico. Normalmente eles não tem noção do que está sendo dito através de termos técnicos psico-sócio-pedagógicos. Utilizar termos como maturação, equilibração, assimilação, acomodação, aumento do conhecimento, dinâmica de grupo, etc., é estar se utilizando de um vocabulário que não lhes diz respeito. O vocabulário específico é o da matéria que lecionam. Fora disso praticamente não há entendimentos possíveis.
      Alguns Estados do Brasil já se preocupam em realizar a tarefa de estruturar sua educação baseada nas teorias de Jean Piaget. Mas podemos considerar que são trabalhos isolados e que ainda provocam grandes confusões nas cabeças dos professores que vêm sendo reciclados. A criação do “bloco único”, por exemplo, vem assumindo uma característica bem peculiar: como os professores estão acostumados ao sistema de seriação, mesmo com a criação do “bloco único” o que está ocorrendo é que os alunos de 1a a 4a série são promovidos de uma “etapa” para outra, como se continuassem no sistema seriado. Isto sem contar com as professoras que trabalham numa escola “construtivista” sem sequer saber de onde vem este termo.
      Só agora, depois de “navegar” pelos livros de Lauro de Oliveira Lima, tenho condições de entender a frase do professor Osmar Fávero: “Lauro de Oliveira Lima é um cavalo de prado preso na cocheira”. Suas idéias e seus trabalhos não são sequer reconhecidos e muito menos discutidos, pela comunidade acadêmica. Com exceção de um livro ("Mutações em Educação Segundo Mc Luhan"), sua obra passou despercebida para a maioria. No entanto os professores da disciplina de História da Educação (que nos cursos raramente tocam na História da Educação no Brasil) poderiam se utilizar de seu livro “Estórias da Educação no Brasil: de Pombal a Passarinho”; os da disciplina de Didática (normalmente tão odiada pelos alunos!) poderiam se utilizar do livro “Treinamento em Dinâmica de Grupo no Lar, na Empresa e na Escola”, ou “A Escola Secundária Moderna” ou ainda “A Escola no Futuro”; os da disciplina de Sociologia da Educação, ou mesmo o curso de Sociologia, poderiam se utilizar de seu livro “Os Mecanismos da Liberdade (Microssociologia)”; os da disciplina de Estrutura e Funcionamento do Ensino Fundamental e Médio (também muito odiada pelos alunos) poderiam se utilizar do livro “A Escola Secundária Moderna”; os das disciplinas introdutórias às questões pedagógicas (Introdução à Educação, Questões Atuais da Educação, etc.) poderiam fazer uso dos livros “Introdução à Pedagogia”, “Pedagogia: Reprodução ou transformação”, do já bastante lido “Mutações em Educação Segundo Mc Luhan”, além de vários outros.
      No entanto, surpreendentemente, toda esta obra foi desprezada pela academia. Os motivos deste esquecimento podem ser vários.
      Em primeiro lugar Lauro de Oliveira Lima (e ele mesmo faz questão de frisar este ponto) não é acadêmico, não redige como os acadêmicos. Ele tem apenas cursos de graduação em Direito e em Filosofia. Parece que o mundo acadêmico reserva aos seus pares o direito de serem lidos e estudados, mesmo que haja comprometimento do fator qualidade. Depois, a obra de Lauro de Oliveira Lima é densa, necessitando uma compreensão mínima de antropologia, sociologia, filosofia, psicologia e pedagogia.
      O ignorante (no sentido de ignorar fatos e dados, sem a conotação pejorativa) não pode ter compreensão de trabalhos elaborados de forma abrangente. Para se compreender algo são necessárias conquistas anteriores a este momento de compreensão (“não existe estrutura sem gênese...”).
      A obra de Lauro de Oliveira Lima não se limita a uma compilação da obra de Jean Piaget. A base estruturalista piagetiana do professor Lauro é uma opção, entendendo-se a palavra opção como uma escolha entre diversas ofertas. Sua obra revela-nos um conhecimento geral que discorre criticamente sobre diversas correntes de pensamento tendo como ponto de partida a teoria piagetiana de desenvolvimento da inteligência. É provável que este conhecimento holístico tenha sido adquirido de seu tempo de seminarista ou no seu curso de filosofia. Percebe-se em sua obra influências de Lewin, Chardin, Mounier, Freud, Chomsky, Kant, Hegel, Marx, Mounoud, Waddington, Foucault e, principalmente, Jean Piaget. Este último dando os fundamentos estruturalistas para suas propostas pedagógicas.
      O fato é que professor Lauro "corre com a cabeça" e para acompanhá-lo é necessário preparo cognitivo, já que sua obra é fruto de uma base sólida de conhecimentos e justificativas.
      Em segundo lugar a obra do professor Lauro tornou-se desconhecida dos acadêmicos em função, o que ele próprio denuncia em seu livro “O ‘Enfant Sauvage’ de Illich numa Sociedade sem Escolas”, de que o que é nacional não serve para os brasileiros. Autores alienígenas vendem livros como água sem nenhum valor didático pedagógico. E um dos exemplos disso é o próprio Ivan Illich com seu livro “Sociedades sem Escolas”, onde o ex-padre resolveu refletir sobre um assunto que lhe é desconhecido e virou moda nos meios pedagógicos brasileiros, provavelmente tão carentes de saber quanto ele.
      O desprezo pela obra do professor Lauro só pode repercutir negativamente para a própria academia brasileira, que perdeu a oportunidade de crescer em saber, permanecendo num estágio de desenvolvimento “pré-piagetiano”. E hoje podemos afirmar que não se pode mais falar de desenvolvimento da inteligência sem falar das teorias de Piaget, que teve na figura de Lauro de Oliveira Lima, durante algum período, o maior interlocutor dessas idéias no Brasil, além de ter criado um método pedagógico, o Método Psicogenético, para aplicação na educação.
      Mesmo com todo avanço da ciência nas descobertas dos mecanismos de desenvolvimento da aprendizagem, o professorado brasileiro ainda se comporta como se o que houvesse de mais evoluído em termos de liberdade fossem as teorias inatistas de Neil, Montessori, Freud ou Rogers. Desta forma a educação caminha cada vez mais para o mais absoluto caos, uma vez que os professores, arraigados aos seus conceitos retrógrados, não sabem mais como se comportar diante de uma turma de alunos que evoluiu, acompanhando, de forma natural, o movimento histórico de seu tempo.
      A obra de Lauro é abrangente e reflete um avanço nas descobertas pedagógicas. Se a entendemos como “uma visão de futuro” é porque não temos ainda competência para efetivá-la na prática. O que não deixa de ser lamentável em termos pedagógicos e dramático no sentido social e humano. O afastamento de Lauro de Oliveira Lima do cenário pedagógico nacional tem a responsabilidade direta do golpe militar de primeiro de abril de 1964. Não só a de Lauro, mas a de muitos outros, o que condenou a educação brasileira aos níveis mais medíocres que poderíamos imaginar. Ao ler tudo o que foi produzido pelo professor Lauro e tudo o que foi dito sobre ele, descobri que a frase do professor Osmar Fávero não era original e era reflexo da mágoa do próprio Lauro de Oliveira Lima, numa entrevista a um jornal de Goiânia: “Eu me sinto como um puro-sangue árabe, trancado na cocheira, vendo os ‘pangarés’ correndo no ‘derby’”.
      A professora Zoya Ribeiro diz que “Lauro não fez uma revolução educacional, mas sem dúvida realizou a maior revolução pedagógica no Brasil”. Agora, conhecedor da obra de Lauro de Oliveira Lima, posso compreender que ele não transitou por caminhos já traçados. Seu trajeto na área da educação foi o mais complexo. Não se limitou ao desenvolvimento puro e simples dos processos pedagógicos; criou algo diferente do que já existia. E tão diferente, mesmo sendo viável, que poucos tiveram condições de compreendê-lo.
      Podemos perceber que, aos poucos, suas idéias vêm sendo implantadas na história da educação no Brasil. E resta-nos perguntar porquê não se dão os créditos merecidos ao professor Lauro. Seria por sua personalidade agressiva? Pela complexidade de suas idéias? Pelo despreparo dos profissionais da educação? Pelo momento histórico que atravessamos? Por ser um educador brasileiro quando se valoriza o que é estrangeiro?
      Vimos que suas propostas colocam o futuro da educação numa visão de possibilidade de presente. Seu trabalho esclarece-nos não só o fracasso da educação, mas o desperdício de energias voltados para uma tentativa de formação que não nos leva a nenhum resultado.
      As constatações estão expressas no próprio sistema escolar falho, confuso e discriminatório. Quase a totalidade dos educadores questionam a validade da educação nos moldes em que se dá nos dias de hoje, mas quase nenhum tem uma proposta concreta de mudança para ser discutida. Depois do golpe militar de 1964 a educação brasileira perdeu-se em teorizações inúteis que pouco ou nada contribuíram para uma mudança de fato no aspecto estrutural qualitativo. A impossibilidade de se criar novos métodos levou os planejadores educacionais a um ciclo vicioso, onde, ao invés de buscar mudanças estruturais, buscaram-se adaptações já aplicadas em outros países capitalistas em franco desenvolvimento como saída para nossa crise na educação.
      Dentro desta visão podemos entender o porquê de um Ministro da Educação, político de carreira e sem manejo das questões pedagógicas, dizer que “na educação brasileira os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e o governo finge que controla”. Ao fazer uma afirmação como esta o Ministro está declarando, tacitamente, que o Ministério da Educação não tem mais poderes para controlar o processo educacional brasileiro, agora comandado politicamente pelos chamados “tubarões do ensino”.
      A verdadeira importância da obra de Lauro de Oliveira Lima é que nos abre um novo horizonte de possibilidades. Se aceitamos que a educação brasileira vive um momento da mais absoluta confusão, podemos perceber também que soluções existem. E nos vem a velha questão de quem detém a maior responsabilidade pela aplicação destas mudanças: as decisões dos políticos ou o trabalho dos professores? Particularmente acredito que os políticos têm sua gama de responsabilidade na administração da educação em todo o território nacional, principalmente no que diz respeito às condições salariais (maus salários atraem maus profissionais), a uma política educacional coerente e às necessidades de reciclagens dos profissionais envolvidos. Mas acredito também que os profissionais da educação têm uma maior parcela de responsabilidade nesta revolução. E depende exclusivamente de uma conscientização coletiva; basta que se revolucionem também. E então, finalmente, o que entendemos de educação no futuro, como uma proposta utópica, fará parte de nosso presente.

      ORA, EDUCADORES DE TODO O MUNDO, “NÃO ESTAMOS VENDO QUE VAI FICAR ASSIM? POR QUE NÃO COMEÇAMOS LOGO?” (Lima, 1975: 64)


 

Índice da Obra de Lauro de Oliveira Lima