A OBRA DE
LAURO DE OLIVEIRA LIMA
UNIVERSIDADE
Na medida em que os seres humanos foram evoluindo, desde a criação da escola, os níveis de ensino foram esticados para baixo (pré-escola) e para cima (cursos superiores). Nos competitivos dias de hoje a pós-graduação já vai de uma simples especialização, passando por mestrado e doutorado, para alcançar o pós-doutorado. Lauro de Oliveira Lima afirma que a idéia do diploma dará lugar à formação permanente, em que os técnicos formados nos cursos superiores estariam constantemente se reciclando (atualizando) para acompanhar o avanço da ciência.
Para Lauro de Oliveira Lima o vestibular nada mais é do que "um puro artificialismo de estrangulamento do sistema para conter a correria do povo aos níveis mais elevados de cultura" (Lima, 1969c, p. 76). Em função disto já propunha, por volta do ano de 1957, o que ele chamou de "Ano Vestibular": as provas de seleção para ingresso no curso superior (Vestibular) seriam substituídas pela avaliação de rendimento do aluno durante todo o último ano do curso secundário (somente no ano de 1995, quase quarenta anos depois da proposta de Lauro (!!), o então Ministro da Educação sugere o fim do Vestibular, recebendo protesto de vários "educadores"). Deste modo teriam mais oportunidades aqueles que não pudessem cursar os "cursinhos pré-vestibulares", cuja simples existência, por si só, comprova a falência educacional, já que estes cursos que se apresentam como competentes em técnicas de memorização, para que os alunos que podem se manter financeiramente neles sejam "mais capazes" de entrar na Universidade.
Transcrevemos um artigo, intitulado Vestibular, publicado no jornal "O Povo" de Fortaleza, no ano de 1990, que esclarece sua posição sobre esta instituição criada em 1911, há oitenta e quatro anos atrás, portanto, já caduca em idade.
- Todo mundo sabe que o exame vestibular é o processo mais inautêntico possível para avaliar quem deve entrar na Universidade, com uma agravante: a ameaça do exame vestibular corrompe o sistema escolar todo, a partir do jardim de infância - basta lembrar a múltipla escolha e as cruzadinhas adotadas em todos os graus, cursos e séries. Dez anos de escolaridade São desprezados, com centenas de avaliações parciais, por algumas horas de provas cujos resultados são aleatórios.
- O exame vestibular é uma desmoralização para o magistério do primeiro e do segundo graus. (...) não entendo porque o magistério jamais protestou contra esta desmoralização. Os julgamentos feitos nos dez anos de escolaridade (1o e 2o graus) São suspeitos! Milhares de professores promovem alunos, dão notas, avaliam seu aproveitamento... tudo em vão? Será que uma comissão de professores (um Cesgranrio qualquer) tem mais credibilidade para determinar o ingresso dos mais capazes na Universidade?
- Por que não valorizar os resultados escolares desde o primeiro ano primário, ano por ano, acumulando-se as avaliações que se irão auto-corrigindo? São dezenas de mestres opinando sobre o aluno, durante dez anos. Poder-se-ia mesmo introduzir um julgamento referente à capacidade do aluno e um prognóstico sobre sua futura vida escolar. Desde cedo os pais tomariam conhecimento das probabilidades de seu filho conquistar a Universidade. (...) Poderiam interpelar os mestres sobre os julgamentos feitos, dando extrema seriedade ao diagnóstico, agora vigiado pela sociedade. O sistema escolar ganharia um novo tônus. Sabendo-se que os resultados parciais, ao longo da escolaridade, são contabilizados para o ingresso na Universidade, todos darão maior seriedade ao processo escolar. A proposta do Cesgranrio de fazer avaliações ao longo do 2o grau é uma triste proposta comercial para uma entidade em decadência. Não é possível que o Ministério da Educação apoie uma coisa dessas
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Mas a atual Universidade é o ápice da pirâmide do processo de seletividade na educação, e nela só entram os que conseguiram ultrapassar os processos de seletividades anteriores (1o grau, 2o grau). É onde, através do controle da sociedade, passarão aqueles que merecerão um melhor salário.
Neste sentido a responsabilidade de quem se especializa é a de devolver, em forma de autenticidade e espírito público, aquilo que recebeu de um povo que o sustentou durante o curso. A Universidade deixaria, então, de ser esta "torre de marfim", simbolicamente representada para a sociedade.
- Se a fome campeia numa região, é dever da universidade voltar-se toda - independente de critérios de metodologia e interesses formais ou institucionais - para a solução do problema (Lima, 1979, p. 121).
Seria possível, por exemplo, em termos práticos, que alunos de Curso Normal e de Pedagogia erradicassem o analfabetismo do Brasil. Levantemos a quantidade de alunos que aprendem a alfabetizar, presos a suas salas de aula, com um processo de aprendizagem puramente teórico. Imaginemos esses alunos, todos, em campo, aprendendo a alfabetizar na prática. Alfabetizando adultos das periferias das grandes cidades e das regiões rurais. Imaginemos as Faculdades de Educação mantendo, nas regiões mais carentes, pré-escolas e escolas de, pelo menos, 1a a 4a. série.
Mas parece que os professores sofrem da terrível insegurança de que se seus alunos partirem para a prática poderão demonstrar uma aptidão maior que a deles. O que não seria nenhum absurdo se pensarmos em termos de lógica. Isso já acontece normalmente no processo acadêmico.
A participação do professor neste processo, então, é fundamental. O recurso didático da aula expositiva - como o "lector" medieval, teria que ser substituído por técnicas em dinâmica de grupo e aulas práticas. A ciência da educação evoluiu e os professores, sábios em sua especialidade, não têm acompanhado este processo. Não conhecem novos parâmetros didáticos que condenam a velha aula a uma técnica obsoleta e de nenhum proveito para os alunos.
Em resumo, três providências fazem-se necessárias antes de qualquer modificação estrutural no sistema universitário:
- 1. Forçar os docentes a se atualizarem, já enviando-os sistematicamente aos grandes centros internacionais, já trazendo missões científicas estrangeiras, já obrigando-os a produção científica permanente;
- 2. Obrigar simplesmente os professores a dar aulas;
- 3. Ensinar-lhes novas técnicas didáticas e proibir nas escolas superiores a oratória, a sebenta e as apostilas, substituindo-as por debates, dinâmica de grupo, biblioteca e laboratórios" (Lima, 1969a, p. 98).
No nível administrativo a Universidade é representada por um Reitor, cuja autoridade não é dividida com os alunos. Lauro de Oliveira Lima sugere a co-gestão, ou o co-governo. A Universidade administrada por especialistas aplica métodos importados de experiências de outros países, inadequando a formação do profissional brasileiro. Nosso modelo universitário está ainda baseado nos sistemas de Centros, inspirado no molde napoleônico de 1810, agora "recheado" com o sistema de crédito americano.
- No dia em que a nossa universidade deixar de tratar dos problemas genéricos e se libertar da tentação de imitar outros grandes centros com longas tradições científicas e grandes recursos à sua disposição, no dia em que a nossa universidade, humilde e modestamente, puser nas mesas dos laboratórios os nossos problemas, terá selado afinal, a sua aliança com o povo (Lima, 1979, p. 122).
Esta estrutura importada ainda é administrada burocraticamente, e o mais importante é que a administração mantenha os papéis em ordem a despeito da qualidade pedagógica. Nas reuniões os professores quase nunca discutem as questões educacionais, sendo valorizada a competição interna em busca de mais poderes.
Começa-se a perceber que o curso superior já não é mais superior, uma vez que é real a corrida para os cursos de pós-graduação. O ápice da pirâmide evoluiu e atualmente já não basta o simples diploma de curso superior. E a pós-graduação é, na verdade, a volta ao estudo das disciplinas tradicionais da graduação, se bem que ditas que "em maior profundidade". Constata-se também que os cursos de pós-graduação praticamente não têm vínculos com a Universidade, utilizando-se tão somente das instalações e equipamentos físicos do órgão controlador. O ensino superior vem se tornando uma espécie de curso intermediário entre a escola média e a profissionalização, propriamente dita, nos cursos de pós-graduação.
- A pós-graduação não é uma atividade, tipicamente, universitária - o processo todo se elabora fora dos centros de decisão da universidade, embora o órgão controlador use o equipamento físico da universidade para realizar seus objetivos, dando a impressão de que o mestrado e o doutorado é uma seqüência natural da vida escolar, como em todos os países civilizados (Lima, 1969, p. 302).
No que diz respeito à formação profissional os cursos que deveriam ter a condição de excelência não conseguem mais formar profissionais competentes para o exercício da profissão. O currículo é apoiado em disciplinas por demais teóricas, privando o aluno do exercício prático de sua opção profissional. De tal forma os cursos deixam a desejar na formação de especialistas que as grandes empresas já mantêm em seus quadros pessoal especializado em treinamento, desprezando a Universidade como centros de formação.
Por outro lado não podemos afirmar que os cursos de pós-graduação formem verdadeiros cientistas, fabricantes de novos conhecimentos, já que lhes é cobrada vasta pesquisa literária e quase nenhuma originalidade. Um aluno de pós-graduação não pode inovar, criar uma idéia nova sem o embasamento de algum cientista que já tenha trilhado o mesmo caminho.
- Duvidamos que os alunos de nossa pós-graduação imaginem que se estão transformando, verdadeiramente, em cientistas, isto é, em pesquisadores originais, fabricadores de novos conhecimentos. Basta que uma das condições para que as teses de mestrado e de doutorado sejam aprovadas é que nada tenham de originais (donde a estrita exigência de citações bibliográficas) (Lima, 1981, p. 1057).
Um curso de pós-graduação deveria caracterizar-se pela excelência, onde somente aqueles verdadeiramente dotados de espírito científico, que elevassem suas reflexões acima da maneira comum e banal de refletir o grupo social, deveriam emergir.
Mas toda essa teorização sobre a Universidade, curso superior e a pós-graduação perder-se-á quando a noção de diploma deixar de existir e a formação profissional seguir a evolução dos conhecimentos, através da formação permanente.