A OBRA DE
LAURO DE OLIVEIRA LIMA
EDUCAÇÃO DA MULHER
Para alguns leitores, à primeira vista, Lauro de Oliveira Lima pode parecer um autor misógino, condenando a mulher a um patamar inferior na sociedade.
- As crianças e os jovens, tradicionalmente, desenvolvem sua "embriologia mental" em contato com mulheres (que não entraram ainda no processo de construção civilizatória), com babás (que representam a escória humana do processo civilizatório) e com velhos-avós (que perderam o contato com os problemas do presente e se desligaram da problemática histórica). É quase um milagre que cada geração nova consiga avançar um passo na civilização, ficando as crianças condicionadas, em seu desenvolvimento, pelo que a humanidade tem de menos estimulante e criativo do ponto de vista da construção de novos padrões culturais (Lima, 1975a, p. 48).
O texto acima, sem um conhecimento mais amplo da obra de Lauro de Oliveira Lima, torna-se agressivo e sem nenhum sentido. No entanto, ao nos aprofundarmos na leitura da obra de Lauro de Oliveira Lima, vemos que o que está sendo dito acima é plenamente compreensível. Lauro de Oliveira Lima reserva uma parte considerável de sua obra à análise do desenvolvimento feminino com base nas teorias epistemológicas.
Segundo Lauro a educação por que passam as meninas, treinadas desde muito cedo a desempenharem o papel de mulher, impede-as de desenvolverem o pensamento operatório, sobretudo o abstrato. O que equivaleria dizer que o pensamento feminino colocar-se-ia na faixa de idade de uma criança de sete ou oito anos.
No entanto não se tem notícias de que o cérebro da mulher seja anatomofisiologicamente diferente do homem. A atividade mental da mulher, desenvolvida através do sistema neuronal, é idêntico ao do homem. Portanto não há razões biológicas para que o homem seja mais inteligente do que o mulher. Se, por acaso, existe alguma diferença, esta deve-se a fatores culturais.
Temos que admitir que a construção do processo civilizatório é masculino e raramente vemos mulheres envolvidas em atividades que exijam processos mentais superiores. Ora, se o desenvolvimento da inteligência depende de estimulação, cabe perguntar o porquê da não participação da mulher nesta construção.
- A mulher não participa do processo civilizatório porque não alcança a inteligência operatória ou não alcança a inteligência operatória porque não participa do processo civilizatório? (Lima, 1970, p. 372).
Se, segundo Piaget, a lógica não é inata, nada impede que a mulher atinja um nível lógico de contribuir com a construção do mundo. Então por que não contribui? Lauro sustenta que é por fatores culturais, provindos de seu processo de educação.
Em primeiro lugar a educação da mulher difere da do homem pela "superproteção romântica" que a impede de se ver em situações de desafios "que estimulem as equilibrações em níveis, progressivamente, superiores". O excesso de proteção impede que ela viva situações-problemas que sirvam de estímulo para o seu desenvolvimento.
Ademais, o meio doméstico é um meio culturalmente pobre e a mulher na sociedade machista é uma "escrava confinada ao lar".
- A psicologia moderna chegou à conclusão de que - dadas condições neurônicas normais hereditárias - o restante todo do desenvolvimento mental é função das relações de produção e dos intercâmbios sociais (Lima, 1970, p. 373).
Neste sentido "o lar e a cozinha são o percalço da imaturidade intelectual da mulher". Se há um atraso de desenvolvimento este é, antes de tudo sociológico e, em decorrência deste, psicológico.
Ainda segundo Lauro foram os homens que, ao construir a civilização masculina, fizeram da mulher uma escrava, um robô doméstico. O homem criou para si uma moral "livre, aventureira e ousada", enquanto à mulher foi reservada a moral "pudica e frágil, baseada na virgindade antes do casamento e na fidelidade, depois do casamento".
Neste aspecto a prostituição, tolerada em todas as sociedades cuja civilização detém a hegemonia masculina, é uma instituição fundamental para a manutenção da família de caráter patriarcal. Esta condição é indispensável para a manutenção da moral feminina nos estratos ditos superiores.
A feminilidade é um outro mito de coisificação da mulher, já que o sexo não tem nenhuma relação com a inteligência e a capacidade de produção. Este mito é apenas uma tentativa de transformar a mulher em mero objeto sexual. O mundo moderno, com o avanço tecnológico dos eletrodomésticos, permitiu que a mulher, de certa maneira, deixasse de ter tarefas domésticas como era exigido na "casa grande" colonial. A vida moderna, vivida em apartamentos, torna até ridícula a figura da senhora dona de casa, já que as indústrias alimentícias fornecem a matéria-prima de manutenção do lar. A goiabada de tacho foi substituída pela goiabada em lata, tirando da vida doméstica a característica de "atelier" de produção, comandado pela senhora enquanto seu marido saía ao mundo para construir o processo civilizatório e para buscar acumulação de riquezas para a prole.
- Outro mito, o das prendas domésticas - superado no processo de produção pela industrialização - é o mais caricato e vazio, reduzido a formulários e receitas de bolo e de pudim e neurotização nos gestos automatizados do crochê... últimas atividades que a economia industrializada deixou à produção de caráter familiar (Lima, 1970, p. 374).
Um outro mito levantado por Lauro de Oliveira Lima é o da mãe. A mulher-mãe provoca um relacionamento arcaico de eterno "choco psicológico", permanecendo por toda a vida no "ninho" como se esta fosse a sua função primordial e se afastando da construção do processo civilizatório. Até mesmo a função educativa tradicional da mulher começa a ser "industrializada" pelo equipamento social entendido por escola, transformando a mãe numa mera motorista de seus filhos ou igualando-a ao pedagogo da antigüidade (escravo grego que levava as crianças para a escola). A evolução desse equipamento coletivo, como creches, escolas, escolinhas de artes, colônia de férias, etc., controlados por psicólogos, pedagogos e outros técnicos especializados, tiram das mães as funções arcaicas de educar seus filhos para acompanhar os avanços da sociedade.
Por outro lado o excesso de convívio com crianças não lhe dá oportunidade de conviver com pessoas que estimulem seu comportamento com características adultas.
- O lar moderno é um "pequeno mundo vazio" onde a cozinha não tem sentido e de onde as crianças fogem para encontrar-se com seus companheiros de idade, recurso espontâneo para evitar a esquizofrenia do apartamento (Lima, 1970, p. 375).
As novas descobertas científicas mostram que as operações mentais superiores resultam do intercâmbio social entre os indivíduos. Este processo de relações deve ser de caráter recíproco (co + operação), ou seja, sem dominação ou subordinação. A mulher que se caracteriza como dona-de-casa, presa ao lar, "não só está isolada para a cooperação com outras pessoas, como em relação ao marido". Com isso está impedida de buscar condições mínimas de maturação.
Com as descobertas efetivadas por Piaget na área de psicologia, sabe-se hoje que o pensamento intuitivo é característico de uma faixa etária inferior aos sete ou oito anos aproximadamente (ver A Teoria de Jean Piaget). Portanto a chamada "intuição feminina" nada mais é do que mais um menosprezo à condição da mulher.
- As mulheres devem cessar de se vangloriar de sua intuição, primeiro, porque a intuição não é privilégio delas (os grandes homens também possuem intuição em momentos críticos), segundo, porque a exclusividade da intuição revela profundo atraso mental num adulto (Lima, 1970, p. 376).
A base da libertação da mulher moderna está justamente no equipamento coletivo (escolas, hospitais, indústrias, supermercados, etc.), que permite que a mulher saia do clã familiar para buscar, na sua inserção social, relações de reciprocidade. O inimigo número um da mulher-patriarca (que cuidam da casa enquanto os maridos buscam a sobrevivência do lar) é exatamente estes equipamentos coletivos.
Podemos então deduzir que a mulher até pouco tempo atrás na História não teve oportunidades de enfrentar condições que a estimulassem para o desenvolvimento intelectual. Vejamos uma síntese dos pontos negativos numa análise do próprio Lauro de Oliveira Lima:
- A - A subordinação ao marido que impede reciprocidade no relacionamento;
- B - O isolamento interno no 'recesso do lar' que dificulta condições de vida cooperativa;
- C - A sobrecarga de criação da ninhada que não lhe permite a estimuladora atividade venatória e lúdica;
- D - O convívio com imaturos que não cria situações de desafio intelectual, obrigando-a a um comportamento de nível infantil;
- E - Atividades padronizadas (artesanato doméstico) que não permitem criatividade operatória (como se pode ver na sobrevivência do crochê e no receituário culinário);
- F - Vida sedentária derivada da vigilância e da conservação do patrimônio material do clã familiar;
- G - Total absorção pelos processos vegetativos de procriação e alimentação dos filhotes (atividades culinárias e gestação permanente);
- H - Falta de informações decorrente da existência de um único processo primitivo de comunicação: face a face, praticamente vetado às mulheres (camarinha, harém);
- I - Criação recatada que impedia os jogos operatórios da pré-adolescência (atividade de 'molecagem' na gíria brasileira);
- J - Inserção muito precoce (casamentos precoces) no 'estabelecimento' (aquisição de 'status' antes do fim da maturação);
- L - Proibição de educação superior a do homem o mais refinado processo de dominação histórica da mulher (Lima, 1970, p. 380).
De certa forma a mulher não tem muito o que reclamar da sociedade quanto aos mecanismos de defesa criados por ela (sociedade) e para ela (mulher). A civilização, de certa forma, mesmo que tenha demorado milênios, criou condições para que a mulher supere as dificuldades criadas para o seu desenvolvimento. Assim criou, por exemplo, a igualdade de direitos civis, o controle da natalidade, os equipamentos coletivos, a urbanização e a industrialização, processos de comunicação levados ao lar, entre tantos outros. No entanto é a própria mulher que reage a estes mecanismos colocados ao seu dispor para sua libertação, "supondo conservar o prestígio do matriarcado da época de transição entre a pré-história e o mundo moderno" (Lima, 1970, p. 381).
Como a vida moderna é a grande aliada da mulher, somente agora ela vem surgindo na história de forma mais eficaz. É necessário que a mulher se disponha a enfrentar o desafio das situações criativas para desenvolver sua inteligência operatória e construir a civilização lado a lado com o sexo masculino.
Por estranho que possa parecer muitas mulheres reagem contrárias a estas palavras de Lauro de Oliveira Lima, provavelmente "supondo conservar o prestígio do matriarcado". Como se isso lhes garantisse ainda, nos dias atuais, algum poder e alguma segurança. Num Encontro em São Paulo, por exemplo, promovido pelo Grupo Véritas, Lauro de Oliveira Lima foi vaiado e ganhou inúmeras inimigas num só dia de palestra, exatamente por dizer o que reproduzimos neste capítulo, e que não deixa de ser um libelo de libertação da mulher. Esta sua palestra, posteriormente, foi publicada no livro "Mulher Presença", editado pela Editora Vozes.