A OBRA DE
LAURO DE OLIVEIRA LIMA




A MICROSSOCIOLOGIA





      O fenômeno sociológico, entendido como a combinação de indivíduos para formarem estruturas sociais, nada mais é do que um fenômeno de combinação de novas formas de relações individuais. Alceu de Amoroso Lima, em entrevista a um jornal da cidade do Rio de Janeiro, quando perguntado se a sociedade havia melhorado ou piorado, respondeu: "Não melhorou, nem piorou; evoluiu".
      Este processo de evolução está estritamente ligado ao desenvolvimento intelectual dos indivíduos que se relacionam. O que equivale dizer que cada agrupamento humano tem a "socialização" de que é intelectualmente capaz.
      A inteligência não é senão, segundo Jean Piaget, o mecanismo operacional de explorar as possibilidades de combinações das ações ou comportamentos dos organismos, de modo que uma estrutura ou um organismo é tanto mais inteligente quanto mais combinações realiza em suas relações com os demais indivíduos da mesma espécie (Lima, 1980b, p. 7).

      Da mesma forma pode-se também concluir que, se a socialização depende do desenvolvimento intelectual dos indivíduos que a compõem, o nível intelectual dos indivíduos também depende da socialização.
      Em outras palavras, a evolução é simplesmente o resultado do trabalho da inteligência na organização do desorganizado, o que equivale dizer que a evolução é o esforço da neguentropia (organização) para vencer a entropia (desorganização) (Lima, 1980b, p. 8).

      A evolução é sempre resultado de um fenômeno de reorganização do sistema, explicado pelo processo de auto-regulação. Ou seja, quando um sistema (entendido como estrutura, organismo ou grupo) sofre uma "agressão" pelo meio, correndo o risco de ser destruído, toma suas próprias "providências" para sobreviver.
      Ora, entendido o processo da auto-regulação, não podemos admitir a existência do fim do capitalismo, ou do comunismo, ou de outra instituição social qualquer. O que temos que admitir é a existência de um processo de evolução natural (maturidade ou equilibração majorante) onde os indivíduos, convivendo em sociedade, procuram meios mais evoluídos para conviverem. É o conceito hegeliano de "fim da história", visto pelo prisma da epistemologia genética de Jean Piaget. O "fim", enquanto objetivo ou meta, estará sempre num patamar a ser alcançado pelo "construtivismo seqüencial". A evolução não visa a um objetivo ou a um fim, sendo resultado sempre de uma auto-regulação.
      Todo processo evolutivo é então um processo combinatório, que surge sempre de uma emergência, criando assim estruturas de complexidades crescentes, entendendo-se a estrutura como um conjunto de elementos que se relacionam entre si; a modificação de um gera a modificação do outro.
      A estrutura, pois, pode ser tanto uma realidade fenomênica (as relações da árvore com o sol, com a atmosfera, com o solo, etc.), quanto uma forma de pensar sobre os elementos e os fenômenos (classe, por exemplo), de modo que o espírito funciona segundo as leis gerais da realidade (interação) (Lima, 1980b, p. 14).

      Se o processo de relação é um fenômeno vital é também a própria manifestação de organização. A organização da mente, portanto, é, da mesma forma, um processo de interação. Um exemplo marcante da ausência desta manifestação é o "sauvage de Aveyron" de Itard, em que seu padrão cultural não era o dos humanos. A socialização, então, é "uma etapa do desenvolvimento individual e da evolução da humanidade" (Lima, 1980b, p. 15).
      Sendo assim não é possível observar o ser humano fora das relações de interação. E esta relação de interação, de uns com os outros, nada mais é do que uma dinâmica de grupo. "Há, pois, uma razão epistemológica para considerar a psicologia individual uma microssociologia (Psicologia social)" (Lima, 1980a: 15). As relações humanas são naturalmente regidas por normas e estas surgem através das próprias relações humanas. A dinâmica de grupo, então, não está sujeita ao não-diretivismo. Pode-se aprender dinâmica de grupo no que diz respeito aos conteúdos tecnológicos, ou a um conjunto de regras científicas, gerando uma metodologia específica.
      Pode-se aprender dinâmica de grupo no que ele tem de tecnologia, sabendo-se que esta tecnologia tem por objetivo garantir a liberdade de opinar e influir no destino do grupo. Aprender, pois dinâmica de grupo é conquistar um mecanismo de evolução psicossociológica, como alguém, que se exercita em ginástica, adquire maiores possibilidades de ter uma boa atuação no jogo (Lima, 1980b, p. 25).

      Pelo que vimos a importância da dinâmica de grupo no desenvolvimento intelectual é proporcional à inserção dos indivíduos no processo de interação social. E só há uma maneira para que todos os indivíduos possam participar criativamente da construção social: através da liberdade de decisão no grupo. Evidente que quando maior for a relação de mando/obediência (heteronomia) menor será a participação. O que equivale dizer que quanto maior for a possibilidade de cooperação, maior será a possibilidade de o indivíduo atingir o nível da inteligência abstrata. Ou ainda, segundo Lauro de Oliveira Lima, de atingir a "abertura para todos os possíveis" (Lima, 1984a, p. 110).
      Seria interessante reforçar que em epistemologia somente existem três teorias básicas de "natureza" humana:
      - A inatista, que acredita que o desenvolvimento do comportamento humano dá-se a partir de condições internas do próprio organismo, como se este já trouxesse em sua estrutura as possibilidades de seu desenvolvimento. Esta teoria valoriza o organismo.

      - A condutista, culturalista ou behaviorista, que acredita que o desenvolvimento do comportamento humano é determinado pelas condições do meio em que o organismo está inserido. Esta teoria valoriza o meio;

      - A interacionista, que acredita que o desenvolvimento do comportamento humano é uma construção resultante da relação do organismo com o meio em que está inserido. Esta teoria valoriza igualmente o organismo e o meio.

      Para entendermos o processo de relações em dinâmica de grupo, não podemos esquecer que o enfoque é o interacionista. Logo, não pode existir a hegemonia de uma regra, de uma moral, de um padrão de conduta, que não seja discutido a nível dos indivíduos. Isto nada mais é do que a microssociologia ou a verdadeira psicologia social. Só é possível a democracia se não houver hegemonia de nenhum grupo ou indivíduo. Se um indivíduo no grupo tem maior poder ou maior valor do que outro não há democracia; há heteronomia.
      Para entendermos este conceito de uma forma mais ampla, cito Lauro de Oliveira Lima que transcreve uma frase do filósofo Marc Sangnier: "Não haverá democracia na República enquanto reinar a monarquia na fábrica". A partir desta citação nós, educadores, poderíamos transcrever: "Não haverá democracia na República enquanto reinar o autoritarismo nas escolas".
      Talvez esta seja a grande dificuldade de evolução do sistema educacional. Para existir cooperação é necessário que os indivíduos estejam no nível operatório abstrato. E, absolutamente, não é isto que as nossas escolas buscam transformar os indivíduos.
      O modelo de organização social pode estar, politicamente, dentro de uma ordem imposta por uma força coatora ou resultante da livre cooperação entre indivíduos autônomos. Ora, já vimos que a relação mando/obediência implica a não participação do indivíduo. Assim, o que precisamos definir pedagogicamente é o como facilitar esta participação para permitirmos o desenvolvimento mental do indivíduo e a evolução da sociedade. A definição desta estratégia torna-se então o problema central da pedagogia para que seja possível a socialização em bases verdadeiramente democráticas.
      A passagem da hetero-regulação (dominação) para a auto-regulação (autogoverno) é um lento e complexo fenômeno inserido no próprio processo evolutivo que tem como ponto de apoio imprescindível o aumento progressivo da capacidade operacional dos indivíduos que constituirão um todo (Lima, 1980b, p. 331).

      O pacto social só será possível quando:

      1. os indivíduos forem capazes de estabelecer cooperativamente suas regras;

      2. a relação mando/obediência proposta pelos chefes for substituída pela liderança emergencial;

      3. as ordens dadas por um chefe forem substituídas pela livre deliberação;

      4. a distribuição aleatória de tarefas for substituída pelo desempenho eletivo de um "papel";

      5. os prêmios e castigos forem substituídos pelo grupo-análise em que o agrupamento toma consciência de seu próprio desempenho;

      6. a moral do dever for substituída pela moral da cooperação.

      Todo este processo para tornar possível o verdadeiro pacto social deveria estar embutida nos objetivos do nosso sistema escolar. O pacto social, e a verdadeira democracia, só será possível se definida com indivíduos que tenham atingido o nível da inteligência operatória formal.

 

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