Estava entrando em sala quando uma estudante me perguntou: "Já conhece a professora Érica?" "Eu não." - respondi. "Ela é tão novinha..." - complementou a estudante. Ora, existem vários professores universitários muito jovens e ela deveria ser apenas mais uma - imaginei. Certo dia estava na secretaria, conversando com a secretária, quando entrou uma menina, disse alguma coisa e saiu. Eu perguntei à secretária: "Eu não conheço esta menina. Ela é estudante do curso de Pedagogia?" No que a secretária me respondeu: "Essa é a professora Érica!" O que!? Mas quem eu tinha visto era uma menina; jovem demais. No pedestal dos meus preconceitos, defeito inconcebível para um educador, pensei da irresponsabilidade da instituição em contratar uma menina para ser uma professora universitária. Avaliei sem conhecer a realidade, o que é um pecado mortal para um educador. É preciso que se lance mão de atitudes científicas, utilizando-se de medidas próprias, para que possamos avaliar o mais próximo da realidade.
Não podemos avaliar pelo aparente ou pelo que nos disseram.
Temos, por dever de ofício,
que conhecer técnicas de avaliação
para não cometermos injustiças. |
Esqueci a professora Érica. Com o tempo os estudantes começaram a me trazer notícias. Apesar de ser uma situação que me incomoda muito, sempre sabemos dos colegas através de mensagens trazidas pelos estudantes. Muitas delas são distorcidas o que nos obriga a ter muito cuidado ao receber tais mensagens trazidas por eles. Acho que, nós professores, sabemos, mesmo que inadvertidamente, quais são os colegas mais queridos e quais os mais criticados. Além disso, acabamos por saber, mesmo que não desejemos, como os colegas se comportam em sala de aula. Não foi diferente no caso da professora Érica. Os estudantes de suas turmas diziam: "
Ela é séria", "
ela é competente", "
é uma ótima professora", "
tem controle da turma", "
é criativa". Continuei reticencioso com as mensagens recebidas, mas comecei a perceber que ela começava a ser querida por todos os estudantes das turmas por que passava. Pouco, ou nenhum, contato eu tive com a professora Érica, neste período.
No período seguinte fui escalado para uma disciplina que deveria dividir com a professora Érica. Esta instituição, em que trabalho, tem essa virtude: pelo menos os professores que ministram ou supervisionam a mesma disciplina, para o mesmo período, são estimulados a se reunirem e agirem em harmonia. Essa proposta é de fundamental importância no curso superior. Na maioria das instituições de ensino superior por que passei, os professores, das mesmas turmas, não se reúnem para conversar sobre o que pedirão em termos de trabalho para a turma. Com isso, os estudantes, no final do semestre, estão sobrecarregados de trabalhos, já que cada professor passou a sua cota de trabalho sem se preocupar com o que os colegas estão exigindo deles. Certamente isso atinge o processo e a qualidade da aprendizagem, que deveria ser o objetivo primeiro de qualquer instituição de ensino. Com o excesso de trabalho, eles precisam "
se virar" para entregar os trabalhos a todos os professores e, para isso, fazem toda a sorte de "
mutretas" para não perderem o semestre. Os estudantes mais prejudicados são aqueles que, além de estudar, também trabalham. É preciso fazer uma menção especial às mulheres que trabalham em duplo horário (manhã e tarde), estudam à noite e ainda têm família para cuidar. É o que eu chamo de "
tripla jornada de trabalho".
Da mesma forma que recebemos deles mensagens dos colegas, recebemos também mensagens sobre suas dificuldades. Os professores mais sensíveis detectam este problema relacionado ao tempo de estudo deles. Alguns propõem transformar a sala de aula num ambiente de estudo para que eles não tenham que estudar em casa. Outros criam dinâmicas próprias para que eles aprendam em conjunto, atendendo as correntes mais modernas da psicologia da aprendizagem:
"Ninguém ensina nada a ninguém,
ninguém aprende sozinho;
a aprendizagem se dá na comunhão" |
- ensinou-nos Paulo Freire. Outros importantes autores nos indicaram o mesmo caminho, como Jean Piaget, Lauro de Oliveira Lima, Maria Montessori, Célestin Freinet, entre outros. Outros professores preferem evitar passar muita leitura e muito trabalho para casa... mas passam. De qualquer forma a leitura é indispensável para a formação do profissional.
No meu ponto de vista o encontro regular de professores, principalmente se eles ministram as mesmas disciplinas ou para as mesmas turmas, é de suma importância para o aumento da aprendizagem dos estudantes. Ora! Em última instância, estamos sendo pagos para que os estudantes aprendam. Se não aprendem falhamos, ou como indivíduos, ou como grupo, ou equipe.
Como iria dividir uma turma com a professora Érica, marcamos uma reunião pra um fim de tarde, antes do início da primeira aula, para combinarmos as estratégias de ação para nossa disciplina. O professor Lauro de Oliveira Lima diz que toda liderança deve ser emergencial: a partir das necessidades emanadas pelo grupo. Diz ele que a liderança autocrática e perpétua é prejudicial ao desenvolvimento da produção ou do conhecimento. Pensava que iria liderar essa reunião, já que estava ministrando esta disciplina há dois semestres. Mais um erro meu! Depois que eu expus a estratégia adotada nos semestres anteriores, quando dividi a mesma disciplina com outras colegas, ela examinou a proposta e ofereceu um monte de idéias criativas.
Talvez não exista na educação
uma virtude tão importante
quanto a criatividade. |
A criatividade deveria ser a quintessência de qualquer projeto pedagógico, sob pena de estarmos reproduzindo o tradicional, o passado, o vencido. A criatividade assume uma importância maior do que o puro acúmulo de conhecimentos sobre a disciplina.
Ao mesmo tempo, a criatividade na educação deve ser levada com o máximo cuidado. A criatividade na educação deve ter os limites do humano. Não podemos ir além do permitido. Retiro um bom exemplo para isso de uma das escolas de Educação Infantil na qual trabalhei. Uma professora, de uma turma de crianças de aproximadamente cinco anos, ao ser perguntada por uma delas como nasciam os bebês, resolveu ser "criativa". Enquanto ia explicando: "
aqui está a mamãe", colocou uma das meninas deitadas numa das mesas da sala. Continuou: "
aqui está o papai", colocando um menino por cima da menina como se simulasse um ato sexual. Depois de retirar o menino de cima da menina, colocou uma boneca, do "Cantinho da Boneca", por dentro do vestido da menina e simulou um parto. Eu até poderia dizer que sua idéia foi maravilhosa; que ela foi extremamente criativa... Não fosse uma turma de crianças de aproximadamente cinco anos... Só para não deixar a história sem fim, os pais das crianças souberam do que ocorreu na escola, levaram o caso à Direção e a professora foi demitida. A criatividade na educação, assim como qualquer experiência que levemos a efeito em sala de aula, deve estar ligada não só a realidade da turma em que estamos trabalhando, como também a real-idade destas.
Tenho um outro exemplo, em outra realidade: quando fazia um dos meus cursos de especialização (mais um interrompido antes do fim), uma professora entrou em sala com um aparelho de som e um CD. Colocou o som em cima de sua mesa e começou a tocar uma dessas músicas celtas, tipo Enya ou Lorena McKennitt (Nada contra! Adoro esse estilo de música). Então a professora começou a dar suas instruções: "
Agoooora, nós vamos fechar os olhiiiinhos e imaginar que nós estamos num lugar muuuuuuito bonito, em companhia de uma pessoa que nós gostamos muuuuuito...". Numa turma, cujos estudantes eram todos professores do Ensino Médio ou do Superior, diretores de escola, supervisores pedagógicos, a estupefação foi quebrada por um colega que interrompeu a professora, dizendo alto, para todos ouvirem: "
'Fessora! Pode parar porque eu sou muuuuuito sensível!" Risadas gerais na turma e o fim da "didática" proposta por esta outra "criativa" professora.
Voltando à professora Érica, a primeira questão levantada por ela foi quanto a escolha do tema a ser trabalhado na elaboração do projeto de ação. Esta questão, da escolha de temas, sempre me incomodou. Existem muitos professores que passam alguns temas no quadro, pedem para turma se dividir em grupo e cada grupo escolher seu tema. Os primeiros grupos a realizarem a escolha ainda poderão ter a sorte de escolher um tema que lhes agrade, mas os últimos grupos, normalmente, são obrigados a abordarem questões que não atendam aos seus interesses imediatos de estudo. Nas minhas aulas de Metodologia Científica sempre faço a simbologia, para os estudantes, de que escolher um tema para ser trabalhado é como escolher um namorado ou uma namorada. Seria uma atitude masoquista escolher um(a) parceiro(a) que não nos agrade. É incongruente pensar em manter uma relação com uma pessoa que não nos agrade. Estar junto dessa pessoa, sair com ela, conviver nos mesmos ambientes e trocar juras de amor seria uma tarefa angustiante. A escolha do tema passa pelo mesmo princípio. Receber um tema imposto pelo professor ou pelas contingências, que não seja de nosso agrado, é estarmos fadado à angústia, ao sofrimento e à tristeza, na hora de trabalharmos na pesquisa.
Não existe ambiente,
mais-que-perfeito,
de se viver a alegria
do que a escola. |
Muitas vezes
somos nós, professores,
que atrapalhamos
o vivenciar desta alegria. |
Esta foi uma das questões levantadas pela professora Érica. Para superar a tortura de se impor um tema que valesse para todos os grupos, cada um formado por cerca de sete estudantes, ela propôs que, antes de se escolher um tema para ser trabalhado no grupo, cada estudante redigisse o seu memorial. Este deveria percorrer por todos os componentes do grupo para que todos soubessem dos caminhos e da história de cada um na educação. A partir daí, então, o tema seria escolhido democraticamente. Sugeriu ainda que nós dois, os professores, tivéssemos a iniciativa de falarmos do nosso próprio memorial para que os estudantes se tornassem mais seguros.
Eu, que estava convencido que iria auxiliar a professora Érica nos procedimentos didáticos da turma, acabei sendo convencido por ela nesta reunião. Saímos da reunião direto para a sala de aula. Ainda por sugestão dela juntamos as duas turmas, somente por esse dia, já que as normas a serem definidas seriam uniformes para as duas. E nesse dia eu ouvi a sua história na educação. Ela disse que desde pequenina já pensava em ser professora. E contou sua trajetória que a levou a ser uma professora universitária aos vinte e três anos de idade. Enquanto ela falava, eu pensava que a academia, ao invés de perder um tempo precioso e desperdiçar uma importante energia vital em pesquisas anacrônicas, discutindo-se o "sexo dos anjos", poderia elaborar uma pesquisa para estudar o que fizeram com a professora Érica no período de sua formação. Será que tanta competência e seriedade, agora aos vinte e quatro anos de idade, vêm de uma formação familiar ou de uma formação escolar? Seja de onde for, principalmente se a causa estiver nas escolas por onde passou, merece um estudo. Fui visitar, junto com ela, uma escola para servir de campo de estágio para nossos estudantes. Por coincidência a professora Érica tinha feito todo o seu Ensino Fundamental nesta escola. Quando a Diretora da escola soube que ela hoje é uma professora universitária não se conteve de contentamento. Seus olhos brilhavam ao olhar para aquela menina diante dela, que era estudante do tempo em que ela já era diretora, fruto daqueles mesmos bancos escolares onde ainda hoje se formam outras crianças.
Num outro dia, quando acompanhamos as estudantes na visita agendada na ida anterior, presenciei uma cena de extrema sensibilidade: a diretora da escola, depois de se reunir com as estudantes universitárias que estudavam nas turmas da professora Érica, levou-nos para conhecermos a escola. Sob orientação da diretora entramos em todas as salas e ela fazia questão de apresentar a professora Érica como egressa daqueles mesmos bancos escolares em que eles agora se sentavam. Na despedida da visita, quando todos nós iríamos embora, a diretora virou-se para professora Érica e disse que se ela, a diretora, não se sentia bem com os alunos que fracassavam, por outro lado sentia-se orgulhosa com a trajetória desta ex-aluna e começou a chorar emocionada. Sensibilizado, abracei a diretora para consolá-la, dizendo que situações como esta também fazem parte de nosso ofício de educadores. Ainda consolando a diretora, olhei para a professora Érica e ela também chorava. E as duas se abraçaram emocionadas. Afastei-me para não chorar com as duas.
Não existe, nas escolas,
lição maior do que
a de sensibilidade. |
Parodiando o discurso final do filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin, eu diria que
mais do que técnicas e conteúdos
precisamos de afeição e doçura;
"sem estas virtudes
a vida será de violência
e tudo estará perdido." |
Que bom se pudéssemos descobrir a fórmula de se produzir professoras Éricas aos montes.
Paulo Freire nos diz que precisamos correr riscos em educação; que precisamos ousar. Foi isso que esta instituição em que trabalho fez no caso da professora Érica. Ousou. Acreditou que alguém com cara e jeito de menina tivesse a oportunidade de mostrar a sua competência. De ministrar disciplinas complexas como a de Estrutura e Funcionamento dos Ensinos Fundamental e Médio, Legislação do Ensino, entre outras. E deu certo. Professora Érica tornou-se a unanimidade da instituição. Todos a adoram e a respeitam. Os estudantes e seus colegas, professores, estão todos apaixonados pelo seu jeito de ser e por sua postura profissional.
Para concluir vou contar um detalhe da reunião relatada acima. Como esta reunião foi realizada ao fim da tarde, o sol entrava pela janela num ângulo próximo aos quarenta e cinco graus. Como ela havia sentado de frente para a janela a réstia de luz que entrava batia em seu rosto, resvalava numa pilastra da sala, deixando uma penumbra no resto do ambiente e, no chão, a sombra de sua silhueta. Eu olhava aquela luz, com as partículas de poeira simbolizando uma névoa, iluminando aquele rosto jovem e bonito, como uma epifania, ensinando-me a programar uma aula. Sentado do seu lado direito, olhando tudo aquilo, esforçando para me concentrar, pensei: "
É Deus! Essa moça é iluminada por Deus!".
A mágica foi quebrada quando entrou um funcionário e acendeu a luz da sala, desfazendo o contraste entre a luz do sol e a luz interna, restando apenas a luz da professora Érica.
Este texto é a minha revelação de orgulho por estar trabalhando junto de um ser humano tão especial e a minha homenagem à sua luz.