Ato falho

Érico Corrêa


     Dia entediante, toca o telefone. A amiga de sempre o convida para uma festa. Ele não gostava de festas. Achava que estas festas estavam sempre cheias de pessoas vazias. Muita gente conversando prosaicamente com o característico copo de bebida alcoólica na mão. Em pouco tempo, todos bêbados, ninguém se entende.

     Tédio por tédio, resolveu ir à festa. Veria alguns amigos, colocaria as novidades em dia e, ele mesmo, beberia alguma coisa para fingir que estava esquecendo de alguma coisa que não gostaria de se lembrar. Mas que lembraria, inevitavelmente.

     Chegando lá, casa cheia, entre "ois", "tudo bem?", "e aí?" e "como é que é?" foi entrando no ritmo de festa. "Fui demitido", "Maria casou com o vizinho", "Suzana está grávida", "Pedro Paulo está morando no Acre e a namorada dele já está com outro" e as conversas corriam soltas e descontraídas... Até demais.

     Sempre se sentia deslocado em festas, já que não tinha muito o que conversar e se sentia solitário, mesmo que cercado pelo burburinho. Para ele o bom das festas era ver caras e bocas bonitas de se olhar. E foi nesse passeio de olhos que a viu. Sentada numa poltrona, ouvia pacientemente o "blá-blá-blá" sem sentido de um rapaz galanteador. Fingia prestar atenção na conversa do rapaz, mas sua vista também passeava pelos quatro cantos da casa, procurando nos rostos e sorrisos uma alegria qualquer.

     Por ser bem mais jovem do que ele apenas se limitou a admirá-la de longe, sem pensar numa aproximação. Sentia-se gratificado só por admirá-la, como se admirasse uma pintura ou uma paisagem bonita, o mar quebrando nas pedras ou o pôr do Sol. Deixou-se então inebriar-se por sua visão. Intuiu-se de que a diferença de idades não permitiria a aproximação. No pilequinho a que chegava percebia que o colega, ao seu lado, não parava de falar coisas que ele nem prestava atenção. Para não ser grosseiro com o colega algumas vezes dizia coisas do tipo "pois é...", "hã-hã", "que coisa!", "e essa!", "é mesmo?". Entediado com o monólogo do amigo, que parecia não ter mais fim, resolveu ir à cozinha encher novamente o copo de bebida.

     De pé, de frente para a bancada ao lado da pia, enquanto enchia seu copo com sua segunda dose de caipirinha, ouviu uma voz doce e suave por trás de seu ombro:

     - Não exagera!

     Percebeu que era a mulher que admirava na poltrona. Refeito do susto, sorriu e respondeu:

     - Vamos beber - disse ele.

     - Comamos e bebamos, meu nome é Marta - prosseguiu ela.

     - Tem gente que bebe para esquecer.

     - Mas quando bebo eu me lembro.

     - Dependendo do que se lembra, então é bom.

     - É sempre bom lembrar. Em todos os sentidos.

     Encantamento mútuo e imediato. Num momento como este é difícil dizer o que atrai um ao outro: talvez a beleza física, talvez um detalhe que não se possa definir, talvez o tom de voz, talvez o olhar que brilha, talvez a leveza de ser diante do outro, talvez a coincidência de carência de afetos que passe pelo momento histórico dos dois, talvez nada que tenha explicação... Mas a atração, para os dois, era evidente no olhar, no sorriso, no tom da voz.

     Ele, procurando sair da catarse, disse que não gostava de festas. Ela concordou, apesar de achar que era importante para conhecer pessoas e crescer. Ele então, inseguro, propôs que saíssem e fossem jantar fora. Ela topou. Para eles a reunião de amigos estava terminada. Agora iria começar uma outra festa; dos dois.

     Saíram meio que escondidos. Não se despediram de ninguém. Esgueiraram-se pelos corpos que lotavam a casa cheia de gente até encontrar a porta e o caminho da rua. Já na rua perceberam como o ambiente de que saíram estava quente, ou então a noite agradável.

     Entraram no carro e foram para um restaurante. Sentaram-se numa mesa afastada das outras pessoas, já que não tinham a intenção de ver mais ninguém, a não ser um ao outro, e puseram-se a conversar entre os brilhos dos olhares. Não se pode dizer quem tomou a iniciativa, mas em pouco tempo estavam de mãos dadas, como se selassem a união. Não demorou muito para o primeiro beijo repleto de paixão e juras de amor.

     Dali, ato contínuo, foram para a casa dele e sem muitas palavras uniram os corpos como se fossem um só. E por toda noite vivenciaram o prazer de um no prazer do outro. Desejavam-se e desejavam que cada momento vivido naqueles momentos fosse eterno, para sempre fosse assim. Dormiram juntos, em paz, corpos entrelaçados e acordaram tarde.

     - Preciso telefonar para casa. Não avisei aos meus pais que iria dormir fora de casa. - disse ela com voz de sono.

     Ela se levantou foi para o telefone, levou algum tempo por lá, enquanto ele continuou na cama recuperando-se do torpor do acordar. Quando voltou, ele já de olhos abertos olhando-a com carinho e admiração diante de sua beleza, comentou:

     - Levei uma bronca! Tal e qual uma criancinha.

     O pai dela, militar, e a mãe, professora, eram o que representavam de mais tradicional no que se refere a uma filosofia de vida. Para dormir fora de casa era preciso dizer que estava na casa de uma amiga. Ela não acreditava que seus pais acreditavam que ela realmente estava na casa de uma amiga, mas sempre dizia que estava na casa de uma amiga. É provável que seus pais faziam de conta que ela estava na casa de uma amiga, ela fazia de conta que seus pais acreditavam que ela estava na casa de uma amiga e sua vida ia seguindo nesta eterna mentira familiar. Esta situação estava confortável para todos. Essa era a forma de seus pais se sentirem respeitados, por mais paradoxal que a situação estava expressa.

     A identificação entre os dois era tanta que a relação se fortaleceu. Gostavam dos mesmos gostos e das mesmas manias. A necessidade de estar juntos era imperiosa. Não conseguiam mais evitar que durante todo o tempo, durante o dia inteiro, um só pensasse no outro. Isso era amor. A lembrança de um tomava conta de tal maneira da existência do outro que parecia que um estava incorporado no outro. Dessa maneira viviam, cada um na sua história de vida, em paz. Como se o outro fosse o paraíso.

     Diante de sentimentos tão fortes a necessidade de estarem juntos tornou-se imperiosa. Ela começou a passar um tempo maior na casa dele. As mentiras para os pais dela começaram a não surtir muito efeito. Os fins de semana passados com ele eram traduzidos para os pais como se fossem viagens para cidades vizinhas. Seus pais perceberam que a filha começava a se afastar de casa.

     - Mas como essa menina viaja! - dizia sua mãe.

     A situação em casa tornou-se insuportável para ela. Os conflitos com os pais se agravaram. Os argumentos dela não convenciam seus pais; os argumentos de seus pais não se coadunavam com a proposta de vida dela. O pai até que não se envolvia muito, mas a mãe instigava uma atitude.

     - Você não vai tomar uma providência? Esta menina está vivendo uma vida de muita liberdade! - argumentava a mãe.

     - Mas ela já tem vinte e cinco anos! Não é mais uma criança! - respondia o pai, com certa tranqüilidade.

     Diante da felicidade da filha, a mãe não sossegava e, sempre em casa, toda vez que a filha passava pelo lar paterno recitava sua ladainha:

     - Não é por mim, mas seu pai está preocupado com você. Sou eu que estou controlando a situação e já não sei mais o que fazer. Você precisa ficar mais em casa.

     A filha não valorizava as palavras da mãe: primeiro porque sabia que não era verdade, depois por que estava feliz demais para interromper o que estava vivendo.

     Marta, que evitava repassar para ele o que se passava em sua casa, resolveu conversar com o parceiro sobre o que ela estava vivenciando em sua casa. Preocupado ele propôs que os dois assumissem a relação e que ela se transferisse para sua casa, como casados. Resolveram então que ela o levaria em sua casa para que conhecesse seus pais.

     Talvez fosse melhor que a relação continuasse do jeito que estava. Talvez a mentira seria mais agradável para a felicidade dos dois. Revelar a verdade foi o desastre da relação. Quando ela o apresentou aos seus pais a recepção por parte deles foi extremamente fria. Nem tanto pelo pai, que manteve com a razão de ser da felicidade de sua filha um diálogo amigo e rico, mas a mãe sequer permaneceu na sala, retirando-se para o quarto para ver televisão.

     Apesar do pai não ver tanto problema assim, a mãe determinou que a diferença de idade entre os dois era um impedimento para a relação. E, consequentemente, para a felicidade da filha. E isso foi também determinante para que a vida dos dois do romance se transformasse em drama.

     Resolveram assumir a relação, mesmo sem a concordância dos pais. Talvez não tenha sido a melhor estratégia, talvez pudessem retomar a relação da maneira que vinha sendo vivida, talvez devessem ter continuado a mentir, talvez pudessem ter melhor compreensão do mundo que os cercavam, talvez a felicidade e a alegria de viver não fizesse parte do mundo.

     Ele procurava contemporizar pedindo paciência a Marta. Ela se sentia pressionada pelos pais, que deixaram de falar com ela. Ela, dividida, resolveu cortar a relação e voltar para a casa dos pais.

     Ele, então só e triste, vivendo a dor da separação de seu maior desejo imediato, razão de ser do seu próprio ser, procurando encontrar um motivo que justificasse sua vida, telefonou para um amigo. Contou sua história e o amigo propôs que saíssem, propondo a sua namorada que levasse uma amiga.

     Marcaram num bar e quando chegou, o amigo apresentou a amiga da namorada, lindíssima e bem mais jovem do que ele:

     - Está é uma amiga, Márcia.

     No que ele respondeu:

     - Oi Marta!
 

        Rio de Janeiro, abril de 2003