Quem pode explicar o desejo? O desejo tem alguma relação com o amor? Ele a desejava e a desejava tanto que acreditava piamente que a amava. Achava que era amor, já que todos os seus momentos, seu pensamento e sua vida eram ocupados por sua meiga presença. Acordava todas as manhãs na esperança de vê-la. Criava em sua imaginação que ela passaria diante dele e sorriria. E ele diria alguma coisa engraçada e ela corresponderia.
Mas a realidade era diferente de sua imaginação: seus encontros eram os mais fortuitos possíveis. As poucas vezes que se viam na semana, mal se falavam. Trocavam rápidas palavras, quando trocavam, mas, na verdade, nem aprofundavam uma conversa. Ele achava que suas palavras fugiam de sua boca quando estava perto dela. Ou talvez achasse que por medo ou prudência, dizia coisas que não queria na verdade dizer. Na verdade queria dizer do seu desejo, na verdade queria atender aos desejos de suas fantasias.
Muitas vezes tinha contato com a realidade, mas esta era como se fosse uma foto fora de foco. Ou fosse uma paisagem coberta pela névoa como as paisagens serranas nas manhãs de inverno. Suas famílias não se davam. Melhor dizendo: tanto a família dele, quanto a dela nutriam um ódio mortal, uma pela outra. Histórias antigas faziam com que a ficção dos Capuleto e Montéquio estivessem muito próxima da realidade deles.
A relação dos dois estava muito próxima do impossível. Diante da realidade familiar dos dois a possibilidade de uma vida em comum era inimaginável. Mesmo sabendo desta realidade ele acreditava que a beleza e a pureza do amor dos dois seria capaz de superar qualquer obstáculo. Para ele o que seria impossível era a realidade familiar negar a realidade do afeto que ele nutria por ela. Se suas famílias não se davam bem acreditava que em sua história a morte não seria escrita no final. E Romeu e Julieta teriam um final feliz, como na maioria das histórias de amor.
Ele não tinha certeza do afeto dela por ele. Nutria, no entanto, a esperança de que o afeto era recíproco. Ele, sempre que se encontrava com ela, procurava deixar no ar um leve toque de interesse. Mas nada tão claro para não afastá-la e nada tão solto para não perder a esperança. Talvez existisse da parte dela também alguns detalhes em suas palavras que ele, cego, nem notasse. Mas nada tão claro que o permitisse avançar mais e nada tão obscuro que o fizesse perder as esperanças.
A questão familiar preocupava-o. A sociedade estipula valores para que o amor aconteça. Condena qualquer desvio do padrão determinado por ela. Assim existem categorias de opostos que não podem se amar: o rico e o pobre, o magro e o gordo, o belo e o feio, o velho e o jovem, o branco e o negro, o casado e o solteiro, o alto e o baixo, o macho e o macho, a fêmea e a fêmea são padrões de afetos e uniões condenados pelos preconceitos sociais. Não pode!
Foi isso o que aconteceu entre as famílias dos dois. Uma tia dela, já com uma idade avançada apaixonou-se por um primo dele, trinta anos mais jovem. O afeto e o amor entre os dois eram imensos e recíprocos, sem interesses e sem cobranças. Mas a família dos dois se interpôs na felicidade da relação. Como uma tropa de choque de policiais do afeto, todos disseram não. E de mãos estendidas, como num cumprimento nazista, gritavam: não pode! E como na Idade Média: atirem-nos à fogueira! Queime-os!
A família dela dizia que o rapaz estava interessado no dinheiro da tia. A família dele dizia que a tia estava se aproveitando da inocência do primo dele. Os argumentos para condenar a relação resvalaram-se em todos os componentes da família dos dois, gerando mágoas, rancores e atritos intransponíveis. Deixaram de se falar e a condenar até mesmo qualquer tipo de amizade entre os membros das famílias.
Para ele isso não representava nada e acreditava que para ela também não. Achava que nada, nem ninguém, poderiam condenar o sentimento tão puro e belo que estava vivendo. Para ele o sentimento de amor, inexplicável e misterioso, deveria ser festejado por todos, como uma dádiva divina, onde não coubesse culpa ou pecado. Acreditava impossível o ódio vencer o amor. Acreditava que essa era a lei a ser seguida, mesmo que não escrita em nenhum código, mas inscrita nos sentimentos de todos.
Certo dia ele chegou em casa e, no meio da correspondência, viu que tinha um convite de formatura de um amigo. Junto ao convite de formatura, outro convite para o baile que aconteceria a seguir. Sentiu um misto de alegria, apreensão e catarse. Sabia que o amigo que se formava era amigo também dela. Sua cabeça, ato contínuo, começou a trabalhar seu enredo. Estariam juntos.
Imaginou chegando ao baile e procurando por ela pelo salão. Não seria difícil encontrá-la. Seu rosto se destacaria no meio do salão lotado. Entre as mesas, no meio das pessoas, seu rosto sobressairia aos demais. A sua luz o iluminaria, como um farol no oceano. Ele não se aproximaria de sua mesa para não se encontrar com sua família. Ele se distanciaria da sua própria mesa para se afastar de sua família. Ela perceberia e o seguiria. Encontrariam-se em um lugar seguro do salão de festas. Eles trocariam tímidos "ois", entre sorrisos amarelos, faces ruborizadas e brilho nos olhares. Sua mão esquerda seguraria a mão direita dela. Ele a puxaria até que seus corpos se tocassem. Eles se abraçariam. Não diriam nenhuma palavra. Em silêncio, sairiam enlevados pelo salão ao ritmo da música romântica. Como se seus pés não tocassem no chão dançariam todas as músicas, cantariam todas as canções, suariam todos os suores, sentiriam todos os corações, amariam todos os amores.
Nada precisaria ser combinado. Nada precisaria ser falado. Como se o destino estivesse selado. Encontrariam-se no dia seguinte e em todos os dias que se seguissem. Nunca mais se separariam. Viveria para sempre como num sonho. Um eterno sonho de amor com a imagem de seu desejo.
Nos dias anteriores ao dia da formatura não viveu. Era um autômato, um ser que não era. No dia do baile tomou um demorado banho de água tépida, perfumou-se de seu melhor perfume, vestiu sua melhor roupa, arrumou-se como se fosse só para ela. Chegando lá procurou-a angustiado por todas as mesas, mas não a viu. Ele passeou de mesa em mesa, conversou com todos, brincou com as crianças, mas saiu cedo.
Ela não foi.
Rio de Janeiro, julho de 2003