Quem é Érico Corrêa
Homem singular, não sabe onde nasceu. Diz que foi adotado, por volta dos três anos, por um casal de pessoas idosas. Este casal não tinha filhos e resolveu adotá-lo. Como já eram bastante idosos não deram muita atenção a ele; nem mesmo puseram-no numa escola. Desde os seus seis anos fugia constantemente de casa, passando dias sem retornar. Quando voltava não percebia muita alegria em seus pais adotivos. Aos onze, saiu de casa definitivamente e nunca mais os viu. Analfabeto até os quatorze anos, a lembrança mais distante que tem de um lugar é um barraco na beira de um rio. Não sabe o nome do lugar, muito menos o nome do rio. Não sabe nem mesmo se era um rio ou um mero canal, ligando o mar a uma lagoa ou um braço de rio unindo-o ao mar. Não se lembra como foi adotado, nem como se afastou dos seus pais verdadeiros.
Depois que saiu da casa de seus pais adotivos viveu nas ruas. E foi nas ruas que cresceu. Aprendeu a ler e a escrever numa igreja onde algumas paroquianas alfabetizavam a população de rua. Érico foi um deles. Só conseguiu um lar para viver aos dezoito anos. Vivendo de subempregos, vendendo amendoins para uma senhora que os torrava e recebia uma parte dos lucros, vendendo guarda-chuvas em dias de chuva, engraxando sapatos, trabalhando como auxiliar de obras, fazendo pequenos consertos em apartamentos, conseguiu pagar por um quarto onde viveu boa parte de sua vida.
Depois que aprendeu a ler nunca parou de estudar. Na verdade nunca cursou uma escola regular. Érico é o que se pode chamar de autodidata. Terminou o Ensino Fundamental e o Médio através do que se conhecia na época como Artigo 99, que depois foi chamado de Madureza e por fim Educação de Jovens e Adultos.
Aos vinte anos passou a viver junto com uma outra pessoa e, com ela, teve seu primeiro filho aos vinte e um anos. Se a vida era difícil, ficou mais ainda. Tinha que trabalhar e continuar seus estudos para garantir mais uma boca para comer. Por sorte sua mulher conseguiu colocar o filho na creche de uma igreja e podia trabalhar para ajudar.
Formou-se no curso de Letras. Não sabe como conseguiu concluir seu curso. Detestava a maioria dos seus professores. Poucos deles conseguiam entender que mais importante do que ser um profissional da educação ou um mero professor era ser um educador. Conhecimento se obtém dos livros e da nossa busca. Só uns poucos conseguiam entender que ensinar era menos importante do que permitir com que os estudantes seguissem seus próprios caminhos do saber. A maioria esforçava-se para ensinar aos estudantes aquilo que eles mesmos haviam aprendido nos livros. Esses queriam repassar para os estudantes os seus modelos (que eles costumam chamar de paradigma, para que sejam respeitados como intelectuais) de bagagem de conhecimento, como se esses fossem os moldes ideais para explicar e viver a vida. De tal forma eles se sentiam padrão que só lhes restavam a frustração e a amargura, já que percebiam, intuitivamente, que suas verdades não eram tão seguidas assim. Os professores frustrados e amargurados são os mais perigosos e no seu rastro deixam sempre as marcas da tristeza e da amargura. E, na forma como está entendida a filosofia da educação vigente, são normalmente tratados como eficientes. O que, de certa forma, não deixa de ser verdade, já que produzem um exército de frustrados, de amargurados e, o que é mais grave, de desinteressados pela busca do saber.
Ouviu, certa vez, de uma professora, que para aprender era preciso sofrimento. Irado, levantou-se para dizer que, mais do que uma obrigação, aprender deveria envolver alegria, uma dose inenarrável de prazer e que lamentava profundamente a vida infeliz que era vivida por esta professora. Apesar de ter sido um estudante brilhante desta disciplina, quase foi reprovado pela professora; por vingança.
Conseguiu concluir seu curso com dificuldades, mas concluiu. Pegou aquele pedaço de papel que o rito de passagem sócio-cultural chama de diploma. Com o papel na mão poderia tornar-se um professor. E foi isso que fez durante toda a sua vida. Trabalhou em várias escolas e aprendeu em todas elas. Ele acha que o ser humano professor, que gosta de aprender, exerce uma profissão privilegiada: nenhum outro profissional convive com tantas histórias diferentes em tão pouco tempo. Érico diz que é impossível não se aprender muito com tanta riqueza ao seu redor, cotidianamente. Para quem quer chegar a ser um educador é um caminho mais-que-perfeito.
Tem ojeriza em ser tratado como intelectual, e aos próprios intelectuais. Acredita que não exista forma mais sutil de se alienar do que se fazer passar por intelectual. Sua conturbada passagem pela academia fez com que passasse a entender que a vida e a realidade estão de um lado e os intelectuais de outro. Intelectual, para ele, é aquele que se diz estudioso de uma questão qualquer e, com o próprio ego inflado, se arvora em autoridade nesta questão, exercendo, quase sempre, um arrogante autoritarismo peculiar sobre os demais. O intelectual só pode se determinar intelectual porque, ao invés de trabalhar e produzir para a coletividade, tem tempo de sobra para incorporar conteúdos de livros e apreender os trejeitos típicos dos intelectuais acadêmicos. Raramente um intelectual produz benesses para a sociedade.
Aposentado, filhos crescidos (teve dois), casamento estável, resolveu escrever e gosta de se distrair escrevendo. Escreve sobre sua história na educação; sobre sua visão crítica da educação, e sobre qualquer coisa. Assim ele passa o tempo e se distrai.
E foi assim que saíram estes textos. Só para falar de amor. Para falar qualquer coisa que interessasse a alguém ouvir.