Geraldo, Milton e Carlos estudavam administração. Eram bons estudantes. Eram estudantes daqueles que não são brilhantes, mas conseguiam acompanhar o que os professores lhe passavam, saiam-se bem nas provas pontuais e "dava para passar" por média.
A tensão durante o período era evidente e sofrida e no fim do período o que eles queriam era relaxar. Afinal passaram por mais um obstáculo na incessante luta contra a corrente para receber o pedaço de papel que chamam de diploma, o que lhes legalizariam para poder exercer sua atividade profissional.
Alguns de seus professores eram nitidamente sádicos. Durante todo o período o que mais faziam era agredir os estudantes com as mais terríveis ameaças. Passavam o semestre inteiro ouvindo coisas do tipo "acho melhor desistir", "vocês não vão aprender nada", "lugar de vagabundo é na rua", "vocês estão ocupando lugar de quem merece" e por aí vai.
O fim do período de estudos e o início das férias era, para eles, como se fosse a saída do inferno e a entrada no paraíso. Principalmente porque os pais de Geraldo eram proprietários de uma grande fazenda, em um Estado vizinho. A fazenda criava gado, produzia leite e muitos dos seus derivados, tinha pomar e horta, além de uma enorme casa, com um número incontável de quartos, cercada por um lindíssimo jardim, cuidado pessoalmente pela mãe de Geraldo.
Tudo por lá era maravilhoso. Era um lugar sem problemas. Não havia contas para pagar, prazos para cumprir, horário para acordar, matérias para estudar ou professores arrogantes para enfrentar. Era realmente o paraíso, eles eram felizes e sabiam disso.
Antes de terminado o período de aulas tudo já estava planejado para a viagem. Os três sairiam da faculdade direto para a estrada. Assim que o último professor divulgasse as suas notas, e garantida a aprovação, nem se virariam para olhar para trás.
A viagem foi tranqüila e rápida. A estrada vazia permitiu que mal percebessem o tempo gasto. Chegando a fazenda foram recebidos pelos funcionários que já eram conhecidos dos três. Eles, os empregados da fazenda, eram como se fossem da família. Todos conheciam Geraldo, Milton e Carlos desde que eram pequenos. Geraldo e Carlos brincavam com Milton porque um dos empregados, o Zé do Boi, como era conhecido o senhor responsável pela criação do gado, era muito parecido fisicamente com Milton.
Embora Milton tivesse "escrito na testa" que era burguês e Zé do Boi, em virtude de suas vestimentas, de que era trabalhador e pobre, os dois tinham o mesmo tipo físico. Morenos, de estatura média e de tronco forte, os dois se se vestissem com a mesma roupa seria difícil diferenciá-los. Os amigos de Milton pilheriavam dizendo que ele era filho do Zé do Boi.
As manhãs e as tardes na fazenda eram de pura satisfação. De manhã banho de rio e comer frutas tiradas direto das árvores. E pode-se dizer que tinha de tudo: manga, banana, pêssego, uva, tangerina, caqui, abacate, acerola e até alguns pés de figo. A parte da tarde, depois do almoço, tendo as frutas como sobremesa, sobrava um tempo para uma soneca. Depois da soneca era de praxe umas voltas pelos campos, nos arredores da fazenda. Dormiam um pedaço da tarde para agüentarem ir a vila na parte da noite.
Vila era como o povo local chamava a cidadezinha, que ficava a uns três quilômetros da fazenda. Era uma vilazinha pequena, com poucas casas e um comércio básico. No armazém local tinha umas mesinhas onde as pessoas podiam se sentar para tomar umas cervejas e comer uns salgadinhos. Era ali que as pessoas do lugar se reuniam e os de fora iam para "paquerar".
Os três chegaram na fazenda numa sexta à noite e foram logo dormir. Aproveitaram o sábado, durante o dia, como de costume: banho de rio, almoço, soneca e passeio. Durante a noite estava combinado ir à vila. Sempre iam a pé porque achavam mais divertido.
Lá peças sete horas da noite saíram pela estrada de terra em direção à vila. Depois de cerca de quinze minutos de caminhada Milton bateu a mão no bolso traseiro da calça e percebeu que havia deixado a carteira no casarão da fazenda. Resolveu voltar para pegar. Seus amigos tentaram demovê-lo da idéia. Ofereceram-se para assumir qualquer despesa que ele fizesse na vila. Milton, no entanto foi irredutível. O problema não era o dinheiro, mas os documentos que estavam na carteira.
A noite era escura e uma lua em quarto crescente não ajudava muito. A estrada sem iluminação era seguida quase que como instinto. Na medida em que caminhavam, no entanto, a vista ia se acostumando um pouco à escuridão. Geraldo e Carlos sentaram-se em baixo de uma grande árvore, cujos galhos caíam sobre a estrada. O tempo é mais cruel quando nada se tem para fazer. O tempo passou entre um pouco de conversa e um pouco de silêncio. O silêncio, em respeito ao misterioso silêncio da natureza, e a conversa, para que tivessem certeza de que estavam vivos.
Entre a conversa e o silêncio perceberam um vulto que vinha pela estrada, no caminho da fazenda. Carlos teve a idéia, meio adolescente, meio infantil, de dar um susto em Milton. Meio que se apalpando os dois subiram na árvore e se alojaram num galho bem acima da estrada. Quando o vulto passava exatamente em baixo do galho onde os dois estavam eles pularam na estrada e começaram a emitir um grito agudo e contínuo. Geraldo, para dar maior sensação de pavor, ainda segurou o pescoço da vítima. Ao mesmo tempo em que apertava o pescoço sentia o corpo se desmanchando em direção ao chão.
Eles não esperavam pelo desmaio. Só queriam dar um susto, por brincadeira. Quando o corpo caiu no chão os dois começaram a sacudi-lo.
- Milton! Ô Milton! Desculpe. Foi só uma brincadeira.
O corpo, caído no chão, inerte e frio, não respondia às sacudidelas e os gritos que Geraldo e Carlos insistiam em dar.
- Milton! Ô Milton! Fala com a gente, cara.
No meio desse sacode e dessa gritaria, sentem alguém atrás deles que tocando o ombro de Carlos pergunta:
- Que é o que vocês estão fazendo aí?
É possível que Carlos e Geraldo não consigam ser bons administradores, depois de formados. Pelo menos o que eles planejaram saiu errado. Como administradores não avaliaram as conseqüências da decisão de dar um susto em Milton. Além disso, o objetivo final do planejado, dar um susto em Milton, voltou-se contra eles mesmos. Quando olharam para trás e viram que era Milton que estava falando, começaram a gritar histericamente.
Na escuridão não dava para saber quem era, por isso, por perceberem que o homem estava morto, resolveram voltar para a fazenda. Entraram sorrateiramente pela porta dos fundos para que ninguém os visse. Foram direto para o quarto, conversaram um pouco sobre a travessura que acabaram de fazer e foram dormir.
No dia seguinte, souberam que um dos empregados tinha morrido de enfarte na noite anterior, quando ia para a vila. No velório, o povo do lugar estava dividido. Alguns achavam que era coisa do Saci Pererê; outros discordavam, dizendo que era coisa da Mula Sem-Cabeça; outros, poucos, garantiam que coisa assim era típica do Curupira e teve gente que falou até do Negrinho do Pastoreio, mas sua sugestão não vingou porque todos concordaram que não era noite de lua cheia. Duro e frio no seu caixão, Zé do Boi levava para baixo da terra a realidade do motivo de sua morte.