A ÚLTIMA DAS SAÚVAS.
No chão, as plantas trabalhavam além do costume: faziam a troca do gás carbônico por oxigênio e davam guarida para as milhares de vidas que se movimentavam com a chegada da noite: pássaros se empoleiravam nos galhos das árvores; grilos cantavam, formando uma sinfonia, escondidos debaixo das folhagens; vaga-lumes vagueavam pelo escuro carregando suas lanterninhas acesas; besouros saiam das cascas das árvores e dos estrumes das vacas e iam em busca de luz. E centenas de outros insetos, com apenas 24 horas de vida, saiam de seus esconderijos para alimentarem outros. Tudo isto, num processo inexorável, de constante equilíbrio da natureza.
Toda essa movimentação, - invisível para a maioria dos mortais que não tem olhos de ver, nem ouvidos de ouvir,- era acompanhada de arrulhos, cantos, pios, chiados, ruídos, cores, aromas e falas, estabelecendo uma forma rica e original de comunicação entre seres animados e inanimados, entre aves, animais, insetos, plantas, pedras, rochas, terra. Tudo aquilo só era percebido por quem tinha antenas muitos sensíveis. Antenas capazes de captar, de pressentir o mundo invisível da natureza.
Neste contexto de natureza, uma atividade dinâmica e permanente - era revelada sob um imenso formigueiro que se fazia conhecer pelo monte de terra vermelha, visto á enorme distância. Ali, debaixo da terra, um contingente de formigas trabalhava em ritmo alucinado. A terra vinha lá de baixo, bem do fundo, em forma de pequenos grãos, que eram transportados por milhares de trabalhadoras anônimas que iam e vinham, em ritmo frenético, sem se atropelarem.
Estas trabalhadoras, nunca fizeram greve, nunca reivindicaram aumento de salário, nunca se sentiram divididas por classes, nunca se preocuparam com sindicato. Viviam em classes e, todas, tinham os mesmos direitos. Viviam em classes e, nunca, tiveram a menor sensação de injustiça. Viviam em classes e, nunca, uma classe explorou a outra. Nenhuma tinha a vaidade de aparecer mais do que a outra, nenhuma tinha interesses em se destacar, sobressair, ser mais conhecida. Cada uma sabia, desde que nascia, qual o papel que tinha de desempenhar na comunidade. E o realizava com perfeição. E o direito à aposentadoria, só era reconhecido com a morte. Exemplo de civilidade e de organização, elas eram odiadas pelos homens, talvez, até mais pelo exemplo que davam de produtividade, de justiça social, de equilíbrio, do que pelo estrago que faziam nas plantas.
Nas noites de mormaço trabalhavam mais aumentando o estoque de folhas nas galerias, com o sentido de garantirem reservas maiores de fungos para quando o inverno chegasse. Nestas noites, elas abriam mais galerias que permitissem receber mais expressivas cargas de alimentos, já que o transporte de folhas aumentava sensivelmente.
Trabalhavam mais no verão, aproveitando o tempo firme para que, no inverno, ou nas épocas de chuva, pudessem se guardar melhor.
Naquela noite, como a taróloga do formigueiro tinha previsto, poderia vir chuva nas próximas horas. Então, a ordem era de mais trabalho, sem hora para terminar. E foi assim que os mutirões foram organizados.
Dentro do formigueiro, formigava um ritmo de vida intenso. Milhares de formigas entrantes traziam, em suas tenazes, folhas de roseira 20 a 30 vezes maiores do que o peso delas. Enquanto isto, as saintes já tinham deixado suas cargas numa galeria pré estabelecida e voltavam para tomarem de novo o carreirão e irem buscar mais folhas.
De forma civilizada e solidária, se cumprimentavam de vez em quando e uma passava a informação para outra se a roseira continuava ainda suportando os cortes ou se agora deveria deslocar o ataque para outra planta. Cruzavam suas antenas acima das cabeças, codificavam e decodificavam uma linguagem só entendida por elas e lá ia depois, cada uma na sua direção.
Aquela comunidade formigatícia, vivia uma experiência inédita. Que, depois, seria estendida a outros formigueiros conforme os resultados obtidos.
É que Bonifácia, uma formiga guerreira, com cursos de especialização em Harvard, assumira o comando. O fato se dera mais ou menos assim: ela sempre foi uma formiga diferente. Tinha idéias arrojadas, próprias, originais. Era cheia de iniciativa e tinha até um certo toque de atrevimento na forma com que fazia as coisas. Sua personalidade era forte mas, dócil e democrática. Ela era incapaz de fazer a mesma tarefa, duas vezes, da mesma forma. Sempre, encontrava um jeito de inovar, de inventar, de buscar soluções diferentes para os mesmos problemas. Ela gostava de pensar e de agir diferente. Tomava a frente, em certas situações e comandava, estimulando as companheiras a buscarem novas soluções. Era uma danada de criativa esta tal de Bonifácia.
Como a Rainha foi acometida de uma "síndrome parksoniana encefalítica", - que a deixara prostrada no leito, trêmula e cheia de dores, com os nervos rígidos e a expressão apagada, Bonifácia foi solicitada a assumir a direção da comunidade. E ela o fez em caráter temporário. Acreditava que a rainha ficaria boa logo e que, em poucos meses, seria restabelecida a normalidade. Mas, que nada. A situação foi piorando, surgiram movimentos internos de golpe, alguns grupos quiseram adotar o parlamentarismo e reduzir os poderes da Rainha. Bonifácia, por lealdade, acabou aceitando a tarefa. Assumiu o comando - por aclamação, numa assembléia histórica e memorável para evitar desperdício de energia, quebras de tenazes, de antenas e de pernas.
Ao aceitar, ela impôs condições. Que o formigueiro passasse por uma reforma profunda. Era necessário que se modificassem métodos, sistemas e que se renovasse o pensamento, a cabeça das térmitas.
Bonifácia não se conformava em ver suas irmãs atuarem de forma predadora. Tinha certeza de que, se educadas, poderiam cortar só o necessário para o armazenamento que faziam a cada verão. E que assim, os homens deixariam de perseguí-las. Acreditava em uma engenharia que permitisse cavar o formigueiro, sem jogarem aquela quantidade de terra para cima, estragando pastos, chamando a atenção dos homens como se avisasse: Olhem, aqui tem um formigueiro.
Sabia também - porque lia, estudava e se atualizava em cursos, palestras e seminários,- que já se fabricavam plantas de plástico e de seda e que se estudava tecnologia de enganar as formigas com este tipo de planta, envenenadas. Elas levariam estas plantas para "casa" e lá estariam se contaminando com os fungos, pensando que eram alimentos.
Ela mesma já tivera oportunidade de ver roseiras, cravos e galhos de pessegueiro, exatamente iguais aos verdadeiros, feitos artificialmente. Em função disto defendia a necessidade das formigas serem orientadas para perceberem o engodo e não transportarem plantas deste tipo.
Sabia também que os homens aperfeiçoavam fórmulas, para venenos fortíssimos e planejavam ações cheias de requintes para extermínio da espécie.
Aulas de atualização eram necessárias, também, para que as formigas aprimorassem olfato e percepção de cor, para não serem enganadas pelos recursos da tecnologia humana.
Tudo isto Bonifácia colocara na Assembléia Geral e todos haviam concordado. Ela recebeu plenos poderes para tocar seus projetos, tornando-se verdadeira implantadora de modernidades entre formigas. Agora, era realizar o plano.
Convidou o que havia de melhor na inteligentzia do formigueiro. Criou um Conselho de Notáveis, reuniu arquitetos, engenheiros, administradores, sociólogos, professores, escritores, historiadores, psicólogos e o que mais fosse necessário para levar seu plano avante. Formou comissões, várias, para estudar e apresentar soluções de como combater o analfabetismo, a dependência às drogas, - tinha cada vez mais quantidade de formigas, viciadas no uso de venenos, - delegou poderes, descentralizou a administração, deu nova dinâmica ao sistema de operação do formigueiro. Realizou palestras, cursos de formação de monitores, seminários. Discutiu, debateu, ouviu e vendeu suas idéias. O planejamento, definição de objetivos, criação de estratégias e táticas, levou mais de 6 meses.
Durante este tempo, Bonifácia aborreceu-se além da conta, dormiu pouco, descansou menos ainda, alimentou-se mal. Viveu só pensando na forma de como resolver problemas do formigueiro e esqueceu-se dela própria. Só começou a ficar mais relaxada, quando viu que todas as providências tinham sido tomadas, que as ações estavam em andamento e as obras principais se adiantando.
A única obra que tinha sofrido algum atraso era a do anti-veneno: as providências que iam dotar o formigueiro com falsas galerias, que iam dar em respiradouros distantes. No caso de se colocar veneno nos vários orifícios do formigueiro, as formigas teriam como escapar do formiguicídeo, fechando umas poucas comportas. O veneno circularia por galerias falsas, o que implicaria em gastar grande quantidade dele e a toxidade sairia por orifícios distantes, sem nenhum efeito letal para elas.
Até o Decálogo da Formiga Evoluída já estava implantado, depois de redigido, discutido em primeira instância e aprovado na Assembléia Geral. O Decálogo fora, para Bonifácia, um grande sonho já que versava sobre o comportamento das formigas, tendo em vista sua relação com o ambiente em que viviam. O ponto mais significativo era o que definia o compromisso social de cada uma: Luta pela sobrevivência, com todas as forças, sem ferir a natureza. Aquilo era um passo importante que se dava para a evolução das térmitas que nem Meterlink havia estudado ou pensando, quando estudou a vida delas. Quando fossem buscar alimento, só cortariam o que pudesse ser carregado. Nunca desfolhariam, por exemplo, uma planta, deixando folhas espalhadas pelo chão. O conceito que estava por trás disto era o do feio é roubar e não poder carregar.
Bonifácia, durante toda a realização do projeto, até este momento, tinha se envolvido totalmente com cada passo, com cada iniciativa, com cada detalhe. O resultado é que começava a sentir sinais de cansaço, de desânimo, com dores no corpo, esquecimento, insônia e uma enorme lassidão.
Quando começou a sentir estes mal estares, buscou explicações: leu, estudou, meditou, procurou veterinários. Deram-lhe remédios, orientação, sugestão e, nada. Os que chegaram mais perto falaram em uma possibilidade de stress. Afinal, com tanta responsabilidade, com tantos compromissos, poderia estar esgotada. Ela passou a ficar atenta com relação aos hábitos alimentares, variou sua refeição, cortou alguns fungos - aos quais atribuiu possibilidades de intoxicação, e nada. Tudo continuava ruim com ela. Conversou com amigas, consultou formigas mais velhas, aconselhou-se com a própria Rainha mas nada conseguiu esclarecer o seu quadro em mais de 3 meses de orientação, tratamento, remédios.
Um dia, conversando com Shirley, secretária, amiga e confidente já de muitos verões, Bonifácia se abriu e contou tudo que vinha sentindo dentro da alma, com reflexos diretos sobre o corpo. Contou pra Shirley que andava muito sofrida, desanimada, que coisas esquisitas vinham tomado conta dela. E a sauvinha Shirley, sabida, esperta, conhecedora dos muitos mistérios da vida, assim, de estalo, perguntou:
-"Bonifácia, há quanto tempo você não tem vida pessoal? Qual a última vez que você foi ao cinema, namorou, dançou, deixou fluir a sua energia para algum projeto íntimo, bem seu? Há quanto tempo você não trepa? Você acha que nada disto tem importância? Foi você mesma quem me ensinou muitas destas coisas. E então? Você sempre me vendeu a idéia de que a gente tem, deve e precisa se dedicar aos grande projetos da espécie, do coletivo e que tudo isto é dever de consciência. Mas que, também, não se pode esquecer da coisa mais importante que existe no mundo, para cada um de nós, que é a gente mesmo. Então amiga, faça uma reflexão e veja se não está, neste descuido, o seu grande mal?"
Aquilo foi uma paulada na moleira. E o pior é que tudo era verdade. Mas como a verdade dói. Bonifácia sempre pregara aquilo, para os outros. Na hora de praticar, de relaxar, de se gostar, ela era igual a todos os outros e praticava a máxima faça o que eu falo e não faça o que eu faço. Deixava para depois, levava na barriga e achava que a sua tese era ótima, para os outros. Mas, para ela, não tinha aplicabilidade.
Bonifácia percebeu a extensão das observações de Shirley e começou a analisar as verdades de cada pergunta, observação ou reflexão da amiga. E lembrou, num átimo de tempo, dos vários momentos da vida em que saíra com lindos formigos, passeara ao ar livre, de patinhas dadas, combinando cortar folhas de roseiras, juntos, em forma de coração.
Lembrou dos momentos em que marcara encontros debaixo de pétalas de rosa ou de cravinas. E como foram bons aqueles tempos. Como foram perfumados, ternos, relaxantes, gostosos e gratificantes. Mas não se lembrava mais da hora em que sua vida dera uma guinada. Já de há muito que não curtia momentos de prazer, com o sentido individual. Vinha vivendo muitos momentos de prazer e de gratificação enormes e de auto estima. Só que no aspecto coletivo, social, comunitário. E, pelo jeito, com sacrifício enorme da sua pessoa e das suas sensações mais individuais. Muito que bem. Tá certo que não deveria ser egoísta ao ponto de dedicar-se só a si própria. Mas também não estava certo esquecer-se e ficar se dedicando só aos outros, às criaturas da sua sociedade. Ela teria de encontrar o equilíbrio, um meio termo. E aquele era o momento.
Bonifácia resolveu dar-se um tempo e sair pela noite. Quem sabe, uma hora de reflexão, de distanciamento dos problemas do formigueiro, poderia lhe fazer bem. Percebia, naquela hora, que a solução do problema não estava fora mas, sim, dentro dela. E era no encontro dela, com ela mesma, que estava a chave da questão.
Pediu á secretária de confiança para lhe dar cobertura. Se necessário, que Shirley tomasse as providências necessárias. O movimento a esta hora, era grande, todas as formigas envolvidas nas suas várias tarefas. Ninguém perceberia sua ausência.
E lá se foi Bonifácia pelo carreirão que levava as formigas há 3 quilômetros dali, à uma plantação de eucaliptos. Logo mais na frente, preferiu tomar outro rumo. Quebrou pelo desvio à esquerda e subiu pela trilha abandonada que levava para o jardim.
E foi lembrando que há muito tempo, ela e suas amiga, buscavam alimentos ali. Depois, com a colocação de venenos em uns vasos de flores, que resultou na morte de milhares de formigas, elas procuraram outros sítios para cortar folhas.
Andava sem preocupação nenhuma. Não era mais a batedora que buscava identificar plantas boas para cortar e os caminhos que se chegavam a elas para, depois, informar às cortadeiras. Ela era agora, só a Bonifácia - uma saúva em busca de definições para a sua vida.
Tão logo tomou a trilha, foi se desligando dos problemas e se sentindo envolvida por uma sensação descontraída, gostosa e leve. Sentiu que a liberdade lhe envolvia toda e teve uma enorme vontade de rir, de falar sozinha, de dançar, de cantar, de chorar de alegria. Percebeu que o passeio lhe fazia bem e que seria tão melhor quanto mais ela se soltasse, se desbloqueasse, se relaxasse, se integrasse à natureza. Começou a perceber que todo aquele mundo à sua volta, até então não percebido, vivia. Espreguiçou-se, esticou as patinhas, fez um exercício de alongamento, respirou fundo.
Começou a perceber que as plantas conversavam, cochichavam assuntos imperceptíveis para outros ouvidos, trocavam impressões. Foi percebendo também que havia um ruído de sons harmônicos e de vozes misteriosas no ar, que vinham das plantas. E que, para ela, durante toda sua vida, foram imperceptíveis.
Mais na frente, ainda extasiada com as descobertas, Bonifácia se descobriu dona de sua sombra. Nunca pudera imaginar que a luz da lua, redonda lá no céu, tocasse seu corpinho e pudesse projetar suas formas logo ali na sua frente. A cada movimento que fazia, a sombra repetia, exatamente igual. Na mesma velocidade, do mesmo jeito, na mesma direção.
- "Nunca imaginei isto. Vai ver que já passei por esta experiência outras vezes mas nunca dei importância, com a atenção voltada para outras coisas."
Bonifácia começa a brincar com sua sombra. Fazia um certo movimento e olha, para ver se a sombra o repete. E lá estava com a perna levantada. E na sombra também. Agora, eram duas as pernas que ele suspendia. E na sombra, duas pernas também eram suspendas. Depois, suas antenas. E a sombra reproduz igual.
-"Ah, que coisa fantástica e linda é a natureza. E que sabedoria tem a minha secretária. Que sacação a da Shirley. Graças aos toques que me deu, é que estou curtindo esta nova experiência. E a partir de agora, vou fundo. Vou buscar a solução dentro desta relação comigo mesma, desta descoberta de que o caminho da paz, da harmonia, está na integração da minha pessoa com a natureza, com a vida, com as forças maiores, que estão, inclusive, dentro de mim. É isto - e só isto - que pode me conduzir ao equilíbrio, à satisfação plena, à felicidade verdadeira".
Com estes pensamentos e reflexões e com toda a natureza em volta; com a descoberta de que as plantas se comunicam; com a constatação de que insetos, bichos, vegetais, lua, sons, aromas etc., estão envolvidos numa só força; com a descoberta de sua própria sombra, Bonifácia percebeu que a vida lhe mostrava uma nova dimensão.
De repente, envolvida nestas elucubrações existenciais, ela sente no ar, um perfume diferente, gostoso, doce, que vinha de algum sítio. Era o perfume de uma flor. Sim. Mas de qual? Que flor é esta que enche o ar com o seu perfume? Ela sabia conhecer, tinha lembrança de já ter sentido este aroma agradável e gostoso, embora associado à necessidade de armazenar alimentos. Nunca tinha sentido este perfume, de forma tão intensa e gostosa como acontecia agora. Tinha certeza de já ter respirado aquilo e não ter dado importância maior. Mas como não dar importância à perfume tão fino, delicado, gostoso? Engraçado como o estado de espírito nos leva a perceber os objetos à nossa volta de forma diferente. Não lhe havia passado nunca pelo pequeno encéfalo, que ela se sensibilizasse por um perfume, sem ser por questões de sobrevivência. Mas, agora, era em função de um sentimento interior, mais psíquico, mais espiritual, mais emocional e menos fisiológico, que ela usava os mesmos órgãos do sentido, para perceber um lado diferente do mesmo perfume que sentira em outras vezes.
E enquanto pensa e vive esta experiência, ela continuava caminhando e, sem perceber, chega a um jardim florido, onde já estivera de outras vezes, no verão passado. Chega ao jardim e esbarra com um caule de uma planta na sua frente e, mecanicamente, sem saber porque, vai subindo por ele acima. É como se subisse numa roseira para cortar pétalas e folhas. Para, numa certa altura, analisa a situação, liga suas antenas e procura perceber se há reação da planta. Nada. Continua então subindo, para de novo, pressentir uma reação que não é de medo - como as plantas sempre demonstravam quando ela subia para cortar folhas. Continua subindo e chega ao topo, bem em cima de uma linda e delicada flor que soltava aquele aroma delicioso e que a atraíra tanto. Bonifácia não sabia que flor era aquela. Mas tinha certeza de que era a emissora do perfume. Em um átimo de tempo, relembra dos treinamentos feitos com sua mãe, em que faziam longos percursos para conhecer as plantas que rendiam mais como alimento. E sua mãe, havia lhe apresentado os cravos e chamado a atenção para a leveza de seus perfumes, a textura de suas pétalas com a informação de que não boas para o alimento. E que, por conseguinte, nunca deveriam ser cortadas.
Tocou, de leve, a pata numa pétala e sentiu a maciez daquele tecido. Parecia um veludo. Melhor que veludo, já que desprendia um aroma tão gostoso. E o cravo vermelho, lindo, recém desabrochado, cheio de viço, todo aberto, se abre mais ainda com o toque de Bonifácia, que se apresenta cheia de cuidados:
-"Olá, sou Bonifácia. Uma saúva que dirige um formigueiro aqui perto. E você, quem é?
-"Um cravo simplesmente, responde a flor. Não tenho um nome próprio a não ser o nome científico que os especialistas botam na gente.
-"Engraçado, continua Bonifácia. Entre o pessoal da nossa espécie, as térmitas, ninguém é chamado assim. No formigueiro onde moro, só a mim foi dado nome. Todos me chamam de Bonifácia. E eu, acabei dando nome à minha secretária, que é a Shirley. Não me lembro mais de ninguém que seja tratado pelo nome. E nem sei qual é a razão disto."
-"Você veio para me cortar? Perguntou a flor com temor.
-"Quem? Eu vir aqui para despetalar você? Nunca. Estou em busca de sossego, de paz, de encontro comigo mesma. Estou numa crise existencial braba e saí caminhando para buscar algum rumo, alguma perspectiva diferente, respondeu Bonifácia.
-"Que bom, fico mais aliviado. Formiga, quando vem aqui em cima é para cortar minhas folhas. Eu peço, imploro, protesto mas não adianta nada. Tem umas que fazem um estrago enorme. Aliás, as pétalas, raramente elas carregam. Parece que não dão bom fungo. Imaginei que você fosse uma delas. E então eu pergunto: por que não me corta? Você, por acaso, é uma formiga diferente das demais?
-"Não sei não, mas acho que sou sim. Estou até liderando um movimento no formigueiro para que as formigas só cortem aquilo que podem carregar. Sou contra o desperdício, contra a poda predatória. Quando as formigas cortarem o estritamente necessário para a sua comida - e isto é 30% do que cortam, a ira dos homens diminuirá contra elas. Veja que os homens nos atacam porque estragamos os jardins deles mas eles estragam a natureza muito mais. Poluem os mananciais, cortam as árvores de forma desenfreada, fazem queimadas, fabricam armas para matar seus semelhantes. E acham isto válido. Mas, deixemos isto de lado, fale-me de você. Quero conhecê-lo melhor. Vim andando, andando, pensando na vida e, de repente, atraída pelo seu perfume, vim bater aqui. Isto não pode ser obra do acaso. Tem alguma coisa mais forte atrás disto. Até mesmo porque acaso e coincidência são pseudônimos que Deus usa quando ele não quer assinar a obra. É tão bom encontrar uma alma sensível, boa e evoluída como a sua. Melhor ainda é poder sentir este seu perfume", completa Bonifácia, jogando todo seu charme para cima do cravo.
-"Falar de mim? Onde já se viu uma coisa destas? Falar o quê? Tenho tão pouco para falar. Minha vida é muito estática. Nasci, cresci a quase um metro de altura, abri-me como flor e vou ficar por aqui até envelhecer e me despetalar, quando me despeço da vida. Minha vida é igual à vida de qualquer outra flor.
-"Igual nada, diferente de todas. E o seu perfume, já se esqueceu dele? Qual flor que tem um perfume tão gostoso assim"? indagou Bonifácia.
-"Obrigado", diz o cravo se sentindo lisonjeado e ficando mais vermelho do que nunca. -"Tá certo que eu seja um pouco diferente de outras flores. Mas existem muitas mais perfumadas que eu. A rosa, a flor da meia-noite, o manacá, por exemplo. Eu disse igual quanto ao mesmo destino, a mesma função, a mesma natureza de todas as flores. Somos, antes de mais nada, vegetais. Mas, quanto ao perfume, não sei porque existem plantas que não o têm. Já me ensinaram que nas espécies vegetais, existem família e classes, como na sociedade dos homens. Existem flores perfumadas e flores sem perfume. Existem flores para enfeitar casas e que levam energia boa para dentro e outras que não enfeitam e que se colocadas dentro de uma casa, vão criar problemas. Existem flores para enfeitar a vida e outras para enfeitar a morte. Umas têm espinhos, outras não. Porque, eu não sei. As flores, não têm uma personalidade. Nós temos uma personalidade coletiva. A minha personalidade é igual à de todos os cravos. Mas, confesso que tem algumas coisas que me parecem diferentes", completa o cravo.
Bonifácia estava encantada com o brilho do discurso e nunca imaginara encontrar um cravo culto, consciente de sua história, preocupado com questões existenciais. Que coisa mais linda. Que bom ter encontrado este cravo. Enquanto ela divaga em considerações interiores, ele continua a falar:
-"Eu posso ter o orgulho - a partir de hoje - de ostentar uma história diferente da de todos os cravos que existiram antes de mim e que, certamente, de todos os que vão existir depois.
-"Por que?" pergunta Bonifácia curiosa.
-"Porque conheci uma formiga de perto, que não veio me cortar, que não me provocou medo. Falei com ela como gente, de igual para igual e experimentei uma excelente sensação de ternura, de carinho, que chegou à fronteira onde começa o amor. Estabeleci uma relação com você Bonifácia, que me é muito gratificante que espero que se torne mais duradoura, cada vez mais bonita e profunda. Enfim, conhecer uma formiga vanguardista, que não é predadora, que tem sentimentos nobres, raciocínio e personalidade própria, é uma dádiva da vida. Embora tenhamos nos conhecido há tão pouco, sinto o quanto esta nossa relação é forte. Estou tomado de um enorme sentimento de amor por você", disse mais o cravo.
-"Ah, que bonito. Confesso também que estou sentindo a mesma coisa. Nunca imaginei gostar de uma planta que não fosse por fisiologismo. Até há pouco, você não me passava de uma simples perspectiva de fungo, que poderia se tornar em alimento no meu inverno. Vejo agora o quanto é triste a gente viver mecanicamente, em função de comida, com um sentido estreito e fatalista de que tudo na vida é assim e tem de ser assim, e pronto, sem atentar para as grandezas imensuráveis do sentimento, da possibilidade", falou Bonifácia.
A noite rolava e a lua, no meio do céu, se tornara mais bonita e brilhosa do que nunca. O vento que soprava durante todo o tempo, parece ter afastado a chuva que fora prevista. Os vegetais e os insetos se mantinham calados como se quisessem deixar que só as vozes e os sentimentos dos dois se manifestassem, como se fosse a voz de toda a natureza querendo se expressar. Eles não deveriam ser interrompidos. A voz do amor entre espécies diferentes, tinha de ser protegida. E o diálogo continuou e avançou pela madrugada. O cravo e Bonifácia conversaram sobre mil coisas. Ele ficou sabendo como nasce, cresce, se desenvolve e morre uma formiga. Ela ficou sabendo de histórias terríveis e horríveis envolvendo a vida do cravo e de toda a sua espécie. Soube de cortadeiras - irmãs suas de espécie - que, em noites sem lua nem estrelas no céu, vieram no escuro podar as folhas do cravo, mesmo sabendo que não eram boas para fungo, deixando-o inteiramente pelado e cheio de dor. Bonifácia se desculpou em nome da espécie e prometeu que, dentro em breve, tudo isto iria acabar. Ela acreditava que poderia e que iria modificar alguns dos comportamentos das formigas e que nenhum cravo, como nenhuma outra planta, nunca mais iria sofrer tanto. Lágrimas lhe rolaram pelo rosto, de tristeza, imaginando o pobre, lindo e perfumado cravo sendo cortado pelas tenazes de uma térmita psicótica. Sentiu-se envergonhada por ser parte de uma espécie tão irracional e predadora assim. No meio de todas aquelas conversas, trocas de idéia, de opiniões e de informações, os sentimentos foram sendo ampliados nas almas do cravo e da formiga e o encanto entre os dois tomou proporções universais.
-"Sabe, acho maravilhoso este seu estilo de vida", disse Bonifácia. "Você, daqui de cima, vê tudo. Vê toda a natureza em volta. Vê longe e em 360º graus".
-"Engraçado!" retruca o cravo. "Eu preferia ter a sua vida. Ao invés de ficar aqui em cima, plantado num ponto fixo, de onde não posso sair para lugar nenhum, preferia ser como você: ter a liberdade para ir e vir. Queria ver a natureza por todos os ângulos, com todas as variações possíveis. Minha visão é bonita, é global, é de cima. Mas é estática. Você não. Quer uma prova? Você veio até aqui, tendo a visão do que havia na sua frente. Quando voltar, vai ter a visão ao contrário. E isto é fantástico. Você pode ver o que tem por trás de uma árvore, de um objeto, de uma grama. Eu. O meu ângulo de visão é sempre o mesmo."
E Bonifácia observa, filosófica:
-"Nós somos iguais aos homens, sabia? Insatisfeitos com a sorte que temos. Ao que temos, não damos valor nenhum.
Sempre queremos o que o outro tem. É muito curioso isto".
Bonifácia contou para o cravo como era a sua vida e aprendeu com o cravo todo o processo da sua existência. Ficou sabendo que uma semente cai ao solo e, em função da umidade e do calor do sol, ela vai germinando e crescendo, tirando da terra o seu alimento. Suas raízes se aprofundam, entram para debaixo da terra, enquanto as folhas sobem aos céus, buscando cada vez mais oxigênio. À noite, desprendem o gás carbônico e provocam o fenômeno da fotossíntese.
-"Olha que coisa interessante e bonita", observa Bonifácia, encantada. "Nunca pude imaginar que a alimentação de vocês fosse tirada da terra. Lindo este ciclo. Vocês vegetais, buscam o alimento na terra. Nós, formigas, buscamos o alimento nas plantas verdes que se transformam em bolor. Outros animais, aves, insetos e pessoas, têm outras formas de se alimentarem. Cada coisa tem sua vida, sua natureza, sua jeito particular de existir. Mas tudo é interligado. Nenhum fenômeno é separado, isolado, independente do outro. E isto é maravilhoso. Não é não"? pergunta Bonifácia.
-"É. Indiscutivelmente é lindo tudo isto. Só que muita gente não liga para estas coisas. Só as pessoas sensíveis é que se preocupam e se interessam por isto", fala o cravo.
A noite vai terminando sua jornada, a madrugada já tinha batido o ponto e começado a dar seus primeiros passos na direção da manhã que já estava querendo chegar. Bonifácia sente que é hora de retornar ao formigueiro. Não se lembrava de ter ficado tanto tempo fora de casa. E, também, nunca tinha vivenciado tantas emoções boas, só numa noite. Nunca tinha dedicando tanto tempo a si própria. E como isto estava lhe fazendo bem.
Despediu-se do cravo, com um beijo numa de suas pétalas, prometeu novas visitas, respirou fundo o aroma que ele desprendera, exclusivamente para ela, desceu o caule e tomou o caminho de casa. Ela partiu com a sensação de que o corpo ia mas que o coração ficava. Partiu com a certeza de ter sido correspondida nos seus sentimentos com maior certeza ainda de que agora, tinha alguém com quem repartir emoções, conhecimentos e experiência de vida.
Bonifácia chega ao chão, toma o caminho de casa e vai deixando a cabeça voar até onde os sonhos podem ir. O fato de ter terminado o enlevo, a troca de carícias, os afagos, não quer dizer que a realidade dura e crua tenha de se tornar presente. Para quê existe a memória, a capacidade de lembrar, de sonhar, de acrescentar novos elementos ao sonho? E quem disse que a capacidade de divagar não seja tão boa, bonita e real quanto à realidade palpável que acabara de viver? Soltou o pensamento e foi relembrando tudo o que havia acontecido, minuto por minuto. E a cada lance, ela acrescentava, por conta própria, mais belezas, mais desejos, mais fantasias. E, em cima disto, foi projetando como seria lindo o seu futuro com o cravo. Sonhou - de olhos abertos e antenas atentas - um sonho cheio de amor, de ternura, de doação e de perspectivas. Sonhou com a existência de um confidente que iria apoia-la na sua luta pela reformulação dos conceitos, hábitos, cultura, comportamentos das formigas. Mais do que nunca, ela iria lutar a partir de agora, com mais força e determinação, para acabar com estas formigas predadoras que cortam qualquer planta, por pura ignorância. Ela iria, em primeiro lugar, mal chegasse em casa, agradecer à Shirley, por ter sido a causadora desta virada na sua vida.
Bonifácia caminha em estado de êxtase. Nem pensava no projeto que a esperava e nem ligava para o frio cortante da madrugada. A chuva que tinha sido prenunciada pelo calor que soprara de tarde, acabou não chegando. O tempo era firme, o céu se mostrava ainda com estrelas e a madrugada já produzia sereno.
-"Será que aquele sentimento que lhe nascia na alma, poderia ser acalentado? Seria possível uma relação entre uma formiga e um cravo, produtos, seres, coisas tão diferentes, espécies secularmente contrárias, até antagônicas"? pensava Bonifácia. "Não importava. Para ela, nada mais importaria dali para frente. Iria contrariar todas as leis da natureza - se necessário fosse,- mas não iria abrir mão daquela perspectiva de felicidade. Ela não conseguia mais imaginar uma distancia entre ela e o cravo. Ela o havia descoberto e se identificado com ele. Ela tinha sentido o bafejo do amor no seu coração. E sabia que a recíproca era verdadeira. Agora, quanto mais pétalas do cravo ela tocasse, quanto mais seu cheiro sentisse, quanto mais a sua voz ouvisse, ainda estaria insatisfeita e iria querer mais e mais convívio com ele. E estava disposta a lutar por isto. Esta descoberta tinha de ser vivenciada e levada às últimas conseqüências. E como lhe fazia bem toda esta história. Como lhe dava forças e ânimos".
Nestes pensamentos, Bonifácia chegou ao formigueiro. A barra do dia já começava a aparecer lá na linha do horizonte e quando Bonifácia foi passando por debaixo de uma pereira, perto do formigueiro, uma coruja agourentamente pia no frio da madrugada. O pio fez um frio percorrer a espinha de Bonifácia, tirando-lhe todos os pensamentos. Nunca, ela tinha tido uma sensação tão desagradável, apavorante, preocupante como naquele momento. Deslocada do seu estado letárgico de embevecimento e de amor, ela sentiu um clima de desconforto e pressentiu que alguma coisa terrível, muito ruim, estaria acontecendo.
É interessante como são as antenas da gente. Está tudo bom, em estado de graça, de amor, os pensamentos positivos e lindos e, de repente, um determinado imput, nos transporta para um estado contrário, negativo, ruim, preocupante.
Bonifácia entra em casa e percebe que as coisas estão fora do lugar. Sente um cheiro enjoativo no ar. Não vê as vigilantes na porta do formigueiro. Uma dor bate na boca do estômago. Vai entrando e encontrando, aos montes, formigas mortas. Dezenas, centenas, milhares. As que não estão mortas, estão morrendo aos poucos, se contorcendo de dor.
Num átimo, vem-lhe na cabeça a explicação de tudo aquilo. E ela era culpada. Os homens atacaram o formigueiro com veneno. Naquela noite, enquanto ela se distraia e buscava soluções para seus problemas pessoais, os homens atacaram.
E o projeto dela? Agora era tarde demais. Se tivesse realizado as saídas estratégicas, como estavam planejadas, teria evitado aquela desgraça toda. Bonifácia se martiriza e se culpa. Ela não pode se perdoar. Ela havia desconsiderado o possível. Ela que fora a única a sacar que os homens iriam descarregar seus ódios sobre as formigas, não podia ter adiado aquele projeto e deixá-lo correr solto como fizera. Tinha de ter dado prioridade 1 para ele. Como pode ela admitir que os homens tivessem alguma forma de complacência ou de bondade para com suas inimigas mortais - as térmitas? Não. Foi descuido demais. Todos mortos.
E a Rainha? Bonifácia correu até sua câmara, já sentindo dificuldades para respirar. Mal abre a porta e encontra a Rainha morta. Não tremia mais. Tinha ficado livre da dor da doença que lhe tomara conta da existência nos últimos tempos. Seus membros, até então rijos e trêmulos, estavam leves e parados. Em descanso para sempre. Pelo menos o sofrimento da síndrome parksoniana encefalítica, terminava. Para a Rainha, em particular, o envenenamento foi um alívio. Privava-lhe do sofrimento, da limitação, da dependência. Mas, e as outras? E a comunidade como um todo? Por que teria de acabar assim, logo agora que ela ia colocar em prática um novo conceito de convívio com o bicho-homem?
Bonifácia não se perdoava. Sentia-se culpada. Mas, que fazer? Nada mais podia ser feito. E ela andando para um lado e outro, tentando encontrar alguém para salvar, foi se envenenando. Começou a sentir tontura, ânsia de vômito, a vista turvando. Sente uma irritação amarga na garganta, vem uma tosse ruim, sofrida. Ela percebe que suas pernas estão ficando pesadas e seus olhos lacrimejam. Não é pela dor, nem pelo sofrimento, mas é o efeito do veneno que já ataca firme o seu organismo. Buscou uma saída, estava fechada; tentou outra não conseguiu, correu desesperadamente para fora do formigueiro pelo caminho que tinha entrado e foi tropeçando em corpos, aos milhares das irmãs que já forravam o chão. Sentia-se impossibilitada de fazer qualquer coisa. Não tinha condições de socorrer ninguém. Lembrou-se de Shirley. Queria tanto encontrá-la e agradecer por tudo. Tarde demais. Não havia tempo. Não sabia como encontrar Shirley.
Do lado de fora, Bonifácia respira um ar mais fresco mas percebe que seu organismo já estava comprometido com a quantidade de veneno inalado. Vendo que não tinha saída, que seu tempo estava terminando, resolveu fazer um esforço hercúleo, super-térmita e tentar avisar o cravo. Marchou em direção ao jardim, com dificuldade, já trôpega, sentindo a vista escurecer e uma sensação de náusea.
-"Se tenho de morrer que seja pelo menos, junto a quem se tornou no único amor da minha vida" pensava ela que não queria morrer assim de forma horrível, imbecil, feia. Se tinha de morrer tentaria, pelo menos, dar uma dignidade à morte. E lá foi ela sofrida, se arrastando, cheia de pensamentos.
Chegou ao pé de cravo e começou a subir pelo seu caule. Tinha momentos em que sentia a sensação de que não ia agüentar. Mas a força que vinha de dentro dela era maior do que o efeito do veneno. Foi impulsionada para cima, tirando forças que não imaginava ter e com mais uma passada, mais outra, descansando um pouco, reuniu mais forças, deu um arranco e chegou ao topo. O cravo percebeu que alguma coisa estava acontecendo no seu caule mas não conseguia atentar o que era.
De repente vê Bonifácia chegando, subindo por suas pétalas, com uma enorme dificuldade. Procura protege-la. Não fala nada. Sente, intui, percebe que o clima é pesado e preocupante. Espera que ela lhe fale alguma coisa. O que teria acontecido? Por que ela está tão mal assim? E Bonifácia, reunindo o pouco que ainda tinha de forças, falou para o cravo:
-"Vou morrer....... estou envenenada. Todo formigueiro .... está morto .... os homens botaram veneno lá..... enquanto eu... estava aqui com você........ Meus planos terminaram...... preferi vir morrer no macio das suas pétalas.........Junto com o único amor que tive na vida. Que... nem sequer ...chegou a ser um amor.... completo mas foi uma linda esperança de amor."
No que fala com dificuldade as últimas palavras, extenuada, com uma difícil respiração, Bonifácia se abraça com o que pode do cravo, fecha os olhos e morre. O cravo, cortado pela tristeza, foi fechando suas pétalas. Um nó na garganta cortou qualquer possibilidade de expressão verbal. Só um choro silencioso, doído, vindo lá de dentro de suas pétalas, é que tinha vez. O cravo não conseguia falar nada. Falar o quê? A única coisa sensata que o momento pedia era que ele protegesse aquele corpinho frágil por quem tinha nutrido tanto amor. Lentamente, o cravo vermelho foi fechando suas pétalas sobre Bonifácia. O caule, por não suportar o tamanho da dor, foi murchando, se tornando frágil, mole, descendo, descendo, até se estender no chão.
O sol ainda não tinha aparecido. Só o seu clarão avisava que a madrugada estava terminando. As plantas estavam todas molhadas, cheias de gota de orvalho.
Segundo informações e estudos dos homens, o orvalho é a umidade da atmosfera condensada em forma de pequenas gotículas. Na verdade, pelo menos naquela madrugada, não era o orvalho que molhava as plantas. Eram lágrimas que a natureza derramava pelo fim de um amor que estava nascendo.
Rio, dezembro de 1961