Certo dia ela aparece em casa com a notícia: "- Estou namorando!"
Surpresa geral. Os cochichos e comentários atravessaram as fronteiras de sua própria casa. Nas casas vizinhas, nas rodas de esquina, nos beberrões dos bares, nas festas de aniversários das crianças, aqui e ali, em todos os lugares do bairro, mais importante do que a notícia da descoberta da penicilina, ou da notícia do fim da II Guerra, ou que o astronauta nos dissesse que a Terra é azul, ou que um homem tinha pisado em solo da Lua, era a notícia de que Laura estava namorando.
Ao mesmo tempo em que o falatório crescia, crescia também a fantasia na cabeça de todos sobre a figura do namorado de Laura. Quem seria ele? Como seria ele? A partir da imagem frágil de Laura, imaginavam um namorado também frágil, de pequena estatura, um intelectual recatado e discreto. O coração de todos encheu de curiosidade e ansiedade para ver a imagem do homem que foi agraciado pelo amor de Laura. Como seria o perfil real do homem que obteve a permissão para se deitar sobre aquele corpinho delicado?
Marcou-se para um domingo um almoço em que Laura apresentaria à sua família o seu namorado. A natureza foi parceira e amiga, já que no domingo combinado o dia não podia estar mais radiante. Numa manhã de sol de inverno, a temperatura amena era propicia para o grande dia na vida do casal.
Mal o sol despontou no horizonte uma pequena multidão foi se aglomerando a porta da casa de Laura. Parecia que estava sendo preparada uma recepção a um chefe de estado, a um herói ou a um desportista vencedor. Tinha tanta gente que, como não podia deixar de ser, até vendedor de pastéis e churrasquinho apareceu para armar a sua barraquinha. É claro que o pai de Laura protestou e pediu para que os vendedores ambulantes saíssem da porta de sua casa.
- Aqui na porta da minha casa não, pô! Vai lá pra esquina!
Os ambulantes obedeceram, mas os vizinhos não arreadram pé.
- Eu moro nessa rua e, pelo que eu sei, a rua é pública. Daqui ninguém me tira!
Outros, meio que envergonhados davam desculpas do tipo "eu só estava passando por aqui e parei pra ver por que tinha tanta gente junta".
Finalmente, às onze e trinta sete da manhã, surge na esquina um carrão bacana e todos começam a falar ao mesmo tempo:
- É ele! É ele!
A multidão abriu espaço para o carro passar. A vaga em frente a casa de Laura já estava reservada para quando ele chegasse. Enquanto o carro manobrava para parar na vaga uma multidão de flanelinhas davam instruções:
- Vem. Vira tudo. Pode vir. Mais um pouco. Aí tá bom. Deixa solto.
Quando o carro parou é que quase saiu briga. Várias cabeças entraram pela janela do carro para perguntar em uníssono:
- É "eu que vai" tomar conta, n'é?
O pai de Laura entrou na confusão para acalmar os ânimos.
- Da porta da minha casa quem toma conta sou eu! Se alguma coisa acontecer com esse carro, eu dou tiro. Estão ouvindo? Eu dou tiro!
O próprio pai abriu a porta do carro e dele saiu Roberto. Ouviu-se um "oh" geral acompanhado por cochichos generalizados. É que Roberto era um homem enorme. Desproporcionalmente grande para o tamanho de Laura. Ela, ao lado dele, parecia uma criança ou uma anã.
Laura o esperava dentro de casa para fugir da confusão gerada a porta de sua casa. No almoço de apresentação do noivo tudo correu no melhor do estilo conservador. Todos almoçaram na grande mesa arrumada especialmente para a ocasião. Roberto foi tratado como um rei. Comeu quase todo o brócolis que foi servido à mesa. Empanturrou-se de brócolis não porque gostasse de brócolis, mas a mãe de Laura serviu arroz com brócolis e, não se sabe se por gentileza ou insegurança, comentou com Roberto que o prato do dia era arroz com brócolis, desejando que ele gostasse. Já Roberto teve a infeliz idéia, não se sabe por gentileza ou realidade de seu gosto, respondeu:
- Está ótimo. Eu adoro brócolis!
Foi, sem dúvida, um comentário infeliz. A partir daí as pessoas passaram a conversar animadamente com os olhos pregados no prato de comida de Roberto e sempre que ele comia todo o brócolis que estava em seu prato, milhares de mãos se atropelavam para servir mais brócolis para ele. Depois de estar completamente empanturrado de brócolis e percebendo que não tinha mais brócolis para ser servido ele comentou quase entre lágrimas:
- Eu "adoooooro" brócolis!
Depois do almoço, do cafezinho, da conversa sobre assuntos prosaicos, chegou o momento mais esperado e importante da reunião: o pedido da mão de Laura em casamento por parte de Roberto.
Laura mostrou-se um pouco acanhada, o pai dela, visivelmente emocionado, manteve a postura séria e protocolar, achando que o momento exigia isso, mas a mãe de Laura foi o vexame da cerimônia. Dona Pequetita, como era conhecida por todos, tinha um choro meio estranho porque ao invés de soluçar dava gritinhos altos e estridentes. Chorou, ou gritou, tanto que o marido interrompeu a sua introspecção para dizer, entre dentes, no ouvido da esposa:
- Cala a boca, mulher! Olha o vexame! Assim o homem não casa com nossa filha!
Depois do casamento Roberto e Laura foram morar próximos a casa dos pais dela. Parecia um casamento de conto de fadas. Apesar da diferença de tamanhos, Roberto era o que poderia se chamar de "anjo de candura". Tratava Laura como uma princesa. Até café na cama levava para ela; todos os dias. Dava tantas flores que a casa cheirava como uma loja de flores.
Roberto não gostava de futebol e seu esporte preferido era a luta de boxe. Nos fins de semana seu passatempo preferido era trocar socos com seus amigos na academia. Para treinar e praticar boxe deixava até a companhia de Laura. Isso, no entanto, não atrapalhava o casamento que seguia na mais absoluta harmonia e no mais terno amor.
Um belo dia, não se sabe bem porque, Laura virou-se para Roberto e pediu delicadamente:
- Me bate?
- Que isso meu amorzinho? Como é que eu posso bater num ser humano tão lindo e delicado como você?
- Pois eu tô cansada de ser tratada como um ser lindo e delicado. Nunca alguém me encostou um dedo. Quero apanhar.
- Mas amor, você não pode estar falando sério! Eu também não tenho coragem de encostar um dedo em você.
- É! Eu também acho que você não tem coragem. Sempre achei que por trás desses músculos todos, desse corpanzil enorme, escondia um covarde.
- Mas amor, não fala assim comigo. Eu trato você com o máximo carinho.
- É! Eu já percebi. Você é muito carinhoso. É tão carinhoso que eu nem sei se nos fins de semana você vai trocar socos ou carinhos com aqueles homens lá da academia.
- Mas amor, você tá duvidando da minha masculinidade?
- Então me bate. Na cara!
- Santo Deus, amor! Você quer que eu bata neste rostinho tão lindo?
- Covarde! Você não é macho pra bater em alguém. Até imagino o que deve acontecer naquela academia.
- Mas amor, eu te amo!
- Se me ama, me bate!
- É exatamente por te amar que eu não vou te bater.
- Ama nada! O que você quer é se exibir com um bibelô do seu lado. Você só quer dar uma satisfação pra sociedade porque você é viado!
- Mas amor, não me ofende.
- Como é que você quer que eu não te ofenda se você não passa de um grande viado?
Roberto começa a perder a paciência e grita:
- Eu não sou viado!
- Pois se não é viado, então me bate. Na cara! Seu viadão!
Não se sabe se por amor ou por ódio, Roberto finalmente atendeu ao pedido da mulher.
Laura foi internada num hospital, em coma, com uma concussão cerebral.
Roberto, enquanto era levado algemado para a cadeia, não parava de repetir:
- Mas foi ela que pediu...
Agosto de 2008