A Calça Branca

Leonídio Leão


     Setembrino era o que se podia dizer de cidadão exemplar. Bom marido, bom pai, bom filho, bom genro, bom amigo, bom funcionário e tudo de bom que se possa imaginar. Era querido por todos pela sua educação e pela paciência que tinha no trato com os outros. Em termos de afeto era quase uma unanimidade. Todos gostavam de Setembrino, independente do caráter deles.

     Um dia sua mãe resolveu dar-lhe de presente uma calça branca de tecido bem leve por causa do calor que normalmente faz no Rio de Janeiro. Quando sua esposa viu o presente que ele ganhou da mãe não quis ficar atrás e comprou também uma camisa para combinar com a calça. Sua mulher comprou também uma cueca branca e deu para seu filho presenteá-lo junto com a camisa. Um amigo seu havia comprado um sapato que ficou apertado em seu pé. Antes de trocá-lo na loja lembrou-se de Setembrino e deu o sapato para ele que serviu "como uma luva".

     Setembrino resolveu estrear suas roupas novas num dia de trabalho. Pegou normalmente o trem que o levaria até a Central e de lá deveria pegar um ônibus para chegar ao escritório de contabilidade no centro da cidade. Quando chegou lá foi um sucesso. Seus colegas o admiraram mais ainda:

     - Bonita calça Setembrino!

     Até seu chefe o chamou para uma conversa em particular dizendo que vinha observando seu trabalho e estar pensando seriamente em promovê-lo. Setembrino não cabia dentro de si mesmo e tinha a sensação de que ia explodir. Naquele dia ele foi a maior atração do escritório até que chegou a hora de voltar para casa. Chegando na rua percebeu que estava tão eufórico com o glamour de seu dia que havia esquecido de fazer xixi. Agora já estava na rua e o escritório já estava fechado. Não podia voltar. Enquanto estava pensando o que fazer o ônibus que passaria na Central parou bem em frente dele. Depressa ele pensou que daria tempo de chegar à Central e lá iria ao banheiro.

     Triste idéia. Mal o ônibus completamente lotado arrancou a vontade de fazer xixi aumentou. O engarrafamento do trânsito fazia com que o ônibus praticamente não saísse do lugar. E a vontade de fazer xixi aumentando. Chegou a um limite que não daria mais jeito: teria que descer e procurar um banheiro urgente.

     Talvez as mulheres não saibam, mas homem quando fica apertado para ir ao banheiro tudo cresce na zona do agrião. E foi assim que Setembrino, já suando frio, ficou. Tinha que descer e puxou a campainha. Ele ainda estava junto da porta traseira e deveria cruzar todo o corredor do ônibus lotado. Bem a frente dele estava uma mulher do tipo boazuda, com um daqueles vestidos curtos e com um decote ousado. Com todo respeito Setembrino pediu:

     - Uma licencinha, por favor, eu vou descer.

     Quando passou por trás da mulher teve que se esfregar em seu traseiro. Não porque quisesse, mas a situação o obrigava. A mulher sentiu aquela coisa dura atrás dela e gritou:

     - Tarado!

     E ato contínuo pegou a bolsa que trazia abraçada em baixo do braço e deu na cara de Setembrino. Ele só não caiu proque não havia espaço para cair. Mas ele não tem a menor noção de como ele conseguiu passar pela roleta e quando se deu por ele estava na metade do ônibus ouvindo a trocadora gritar para o motorista:

     - Ô Maguila Deitão, tem tarado no teu ônibus!

     - O quê? Tarado no meu ônibus não! Isso aqui é um veículo de família!

     Maguila, um homem enorme, parou o ônibus no meio da rua mesmo, puxou o freio de mão, pegou Setembrino pelo pescoço e, entre tapas e safanões, jogou-o para fora. Setembrino foi caprichosamente cair com a coxa direita sobre o meio fio e sentiu uma dor como se tivesse quebrado a perna. É verdade que Setembrino estava agora cheio de outros problemas, mas um ele tinha resolvido: não estava mais com vontade de fazer xixi. Tinha feito na calça e estava todo molhado.

     Caiu justamente num ponto de ônibus cheio de gente. Com muito custo ele se levantou e quando ficou em pé reparou que todos no ponto de ônibus olhavam fixamente para ele. Meio que sem graça ele ouviu uma menininha que estva de mãos dadas com sua mãe dizer:

     - Olha, mãe, um homem pelado!

     A calça branca e, ainda por cima, a cueca branca molhada fizeram com que Setembrino ficasse nu no meio da rua. Logo um rapaz reclamou:

     - Que que esse viado tá fazendo pelado no meio da rua? Lincha!

     Setembrino não sabe explicar, mas mesmo com a perna direita machucada do tombo do ônibus ele conseguiu correr mais do que todos que estavam no ponto, esperando o ônibus. O que ele não podia esperar era pelo carro da polícia parado bem na esquina. Um policial enorme parou Setembrino no peito. A batida no peito do policial foi dura e seca. Deu uma cabeçada no peito do policial e caiu de costas no chão. Agora, além dos sopapos que recebeu, estava com uma tremenda dor de cabeça. E foi com essa dor de cabeça que chegou na delegacia. Foi enquadrado como um viado tarado que agia dentro dos ônibus.

     Ia ser colocado na cela junto com os demais presos, mas antes que ele entrasse na cela um preso lá dentro falou:

     - Se puser ele aqui dentro a gente come ele!

     O delegado, por segurança, colocou-o numa cela separada, onde só ele ficou lá dentro. Foi jogado lá no fundo da cela e do jeito que caiu ficou. Ele mesmo não sabia se estava desmaiado ou fugindo do que havia acabado de passar, depois de um dia tão maravilhoso no trabalho.

     Seus pais, sua esposa, seus filhos, seus sogros, seu patrão e alguns colegas de trabalho, foram correndo para a delegacia para visitá-lo. Setembrino acordou com todos falando ao mesmo tempo:

     - See-teem-briii-no!!!