Onde está o chocolate granulado?

Fabio Guimarães

        Minha namorada mandou comprar um chocolate granulado. Era aniversário da mãe dela e queria adicionar ao bolo o popular enfeite culinário. Ela havia esquecido de comprar e me pediu. Faltava apenas uma hora para começar as comemorações. Já era tarde e poucas lojas estavam abertas. Fui ao primeiro supermercado que vi. Nada encontrei no corredor de festas. Fui para a parte dos chocolates, a fim de alcançar meu objetivo. Nada encontrei. Então resolvi perguntar a moça do caixa se por acaso haveria algum perdido em outro lugar. A atendente me recebeu de forma ríspida e me disse que se não tinha onde procurei era porque não tinha. Achei melhor não insistir, no momento em que me lembrei do outro supermercado um pouco mais longe. Já estava imaginando as palavras de minha amada se não encontrasse os belos grãozinhos doces. Poderia este produto ser a parte final do meu romance, que até então chegara aos três meses? Acho pouco provável, mas sentia algo diferente ao pensar naquele enfeite de bolo, que nesse momento já era medo. Uma padaria aberta! Esperava encurtar meu caminho encontrando neste estabelecimento o que procurava. Por acaso vocês vendem chocolate granulado? O gerente da padaria me olhou estranho e me perguntou o que eu queria. Fiquei confuso. Chocolate granulado, ora? Não fui claro à minha pergunta? Fiquei pensando. O velho profissional da padaria foi logo me falando que não havia drogas por perto. Drogas? Repeti o que queria e ele então me disse se eu estava de fato procurando o enfeite de chocolate! Ele sorriu e me pediu desculpas, disse que os rapazes da região vinham comprar drogas num terreno ali perto e usavam o nome daquele chocolate que persigo para possuírem o malefício humano. Novamente riu e se desculpou. Estava tão preocupado com a hora que nem me importei. Acho que teria ficado insultado se estivesse com hora pra vender, ou talvez não, quem sabe riria junto ao responsável da padaria. Não fiz nenhum dos dois, mas perguntei sobre o chocolate. Ah, não, não temos não! Neste momento fiquei nervoso, nem me despedi e fui embora. Chegando ao segundo supermercado, olhei para o relógio, eu ainda tinha meia hora para comprar o pacotinho e voltar à casa da minha namorada. Não fui nem procurar, perguntei a uma moça com o uniforme do supermercado sobre o produto. Ela disse que estava em falta. Falta! Um embrulho com um monte de chocolate picadinho... em falta! Desesperei! Onde no mundo acharia o bendito! Comecei a entrar em qualquer lugar. Sabe lá eu poderia achar o doce danadinho na lanchonete, na farmácia, na lojinha de flores, na clínica de emergência em uma daquelas máquinas de biscoitos, ou em um ônibus qualquer com algum ambulante por acaso vendendo o meu precioso. Todos em vão. Nada! Por fim, acabado, não havia outra coisa a fazer senão ligar para minha namorada e dizer o fracasso. Em minha primeira emergência com ela, nada mais que... fracasso! Liguei e com voz de choro contei toda história que poderia soar como mentira, mas por que mentiria sobre não achar a desgraçada chuvinha de chocolates. Ela então disse com um tom lindo e suave. Meu amor, por que está tão nervoso? É só um enfeite bobo. Não se preocupe mais, vem pra cá, o pessoal já está chegando. Não achei que ela iria reagir dessa forma. Talvez por que éramos pessoas tão diferentes, pensei que ela poderia ficar chateada. Senti-me mais calmo e fui embora suspirando tranqüilo. Chegando perto da casa da festa, vi o pequeno mercado que inaugurara há poucos dias. Nem havia me lembrado dele. Ora, não custava tentar! Entrei e perguntei se havia o motivo da minha chateação. Sim, disse-me a recepcionista bem mais simpática que aquela primeira. Ela só não lembrava onde estava. Passou o gerente, agradeci a moça e perguntei ao responsável da loja com uma voz trêmula. Onde está o chocolate granulado? Ele me respondeu no penúltimo corredor. Fui em direção a conquista como se estivesse levando a tocha olímpica para ser acesa e iniciar os jogos. Cheguei, mas algo estava errado. Era o corredor do macarrão. Seria impossível estar meu chocolatezinho no corredor das massas. Desanimei. Contudo, vi no meio do abismo entre o enroladinho com o espaguete, finalmente, o pacotinho azul, tão belo e formoso chocolate granulado. Peguei-o logo e ainda bem que não havia ninguém perto, pois o beijei com paixão. No caminho para o pagamento, fiquei olhando o embrulhinho e pensei em tudo. Caminhava lento até que parei. Naquele momento tive uma epifania. Aprendi que por maior que sejam nossas missões o importante é saber cumpri-las com vontade, mesmo que não alcancemos os objetivos, percebi que não devo sofrer por antecedência, que devo conhecer as pessoas primeiro antes de me preocupar com algo, e assim como o macarrão e o granulado, a diferença não precisa ser motivo de sofrimento, mas que todos podem viver juntos com suas particularidades. Esbocei um sorriso. Sem querer, ou por ação de Deus ou do destino, aquele abençoado artifício da estética dos doces e bolos, quase sem sabor algum, levou-me a compreender tanto sobre mim mesmo, sobre meu romance e sobre o mundo. Cheguei a casa, minha namorada me recebeu com um sorriso. Viu o enfeite na minha mão e me abraçou forte. Estávamos amando. Ah, chocolate granulado! Ah, vida!