É provável que o fruto de sua ansiedade fosse o desejo de sua própria liberdade. Um desejo de liberdade tão absoluta que estar ali, com alguém ou não, pouco faria diferença para saciar seu desejo de liberdade. Ela vivia por desejar o absoluto, o intransponível, o improvável. Sentia-se presa: presa pelos preconceitos dos outros, pela moral social, pelos padrões rígidos e retrógrados, por não poder ir onde desejasse ir ou estar onde desejasse estar. Sem querer, era uma prisioneira nela mesma.
Sua busca circular deixava-a triste, mesmo que a felicidade fosse um sentimento imanente. Sorria sempre, mesmo das situações frugais. Sua felicidade era uma constante perspectiva. O que tornava unida, por um forte liame, a seu desejo de liberdade. Seu desejo de liberdade deixava-a feliz, na sua triste existência.
Essa era Úrsula. Talvez jovem para a idade que possuía; talvez uma anciã para os anseios que geravam ansiedade. Essa era a realidade que levava para suas relações pessoais, fossem amigos ou companheiros. E conviver com Úrsula era conviver com a ansiedade do desejo de liberdade. Desejava a sua liberdade, como a liberdade do outro. Por isso permitia a liberdade.
Conviver com a liberdade é conviver com a realidade de si mesmo; é lutar contra seus próprios preconceitos e seus próprios princípios; é remar contra a maré; é lutar contra si mesmo, em busca de não se sabe o quê. Na relação com o outro é conviver com a incerteza, com a aventura de um novo dia, com o sem-daqui-a-pouco, com o sem-amanhã. É sempre difícil conviver com a liberdade.
Conviver com Úrsula era conviver com a liberdade do despertar para um novo dia de incertezas e aventuras. Como se não houvesse nada planejado para agora ou daqui a pouco. Se não se tem nada para fazer, que tal ir para Ouro Preto? Ou Cabo Frio, ou Rio das Flores, ou Paraty, ou qualquer outro lugar que não seja aqui? Qualquer lugar onde haja a simples possibilidade de ser qualquer coisa que seja diferente do que se é agora. Sem condições.
Quando ele acordou, abriu os olhos ainda sonolentos e viu Úrsula na janela. Nua, olhava para fora, com as mãos apoiadas no parapeito da janela fechada e o olhar perdido no infinito. Deu uma rápida olhada para ele e continuou a olhar para fora.
- O que você está fazendo aí parada? - perguntou ele.
- Estou olhando a chuva - foi a resposta.
- Mas a chuva já passou...
Então ela se voltou para ele e disse:
- Na madrugada os olhos bateram, fazendo barulho pequenininho, barulho baixinho, barulho para menino ouvir. Na madrugada o coração bateu, fazendo barulho pequenininho, barulho baixinho, barulho para menino ouvir. Na madrugada a chuva bateu, forte, na janela do quarto. Que chato! A chuva bateu mais forte que os meus olhos, bateu mais forte que meu coração. Mas a chuva já passou... Eu não.
Rio de Janeiro, maio de 2003