(Des)encontro

Érico Corrêa


     Conheceram-se numa palestra sobre um tema de interesse comum aos dois. Tinham os mesmos gostos no aspecto profissional. Trabalhavam em instituições diferentes, mas na mesma área de formação. No fim da palestra o diálogo saiu fácil. O tema da palestra, e suas ramificações, era especialidade dos dois. Como o evento deu-se na parte da manhã puderam almoçar juntos e continuar a conversa.

     Foi inevitável que a conversa descambasse para assuntos não profissionais. Falaram da vida. Contaram, um para o outro, daquilo que pensavam sobre a vida. Falaram sobre trabalho, sobre história, sobre futuro, sobre relações afetivas e sobre amor. Cada um com seu ponto de vista. A conversa fluía fácil sem desacordos aparentes ou qualquer cisma que os afastassem em termos de idéias e ideais.

     O encantamento foi mútuo:

     Ele se sentiu atraído pela beleza física dela. Sua beleza transmitia-lhe calma. Complementando a beleza, atraiu-lhe também sua segurança e a maneira livre de encarar a vida. Ele percebeu que ela era uma mulher livre. Em todos os sentidos. O amanhã, para ela, não existia. O que existia era a construção do amanhã; cotidianamente. Como se ela fosse capaz de construir um mundo novo a cada dia.

     Ela se sentiu atraída pela felicidade emanada por ele. Sua felicidade era expressa não por estar ali, naquele momento, mas pelo simples fato de estar ali; de existir. Ela percebeu que, para ele, a existência era mais forte que sentimentalidades de momento. A vida, para ele, era o que importava. Não a vida dele, mas a vida como um todo, já que tudo estava interligado. A vida dele dependia de todas as vidas e todas as vidas dependiam dele.

     Os interesses intelectuais combinaram-se de tal forma que tiveram a impressão de que se conheciam há muito tempo. Tiveram a impressão que se conheciam de um tempo que não existiu na história dos dois. A harmonia era tamanha que pareciam tocar uma sinfonia numa orquestra de somente dois músicos. Tiveram vontade que esse tempo se perpetuasse; para sempre.

     Quase que em uníssono lembraram-se de Nelson Rodrigues: "Um sujeito precisa de 15 encarnações para viver um momento de amor. Porque a mulher amada, nada a obriga a estar na cidade onde a gente mora, a cruzar nosso caminho. De forma que encontrar a mulher amada é um cínico e deslavado milagre".

     Ela tinha uma relação com outro. Dizia gostar dele. Mas não era o parceiro ideal. Era muito diferente dela ao encarar os ideais da vida. Mas gostava dele. Era uma boa pessoa, possível de se conviver. Mas não era o ideal. Era o que era possível. Acreditava que a construção poderia ser feita a partir das diferenças. E investia pela fé de que tudo acabaria bem. Para os dois.

     Ele tinha uma relação com outra. Dizia gostar dela. Mas não era a parceira ideal. Era muito diferente dele ao encarar os ideais da vida. Mas gostava dela. Era uma boa pessoa, possível de se conviver. Mas não era o ideal. Era o que era possível. Acreditava que a construção poderia ser feita a partir das diferenças. E investia pela fé de que tudo acabaria bem. Para os dois.

     Mesmo tendo se conhecido naquela manhã, parecia que tudo se combinava. Os mesmos gostos, os mesmos prazeres, as mesmas músicas, os mesmos ideais. Ele tinha medo de que carências não explícitas o incitassem ao desejo. Ela tinha medo de que pudesse se magoar ou magoar a um outro. Ao mesmo tempo em que a alegria perpassava entre os dois, o medo da incerteza estava presente. Como um muro a ser derrubado. Como uma censura surda, não declarada.

     Eles sabiam que a paixão é o túmulo da razão. Correr riscos na paixão é fazer um vôo cego, onde se pode chegar ao paraíso ou ao desastre. E a vida estava diante dos dois. E a vida era mais forte do que ele e ela. E tão importante quanto viver é aprender com a vida. Seus olhares diziam isso. O diálogo sem palavras dizia isso. Claramente. Eles entenderam. E se entenderam.

     Talvez pudessem ter se conhecido em outro tempo; em outra alegria; em outra história de afeto. Onde, talvez, não precisassem dizer nada. Onde não houvesse nada a ser dito; apenas sentido. Um sentido qualquer; que fosse bom. Que fosse sempre tudo de bom. Qualquer que fosse o tudo de bom. Como já disse o poeta: "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é".

     O almoço acabou. Ficaram em silêncio por algum tempo. Ela olhava os olhos dele, que brilhavam; ele olhava os olhos dela, que brilhavam. Mas não diziam nada. É provável que tudo estivesse sendo dito. Sem palavras, só com olhares e sentimentos. Mas nenhuma palavra foi dita. Se houve coincidências de idéias, de ideais e de vida, elas não foram expressas em palavras.

     Saíram juntos do restaurante, em silêncio. Ele a deixou em casa. Com os olhos fixos, viu-a subir uma pequena ladeira, entrar em sua casa e fechar a porta. Ele prosseguiu em seu caminho.
 

        Rio de Janeiro, março de 2003