Pôxa. Não foi legal não. O que tem de gente ruim que precisava, devia, tinha de ir no seu lugar e não vai, é uma festa. E vem logo você, uma figura boa, humana, respeitável, inteligente, sensível. criativa, com tanta coisa ainda para produzir, aprontar uma destas?
Sei que você tem lá suas razões. Está mesmo difícil agüentar a barra por aqui. Principalmente depois que a Redentora de 64 instaurou a prevalência da mediocridade, instituiu a corrupção oficial e estimulou as distorções sociais com sérios reflexos nos dias de hoje. Sei que você já devia estar com saudades da Janete, do Sangirardi Jr., do Cícero Leuenroth, do Ricardo Ramos, do Roberto Simões, do João Carlos Magaldi, do Sérgio Porto e de urna vasta lista de amigos que já tinham se passado para o lado daí. Tudo isto a gente entende e até releva. Agora, que não precisava ser do jeito que foi, não precisava.
Para nós, você vai continuar sendo imortal, mesmo que não tivesse se tomado Acadêmico. Por falar em Acadêmico, que festa linda o Arnaldo Niskier fez para você, hein? Coisa de primeiro mundo. Como foi bonito ser velado lá na Academia, com toda aquela gente chegando, de todos os cantos, para levar a última manifestação de carinho, o último abraço, o adeus, a quem tanto deu para seu povo e tanto se dedicou a ele. Foi comovente. Este é um lado bonito na passagem que se faz da vida para o outro lado da vida e que muita gente ainda chama, erroneamente, de morte. Tem gente que acha a morte triste, mórbida. negativa. E compreensível. Afinal, nossa cultura ocidental nos leva a ficar presos ao conceito do "isto é meu", "não posso perder", "tenho de ganhar sempre e esta passagem acentua a sensação de perda. E. poucos, pensam no outro. Será que aquele que se foi perdeu, está sofrendo, está triste?
Enfim, é isto. A maioria das pessoas vêem esta passagem só pelo seu lado, com os olhos do preconceito e do egoísmo. Quando se entender que a morte é a única verdade absoluta e imutável, em todo o processo da vida - e que a vida não nos pertence, apenas nos foi emprestada, - tudo muda de figura.
Vamos sentir falta das muitas histórias que o seu talento criou, dos Bem Amados, Roques Santeiros e das Saramandaias. Vamos sentir saudades e ficar curtindo aqui a falta que você vai fazer. A Globo já deve estar programando o Grande Festival Dias Gomes quando vamos ter a oportunidade de segurar aquele aperto na garganta e enxugar, com as costas da mão, a lágrima que vai rolar. Se não for enxugada, ela vai deslizar fria, contínua e macia para que, quando chegar no canto da boca, nos permita dar uma passada de língua para cortar as cócegas que ela faz, sentindo então o quanto é salgada. Salgada como a dor que vai ficar nos nossos corações. Pelo menos, nos corações das pessoas que amavam você e que tiveram a ventura de conviver, nem que fosse alguns poucos momentos, com a figura excepcional que você sempre foi.
Isnard Manso Vieira é publicitário, professor na Universidade Veiga de Almeida