Como um milagre a porta de entrada se escancarou diante de Felisberto que, homem de aparência frágil do tipo magro e baixo, gentilmente cedeu passagem às duas moçoilas. A primeira entrou apressadamente e foi direto para a roleta pagar a passagem. A segunda, que dizia estar passando mal, subiu tropegamente o primeiro degrau e quando ia colocar o pé no segundo, resolveu desmaiar e caprichosamente cair para trás com os seus quase 100 quilos de peso em cima de Felisberto, que vinha logo atrás.
O pobre homem ficou preso em baixo daquele corpanzil sem poder se mover. A amiga, já dentro do ônibus, quando viu aquela cena, fez um tremendo escândalo e gritava: "Minha amiga é doente! E ela desmaiou, pega ela no colo moço!" Coitado do Felisberto: não agüentava sequer tirar a enorme mulher de cima dele, que dirá pegá-la no colo.
Com o escândalo começou a juntar gente na porta do ônibus e formou-se o "tititi". Felisberto pedia pelo amor de Deus para que tirassem aquela mulher de cima dele. Só que todos falavam ao mesmo tempo tentando interpretar a cena. Um dizia: "Eu acho que a mulher quer comer o magrinho à força"; outro dizia: "Que nada! O magrinho é que é masoquista!", e um outro ainda dizia: "Isso é pegadinha do Faustão! Eu não caio nessa!".
Felisberto tentava gritar, mas mal conseguia respirar, que dirá gritar... Como o vozerio das pessoas abafavam sua voz ele preferiu ficar calado e esperar pelo fim da história. Só pensava agora em pegar o ônibus e chegar em casa.
A aglomeração de pessoas chamou a atenção de uma patrulinha que passava pelo local que parou e desceram dois policiais, não entendendo direito a cena que assistiam: uma mulher enorme de gorda deitada por cima de um cara magrinho que praticamente só dava para ver as pontinhas do seu corpo. Os espertos policiais não titubearam e tiraram rapidamente suas conclusões: o tarado magrinho fez mal a donzela gordinha.
Resultado da história: a moça desmaiada voltou a si e, ainda meio tonta, pegou o mesmo ônibus que ficou ali parado, cujo motorista teve a educação de esperar a história se resolver. Já Felisberto foi colocado na patrulinha e levado à 10a DP para ser enquadrado como tarado. No meio daquele mundão de gente, Felisberto, sentado no banco de traz da patrulinha, ouviu uma senhora dizer: "Coitado, acho que ele é doente!"