Dor

Érico Corrêa


     Os dois exerciam a mesma profissão. Conheceram-se quando trabalhavam juntos, na mesma instituição. Não se pode dizer com certeza o que atraiu um ao outro, mas o encantamento mútuo teve importância fundamental. Os olhos denunciavam o encanto; a voz dizia da paz do encontro; o silêncio revelava o sentido da liberdade; o toque media a dimensão e a doçura do desejo.

     Cada um vivia sua relação com um outro. Cada um vivia seu desencanto da relação com o outro. Era um tempo, para os dois, de encantos e desencantos. Nesses momentos é provável que o coração fale mais forte do que a razão; é provável que a cabeça não pense o que o coração denuncia. Como se não pudéssemos tomar uma decisão, mas a decisão acontece. Como se não fôssemos mais donos de nosso destino, mas o destino está diante de nós. Como se vontade e desejo determinassem os caminhos e os descaminhos.

     Pessoas maduras que eram resolveram assumir a relação. Acreditaram tanto na semelhança de interesses que optaram por, imediatamente, viverem juntos. Quem sabe a dor da separação das relações anteriores seria amenizada pela união mais próxima? Um serviria de suporte para o outro. Os arranjos para a união não demoraram. Em pouco tempo alugaram um apartamento, desfazendo-se do que moravam antes. Era importante que começassem com tudo novo para os dois.

     No novo apartamento, de dois quartos, um ficou para os dois dormirem, no outro dividiam o escritório de trabalho. Além dos quartos, o apartamento, pequeno, era complementado pela sala, pela cozinha e pelo banheiro, com uma espaçosa banheira. No ambiente preparado pelos dois, para os dois, viviam o esplendor da paixão de contemplação, sem limites, sem vergonha, um para o outro. Tudo parecia um exagero. O exagero é a verdade que transcende o real, é mais do que a própria verdade, e, por isso, às vezes, parece mentira, inacreditável, impossível de ser o que é de fato. Era o que viviam: um exagero de beleza, de carinhos, de paz e de afetos.

     Sair para trabalhar não era bom. Produziam tanto juntos que trabalhar fora de casa era apenas a garantia da sobrevivência financeira. A sobrevivência afetiva e intelectual estava completa, ali mesmo. Viviam um para o amor do outro. A vida só merece ser vivida quando existe amor. Vida sem amor não é vida. Sabe-se lá o que é.

     A alegria de viver fazia com que os dias se tornassem ensolarados a cada dia. Parecia não chover nunca, mesmo que chovesse. E quando chovia tudo era lindo como se fosse uma poesia. Qualquer ser humano é poeta quando se está apaixonado. O céu, as árvores, a calçada molhada, os pingos de chuva na janela, tudo era motivo de beleza... E de poesia.

     Estavam juntos já por dois anos. Era tudo tão bom que pensavam em filhos para perpetuar a alegria que desfrutavam nos seus descendentes. O que viviam não podia ficar só para eles. Os filhos são sempre o espelho da alegria ou da dor de seus pais. E, para eles, seus filhos estavam condenados à alegria de viver. Como se o mundo mau não fizesse parte da vida dos dois e nesse mundo criariam os filhos que viessem.

     Não se pode dizer que não tinham diferenças: ela gostava de novelas e seu autor preferido era Manoel Carlos, que ele nem sabia quem era; ele preferia ler e escrever e televisão só para ver alguns informativos. Na mesma profissão tinham também suas diferenças ideológicas que se refletia na prática de cada um, mas isso, ao contrário de dividir, somava um ao outro e fazia com que os dois, cada um a sua maneira, crescessem. Apesar das diferenças aprenderam a respeitar os desejos, as vontades e as características do outro.

     Viviam para a felicidade como se o paraíso fosse ali, entre eles. Descobriram que a felicidade é fazer o que fazemos com vontade de fazer e por isso fazemos com alegria. Quando estamos felizes a vida não tem problemas, só virtudes. Vivendo assim a felicidade é a própria virtude. Além do desejo de um pelo outro, deseja-se também que o tempo se perpetue.

     Se a vida assume novos rumos quando nos apaixonamos, faz também com que possamos nos sentir seguros. No entanto não podemos perceber a fragilidade que nos cerca. Se tudo ao redor parece leve e seguro a vida continua frágil. Podemos não pensar na dor, mas ela é sempre uma possibilidade no coração de quem ama.

     Quando o sentimento está à flor da pele qualquer perda é inevitavelmente dolorida ao extremo. Onde há muito sentimento há dor. A dor da alma só pode ser fruto dos mais profundos sentimentos. Uma dor inexplicável, difícil de suportar. Talvez a pior das dores. Dor que não há gotas de remédio que cure.

     Era um feriado e os dois resolveram ficar em casa. Fazia frio e ela resolveu tomar um banho quente na banheira que parecia uma piscina. Ele ficou na cama lendo um livro. Ela fechou a porta e as janelas para que o frio não incomodasse seu banho quente. Ele, lendo o livro, acabou por adormecer, feliz por estar ali. Ela deixou que a água quente relaxasse seu corpo.

     Algum tempo depois ele acordou, olhou ao redor e percebeu que ela não estava ali. Levantou-se, sonolento, em busca do ser amado, desejando estar com ela novamente, percebeu que saía por baixo da porta do banheiro um filete de água.

     Quando ele entrou no banheiro, totalmente encoberto por uma bruma de vapor d'água, lá estava ela: com uma aparência tranqüila, lembrando uma tela de Renoir, parecia que dormia... no fundo da banheira, que transbordava água.
 

        Rio de Janeiro, maio de 2003