Carta à Érica

Érico Corrêa


     Olá Érica
 

     Que saudade! Pra que você teve esta infeliz idéia de fazer seu curso de doutorado no exterior? Você não acha que isso é meio egoísta? Só você quem ganha. O povo brasileiro, que no fundo é quem está pagando seu curso, já que você está aí através de uma bolsa de estudo financiada por um órgão público, nem vai ler sua tese escrita na língua do país onde você está estudando. Eu aqui, "troncho" de saudade, lamentando sua ausência. Só você vai ser mais respeitada aqui, porque fez um curso de doutorado no exterior, e vai ser considerada mais inteligente do que nós, pobres mortais, que não pudemos ter essa oportunidade. Mesmo que você volte mais ignorante da nossa realidade do que quando partiu, só você ganhou. E nós, principalmente eu, chorando a dolorida saudade.

     A história que eu conto agora é real. Tudo aconteceu e você foi a grande responsável de tudo isso ter acontecido. Aliás, não você diretamente, mas a imensa saudade que eu estou sentindo de você. Eu penso em você durante todo o dia.

     E foi pensando em você que cheguei em casa, cansado do trabalho porque participei de uma exaustiva banca examinadora de monografia de final de curso lá na faculdade. O ser humano que mora sozinho tem três alternativas, depois de um banho, para quando se sente tenso: fumar um cigarro (que é uma péssima decisão!), ligar a televisão (que eu não tenho! "Não sirvo de audiência para solidão") ou dar uma volta na rua (que é ótimo!).

     Pois, depois do banho, foi a última decisão que eu tomei: dar uma volta. Você sabe que moro, aqui no Rio, em Ipanema, bairro que tem suas graças e suas desgraças. Quando minha família chegou aqui, o bairro era só graça. Imagina que eu já comi pitanga na praia de Ipanema. Quando eu era pequeno achava ruim ir à praia porque tinha tanto mato entre a calçada e a água do mar que eu reclamava que espetava meu pé. Cheguei a tomar banho (pelado!) na Lagoa Rodrigo de Freitas, que não era (pelo menos tão) poluída e freqüentada.

     Agora Ipanema virou moda e cresceu (graças a Vinícius de Moraes e Tom Jobim, com sua Garota de Ipanema!) e não sei se está mais cheia de graça ou cheia de desgraça.

     Entre as desgraças tem a questão do crescimento repentino a partir do momento em que virou moda. Tem também a questão da violência, se bem que este não é mais um problema isolado de Ipanema. Tem ainda, no rol das desgraças, barulho, engarrafamento, muita gente e pouco sossego.

     Entre as graças tem o nascer do Sol por trás das pedras do Arpoador, à minha esquerda, e o pôr do Sol por trás dos Dois Irmãos, à minha direita, dourando as pedras do Arpoador, à minha esquerda. Tem ainda o que eu acho de melhor em certos bairros do Rio: tudo que você quiser durante 24 horas do dia. Tem farmácia, supermercado, banca de jornal e livraria(!!) durante a noite inteira. Tem também uma coisa que eu acho uma gracinha: bancas de flores em quase todas as esquinas.

     Pois é, minha doce Érica, eu estava tenso. Lembra? Saí para passear. Na primeira esquina em que eu topei com uma destas barraquinhas que vendem plantas eu olhei para uma plantinha e disse:

     - Hã!?

     A plantinha olhou para mim, com uma carinha de sapeca, e disse:

     - Oi!

     Então perguntei, meio sem jeito:

     - Você é Érica?

     Aí, ela fez um ar de espanto e disse:

     - Hã!? Você queria que eu fosse o quê? Queria que eu fosse Miosótis, também conhecida por não-te-esqueças ou não-te-esqueças-de-mim?

     Então eu perguntei pro moço que estava lá, tomando conta da barraquinha:

     - Quanto é a Érica?

     Com cara de sono, o moço respondeu:

     - Vinte "reau".

     Junto com a Érica, toda feliz no meu colo, eu comprei um vaso maior (o que ela estava era muito pequeno) e mais terra. Interrompi o passeio e voltei pra casa, todo bobo, com a Érica em baixo do braço (com todo respeito e no bom sentido, é claro!).

     Chegando em casa o Sol e a Lua (meu amado casal de gatos!) ficaram completamente excitados, vendo que eu trazia alguma novidade. Eles já aprenderam que, sempre que eu entro em casa carregando sacolas tem coisa pra comer. Desta vez não tinha (pelo menos eu estava pensando assim).

     Fui para a área de serviço, abri um jornal e troquei a Érica de vaso (no sentido botânico, amada Érica, e não no escatológico, é claro!). Enquanto estava arrumando a bagunça que eu tinha feito eu olho pra Érica e o que vejo, maravilhosa Érica?

     - Lua! Pare de comer a Érica! (- no bom sentido, é claro!)

     Pois não é que a Lua estava comendo as folhinhas da Érica? Aí eu disse para ela (para a Lua):

     - Lua, sua tolinha! Meu amor... Você não pode comer as folhinhas da Érica! Tá bom?

     Por via das dúvidas coloquei mais comida no pratinho deles. Mas a Lua, depois de comer a sua comida voltou a sapecar a Érica, querida Érica. Então não tem jeito: se eu deixar a Érica ao alcance deles, eles vão destruir a plantinha.

     Peguei a Érica (com todo respeito e no bom sentido, é claro!) e coloquei o vaso na estante mais alta que eu tenho aqui em casa e à prova de gatos. Aliás, eu achava que era à prova de gatos, porque eu fui trabalhar no computador e de repente escuto um barulho:

     - CAAA-TAAAA-PLÁÁÁÁ

     Érica, divina Érica, saiba que minha primeira reação foi a de pensar: eu não vou ver, eu não quero ver. Mas achei melhor interromper meu trabalho e ir ver o que meus gatos tinham aprontado. Quando olhei o estrago, estava o Sol em cima da estante, que eu achei que era à prova de gatos, e o vaso, toda a terra que estava dentro dele e a Érica espalhados pelo chão. A Lua? Comendo a Érica (no bom sentido, é claro! Aliás, não era no bom sentido coisa nenhuma! Era no pior sentido possível! No péssimo sentido!).

     - Lua, sua estrovenga, tenha a fineza de deixar a minha Érica em paz! Sol, seu estrupício ambulante, se você derrubar a Érica de novo eu te devolvo pra Petrópolis! (eu ganhei ele em Petrópolis, você sabe).

     Érica, doce Érica, depois de um trabalhão danado, para limpar a sujeira que o Sol fez, resolvi ir dormir. Você sabe que minha mesinha de cabeceira é também uma estante de 5 andares, porque cabem mais coisas nela. Pensei que se eu pusesse a Érica lá em cima da estante ela ficaria segura até pelo menos o dia seguinte. Pois foi lá que eu pus a Érica, amada Érica, e fui dormir. Estava naquela fase em que a gente espera o sono chegar, pensando você... nós dois... sua ausência... a saudade... todas essas coisas... deitado de barriga para cima, quando senti um baque na minha barriga, como se fosse um soco.

     Érica, magnífica Érica, eu não sei se eu disse ou se saiu sem eu querer dizer, mas deu pra ouvir direitinho eu dizer alto e secamente:

     - Huu!

     O baque foi tão forte que minha cabeça se levantou e eu fiquei como se estivesse sentado na cama, da bunda pra cima, com as pernas esticadas. O olho arregalado na escuridão, procurando entender o que tinha acontecido. Quando consegui alcançar o interruptor do abajur ao lado da cama, acendi e olhei para cima. Quem estava lá? Em cima da estante? Depois de ter usado minha barriga como trampolim? Cheirando a Érica? Pronto para derrubar novamente a minha Érica? O Sol!

     Levantei-me, tirei o Sol de cima da estante, peguei a Érica e fiquei com ela em baixo do braço. E agora...? Morrendo de sono, madrugada, e eu com a Érica nos meus braços (a planta Érica, querida Érica, e não você!).

     Mas eu encontrei a solução. Agora, quando meus amigos chegam aqui em casa, eu digo:

     - A Érica está aqui em casa.

     É claro que todos eles duvidam, mas eu os levo até o banheiro, abro a porta do box do chuveiro (este sim, à prova de gatos!) e lá está ela, linda (um pouco estropiada, é verdade.), minha planta Érica, minha Érica, esperando que eu a pegue para colocá-la na janela pra pegar vento e um pouco de Sol (do céu; não o safardana do meu gato!).

     Érica, amada Érica, acho que, além do Sol e da Lua, ganhei mais um filho, aliás, uma filha, e uma Érica dentro de casa, minha ausente Érica.
 

     Mil beijocas, minha Érica, muito amor e muitas saudades,
 

                    do seu apaixonado xará masculino
 

                                   Érico
 

        Rio de Janeiro, julho de 2003