Carta à Érica II

Érico Corrêa
Rio de Janeiro, 2009


     Olá Quinha.
 

     Pode alguém viver de memória? Pode alguém fechar os olhos e sentir o calor da presença apenas com o exercício da imaginação? Pode alguém fazer tão presente a ausente querida e saudosa? Pois era dos sonhos que eu vivia. E os sonhos eram de tal forma maravilhosos e radiantes que a realidade se tronou uma questão irrelevante. Vivi disso por muito tempo e estava resolvido em meus sentimentos, vivendo minha vida com alegria.

     A imagem da mulher alegre, livre, irreverente e futurista ficou gravada em minha memória como uma fotografia revelada; que eu posso rever cada vez que a tiro do velho álbum guardado no armário. Sua viagem, sua distância, o fim do relacionamento doeram em mim como um murro no peito. A perda de alguém que temos em alta consideração não é o mesmo que perder alguém que sabemos medíocre.

     Por que reapareceu na minha vida? Por que, depois de tanto tempo, voltou para tentar apagar a imagem que alimentei em minha memória? Por que me procurou para tentar distorcer os versos da poesia que foi tão presente entre nós? Por que a grata surpresa da volta acompanhada do calar a alegria de se estar vivo e de viver? Por que chegar outra vez nos meus olhos para escurecer o céu do dia radiante? Não consigo entender o que você pode ganhar com isso. Que vantagem tirar de uma situação em que se desconstrói a beleza da vida?

     A Érica que eu tenho em mim é a Érica, forte e revolucionária, que soube, num dia e num momento, dar um basta a uma relação, em prol da sua própria liberdade; a Érica que desejava sempre o absoluto, o intransponível, o improvável; que cavalgava a utopia, em caminhos acidentados, como opção de vida; a Érica que era maior do que os preconceitos dos outros, que a moral social, que os padrões sociais rígidos e retrógrados; a Érica que ia onde desejasse ir ou estava onde desejasse estar; a Érica que se recusava, de forma peremptória, a ser uma prisioneira dela mesma; a Érica que desejava a liberdade e, por isso, desejava e permitia a liberdade de todos. Por que voltou para revelar a Érica, fraca e conforme, e não aquela? Por que, como uma masoquista, volta para me trazer o chicote para ser agredida?

     Eu não sei se você está entendendo. A Ériquinha que eu amo está presa na minha história e na minha memória; a Érica que eu amo é uma mulher incrível e foi a mulher mais fantástica que eu tive na minha vida. Eu não vou deixar de amar essa Érica nunca, porque é fruto de admiração e respeito. E isso é eterno, sem que ninguém tenha o direito de destruir, nem mesmo a própria Érica.

     Se hoje, ao invés de ser parceira, você opta por ser algoz, então faça bem feito, como fizeram meus torturadores de quando fui preso. Lá, eu não tinha como fugir; aqui, você não consegue me prender. Agora só sou torturado por opção própria e, como repilo com veemência qualquer tipo de sofrimento humano, esta opção está distante de mim. Não aceito o suplício. Se quiser me torturar terá, primeiro, que me subjugar.

     Descubro agora que você não me conheceu. Não conseguiu perceber que meu amor pela Érica é imenso, mas maior é o amor que tenho por mim. E, por esse amor a mim, é inevitável travar um pacto com a alegria de viver. A vida é maior que nós, Quinha. Ser feliz ou infeliz é uma opção de vida. Para mim, em relação a uma companheira, a decisão está tomada: ou uma parceria grandiosa ou a solidão criativa. Nada pode me obrigar a convivência forçada. Viver a vida com alguém ao lado que é como quem prende a ave ao chão e não a deixa voar, não é viver: é carregar seu cadáver nas suas próprias costas. Amo viver feliz. E amo tanto viver feliz que amo até mesmo a felicidade de me ver, algumas vezes, triste.

     Não gosto de andar para trás e não me agrada viver adolescência estando quarentão. Gosto de perceber a minha "real-idade" com satisfação e alegria, nos limites de minhas virtudes e de minhas deficiências. É triste ver a velha bailarina, dona da companhia, se auto-escalar para fazer o solo principal do espetáculo. Maldito então seja este retorno, porque me fez ver que amo alguém que já não existe mais; amo alguém que, ao invés de andar a frente, andou para trás; amo alguém que morreu viva, nos caminhos percorridos.

     O que será que, na trajetória histórica dessa vida, transformou alguém tão doce em alguém tão amarga? O que terá feito do ser cuja sensibilidade aflorava à flor da pele em alguém tão fria e insensível? Não terá suportado a pressão dos policiais da moral de plantão presentes cotidianamente em nossas vidas? As forças das censuras e das repreensões apagaram a proposta de vida progressista para outra, de acordo com os padrões sociais morais de normalidade? Quantas dores e frustrações não terão sido enfrentadas? Que forças inconcebíveis, que arma inesperada derrubou a mulher fortaleza, avante no tempo, na frente dos homens? Faltou o que para que houvesse uma evolução do que era para algo maior? Só você, com razão e equilíbrio, poderá dizer.

     Vou tentar apagar de minha mente esse retorno. Vou tentar revitalizar aquela imagem perdida, um dia, num momento do passado. Vou torcer para que a Érica retome sua trajetória histórica do instante em que nos afastamos. Sua presença tornou-se mais irreal do que a sua ausência. Gostava mais da outra e vou continuar lamentando a perda daquela. Você, hoje, não me merece mais.
 

     Esperando que a vida lhe seja amiga, despeço-me, acho que agora para sempre,
 

                                              seu xará masculino
 


Érico

 


P.S. A Érica, a plantinha que eu cultivava em sua lembrança, não resistiu aos ataques dos meus ainda amados gatos e morreu.