Feitiço

Érico Corrêa


     Num reino distante vivia um temido feiticeiro chamado Romigro. Não era o tipo tradicional de feiticeiro: frágil, fraco, velho, apoiando-se no seu cajado. Este feiticeiro era jovem, encorpado, que se podia dizer que estava até um tanto gordo, e trazia sempre no seu semblante um ar eterno de arrogância e prepotência.

     Romigro não era recluso e passava seu tempo em companhia de outras pessoas comuns e mortais. Temido, não só pelos seus poderes de feiticeiro, mas também temido pelo seu porte físico grande e assustador, não se podia dizer que tinha amigos. Se Romigro, por ser temido, não tinha amigos, dos comuns dos mortais, por serem submissos, não se podia dizer que eram amigos.

     Vivia também neste reino uma linda aldeã de nome Élida. Filha de um comerciante local, era querida por todos. Ela era, com certeza, a mais bonita do reino. Além de bonita era uma pessoa completa: inteligente, atenta com as questões políticas do reino, procurava sempre melhorar seus conhecimentos e aplicar em favor dos demais.

     Romigro cercou Élida de tal forma que ela acabou por se tornar sua companheira. Não era essa a opção dela. A intenção de Élida não era se tornar companheira de Romigro, mas não havia alternativa. A relação dos dois não trazia para ela a felicidade almejada. Ela então se dedicava ao trabalho para que o tempo passasse mais rápido e a ocupação e as preocupações com o trabalho fizessem com que ela não pensasse muito na relação dos dois.

     Para Romigro a relação com Élida estava tranqüila até que apareceu no reino um sábio de nome Bellore. O sábio chegou à aldeia para montar a primeira escola do reino. Não era uma escola nos moldes que conhecemos hoje. Como a frequência não era obrigatória, as crianças e os jovens compareciam ao ambiente da escola pela felicidade de se divertir e, divertindo-se, aprender. A aprendizagem, pela proposta de Bellore, não era uma obrigação ou uma imposição, mas uma necessidade expressa por cada um dos aldeãos que freqüentava o centro de aprendizagem. Note-se que, mesmo não tendo frequência obrigatória, a frequ6encia ao ambiente de estudos era maciça, já que todos se sentiam felizes em estar lá.

     Bellore era um homem tranqüilo, culto e preocupado com o crescimento humano; de todos os seres humanos, sem qualquer tipo de discriminação. Por sua tranqüilidade e sua alegria em se relacionar com os outros era também querido por todos. Mesmo sendo polêmico, já que trazia em suas propostas o germe da mudança, era respeitado pela fé que exercia suas funções de educador.

     Élida conheceu Bellore porque se propôs a realizar um trabalho junto dele. O trabalho foi gratificante para os dois. Faziam o que gostavam de fazer e se sentiam felizes por isso. O destino une as pessoas, mas as decisões dependem da vontade de cada um. Pelo trabalho em comum, pela alegria de quando estavam juntos e pelo desejo de estarem sempre juntos, a paixão foi inevitável.

     Élida e Bellore apaixonaram-se de forma absoluta. Tentaram manter o amor entre os dois em completo segredo. Eles sabiam o que poderia representar a revelação para todos deste amor. Apesar da admiração e do desejo mútuo, da vontade de estarem juntos, da alegria de conviver e da paz que um dava ao outro, temiam pela reação de Romigro. Eles sabiam dos poderes de um feiticeiro. Romigro era um dominador, o que comprovava que, mesmo feiticeiro, buscava sempre a maneira mais fácil de se relacionar com os demais. Dominar é muito fácil; difícil é ser igual.

     Mesmo mantendo o amor às escondidas, não foi difícil para o feiticeiro descobrir o que estava acontecendo. Romigro poderia ter compreendido e aceitado. Mas se não é isso o que acontece com os comuns dos mortais que dirá de um feiticeiro. Ele ficou fulo de ódio, seus olhos ejetavam sangue e seus músculos, todos, se retesaram. Possuído pela imensa raiva de estar sendo trocado no amor de Élida, começou a imaginar na execução de um terrível feitiço contra os dois.

     Depois de muito pensar transformou Élida, já que esta era de uma beleza extrema, numa linda pombinha branca, que viveria durante o dia e seria irmã do Sol. Transformou Bellore, já que este era profundamente sábio, numa coruja, que viveria durante a noite e seria irmão da Lua. Entre os dois construiu um muro tão alto que levou trinta anos para ser construído.

     Élida e Bellore só poderiam se encontrar em dois pequenos pedaços de tempo: no nascer e no pôr do Sol. Todo início da manhã e todo o fim de tarde lá estavam eles se olhando furtivamente por cima do muro, lamentando o destino. Se Romigro tentara destruir o amor entre os dois, o feitiço não deu certo. O amor entre eles cresceu. E esse amor foi o responsável pela quebra do feitiço.

     Eles não sabiam disso mas só existiria uma maneira do feitiço ser quebrado: o amor. Este feitiço, imposto por Romigro, foi criado num reino celta há muitos séculos atrás, por um feiticeiro já envelhecido. Como ele já era muito velho e sabia que não duraria muito mais, criou um quebranto para o feitiço após o seu desaparecimento. Se o amor entre os dois fosse de tal forma arrebatador, definitivo e sincero e o encantamento fosse vivido da forma mais pura e intensa o feitiço estaria quebrado. Romigro não sabia que nada, nenhum feitiço, poderia suportar a força de um amor sincero.

     Num nascer do Sol, como de costume, a pombinha Élida voou o mais alto que ela pode voar. Encontrou já do outro lado do muro a coruja Bellore que admirava a pombinha. Lá do alto, já cansada de voar nessas alturas, a pombinha Élida, num esforço extremo, disse:

     - Eu te amo!

     Neste instante caiu de cima do muro o primeiro tijolo. E entre vários "eu te amo", em cada nascer e cada pôr do Sol, tijolo por tijolo, o muro se desfez. Quando os dois puderam estar frente a frente, ainda como pomba e coruja, abraçaram-se. Os dois, ao mesmo tempo, disseram docemente:

     - Eu te amo.

     Neste momento, ainda abraçados, foram se transformando novamente em seres humanos. Voltando novamente a forma humana, trocaram juras de amor e prometeram viver eternamente, como encantados, um para o outro.

     E viveram, sempre encantados, felizes para sempre.

     Romigro? Diante de toda sua fortaleza, chorou.
 

        Rio de Janeiro, agosto de 2003