O primeiro contato deu-se no cafezinho. Ela estava a se servir da garrafa térmica, quando ele se aproximou e disse:
- Vamos tomar um café três efes.
- Três efes? - Indagou ela.
- Frio, fraco e fedorento, mas que fazer? Acreditamos repor aqui nossas energias gastas em sala de aula.
Ela riu e serviu um copinho de café para ele. Ele agradeceu e perguntou quais as disciplinas que ministrava nas suas aulas. Foi o bastante. Nada mais precisaria ser dito, apenas entendido. No mais era apenas uma questão de acerto de dimensão da vontade e possibilidades.
Encontraram-se outras vezes na sala dos professores. Cada um, como se atraísse ao outro, descobriu os horários do outro. Com isso os encontros tornaram-se freqüentes. Em princípio conversavam sobre aulas e estudantes. Os dois eram queridos pelos discentes, considerados "bons professores". A conversa evoluiu para questões de família.
Ela era casada e tinha três filhos, mas não vivia bem com o marido. Dizia que ele, o marido, apesar de ter uma boa formação universitária, não se esforçava em conseguir uma melhor colocação no mercado de trabalho. O resultado da falta do esforço do marido é que ela é quem acabava por garantir o sustento da casa e dos filhos. Com isso a relação entre os dois esfriou e já nem se relacionavam sexualmente.
Ele era também casado, mas não tinha o que reclamar da mulher. Estava casado há oito anos e tinha uma filha de sete. Sua mulher também trabalhava e o sustento da casa era dividido entre os dois. Vivia uma relação tranqüila e de confiança mútua, sem cobranças e sem controles.
Os diálogos, travados diante dos demais professores na sala, não podiam ir além de olhares cúmplices e desejos reservados. Tocavam-se muito, mas sempre rapidamente. Ou tão demoradamente quanto a situação permitia. Pegavam-se muito nas mãos, procurando sempre prolongar este contato o mais que podiam. Mas não podiam muito. As presenças e os olhares ao redor, para eles, eram seus repressores. Como se dissessem não. Mas para os dois a situação estava já sem controle. Desejavam-se. Na cabeça dos dois isso era como uma combinação: precisavam estar juntos e longe de todos. O desejo de um pelo outro passava por todos os poros, por cada mínima parte do corpo dos dois. Precisavam estar juntos, como se disso dependessem suas vidas, uma questão de sobrevivência, como se fosse o oxigênio para a respiração. O desejo era tanto que parecia que tudo entre os dois combinava.
Na segunda-feira combinaram ir a um motel. Na quarta-feira, ele desmarcaria seu encontro com a orientadora de sua tese de doutorado; ela, deixaria de corrigir alguns trabalhos dos estudantes. Ela deixaria seu carro na universidade e iriam no carro dele.
Ele, amante da realidade, achava que a fantasia era produto da falta de afeto. O importante era estar com o ser desejado, sem fantasias, vivendo o momento. Para ele a utilização de fetiches para alimentar a relação era a própria condenação da relação. Uma relação saudável, inspirada no desejo de um pelo outro, não precisava de artifícios, fossem eles quais fossem. O desejo era o motivo de se procurarem e de se encontrarem. E isso bastava e se completava.
Não acreditava em pecados e não se sentia culpado. Acreditava na possibilidade de viver a felicidade, viesse de onde viesse. Não misturava as relações. Uma coisa era a relação com sua mulher, outra coisa era sua relação com o mundo. Não se sentia culpado em buscar o prazer com a colega de trabalho. Na verdade ele se sentiria mais culpado se reprimisse seus desejos. Acreditava que a repressão de seus desejos seria ruim para ele e para sua companheira: se não deixasse que seus desejos fluíssem por causa dela se sentiria frustrado e, em se frustrando, ele se sentiria mal e culparia a sua mulher pela frustração de seus desejos.
Ela se considerava romântica e descobriu-se apaixonada por ele. Ainda não tinham travado nenhum contato físico consistente, mas ela tinha certeza de que estava apaixonada por ele e já pensava na separação do marido. Antes mesmo do primeiro encontro ela já havia determinado seu futuro: sem o marido e junto do colega de trabalho. Era assim que ela encarava a vida. Não conseguia ver a concretização de uma relação apenas pelo puro prazer de estar junto do outro. O prazer, para ela, estava intimamente ligado ao amor. Como se para sentir prazer ela precisasse da desculpa do amor. Fora disso o prazer era amoral, pecaminoso e irrealizável.
Tão romântica era ela que não conseguia nem mesmo se lembrar de que ele era casado e talvez os planos dele não fossem se separar da sua mulher e de sua filha. Ela criou em sua cabeça a sua história romântica e criou a vida concreta a partir do seu próprio romantismo. Sentia-se feliz com isso. Como se tudo fosse real.
O início da tarde do dia ensolarado dava um clima de transgressão ao trabalho, à família e à sociedade. Chegaram ao motel. Ela disse que ia ao banheiro, ele tirou sua roupa e se deitou na cama. Quando ela saiu do banheiro ele, boquiaberto, viu-a aparecer com um sorriso maroto no rosto, vestida apenas com uma meia de nylon branca, presa com uma liga branca decorada com um coração vermelho, um avental branco de laboratório, com uma máscara branca protetora no rosto, portando em suas mãos dois tubos de ensaio, dando início a um sensual "strip-tease".
Rio de Janeiro, junho de 2003