Foi preso duas vezes, nos chamados "anos de chumbo". Uma delas porque resolveu contestar um militar quando da morte do líder argentino-cubano Ernesto "Che" Guevara. O militar dizia que "Che" Guevara havia sido um covarde que abandonou sua família e seu país para criar desordem no mundo, matando pessoas. Ele, consciente da situação perigosa do momento histórico, ainda tentou ficar calado. O sangue ferveu nas veias e seu descontrole foi absoluto quando o militar terminou seu discurso reacionário dizendo a infeliz frase: "E já morreu tarde!". Ele diria mais tarde que ficou momentaneamente cego. O fato foi que ele pulou no pescoço do militar, agarrando-o com as duas mãos como se fosse estrangulá-lo. Apertou com tanta força que foram necessários cinco homens para afastá-lo de sua presa. Três dos cinco homens levantaram-no do chão, deixando-o no ar, em posição horizontal, puxando-o em sentido contrário ao militar; um outro segurava com força a mão direita dele, tentando abrí-la para libertar o pescoço da vítima; o outro fazia a mesma coisa na mão esquerda. Enquanto apertava o pescoço do "milico", ele gritava com um grito saído do fundo de sua gana:
- "Che" Guevara foi um herói! Um herói da humanidade! Ele tentou mudar o que você não tem coragem sequer de enxergar, seu energúmeno! Ele foi um herói! Covarde é você, seu "milico" de merda!
Gritava e apertava o pescoço do infeliz militar. Enquanto isso os cinco homens tentavam separá-los. Quando o militar conseguiu se desvencilhar da fúria incontida do desafeto, colocou uma das mãos no pescoço e a outra, trêmula e com dedo em riste, apontava para ele, então seguro pelos cinco homens, e, com uma voz esganiçada, dizia com esforço para que a voz saísse entre acessos de tosse e coceira na garganta:
- Prendam este homem! Prendam este homem! Eu estou dando voz de prisão a este homem!
Não foi levado para uma Delegacia e sim para um Quartel. Já tinha passado por isso outra vez e aproveitou esta sua segunda passagem pela prisão para pensar o tempo todo e ler.
Um outro descontrole que teve foi num desses festivais que andaram na moda lá pelos anos 60-70. O cantor e compositor Caetano Veloso apresentou uma música chamada "É proibido proibir", um dos lemas da Revolta Estudantil, em Paris no ano de 1968, liderada por Daniel Co-Bendit, o "Dani, Le Rouge". Era a primeira vez que um músico introduzia as guitarras elétricas na música popular brasileira. Ele ficou estarrecido com a proposta. Era a revolução, a quebra de barreiras, a tentativa do diferente. Os olhos dele brilhavam diante da televisão ouvindo Caetano cantar:
- "A mãe da virgem diz que não / E estava escrito no portão / E além da porta há o porteiro, sim."
E ele, assistindo tudo junto à sua família, babava de emoção e aos gritos dizia:
- É a reedição da Semana de 22! Daqui pra frente tudo vai ser diferente! É a mudança dos tempos! É um marco da História!
Enquanto ele gritava diante da tela da televisão a platéia, por sua vez, urrava impropérios e vaiava estrepitosamente o cantor que mal podia cantar:
- "E eu digo não. / Eu digo não ao não."
De repente Caetano Veloso interrompe a música e começa a gritar ao microfone:
- "Mas é isso? Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?"
E ele, diante de sua família, gritava junto com o cantor:
- Bando de reacionários! Vocês são o freio do desenvolvimento humano! Viva a revolução!
E Caetano continuava:
- "Vocês não estão entendendo nada! Nada! Eu digo é proibido proibir, é proibido proibir"
Ele, desesperadamente, gritava tanto que sua família interferiu:
- Cala a boca! Vê se deixa a gente ver o programa!
No que ele, ainda aos berros, respondia:
- Vocês também não estão entendendo nada! Nada! Abaixo a ditadura, a família, a caretice e os impostos! Viva a revolução!
Sua família não entendeu muito bem porque ele havia inserido os impostos no meio do seu protesto, mas entendia os demais. E por isso deixou que ele extravasasse seu protesto incontido. Aliás deixou que ele babasse de ódio até que começou a sacudir a televisão, aos gritos de "viva a revolução e viva Caetano", quando a mesinha não suportou os trancos, quebrou e a televisão foi ao chão, explodindo num grande estrondo.
- Seu irresponsável! Maluco! Mentecapto! Vai já para o seu quarto e vê se dorme! - gritou seu pai em desespero.
Sua revolta foi premiada com vários meses sem mesada, até que se comprasse uma nova televisão, já que a que explodiu não teve conserto.
Mas o tempo passou e ele resolveu se casar. Sua mulher não era o que se podia esperar de uma pessoa tão contestadora. Era, na verdade, bem "careta". Romântica, acreditava no amor eterno, na família unida e celular, nos filhos jantando na mesma hora e no marido chegando em casa cansado do trabalho. Traição, nem pensar. Ela dizia a ele que se descobrisse que ele a estava traindo ela o mataria. Ele, na fase maior da paixão, nem pensava em outra mulher. Ele não tinha o menor interesse por outra até que conheceu uma amiga de uma colega de trabalho.
A amiga da colega demonstrou interesse por ele. Parecia que tudo combinava entre os dois. Parecia que tinham os mesmos gostos e as mesmas crenças sobre as questões da vida. Achavam que a fidelidade era prejudicial ao casamento. Ela também era casada e se sentia excitada com a possibilidade de vivenciar uma outra relação que não com o marido. O discurso dos dois era de que se alguém casado sentisse desejos por outra pessoa, este desejo deveria ser atendido. Se não fosse traria frustração e a frustração seria ruim para a pessoa e para seu companheiro. Por outro lado diziam que, se alguém, numa relação a dois, sai com outra pessoa e volta para o seu companheiro, este deveria se sentir valorizado, já que ele experimentou uma nova relação, mas optou pelo companheiro.
Tudo discurso, já que na hora de combinar de saírem não tiveram coragem de levar o projeto adiante.
Ele, quando chegou em casa, manteve uma relação sexual com sua mulher... Pensando na outra.
Rio de Janeiro, julho de 2003