Para quem vê tudo parece muito fácil. A prática do esporte parece que se limita a chutar uma bola. Correr para frente, correr para trás e, quando a bola vem em nossa direção, "pimba na gorduchinha". Isso é o popular futebol ou o "nobre esporte bretão", já que, dizem, foi inventado pelos ingleses.
Eu tentei. Comprei chuteira, caneleira, tornozeleira, calção e camiseta. Cheguei até a treinar embaixadinha. Convidei pai, mãe, irmãos, primos, amigos e inimigos para assistir meu primeiro jogo, mas não deu certo.
No primeiro jogo entrei em campo animado. Lá no íntimo de mim mesmo estava me sentindo entrando em campo para decidir a Copa do Mundo. Estava achando até que o jogo estava sendo transmitido por todas as redes de televisão, de todos os países do mundo.
Como não tinha bom controle de bola meus colegas de time me puseram para jogar na defesa. Fui instruído para não tentar controlar a bola. Quando ela passasse na minha frente a única coisa que eu tinha que fazer era dar um chutão para frente, ou para o lado, ou para qualquer lado, desde que não fosse para o nosso próprio gol. Eles gritavam no meu ouvido:
- Tipo beque da roça, entendeu?
O senhor juiz apitou o início do jogo. A bola (graças a Deus!) foi para o lado oposto de onde eu estava. Na verdade a bola foi até a metade do campo do adversário. De lá o beque deles deu um chutão para frente. A bola subiu, subiu, subiu... e adivinhem qual foi a direção que a desgraçada tomou? Pois é: a minha. Como um raio, pensei: "o campo de futebol tem vinte e dois jogadores, ainda por cima tem as laterais do campo, e a bola tem que vir exatamente na minha direção?" Meu Deus, o que eu faço? A bola está muito alta, não vai dar para chutar. Pensei rápido: vou cabecear! Pra quê? Até hoje não posso entender como pude tomar uma decisão tão infeliz. A bola veio e eu ainda empurrei a minha cabeça para frente para dar mais força e devolver a bola o mais longe que eu pudesse. Em minha opinião foi um lance lindo. Devolvi a bola para o nosso ataque e o resultado foi quase um gol nosso. Eu disse que quase foi um gol, mas o que eu tive certeza foi que para mim pareceu que eu tinha sido acertado por um paralelepípedo na cabeça. A bola era dura como pedra o que me valeu uma semana de dor de cabeça.
O jogo para mim acabou ali. Depois da bolada (que os especialistas do esporte chamam de cabeceada) que eu levei não conseguia ver mais nada. Eu parecia um zumbi em campo. No entanto não pedi para sair. Não que eu quisesse continuar, mas e o vexame?
Lá pela metade do primeiro tempo um jogador deles pegou a bola, driblou um, driblou outro, evitou um terceiro e quando eu dei por mim o atacante estava na entrada da área e diante de mim. Eu juro que não tive a intenção. O que eu queria mesmo era acertar a bola, mas por um erro de cálculo o que eu acertei mesmo, e com toda a força, foi a canela do atacante que se esborrachou no chão, como uma jaca madura. O juiz, todo nervosinho, apitou e veio correndo na minha direção com um cartãozinho amarelo ridículo levantado na frente da minha cara. Ainda teve a petulância de dizer que, na próxima, eu ia para o chuveiro mais cedo. Mal sabia ele que isso era tudo o que eu queria.
Falta contra o nosso time. Arma a barreira, o nosso goleiro berra como porco no matadouro: "Barreira de seis! Mais alguém na barreira! Mais pra direita! Mais pra direita!" Eu confesso que me fiz de desentendido. Todo mundo gritava comigo para que eu fosse para a barreira e eu fingia que não estava ouvindo. Até que um jogador do meu time correu até onde eu estava, me pegou pelo braço e me levou para ficar na barreira. Quando cheguei lá fiquei de costas para a bola. Eu não sou bobo. Achei que era preferível ganhar uma bolada nas costas do que no peito. Estava todo feliz, esperando a cobrança da falta, quando o companheiro que estava ao meu lado quase arrebentou o meu tímpano, gritando:
- Seu idiota! De costas para a bola você não vai ver para onde ela vai! Vira de frente!
De frente? O que fazer? Virei de frente e cruzei as mãos na frente para proteger a parte pudica, muito sensível no sexo masculino. Fiquei assim até que o mesmo companheiro quase estourasse o meu outro tímpano:
- Seu idiota! Bota as mãos para trás! Você quer marcar um pênalti para eles?
Mãos para trás? Não era isso que eu queria, mas pensei que seria muito azar, numa barreira formada por seis jogadores, a bola bater exatamente em mim e naquele lugar. O jogador adversário tomou distância e no exato momento em que ia acertar a bola outro jogador do time deles, que estava atrás de mim, passou a mão na minha bunda. Opa! Qual é! Tá pensando o que? Ato contínuo eu me virei para tomar satisfação. Para isso eu abri um buraco na barreira e foi neste espaço que o cobrador da falta chutou a bola. Fui salvo pelo goleiro que, numa "ponte" fenomenal, espalmou a bola para escanteio. O gritador profissional não perdeu a sua oportunidade:
- Seu idiota! Será que você não sabe nem ficar parado numa barreira?
O jogo continuou e a bola me deu certo descanso. Ficou "pipocando" lá longe de mim até que um companheiro do meu time teve a infeliz ideia de botar a mão na bola. Além de ganhar um cartão amarelo fomos ainda obrigados a cumprir o mesmo ritual: monta barreira, vai para a direita, vai para a esquerda, virado de frente, mãos para trás e... mão na minha bunda. Como gato escaldado, sabendo da malandragem do adversário, fiquei quietinho esperando a cobrança com aquela mão irritante na minha bunda.
O jogador deles tomou distância, olhou, olhou, mirou, correu e "pow"! Adivinhem onde a bola bateu? Pois é: na minha parte pudica. Aliás, parte pudica é o cacete! O que eu levei foi uma bolada no saco que cheguei a perder a respiração. A bolada foi tão forte que me tirou do chão. O pior foi que a bola não bateu e voltou; o meu saco amorteceu a danada que caiu embaixo de mim. Tive a sensação de que os vinte e dois jogadores me chutavam ao mesmo tempo até que um deles tirou a bola da nossa área.
Todos correram para fora da área, menos eu que estava estirado no chamado "tapete verde", suando frio, como se o jogo estivesse sendo realizado na Sibéria. Fiquei ali até que o mesmo companheiro, que quase arrebentou meus tímpanos na barreira, voltasse no seu intento maligno de me ensurdecer:
- Seu idiota! Você vai ficar deitado aí? Levanta pra deixar eles em impedimento!
Com as pernas bambas e trêmulas caminhei vagarosamente para fora da área. Não cheguei a dar dois passos quando levantei a cabeça e vi um jogador adversário "encher o pé" na bola que, num capricho sinistro, veio em minha direção. A bola veio alta e não dava para chutar. A única possibilidade, na situação, era cabecear a bola e devolvê-la para o ataque. Outra vez? Ah, não! Já estava com uma dor de cabeça infernal, com meu saco inchado e não seria eu que meteria a minha cabeça naquela bola. Tudo foi muito rápido. Se tivessem tirado uma fotografia da minha expressão no momento em que bola se aproximava de mim eu teria servido de perfeito modelo da expressão de terror. Para falar a verdade eu não sei explicar direito o que aconteceu. Só sei que quando percebi que a bola vinha na minha direção eu rapidamente abaixei a cabeça para ela não bater em mim. Eu acho que eu fiz igual a uma tartaruga: enfiei a cabeça para dentro do corpo. A bola chegou a raspar o cocuruto da minha cabeça. Quando ela passou parecia que alguém tinha acendido um maçarico e apontado para mim. Eu acho que ela chegou a me arrancar um tufo de cabelo.
Dessa eu consegui me livrar. Só não consegui me livrar foi dos meus colegas, já que, quando eu me abaixei, a bola, caprichosa e cruelmente, entrou no nosso gol. Enquanto os adversários comemoravam os onze jogadores do meu time gritavam dentro dos meus tímpanos:
- Seu idiota! Por que você não cabeceou a bola?
Eu não respondi, mas achei que a pergunta é que foi idiota. Ora! Por que não cabeceei a bola? Porque eu já estava com uma semana de dor de cabeça garantida. Vou querer ficar duas semanas com dor de cabeça? Além do mais eu já tinha experimentado uma tijolada na cabeça e a minha impressão era que se eu levasse outra eu teria estourado os meus miolos.
No meio do jogo resolvi dar uma de rebelde e decidi que na defesa eu não jogava mais. Fui, por conta própria, para o ataque. Eu só ouvia o técnico gritando:
- Volta! Volta!
Debochadamente eu respondi que, para mim, Volta era o inventor da pilha e fiquei lá no ataque mesmo. Eu não nasci para ficar tomando bolada. Corri um pouquinho pra lá, um pouquinho pra cá e de repente escuto outra vez nos meus tímpanos o mesmo nervosinho da barreira:
- Seu idiota! Você acha que os outros beques vão jogar por você?
Enquanto o estourador de tímpanos profissional tentava novamente arrebentar os meus, a bola quicou de mansinho a uns dois metros de mim. Quase terminando o primeiro tempo, pela primeira vez eu iria dar um chute na bola. Minha raiva por estar ali era tão imensa que dei uma corridinha de dois passos e "enchi o pé". A minha intenção era a de acertar a bola com o peito do pé, mas calculei mal e acertei a bola com toda a força (e com toda a raiva!) com o meu dedão.
Antes do jogo ter começado eu pensei que se eu marcasse um gol, mesmo que a hipótese fosse distante, eu agradeceria primeiramente a Deus, depois ao meu pai e à minha mãe e poderia dedicá-lo às criancinhas do Brasil. No entanto a única coisa que eu consegui pronunciar, mesmo sem pensar, foi:
- Puuuta que o pariu!
Deus misericordioso, por que me abandonaste? Tá bom. A bola entrou no gol adversário, mas também entrou no meu pé, o meu dedão. Que dor. Que dor lancinante. Tive a sensação de que uma betoneira carregada tinha estacionado em cima do meu pé. E o pior é que os dez jogadores do meu time, todos empapuçados de suor, pularam alucinadamente em cima de mim para comemorar o gol. Lembram-se do cara da barreira? O estuprador de tímpanos alheios?
- Seu idiota! É gol! Você marcou um gol! Seu idiota!
O dedão fraturado foi uma desgraça, mas foi uma benção: FUI SUBSTITUÍDO! E ainda saí de campo como herói, porque o jogo acabou empatado.
Fiquei um bom tempo sem pensar novamente em jogar futebol. Até que um belo dia os colegas de escritório resolveram desafiar os funcionários da firma do andar de cima para uma partida no Aterro do Flamengo. Pensei logo: eu não vou! Os colegas pediam, insistiam, imploravam, rogavam, ameaçavam e me chatearam tanto que resolvi ceder.
- Mas na defesa eu não jogo!
Resolveram então que eu seria o goleiro. Pensei bastante e achei que ser goleiro devia ser uma boa. Todos no escritório diziam que jogavam "um bolão" e eu acreditei que sendo goleiro, com um time bom, a bola não chegaria a mim. Mesmo que nosso time perdesse o jogo por causa de mim, o máximo que poderia acontecer seria eu ser chamado de "frangueiro". O que eu imaginava é que eu não ganharia mais bolada. Se eu percebesse que o chute fosse muito forte eu sairia da frente e deixaria a bola entrar.
Estava eu novamente dentro das "quatro linhas". Agora defendendo o nosso gol. A partida estava bem ruim. Os "craques" do nosso time eram verdadeiros "pernas de pau". A nossa sorte é que os "craques" do time deles não eram tão melhores. Imaginem: burocratas jogando futebol. O jogo estava até engraçado. Onde a bola estava pulavam todos os jogadores em torno dela tentando chutá-la. Cheguei a fazer três defesas de bolas que chegaram a mim devagarinho.
Parecia que o jogo ia acabar em zero a zero. Jogo equilibrado em matéria de ruindade até que um jogador do nosso time botou a mão na bola, dentro da área e numa bola que iria para fora. Pênalti! Ato contínuo, pensei: "mas o que é que eu estou fazendo aqui?"
Apresentou-se para cobrar o pênalti um sujeito magrinho e altíssimo. O cara parecia um palito com uniforme de jogador de futebol. Olhei para as perninhas dele que, mesmo que fossem compridas, eram da grossura do meu braço. Não acreditei que aquelas perninhas pudessem ter um chute muito potente. Ele pegou a bola e, compenetradamente, colocou-a na marca do pênalti, como se estivesse colocando um vaso de cristal numa frágil mesinha.
Enquanto isso eu planejava a minha ação. Pelo que eu via de futebol, o pênalti tem aquela coisa do goleiro pular para um lado e bola ir para outro. Pensei que, para não correr o risco de levar mais uma bolada, eu poderia pular para o lado contrário de onde o jogador chutasse a bola. Mas vá lá que o jogador chute a bola exatamente para o canto que eu pular? Pensando melhor eu achei que se eu ficasse parado no meio do gol, não correria nenhum risco.
O cobrador tomou distância, olhou sério nos meus olhos e partiu em direção à bola. Eu lá. Duro. De braços abertos esperando a cobrança. Meu Deus! Por que tomei essa decisão? O cobrador poderia ter chutado no lado direito ou esquerdo do gol. Adivinhem onde foi que o safardana chutou? Pois é, no meio do gol. Exatamente onde eu estava de braços abertos, tentando fugir de mais uma inesquecível bolada. Olhando fixamente para a bola eu só vi a chamada "gorduchinha" crescendo na minha direção, que parecia uma lua cheia vindo para cima de mim. O que eu sei é que o chute foi tão forte que não deu tempo nem de fechar os braços e botar as mãos na frente para me proteger. Levei uma bolada tão forte no peito que eu não conseguia expirar nem inspirar. Minha respiração travou. A bola bateu no meu peito e voltou para o meio campo. Enquanto isso eu fiquei estirado dentro do gol, de braços abertos, igualzinho como estava de pé. Eu só consegui recuperar a respiração porque alguns jogadores do meu time vieram até mim e me deram um monte de tapas no peito:
- Isso é goleiro! Vai pra seleção!
Vou pra seleção uma ova; eu vou é para a minha casa. Futebol? NUNCA MAIS! Aliás, bola nunca mais, nem em ping-pong.
Maio de 2009