A história se repete

Érico Corrêa


     - Cala a boca!

     Foi o grito que se ouviu em toda a casa quando Elena, do quarto, chamou seu pai para lhe dar um beijo de boa noite. As lágrimas em seus olhos foram o que lhe serviram de acalanto. Na manhã seguinte nem mesmo lembrava-se de ter sonhado. A agressão paterna não era novidade. No íntimo a menina já sabia que correria riscos ao chamar o pai para uma atitude de carinho. Ela era testemunha cotidiana das atitudes intempestivas do seu próprio pai. Sentia pena de sua mãe quando presenciava as agressões e as atitudes de desamor que ela sofria.

     O grito de "cala a boca" era comum na casa onde morava com os pais. Presenciava sempre seu pai dizer esta frase para sua mãe, sempre que esta corria o risco de dizer qualquer coisa, de tecer qualquer comentário. Percebia que sua mãe estava definitivamente condenada ao silêncio por imposição paterna.

     Elena era uma moça muito bonita. Mais do que bonita era o que poderia se chamar de ser humano quase perfeito. Sua beleza física confundia-se com a sua beleza pessoal, interior; coisa de personalidade. Era delicada, meiga e, aparentemente, parecia que não nutria ódios ou guardava rancores. Parecia que amava a todos e, talvez por isso, era amada por todos. Seus amigos eram quase unânimes em dizer que "para quem conhece Elena é impossível não se apaixonar por ela".

     De certa forma ela lembrava o jeito meigo da mãe, se bem que esta, a mãe, não tivesse o mesmo brilhantismo intelectual da filha. Elena, precocemente, colocou-se bem profissionalmente na sociedade. Estudiosa e inteligente, poderia ir bem em qualquer coisa que tentasse. A dedicação aos estudos serviu de fuga da realidade em seu redor. A sua vida profissional era um sucesso e era querida e admirada por todos.

     Por todos seus atributos intelectuais e por sua exuberante beleza física era desejada por todos os homens. Elena era o que se podia esperar de uma esposa ideal. Por isso podia se dizer também que ela tinha a seu dispor uma variedade de homens para escolher o marido que melhor lhe conviesse. Poderia definir nela os atributos que melhor lhe agradassem para ter um homem como companheiro de sua vida.

     Esse homem apareceu aos seus olhos. Na fase de namoro era carinhoso e dava a ela toda a atenção deste mundo. Se algum deslize de comportamento em relação a ela ele pudesse ter ela sempre achava que ao casar-se isso se modificaria. Pelo seu jeito doce e sempre compreensível perdoava qualquer tipo de atitude mais ríspida que ele pudesse ter em relação a ela.

     De uma forma geral os amigos que conviviam com ela não achavam que ele seria o marido ideal para ela, mas respeitavam a sua decisão. Em sociedade ele até parecia ser carinhoso e atencioso com ela, mesmo que parecendo um tanto grosseiro na sua maneira de ser.

     Embora ela ainda tivesse dúvidas se aquele casamento seria o ideal para ela resolveu casar-se. A cerimônia foi tão linda quanto a noiva. A beleza de tudo foi marcante. Elena, produzida para o casamento, estava absolutamente linda. Para completar o ritual do matrimônio foram passar a lua-de-mel no inverno de Campos do Jordão. Lá percebeu que seu marido não lhe dava muitas alternativas para sugerir os passeios que deveriam fazer. Mas como era de sua índole, sempre achava que estava tudo bem.

     Retornaram da lua-de-mel numa quarta-feira. Chegaram em sua casa nova um pouco antes da hora do jantar. Para não ter o trabalho de ir para a cozinha e preparar a comida resolveram comer fora. Na volta ele ligou a televisão para assistir a uma partida de futebol e ela foi para o quarto para dormir.

     Do seu quarto, com sua voz meiga, chamou o marido:

     - Amor, vem dormir comigo.

     E, da sala, veio o grito:

     - Cala a boca!
 

        Rio de Janeiro, outubro de 2003.