Indecisão

Érico Corrêa


     - Vamos terminar - disse ele secamente, com o olhar voltado para o chão e a expressão consternada.

     - Hã!? - foi o máximo que ela conseguiu responder.

     - Preciso pensar em mim. Estou sentindo minha cabeça tumultuada, como se eu não conseguisse encontrar um caminho. - continuou ele.

     Ela, boquiaberta, sentada num canto da cama, continuava a olhar para ele, praticamente sem piscar. Ele, ainda olhando para o chão e andando de um lado para o outro prosseguiu:

     - Estou me sentindo preso. Sem alternativa de vida. Estou angustiado e não sei porque. Por isso acho melhor a gente dar um tempo.

     - Você tem outra? Não gosta mais de mim? - mãos espalmadas para cima e expressão de desespero.

     - Não! Não é isso!

     - Ora! Se você não tem outra e continua a gostar de mim, qual é o problema? Fala a verdade. Seja sincero com suas palavras.

     - Eu já disse. O problema não está em você, está em mim.

     - Então tá! Você tem seus problemas e resolve eles me agredindo.

     - Eu não estou te agredindo! - respondeu ele, mostrando certa irritação, para provocar uma "ceninha". - Vai ser melhor para você assim; não ter que me aturar com este estado de ânimo.

     - Palhaço! Quem tem que decidir sobre isso sou eu. Se você estiver me incomodando sou eu que tenho que saber.

     - Mas se eu não estou gostando da relação isso tem a ver com nós dois.

     - Mas o problema é você ou a nossa relação? Você está confuso mesmo. Parece um idiota.

     - Tá vendo? Você está me agredindo. Me chamou de idiota.

     - Eu disse que você PAAAREEECE (aumentando o tom de voz e realçando as sílabas) um idiota. Não disse que era. Mas que parece, parece. Até ontem a nossa relação era maravilhosa. Risos e carinhos. E hoje tudo mudou.

     - É. Talvez eu esteja atravessando uma crise.

     - Então isso é doença. Você resolve suas crises piorando mais ainda a situação. Olha! Esquece o que disse, deita, tira uma soneca e relaxa.

     - É. Então tá. Eu gosto de você. Vou dormir um pouco e acho que tudo vai passar. Me acorda daqui a uma hora.

     - Não vou te acordar. Vou embora. Agora sou eu quem não quer.

     - Hã!? Como assim? Mas você não queria ainda há pouco?

     - Mas agora sou eu que não quero quem não me quer.

     - Tá vendo como você é? Você faz de mim o que quer.

     - É você quem cria a situação.

     - Verdade! Mas é porque eu te amo. E porque eu te amo, eu te odeio! Eu te odeio porque penso em você toda hora. Eu te detesto porque gosto mais de você do que de mim. E porque você é o centro de tudo em minha vida, você faz de mim o que você quer.

     - Não posso ficar junto de alguém que diz que me odeia, me detesta.

     - Sua burra! Eu disse que te amo! Eu te odeio só porque eu te amo tanto.

     - Eu não sou burra! Eu entendi que você me odeia porque me ama. Mas odeia.

     - Mas ninguém ama o tempo todo. Pode ser que eu te odeie um pouco, mas o amor compensa. O que vale é o desejo e a admiração.

     - Você agora só está dizendo isso para salvar a relação.

     - Não é. A relação ainda não acabou. Ou você já esqueceu que ontem eram só risos e carinhos? Você diz que eu não sei trabalhar a crise. E você?

     - É. Tá certo. É melhor pensar um pouco mais. Deixar tudo esfriar. Eu também te amo.

     - Mas não sei... Se estamos nesta crise, como vamos sair dela? Acho melhor a gente dar um tempo.

     - Bem, então, se você quer assim...

     Depois de um prolongado silêncio ele diz para ela:

     - Está levando um filme interessante no Odeon. Vamos ver?

     - Boa idéia! Vamos!
 

        Rio de Janeiro, junho de 2003.