Mínimas


 

Leonídio Leão
Rio de Janeiro, 2009


 


      Prefácio


      Por que Mínimas? Alguns autores são mestres em Máximas, que alguns preferem chamar de aforismos. Rebuscando pela minha memória vem-me à mente Don Rossé Cavaca e o seu livro "Um Riso em Decúbito" ("No oitavo dia de jornada o camelo riu como gente, mas conseguiu manter a sua dignidade."), Stanislaw Ponte Preta e o seu "Máximas de Tia Zulmira" ("O marido enganado é um homem que se engana a respeito da mulher que o engana."), Barão de Itararé ("Quem empresta, adeus..."), Millor Fernandes ("Não é nada, não é nada... não é nada.") e, recentemente, Aldir Blac e o seu "Guimbas" ("Informado sobre a vitória do candidato democrata Obama em várias convenções, o suposto líder da KKK no Texas, Adolf Pass O'Rhodo, declarou: Nós, da KKK, não temos nada contra um primeiro presidente negro nos EUA. Muito pelo contrário. O contraste com a Casa Branca dá um ótimo alvo!").
      Interessante nesses autores é que todos, com exceção de Aldir Blanc, eram jornalistas famosos e tiveram seus livros publicados. Eu não sou famoso e não sou jornalista. No meu caso, o mais grave é que eu não tenho livro publicado porque não tenho uma editora que me banque e não tenho dinheiro próprio para me bancar. Eu poderia pedir um empréstimo a um banco, mas, parodiando o Barão de Itararé, quando o banco empresta, adeus...
      Então divulgo as minhas Mínimas através do veículo site da Internet, que não é gratuito, mas é barato. De mais a mais, quem paga não é o Leonídio Leão e sim aquele que mantém o site Pedagogia em Foco e inventou um espaço reservado ao Recreio para divulgar alguma coisa de escritores que também não têm dinheiro para bancar sua própria obra.
      Quanto ao título eu ia dar Máximas de Leonídio Leão. No entanto eu já sei que a crítica é atroz e ia dizer que nem publiquei nada e já estou querendo estar à altura dos autores citados acima. Então, resolvi chamar de Mínimas de Leonídio Leão.
      Outra coisa: pensei em convidar ou o Chico Anísio, ou o Millor Fernandes ou o Jô Soares para fazer este prefácio para mim. Como já sei a resposta que eles vão dar eu mesmo resolvi fazê-lo.
      Divirtam-se.
 

Leonídio Leão                                    

 



Leonídio Leão
(A foto ficou meia embaçada)

 



 

Quando alguém se sente melhor do que outros é porque certamente é o pior de todos. Ri melhor quem ri por último, mas siri pior pra quem siri por último.
Quem espera é porque chegou primeiro. Quem ama o feio, bonito não pode ser.
Quem não tem cão é arranhado por gato. Quem reclama já perdeu.
Quem procura sempre alcança, mas as vezes precisa de uma escada. Quem cala consente, mas quem se rala dor sente.
Quem não cola, não sai da escola. Quem anda de ônibus sabe muito bem como os bois são levados para o matadouro.
Quem tem gato como bicho de estimação não precisa de bibelô nas estantes. Quem não arrisca não petisca, mas quem petisca croquete de botequim não arrisca nunca mais.
Em terra de cego, quem tem um olho não conta pra ninguém. Em terra de cego, quem tem um olho emigra.
Em terra de cego, quem tem um olho manda e desmanda. Em terra de cego, quem tem um olho engana todo mundo.
Em terra de cego, quem tem um olho é lei. Em terra de cego, quem tem um olho é exilado.
Em terra de cego, quem tem um olho é vítima de preconceito. Em terra de cego, quem tem um olho é discriminado.
Em terra de cego, quem tem um olho é guia de cego. Se me vir abraçado com mulher feia não separa porque não é briga; é carência.
"Vontade de cantar, mas tão intensa... que me calo;" frustrado. Professor é igual a pum: só agrada a quem solta.
O professor boa praça: "- Podem colar à vontade! Se eu pegar eu dou zero!" Até quando precisaremos repetir que "eles não sabem o que fazem"?
O silêncio é o discurso da estupefação. Dominar é fácil. Difícil é ser igual.
Era tão idiota que nem sabia que era tão idiota. Demente por demente, também quero ser presidente.
Eu entro tanto em "fria" que perto de mim uma foca de Wendell da Antártida pode se considerar golfinho rotador de Fernando de Noronha. O velhinho entrou num Banco e o gerente gritou: "- Passe todo o seu dinheiro! Isso é um assalto!"
Se Adão não tivesse cometido o pecado original nós não estaríamos aqui agora. Televisão e ócio é tédio ao quadrado.
O sujeito era tão ignorante que nem sabia que não sabia. O sujeito era tão sábio, mas tão, tão; tão, tão; tão, tão; tão, tão, que se especializou em badalo de sino.
O sujeito odiava tanto a humanidade que não agüentava nem a si mesmo. O sujeito era tão mentiroso que até quando ele confessava que estava mentindo, ninguém acreditava.
O sujeito era tão "pé frio" que o cachorro do vizinho insistia em lamber seu pé achando que era sorvete de coco. O sujeito era tão burocrata que até para alguém entrar na sua casa exigia passaporte.
O sujeito era tão repugnante que até sua sombra o acompanhava a distância. O sujeito era tão entediado que, mesmo morando sozinho, fugiu de casa.
O sujeito era tão hipocondríaco que se formou em medicina para cuidar dele mesmo. O sujeito era tão refinado que não fazia cocô, não fazia xixi, tampouco soltava puns.
O sujeito estava tão de "saco cheio" que no Natal resolveu se passar por Papai Noel. O sujeito era tão "cara de pau" que quando acordava lavava o rosto com óleo de peroba.
O sujeito era tão desalmado que não conseguiu vender sua alma nem para o diabo. O sujeito não achava graça nenhuma na vida, por isso tornou-se humorista.
Do jeito que a coisa vai só está bem quem está voltando. Ler um livro é conversar com quem está distante.
O deputado é um parlamentar, mas a maioria é "pra" lamentar. Certas pessoas são tão pusilânimes que nem se importam com isso.
Malandro que é malandro não deixa ninguém notar que ele é malandro. A saudade é a presença ausente.
As guerras poderiam ser mais rápidas e causar menos mortes se só lutassem os que decidiram por elas. A guerra é o assassinato consentido.
Só é possível a eclosão de uma guerra porque os que decidem por ela não vão para o campo de batalha. Se tamanho fosse documento o elefante seria o rei dos animais.
Só os idiotas nascem e morrem com a mesma opinião. Um aluno adolescente teve uma convulsão cerebral quando foi obrigado por sua professora a ler A Mão e a Luva, de Machado de Assis.
Um alcoólatra propõe a outro: "- Que tal um delirium tremis?". E o outro responde: "- Prefiro um coma alcoólico!". Ela gostava tanto de dançar que vivia "dançando" dos seus empregos.
Deus afunda quem no dízimo chafurda. Patrão esperto trata seu empregado como "colaborador interno", mas empregado esperto trata o seu patrão como "explorador externo".
Quando descobriram que o filho usava drogas, o pai correu para tomar uma dose dupla de Whisky e a mãe tomou duas pílulas de calmante. A mãe zelosa educa o filho: "- Meu filho é feio mentir. Agora vai para a cama porque hoje é véspera de Natal e Papai Noel vai passar a meia noite para deixar o seu presente."
O estudante era tão rebelde que período de aula, para ele, eram as férias. A ditadura militar já acabou, mas os que militam a ditadura ainda estão por aí.
Quando empresto a Deus, recebo em dobro, mas quando o Banco me empresta sou eu quem paga em dobro. Macaco que muito pula machucou a pata.
A reforma ortográfica facilitou a quem escreve: agora vamos poder errar o que antes não tínhamos certeza. Com a reforma ortográfica o que era sub-reptício passa a ser sobrereptício?
O menino gostava tanto de cachorro que sua mãe o matriculou num canil. Quem começa a ler um livro pelo prefácio não imagina como não é pré-fácil escrevê-lo.
Diálogo entre dois filhos de um político:
- Viu papai?
- Foi preso.
- E mamãe?
- Conseguiu fugir.
- E vovó?
- Está escondida em cima do armário.
Num exercício militar um soldado se camuflou com tanta perfeição que um passarinho fez um ninho na sua cabeça.
O salário mínimo do empregado é a garantia do lucro máximo do patrão. Se os europeus tivessem que pagar pelas terras tomadas dos índios americanos a dívida externa deles seria muito maior do que a nossa é hoje.
As Mínimas de Leonídio Leão são máximas. Quem não tem nada para fazer, fica lendo as Mínimas de Leonídio Leão.
Existem três coisas na vida que nós não podemos nos esquecer nunca. Só que eu não me lembro de nenhuma delas. O empresário estava com sua autoestima tão baixa que, quando se olhou no espelho, não resistiu e gritou: "- Está demitido!"
O sujeito era tão arrogante e prepotente que não agüentava ficar sozinho para não ter que suportar a si mesmo. Pecado original é aquele pecado que ninguém havia pecado antes.
Quem trabalha para sobreviver não pode ser criativo. Ai que saudades que eu tenho da Aurora da minha vida! E também da Sônia, da Úrsula, da Marta, da Solange, da Abigail...
O policial era tão corrupto que, depois que resolveu ser honesto, prendeu a si próprio. O sujeito era tão branco que sua mulher o bebeu, pensando que fosse leite.
O sujeito era tão baixinho que acabou virando toquinho de amarrar bode. O sujeito era tão feio que escovava os dentes com venda nos olhos.
Quando perdeu o marido a jovem esposa chorou de forma muito sentida, mas, quando notou que não tinha ninguém olhando, resolveu parar. Coitado dos professores de português e dos jornalistas por causa da reforma ortográfica. Eu mesmo vou continuar errando nas crases, nas concordâncias, no uso da vírgula e nisto e naquilo. Para mim mudar vai ter que ter outra reforma.
Esta reforma ortográfica foi ótima. Ficou mais fácil para mim escrever certo. A única coisa que eu não suporto é o sujeito que não suporta uma coisa só.
Para quem não sonha, dormir é morrer toda noite. Se fazer uma reforma agrária fosse tão fácil quanto fazer uma reforma ortográfica o problema de terras já estaria resolvido.
Essa reforma ortográfica não é pobrema relacionado a minha pessoa humana. Pessoa humana é gente à beça, mas também é um pleonasmo ou uma redundância.
Peito de mulher só é encarado com sensualidade quando o sujeito passa a conseguir olhá-lo de cima para baixo. Prova é um anagrama de pavor.
Afagar um gato é como afagar um tigre em miniatura. O sujeito era tão tarado que se assanhava até com perna de mesa.
Encarar de frente é uma redundância, mas a diferença entre encarar de frente e encarar de costas é a opção sexual. Quanto mais difícil o trabalho do empregado, mais fácil o lucro do patrão.
No teste para o emprego novo ele teve que matar dois leões, ser picado por um enxame de abelhas e lutar com uma sucuri gigante. Não foi aprovado porque morreu. Sempre que eu entro num ônibus urbano eu rezo para São Cristóvão... e, por garantia, para todos os outros santos.
O sujeito era tão ocioso que conseguiu inventar uma revolucionária máquina antigravitacional. O professor reprovou oitenta por cento de seus alunos e foi considerado um bom professor e "durão"; o médico matou oitenta por cento de seus pacientes e foi preso por imperícia e incompetência.
A diferença entre um mal professor e um mal médico é o tempo para se descobrir as consequências do erro de cada um. Embora fosse um tremendo cafajeste era multi-milionário, mas as mulheres o adoravam.
O inferninho era tão baixo-nível que até as prostitutas tinham vergonha dele. A violência é o argumento de quem ainda não atingiu a inteligência hipotético-dedutiva.
O sujeito era tão pão-duro que sua mulher o transformou em farinha de rosca. Comenta-se que o carrasco tocava muito bem certo instrumento de corda.
Quem não chora não mama, mas a verdade é que se chora não consegue mamar. O carrasco era tão bom que todos morriam de vontade de ser executado pelas suas mãos.
A tortura é o caminho mais curto para não se chegar à verdade. O sujeito era um craque: matou uma bala perdida no peito e devolveu para os policiais com um lindo chute de esquerda.
A moral da menina era tão suspeita que galinha para ela era pinto. A professora ficou impressionadíssima quando descobriu que a colega gostava de ler e escrever.
Se o passado e o que já passou não fossem importantes nós não daríamos descarga na privada. A inveja é o sentimento de quem admira o outro e está insatisfeito com ele mesmo.
Quanto mais medíocre o indivíduo, mais espiritualidade, mas são eles que dominam o mundo. O diretor da escola diz sério para o pai do aluno: "Seu filho não foi bem nos estudos, mas, como seu cheque já foi compensado, ele está aprovado."
O sábio sabe que quanto mais sabe, mais sabe que nada sabe. Do jeito que o desmatamento avança... mais um pouco e só teremos de verde a cor da nossa bandeira.
Quem vê muito a televisão fica com a visão teleguiada. Bala perdida, violência, crise econômica, desemprego, desmatamento, poluição, aquecimento global... se fosse campeonato de desgraça acabaríamos todos empatados.
Crise econômica é a grande desculpa dos empresários para aumentarem os seus lucros. O sujeito era tão bobo e feliz que o seu sonho era ser boneco de vento de um posto de gasolina lá na Penha.
Com essa crise econômica mundial os ossos de Karl Marx estão pulando de felicidade em seu túmulo. Um turista italiano, depois de assistir o desfile de Escolas de Samba, na Marques de Sapucaí, exclamou: "- Povero Verdi!"
Quem assiste aos jornais da televisão nos dias de Carnaval tem a impressão de que o mundo parou ou de que deixou de existir. Último decreto dos políticos: "A partir desta data, fica abolida a vergonha".
Nas nossas lutas contra o mundo, por mais que estejamos com a razão, o mundo sempre sai ganhando. Alguém disse que "certos homens nascem póstumos", mas a maioria não chega nem a nascer.
"Morrer pela pátria". É a mentira que os soldados ouvem quando vão morrer nos campos de batalha para defender a ideologia de seus governantes. A guerra é o genocídio consentido.
O time do Flamengo é bom, o que mata é o goleiro.  

 

Observação: como não consigo parar de pensar, as Mínimas serão acrescentadas com o passar do tempo.
Outra coisa: estou tentando acertar o texto com a nova ortografia. Então ajuda aí.
Mais uma coisa: alguns erros foram propositais; outros incidentais.

Leonídio Leão