Um menino Jesus

Érico Corrêa


     José era menino pobre. Não, não era menino; talvez nunca tenha sido menino. Se foi, foi por pouco tempo; foi menino por pouco tempo porque era pobre. Não, não era pobre; talvez nunca tenha sido pobre. Pobre é a definição daquele que tem pouco. A família de José, que José não tinha, não tinha pouco: ela não tinha nada; José não era nada.

     Maria pouco se diferenciava de José. Maria era menina pobre; com agravante de ser menina. Por isso, talvez, nem tenha sido menina ou pobre. Maria, como todas as meninas como ela, não era nada.

     Se nada tenho, se nada sou, para onde vou? Se não há lugar de se morar, por onde andar? A questão foi instintivamente respondida pelos dois: a rua. A vida se limitava então à sobrevivência. A distância que os afastavam entre o humano e o bicho era definida pela sobrevivência. Não ter onde morar, não ter hora nem lugar, não são características de liberdade, mas de prisão, onde a sobrevivência, continuar vivo, está sempre a um ínfimo segundo do fim de tudo.

     Lá estavam na rua José, esmolando em sinais de trânsito, e Maria, esmolando na porta das igrejas. Foi ali, na rua, que se conheceram, e brincaram, e correram, e riram, e se sentiram mais próximos dos humanos e se perceberam menino e menina. Menino e menina como todos os meninos e todas as meninas: eram felizes... na medida do possível, eram felizes. Quando não tinham que enfrentar as agressões, as fisionomias de nojo e de medo, eram felizes.

     Todos os bons seres humanos do mundo limitavam-se aos dois. Os outros eram os outros. Na maioria das vezes inimigos. Quase sempre tão agressivos que os outros eram para eles quase sempre inimigos. Procuravam não se incomodar com os outros; não incomodavam os outros. A não ser para implorar uma esmola, os outros não existiam. Não roubavam, não tiravam nada do que era dos outros, apenas imploravam. Explicitamente imploravam dinheiro para comer; implicitamente imploravam clemência. Em certo sentido eram os outros que tiravam deles dois. Era talvez por causa dos outros que vivessem esta situação.

     Foi na rua que cresceram. Cresceram juntos, um protegendo o outro, com a força que dispunham para se proteger e proteger o outro. Talvez, não fosse a proteção de um pelo outro, não tivessem sobrevivido. Foi na rua que descobriram o mundo e se descobriram. Descobriram o ódio e descobriram o amor. Descobriram-se adolescentes e descobriram-se amantes. Na rua todas as descobertas são precoces. A descoberta do ódio e a descoberta do amor são precoces. Com eles não foi diferente. Respondiam ao ódio de todos com o amor de um pelo outro.

     O tempo passou e o tempo na rua não tem tempo a perder; o tempo não se perde com o tempo passado. Maria, ainda que meio menina, meio adolescente, para os padrões dos normais; Maria, sem instrução, sem perspectivas, sem história e sem vida; Maria, sua maltratada beleza, cabelos em desalinho e suas roupas esfarrapadas, trazia no ventre a semente de uma nova vida. Para ela, em sua pureza, acreditava que trazia no ventre, além da nova vida, um grito de esperança.

     José e Maria tinham fé; tinham fé de que a vida poderia ser boa; tinham fé na esperança; tinham fé de que Deus olharia por eles e pela nova vida. Na sua precoce gravidez era feliz com a sua fé. Não enjoou, não se sentiu deprimida ou infeliz. Sua gravidez transcorreu com tranqüilidade.

     Era 25 de dezembro de 1985. Passava no céu um cometa pequenino. Da hora não me lembro, mas a noite ia longe. Maria, pobre como ninguém, esperava, com José, a ajuda de alguém. Nisso, ao longe, três homens senhores, que pareciam monges, mas eram doutores, olhavam para o alto em busca do cometa. Mas a força do fato os trouxe de volta num sobressalto.

     José, menino pobre e bom, amparava Maria no início do parto. Não tinha boi ou jumento, nem o famoso cordeiro. Mas tinha um cachorro e um gato, muitas baratas e um rato... E um terrível mau cheiro.

     O primeiro dos doutores trazia uma garrafa de uma bebida alcoólica que serviu para desinfetar; o segundo ofereceu sua camisa de seda branca para envolver o bebê, e o terceiro ofereceu dinheiro para que comprassem fraldas e remédios.

     Lá estava Maria, sem maldade, numa rua qualquer da cidade. Junto dela, segurando sua mão, José. E dela, sem direito a voz, sem direito a nada, derramada em prantos de alegria, nasceu um menino verdade (que hoje está entre nós), feito de carne e de sangue, que recebeu o nome de Jesus: Jesus Carlos Brasileiro dos Santos.
 

        Rio de Janeiro, dezembro de 2003.