Nada, ou nada?

Érico Corrêa


     - Vou comprar uma escova de dente pra deixar aqui!

     Deitado na cama, ainda sonolento da noite mal dormida, foi a primeira coisa que ele ouviu naquela manhã ensolarada. Não queria estar ali. Ele estava ali, mas não estava ali. Estava longe. Ainda no quarto olhava para aquela bela figura de mulher que, nua, penteava-se no banheiro, diante do espelho.

     Era uma visão gratificante. Recostado na cabeceira da cama via, de longe, aquela mulher, de corpo escultural e com um rosto quase perfeito, deslizando a escova por seus cabelos negros. Parecia Narciso feito mulher. Ela penteava seus cabelos e dava a impressão de estar namorando a si mesma. A escova passeava várias vezes pelo mesmo lugar, enquanto ela se admirava. Um ar de alegria passava pelo seu rosto. Parecia que ela mesma estava feliz em admirar tamanha beleza. Sabia de sua beleza. Não poderia imaginar em não ser desejada.

     Ele se levantou da cama, foi para a janela contemplar o dia que se iniciava. Admirou o sol, as pessoas na rua, os carros que passavam em busca de algum lugar nenhum. Voltou-se, foi ao armário, pegou uma escova de dente nova e deu para ela. Ela sorriu. Ele não. Ele não sabia de que maneira ela poderia entender aquele gesto. Ele achava que a escova de dente serviria somente para aquele dia. Ele temia que, para ela, pudesse representar mais do que um momento, uma eternidade, mesmo que efêmera, como sempre. Ele não queria. Ele não queria a beleza física, queria a beleza total. Não a beleza que é expressa, mas a beleza que está oculta. A beleza descoberta por trás da beleza aparente. A beleza de quem avista terra firme, inexpugnável, desconhecida. A América, jovem e bela, dos primeiros navegantes.

     Aquela mulher que estava ali diante dele não era a América. Era previsível e igual. Não tinha mistérios, não lhe incitava a descobertas, não lhe provocava buscas e encontros. Ela era comum como todos os mortais. Ele, então, condenava-se ao silêncio; que se tornava mútuo. Por mais que conversavam, não falavam nada. As palavras não representavam, necessariamente, palavras. Eram somente palavras. Soltas, sem encadeamento de alegria, sem a felicidade da troca, da riqueza da troca. Eram palavras e frases desinteressantes.

     Ela sugeriu que saíssem. Ele achou uma boa idéia. Talvez se distraísse com a diversidade das ruas. Veria pessoas felizes, crianças sorrindo, as aves que cortavam o ar marinho, às vezes solitárias, às vezes em formação de esquadrilha, em busca do que ele não sabia o que. A rua é sempre mais emocionante do que qualquer novela de televisão. Seu enredo é sempre imprevisível. Na rua, um dia nunca é igual ao outro. Saíram.

     Caminharam em princípio sem rumo. De mãos dadas caminharam sem rumo. Ele não poderia saber o que ela sentia, mas ele sabia dele. Sentia-se só. Só com ele mesmo. Mesmo ela estando ao seu lado.

     Ela então cortou o silencio dos dois:

     - Sabe de uma coisa? Eu costumo ser muito sincera. E quando eu gosto de alguém, eu gosto mesmo.

     Ele olhou para ela, beijou sua testa, mas não disse nada. Ele achou que nada deveria ser dito. Pensou que os pobres de espírito falam de si mesmo, os medíocres falam dos outros e os magnânimos falam da vida. Mas ele entendeu a mensagem. E a mensagem não era gratificante para ele. Ele não queria magoá-la. E se preocupava porque achava que o amor era vizinho do ódio. E ele não queria nenhum dos dois. Queria estar em paz: com ele mesmo e com a vida.

     Caminhando, chegaram à calçada da praia. Repleta de gente. De todos os tipos, de todas as alegrias. Ele admirava tudo e a todos. Como que extasiado por tanta alegria emanada por tudo e por todos. Ela propôs que caminhassem na areia da praia. Com os pés descalços caminharam até a beira d'água. Sentaram-se na areia e observaram as ondas que lambiam a areia. Mais ao longe as águas do mar desapareciam sob os pés do céu. Parecia que o mar emendava com o céu azul. Então ela perguntou:

     - O que existe no horizonte, depois que acaba a água do mar?

     E ele respondeu:

     - Nada!
 

        Rio de Janeiro, março de 2003