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S. H. Motta Paiva


     Trim... Trim... Trim...

     - Alô!

     - Violeta! Aqui é Jahyra. Como vai? Há quanto tempo.

     - Jahyra!!! Você está sumida, minha amiga. Aconteceu tanta coisa nesse tempo, que precisamos conversar pessoalmente. Por telefone vamos levar horas.

     - Violeta, eu disponho o tempo todo para conversarmos. Você não acredita que eu estava conversando com o meu filho a respeito do nosso relacionamento, pois ele está morando comigo num sítio, como chamam aqui na Baixada Fluminense. O Augusto se separou da esposa, o Zé, o Carlos, o Flávio, sem contar as sobrinhas, netas, bisnetas que, quando não engravidam, seguem o mesmo processo de casa e separa. Você, para mim, foi um exemplo que até hoje comento com meu filho. E o seu filho Ronaldinho? Já deve estar um Ronaldão e, se não me engano, ele deve estar com seus 55, 58 anos. Ele passava horas estudando no seu quarto, fazia várias faculdades, viajava sempre a trabalho e era um dos Diretores da Petrobrás. Ainda tinha a linda namorada, de quem nunca se afastava e estava sempre junto de sua convivência materna. Afinal, como vai o seu Ronaldo? Que saudades!

     - Jahyra! Por favor não me fale no meu filho. Foi a maior alegria e felicidade que eu tive, mas a maior decepção que eu já senti em toda minha vida. Deus existe para que eu tenha que aceitar a vida como ela é. Ronaldo estava para se casar com uma doce mulher, competente, educada, amorosa, com todas as qualidades boas de um ser humano. Os amigos de Ronaldo, só andavam de terno e gravata, com elegância de dar água na boca em qualquer mãezona da vida. Os elogios vinham do Dr. Sales, Dra. Vilma, Dr. Marcelo, Madame Vargas e meu filho era o máximo até na simplicidade. Não dava a mínima para esses elogios.

     - Jahyra. Você está me escutando?

     - Estou Violeta. Pode falar.

     - Eu disse que a conversa era longa, mas como eu ia dizendo, no dia 12 de maio, no dia dos namorados, recebi um telefonema do Instituto Médico Legal, avisando que meu filho estava lá. Fui correndo. No caminho, nunca tive tantos pensamentos ruins em minha vida. Chegando lá, o investigador me levou para a sala das geladeiras e me deparei com um defunto enrolado em gazes e com a cara toda deformada. Jahyra, ele estava com peruca comprida loira, calcinha de mulher vermelha, batom, cílios postiços, salto alto, um nojo. Segundo o investigador, Ronaldo namorava um peão de obras nordestino, que trabalhava na construção de um prédio da Wrobel Engenharia, na rua da Lapa, e que o peão não se conformava com o fato de que Ronaldo iria se casar com a Dra. Wanessa Caldas, uma das engenheiras da construção. Sendo assim, ele desfechou 37 facadas no meu filho e, não convencido de sua morte, ainda o desfigurou com uma marreta, tamanho era o descontrole do indivíduo. Meu filho acabou, Jahyra. Depois que descobri seu lado oculto, não quero nem mais me lembrar dele. Venha para cá e vamos festejar a nossa vida. Você ainda bebe aquele licor de amendoim? Se não, nós comemoraremos mesmo com um chazinho ou ...

     - Violeta! Já estou indo para aí o mais rápido que eu puder. Até já.

     - Tchau!