Preciso encontrar a palavra certa, o caminho pronto, a rocha firme para me apoiar. Tecer cada milímetro de rede para lhe envolver. Navegar as ondas do mar não assusta tanto quanto a sua ausência. Preciso muito encontrar o seu afeto. Para ser o que almejo ser.
Saber de sua cidade, de seu país, do seu céu e de suas estrelas é saber do meu arredor. Sei que todas as nuvens me levam para onde você está. E todos os ventos me jogam, leve, para os braços seus. Viver é flutuar em sua direção, como o rio de larva rumo ao mar, como a gota de orvalho que escorre pela folha verde até o inevitável chão.
Sinto seus passos, seu olhar, o carinho de suas mãos em meu rosto, a suavidade de seus lábios nos meus lábios. Sinto real a sua presença, o seu hálito, o seu calor, o seu olhar, a sua visão diante de mim. E isso me faz feliz na tristeza da tua ausência. Sinto que meu coração está pleno de sua presença ausente. Sinto que posso tocar você e ser tocado; agora.
Se o meu chão, agora, não me apóia, espero, com calma, tocá-lo num momento qualquer; próximo. Flutuo tranqüilo para o meu paraíso, entre nuvens e arcanjos. De braços abertos trafego pelo limbo da minha imaginação. Sempre em sua direção, como se estivesse quase chegando. Posso vê-la. Ali. Daqui-a-pouco.
Agonia. Não sei o que fazer se me desespero na espera que parece não ter mais fim. Parece que a cabeça não funciona como deveria funcionar, que a realidade não é real, que a vida não vale mais a pena ser vivida. Se sinto alegria em só pensar em você, choro a tristeza de não ter você. Tudo corre à flor da pele: a paz e o caos, o medo e o Éden, o céu e o inferno. Quero sair e quero ficar, quero ir e voltar, quero a noite e o dia, dormir e acordar, o claro e o escuro, ser e não ser. Quero qualquer coisa que me justifique estar aqui, vivendo sem viver você. Quero o fim do tamanho desta agonia.
Quem sabe não poderia encontrar a canção que me definisse ou a poesia que me explicasse ou a prosa que revelasse você? Onde estão as palavras que não consigo dizer, que não consigo ouvir ou entender? Por que as estradas que se abrem são turvas e inexplicáveis? Como descobrir os caminhos que me levam a você? Para que lado está o norte? Onde está a vida? Diante de tanta presença, onde está você?
Rio de Janeiro, junho de 2003.