|
SÓ
08.02.1988 Quando estou só comigo mesmo escrevo sem parar. Escrevo sem rima e sem compromisso. Escrevo para conversar com o "dentro de mim". Caço no ar o fantasma de palavras soltas que me fazem pensar. Por isso escrevo. Escrevo sem parar. Não estou triste, Não estou alegre, como diria a poeta, só escrevo; para registrar o dom de estar sozinho e não estar só. |
|
INCREDULIDADE 13.01.1990 Eu não acredito no que eu vejo, Não acredito no que eu falo, Não acredito no que eu penso. Se isso me faz tenso, Não me abalo; Eu me revejo. |
|
NO VENTO VELOZ 04.01.1991 O vento uiva nos vórtices da vida vinda e vencida e vem varrer nas veias visões vagas e vãs. Se vive de verve vem viver essa vaga que vaza e voa na vida vivida. |
|
MINHAS FILHAS 18.01.1985 Amo minhas filhas no amor pela vida. Amo minhas filhas porque amo a possibilidade de minhas filhas amarem a vida. Amo minhas filhas no amor dos homens. Amo minhas filhas porque amo a possibilidade de todos os homens amarem a vida. Amo minhas filhas porque acredito que só por sê-las o amor será. |
|
ANARQUIA 26.02.1988 Não quero ser deus, Não quero ser diabo, Não quero ser guiado, Não quero ter rabo. Quero ser um igual, Quero ser um mortal. Eu quero os meus, Quero ser gostado. Não quero ir além, Não quero dizer amém, Não acredito em pecado, Eu prevejo o anárquico. |
|
UM COMETA 1985 Eu tenho em mim um cometa Sem tempo, sem hora Que desce de minha face Em direção ao meu coração Toda vez que ele chora. |
|
HOJE 16.04.1983 Hoje fiz uma poesia concreta Hoje fiz uma poesia Hoje fiz uma Hoje fiz Hoje |
|
DEUS SOU EU 01.06.85 Deus morreu (Nem nasceu!) Alguns sacaram Outros, nem notaram. Deus nasceu (E ainda não morreu!) No meu quarto Na minha cama No meu sangue... E no de quem se ama. Desde menino Criador e criatura, Força in natura, Dono de destino E esperança. História velha; História criança. |
|
CALMA 17.03.1988 Minh'alma Sozinha E calma; A campainha Soa em mim. Atrás da porta Teu olhar afim Cansada e morta Reclama e pede. O meu olhar Que te mede (Livre é o sonhar) E te traz aqui, Num jeito incerto Que mesmo daí Te sinto tão perto; Sozinha e calma. |
|
UMA CASA 21.08.1984 Era Uma casa. . . Uma casa iluminada Com a luz que ilumina A iluminada luz da casa; Que ilumina a casa da luz, Que é a casa que ilumina a luz, Da gente que vive Na casa iluminada Pela luz da gente Que ilumina a casa. |
|
POESIA CONCRETA SET.1984 Poesia concreta Porta aberta Aberta concreta Poesia porta Porta concreta Poesia aberta |
|
VOCÊ 01.06.1985 Vida veio, vida ficou. E veio correndo que dez anos ficaram tão próximos de um segundo. Quanta coisa! Tudo bom. . . Vida vindo, vida ficando. Num momento, meio segundo; Você sendo, Eu correndo. |
|
DROGA 01.06.1985 Droga de droga que droga: Fumo, pó, pico. . . E num minuto tudo rico. Não me iludo e sei que fico um pouco de tudo porque a droga draga o momento que não chegou. |
|
CARNAVAL 1985 Existia um país em que o povo adorava futebol, cachaça e carnaval. No futebol, os campeões do mundo; a cachaça, era qual de graça; No carnaval o povo era livre, era rei e era deus. Um dia, todo esse povo descobriu que futebol não era tudo; que a melhor cachaça eram suas idéias; que podia ser rei e deus e não ser carnaval. E então todo o povo foi para as ruas e viveu o verdadeiro carnaval. |
|
UMA MÃE 21.08.1984 Uma mãe tem nove filhos Vivos. Um deles já morreu Sem saber porque nasceu. Uma mãe tem nove filhos E mora numa favela. Ninguém tem pena dela Nem dos seus nove filhos. Uma mãe mora numa favela Sem saber tem pena dela Ninguém tem nove filhos E mora porque nasceu Uma mãe já morreu Uma mãe, seus nove filhos. |
|
VOÔ 06.10.1984 Pinto de estrelas nosso chão, encho de verde nosso céu. Andando, pisamos as estrelas, voando. |
|
CANSEI 06.02.1988 Cansei. Cansei de ontem e de amanhã. Cansei do pai e da mãe. Do padre, nem se fala. Cansei do meu dedão do pé e do dedinho da mão. Cansei de você, cansei de todo mundo, cansei do homem que eu conheço e do que desconheço. Cansei do leite da vaca e da vaca do leite. Cansei das vacas e dos veados. Cansei dos homens com fome de ontem, com medo de amanhã. Cansei. |
|
AZUL 1985 Teu corpo é luz Que ilumina o azul Dos dias azuis Tua luz é força Que me impulsiona. Teu corpo é luz Como a luz do dia Teu corpo é cor Como o azul que irradia. |
|
ANTIGAMENTE 1985 Um mergulho no tempo Lá vai o cometa Halley E se ainda me lembro Como era verde meu vale Não passou o cometa Halley E eu não sei se meu tempo vale Houve o tempo do cometa Halley Que até hoje há quem fale Que era verde todo vale E havia cometa Halley |
|
PREGUIÇA agosto 1984 Ah! Eu não sei. Quem sabe? Mais um dia... Vou trabalhar. Por que? O mundo gira. A vida passa. Não acho nenhuma graça. Dinheiro não dá felicidade. Meu deus! Ai, que preguiça... Macaco que muito pula Quer chumbo. É o cúmulo. Um absurdo! Chega. "Tou" pouco me importando. . . |
|
SONETO DO MOMENTO 01.11.1985 Tenho saudade dos tempos que virão. Não imagino o tempo que passou. Tudo não passa de ilusão Da vida que não parou. O hoje. . . O ontem. . . O amanhã... Diagramas fraudados da história Que pertubam cada manhã, Que reprimem nossa vitória. O ar que bate em meu rosto Me ilumina a verdade Como fosse um rei deposto. Não há diferença na tarde. Eu, ainda em meu posto Sinto meu coração que arde. |
|
MINHA FORÇA É VOCÊ SET.1984 Fantasia do amanhã Alegria do hoje Desejo do ontem Luz, lua, sol, calor Primeira estrela da noite Última estrela da manhã A vida e a morte Próximas e definitivas Espectro de esperança Vida; água, fogo, terra e ar Fazer do nada, tudo De tudo, muito mais Mulher, amiga, amante Fumaça e aço Poesia hermética Vibrações corpóreas Mutações psicológicas Eu nada sou Sou nada, só. |
|
NOVE DO NOVE DE NOVENTA E NOVE 08.02.1988 Eu não tinha nascido Em quatro Do quatro De quarenta e quatro. Tinha seis anos Em cinco Do cinco De cinquenta e cinco. Mas me lembro Que fiz uma poesia Em seis Do seis De sessenta e seis. Esqueci o que ela dizia. Eram tempos difíceis Em sete Do sete De setenta e sete. Eu era estudante. Agora estamos chegando Em oito Do oito De oitenta e oito. Quero fazer uma poesia Que eu possa me lembrar Em nove Do nove De noventa e nove. |
|
UM CORPO Um dia Tirei uma foto. Nesta foto Revelei um corpo. . . Descobri Que a poesia Não se limita A extensão E ao poder De minha palavra. |
|
UMA GUERRA 17.01.1991 Ouvi falar de uma guerra Numa terra Que não é minha terra. Ouvi falar de uma terra Numa guerra Que não é minha guerra. Ouvi falar de uma guerra Numa terra Que não é minha guerra. |
|
CONSIDERAÇÕES EM TORNO DA TERRA DE CEGO Em terra de cego quem tem um olho, bota no prego. Em terra de cego quem tem um olho, vende com ágio. Em terra de cego quem tem um olho, mantém bem aberto. Em terra de cego quem tem um olho, corre o risco de tê-lo vazado. Em terra de cego quem tem um olho, dorme com um aberto e o outro fechado. Em terra de cego quem tem um olho, é exilado. Em terra de cego quem tem um olho, está muito bem segurado. Em terra de cego quem tem um olho, não conta para ninguém. Em terra de olho quem tem um cego, errei! Em terra de cego quem tem um olho, anda cabisbaixo. Mas, Em terra de cego quem é cego, é cego. Em terra de cego quem é cego, é rei. Em terra de cego quem é rei, é cego. Em terra de cego quem é rei, é lei. Em terra de cego, não digam que eu não avisei. . . Em terra de cego. . . Ai vida . . . cansei! |
|
TEU CORPO 1990 Teu corpo é minha terra onde planto sementes e colho frutos. Teu corpo é meu recreio onde sou criança e só prazer. Sua pele me acaricia como mão de mãe ou carinho de filho. Terras de aventuras onde desbravo o impenetrável. Terra aveludada onde descanso da vida que já vivi. |
|
ALEGRIA DE VIVER Setembro de 1984 Caos mental Devastação psicológica Tortura, confusão Vozes, burburinho, agitação Salário, sobrevivência. Merda! Aí você aparece: Tchan, tchan, tchan, tchan Luz, alegria, compensação * # * # * # * # * # * # * Neon piscando Gente feliz Tudo bem No ano que vem |
|
BUSCA Setembro de 1991 Eu queria Uma noite de alegria Em teu braço Me perder no teu abraço Na livre emoção Da união. Só queria Por um dia Junto ficar E ser pó Só para estar junto; e só. Se não mereço Vou sonhar É o preço Que me custa Te buscar. |
|
SAUDADE Vitória, março de 1992 Ai, que saudade. . . Não de um homem; Não de uma mulher; Mas de uma cidade. Não uma qualquer, Mas a que me viu primeiro E tem por nome Rio de Janeiro. |
|
PONTE fevereiro de 1992 Agora eu sei: Sou o primeiro E sou o último; Sou o belo, Sou o feio; O querido E o enjeitado; Sou enorme E sou pequeno; Medíocre E Magnânimo. Como disse o filósofo: Sou o meio do caminho Entre o animal E o além-homem. |
|
MENINO DE RUA Vitória, novembro de 1992 (inspirado em "charge" de Ziraldo Alves Pinto) Eu não sou de rua, Eu sou o desejo de morar; Eu não sou ladrão, Eu sou o desejo de comer; Eu não sou violento, Eu sou o desejo de viver; Eu não sou analfabeto, Eu sou o desejo de saber; Eu não sou criminoso, Eu sou o desejo de justiça; Eu não sou menino de rua, Eu sou o desejo de ser só menino. |
|
ALICE Vitória, janeiro de 1993 Anjo que chegou Lá das alturas Infindáveis do etéreo Celestial; Eis-me aqui... Teu. |
|
DESEJO 11.02.1988 Não me importo que você não olhe para mim. Eu olho para você assim mesmo. Não me importo que você não goste de mim. Eu gosto de você assim mesmo. Não me importo nem mesmo que você não me deseje, porque meu desejo ultrapassa os limites do seu desejo. O que vale é a emoção que me laça e me mexe. . . Quando você passa. E só por desejar, por puro desejo, já cumpro em mim parte do prazer que desejo viver com você. |
|
UM MENINO JESUS Natal/1985 Era 25 de dezembro de 1985. Passava no céu um cometa pequenino. Da hora não me lembro, mas a noite ia longe. Maria, pobre como ninguém, esperava, com José, a ajuda de alguém. Nisso, ao longe, três homens senhores, que pareciam monges, mas eram doutores, olhavam para o alto em busca do cometa. Mas a força do fato trouxeram-os de volta num sobressalto. José, menino pobre, amparava Maria no início do parto. Não tinha boi ou jumento, nem o famoso cordeiro. Mas tinha um cachorro, muitas baratas e um rato. . . E um terrível mau cheiro. Era uma rua qualquer da cidade. E Maria, nua, ali mesmo, sem maldade, sem direito a voz, sem direito a nada, deu a luz, em prantos, ao menino verdade (que hoje está entre nós) que se chama Jesus; Jesus Carlos dos Santos. |
|
DEDÉ 27.07.1986 Dedé menino, menino homem, menino criança, Dedé esperança. Tão perto de ontem, tão longe do amanhã, trago na lembrança a sua aventura sem destino, sem ventura. Dedé manhã, alvorecer e ternura. Gente como eu, ele quer saber quem o prendeu. Por que não ter escola? Por que essa gaiola? Jogar a vida fora se a vida não tem hora; a vida pulsa agora. Homem bom, homem mau; digo em bom tom aos que dirigem esta nau: Deixem Dedé em paz, já que não quis seus pais, já que prefere dormir na rua vestido de estrelas e de lua. Dedé menino, Adelson nasceu. Dedé cresceu, selou seu destino como ninguém. Dedé que procuro, hoje um número: Menor 208 do Instituto Padre Severino da FUNABEM. |
|
DE UM AMIGO 17.07.1984 Amigo. Filho e irmão Doce canção Do inferno e da guerra. Mas não há luta; E não há paz. Um fio de esperança Deslisa na terra. Criança, Mães e pais, Paz; Quero paz, pais. Quero mais, pais, Paz. Nada custa A tempestade Que me deixe Dormir. . . Em paz. Quero dormir Sem gemer; Quero sorrir Sem tremer. Sozinho Um ninho, Um carinho. . . Um pouquinho De amor Em pais Em paz. Sem dor Quero um braço Para um abraço. Quero a vida Que eu levo, Não a vida Que me leva. Quero ser filho, Ser irmão; Quero ser igual. Desejo a solidão Sem pais Em paz. |
|
CRÔNICA DE OUTRA MORTE ANUNCIADA 06.10.1984 Era uma menina De rua. Perambulava, Brincava, Ria E chorava. Era uma menina. Dez. . . Doze anos. Talvez. . . Pobre Com certeza. A praia próxima, A rua Entre as duas. Sol, Gente na praia, Gente trabalhando, Gente que vai, Gente que vem, Sempre. Era uma menina. A praia, O mar, A alegria, A vida, Tudo borbulhava Na cabeça De menina. Dez. . . Doze anos. Talvez. . . Criança Com certeza. Um rabecão Frio Da Prefeitura. Não precisaram Dois homens Para levantar A caçamba. Devo mais uma vez Deixar a Neila No trabalho (Ela está mais bonita!), Encher o tanque Da moto E, sem nenhuma vontade De brincar com criança, Não me lembrei De nenhuma canção. |
|
URSA MAIOR 27/04/1996 Mulher... Filha do fogo, Mãe da terra, Da água e do ar. Mulher... Mulher fera; Nova de amar. Corpo, sexo, Desejo e tesão. Vida sem tempo De alegria e paixão. Tempo amanhã, Liberdade que agita; Febre terçã Do gozo que grita. Estrela luz De beleza e calor; Luz que conduz Prazer e fragor. Quero me perder No abraço Do teu braço Quero me arder. Da alegria, Livre infinita, Seja a fantasia Clara e bendita. Mulher... Mulher maravilha, Do astro que der; Estrela que brilha. Mulher... Mulher melhor, Nua e bela Sabe o que quer: Ser estrela... Ursa maior. |
|
MINHA ESTRADA Setembro 2008 À professora Regina Maria Pires Abdelnur Tantas terras andei, Plantando sementes Em terras e mentes, Que já nem sei. Se mais aprendi; Se mais ensinei; Se mais renasci, Eu não sei. Sei que vivi Para o mundo Que eu vi e convivi: Prenhe de amor fecundo. Passageira da utopia, Nada mais fiz Do que divulgar alegria Para quem quis ser feliz. Já nem sei, desta estrada, Se fui feliz ou se sofri, Mas nesta caminhada, Deixo de lado o que chorei e o que sorri; o que vale é o resultado. Sei que nem a todos eu agradei - é o preço da liberdade de pensar - Mas nas estradas onde andei Deixei sementes para se plantar. Deste impossível chão, Sei que um dia irá brotar, Em cada coração, A semente de um possível amar. Perto de um adeus, volto meus pensamentos, Que são só meus, aos melhores momentos. Por ter trabalhado com todas as idades No caminho talhado à brasa, penso nas felicidades Vindas e idas de alguns arrabaldes. Deixo outros em meu lugar Para colher e plantar, amar e lutar Por um futuro promissor Onde resistam a fé e o amor. |
|
"ELAZINHA" Dezembro 2008 À Emanuela Desejos insanos Pensamentos mundanos De viso e verso Voltado ao anverso. É ela Risonha e bela, Rainha suprema Do mais lindo diastema De que vale o sonho Se só ao acordar Da louca prosa O céu é medonho. Onde está A mulher poderosa, Que pisa em pétalas De rosa, De cravo, E no meu coração Cativo e escravo Perdido na imaginação? Mulher Que tem fome de qualquer homem Que clama e pensa A vida tensa Que vier. Ó dama De gran' frescor; Dona de quem ama O verdadeiro amor. Agora sou aluno De sonhos que sonharei Mulier viro in manu "Elazinha" amarei. |