Darcy Gervan


Incredulidade No vento veloz Minhas filhas Anarquia
Um cometa Hoje Deus sou eu Calma Uma casa
Poesia concreta Você Droga Carnaval Uma mãe
Voô Cansei Azul Antigamente Preguiça
Soneto do Momento Minha força é você Nove do nove de noventa e nove Um corpo Uma guerra
Considerações em torno da terra de cego Teu corpo Alegria de viver Busca Saudade
Ponte Menino de rua Alice Desejo Um menino Jesus
Dedé De um amigo Crônica de outra morte anunciada Ursa maior Minha estrada
"Elazinha"



          08.02.1988

Quando estou só
comigo mesmo
escrevo sem parar.
Escrevo sem rima
e sem compromisso.
Escrevo para conversar
com o "dentro de mim".
Caço no ar o fantasma
de palavras soltas
que me fazem pensar.
Por isso escrevo.
Escrevo sem parar.
Não estou triste,
Não estou alegre,
como diria a poeta,
só escrevo;
para registrar o dom
de estar sozinho
e não estar só.

 

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INCREDULIDADE

          13.01.1990

Eu não acredito no que eu vejo,
Não acredito no que eu falo,
Não acredito no que eu penso.
Se isso me faz tenso,
Não me abalo;
Eu me revejo.

 

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NO VENTO VELOZ

          04.01.1991

O vento uiva nos vórtices
da vida vinda e vencida
e vem varrer nas veias
visões vagas e vãs.
Se vive de verve
vem viver essa vaga
que vaza e voa
na vida vivida.

 

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MINHAS FILHAS

          18.01.1985

Amo minhas filhas
no amor pela vida.
Amo minhas filhas
porque amo a possibilidade
de minhas filhas amarem a vida.

Amo minhas filhas
no amor dos homens.
Amo minhas filhas
porque amo a possibilidade
de todos os homens amarem a vida.

Amo minhas filhas
porque acredito
que só por sê-las
o amor será.

 

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ANARQUIA

          26.02.1988

Não quero ser deus,
Não quero ser diabo,
Não quero ser guiado,
Não quero ter rabo.
Quero ser um igual,
Quero ser um mortal.
Eu quero os meus,
Quero ser gostado.
Não quero ir além,
Não quero dizer amém,
Não acredito em pecado,
Eu prevejo o anárquico.

 

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UM COMETA

          1985

Eu tenho em mim um cometa
Sem tempo, sem hora
Que desce de minha face
Em direção ao meu coração
Toda vez que ele chora.

 

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HOJE

          16.04.1983

Hoje fiz uma poesia concreta
Hoje fiz uma poesia
Hoje fiz uma
Hoje fiz
Hoje

 

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DEUS SOU EU

          01.06.85

Deus morreu
(Nem nasceu!)
Alguns sacaram
Outros, nem notaram.
Deus nasceu
(E ainda não morreu!)
No meu quarto
Na minha cama
No meu sangue...
E no de quem se ama.

Desde menino
Criador e criatura,
Força in natura,
Dono de destino
E esperança.
História velha;
História criança.

 

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CALMA

          17.03.1988

Minh'alma
Sozinha
E calma;
A campainha
Soa em mim.
Atrás da porta
Teu olhar afim
Cansada e morta
Reclama e pede.
O meu olhar
Que te mede
(Livre é o sonhar)
E te traz aqui,
Num jeito incerto
Que mesmo daí
Te sinto tão perto;
Sozinha e calma.

 

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UMA CASA

          21.08.1984

Era
Uma casa. . .
Uma casa iluminada
Com a luz que ilumina
A iluminada luz da casa;
Que ilumina a casa da luz,
Que é a casa que ilumina a luz,
Da gente que vive
Na casa iluminada
Pela luz da gente
Que ilumina a casa.

 

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POESIA CONCRETA

          SET.1984

Poesia concreta
Porta aberta
Aberta concreta
Poesia porta
Porta concreta
Poesia aberta

 

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VOCÊ

          01.06.1985

Vida veio,
vida ficou.
E veio correndo
que dez anos
ficaram tão próximos
de um segundo.
Quanta coisa!
Tudo bom. . .
Vida vindo,
vida ficando.
Num momento,
meio segundo;
Você sendo,
Eu correndo.

 

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DROGA

          01.06.1985

Droga de droga
que droga:
Fumo, pó, pico. . .
E num minuto
tudo rico.
Não me iludo
e sei que fico
um pouco de tudo
porque a droga
draga o momento
que não chegou.

 

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CARNAVAL

          1985

Existia um país
em que o povo adorava
futebol, cachaça e carnaval.
No futebol,
os campeões do mundo;
a cachaça,
era qual de graça;
No carnaval
o povo era livre,
era rei e era deus.
Um dia, todo esse povo descobriu
que futebol não era tudo;
que a melhor cachaça
eram suas idéias;
que podia ser rei e deus
e não ser carnaval.
E então todo o povo
foi para as ruas
e viveu o verdadeiro carnaval.

 

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UMA MÃE

          21.08.1984

Uma mãe tem nove filhos
Vivos. Um deles já morreu
Sem saber porque nasceu.
Uma mãe tem nove filhos
E mora numa favela.
Ninguém tem pena dela
Nem dos seus nove filhos.
Uma mãe mora numa favela
Sem saber tem pena dela
Ninguém tem nove filhos
E mora porque nasceu
Uma mãe já morreu
Uma mãe, seus nove filhos.

 

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VOÔ

          06.10.1984

Pinto de estrelas
nosso chão,
encho de verde
nosso céu.
Andando,
pisamos as estrelas,
voando.

 

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CANSEI

          06.02.1988

Cansei.
Cansei de ontem
e de amanhã.
Cansei do pai
e da mãe.
Do padre,
nem se fala.
Cansei do meu
dedão do pé
e do dedinho
da mão.
Cansei de você,
cansei de todo mundo,
cansei do homem
que eu conheço
e do que desconheço.
Cansei do leite da vaca
e da vaca do leite.
Cansei das vacas
e dos veados.
Cansei dos homens
com fome de ontem,
com medo de amanhã.
Cansei.

 

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AZUL

          1985

Teu corpo é luz
Que ilumina o azul
Dos dias azuis
Tua luz é força
Que me impulsiona.

Teu corpo é luz
Como a luz do dia
Teu corpo é cor
Como o azul que irradia.

 

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ANTIGAMENTE

          1985

Um mergulho no tempo
Lá vai o cometa Halley
E se ainda me lembro
Como era verde meu vale
Não passou o cometa Halley
E eu não sei se meu tempo vale
Houve o tempo do cometa Halley
Que até hoje há quem fale
Que era verde todo vale
E havia cometa Halley

 

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PREGUIÇA

          agosto 1984

Ah! Eu não sei.
Quem sabe?
Mais um dia...
Vou trabalhar.
Por que?
O mundo gira.
A vida passa.
Não acho nenhuma graça.
Dinheiro não dá felicidade.
Meu deus!
Ai, que preguiça...
Macaco que muito pula
Quer chumbo.
É o cúmulo.
Um absurdo!
Chega.
"Tou" pouco me importando. . .

 

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SONETO DO MOMENTO

          01.11.1985

Tenho saudade dos tempos que virão.
Não imagino o tempo que passou.
Tudo não passa de ilusão
Da vida que não parou.

O hoje. . . O ontem. . . O amanhã...
Diagramas fraudados da história
Que pertubam cada manhã,
Que reprimem nossa vitória.

O ar que bate em meu rosto
Me ilumina a verdade
Como fosse um rei deposto.

Não há diferença na tarde.
Eu, ainda em meu posto
Sinto meu coração que arde.

 

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MINHA FORÇA É VOCÊ

          SET.1984

Fantasia do amanhã
Alegria do hoje
Desejo do ontem
Luz, lua, sol, calor
Primeira estrela da noite
Última estrela da manhã

A vida e a morte
Próximas e definitivas
Espectro de esperança
Vida; água, fogo, terra e ar

Fazer do nada, tudo
De tudo, muito mais
Mulher, amiga, amante
Fumaça e aço

Poesia hermética
Vibrações corpóreas
Mutações psicológicas
Eu nada sou
Sou nada, só.

 

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NOVE DO NOVE DE NOVENTA E NOVE

          08.02.1988

Eu não tinha nascido
Em quatro
Do quatro
De quarenta e quatro.
Tinha seis anos
Em cinco
Do cinco
De cinquenta e cinco.
Mas me lembro
Que fiz uma poesia
Em seis
Do seis
De sessenta e seis.
Esqueci o que ela dizia.
Eram tempos difíceis
Em sete
Do sete
De setenta e sete.
Eu era estudante.
Agora estamos chegando
Em oito
Do oito
De oitenta e oito.
Quero fazer uma poesia
Que eu possa me lembrar
Em nove
Do nove
De noventa e nove.

 

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UM CORPO


Um dia
Tirei uma foto.
Nesta foto
Revelei um corpo. . .
Descobri
Que a poesia
Não se limita
A extensão
E ao poder
De minha palavra.

 

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UMA GUERRA

          17.01.1991

Ouvi falar de uma guerra
Numa terra
Que não é minha terra.
Ouvi falar de uma terra
Numa guerra
Que não é minha guerra.
Ouvi falar de uma guerra
Numa terra
Que não é minha guerra.

 

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CONSIDERAÇÕES EM TORNO DA TERRA DE CEGO


Em terra de cego quem tem um olho,
          bota no prego.
Em terra de cego quem tem um olho,
          vende com ágio.
Em terra de cego quem tem um olho,
          mantém bem aberto.
Em terra de cego quem tem um olho,
          corre o risco de tê-lo vazado.
Em terra de cego quem tem um olho,
          dorme com um aberto e o outro fechado.
Em terra de cego quem tem um olho,
          é exilado.
Em terra de cego quem tem um olho,
          está muito bem segurado.
Em terra de cego quem tem um olho,
          não conta para ninguém.
Em terra de olho quem tem um cego,
          errei!
Em terra de cego quem tem um olho,
          anda cabisbaixo.
Mas,
Em terra de cego quem é cego, é cego.
Em terra de cego quem é cego, é rei.
Em terra de cego quem é rei, é cego.
Em terra de cego quem é rei, é lei.
Em terra de cego,
          não digam que eu não avisei. . .
Em terra de cego. . .
          Ai vida . . . cansei!

 

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TEU CORPO

          1990

Teu corpo é minha terra
onde planto sementes
e colho frutos.
Teu corpo é meu recreio
onde sou criança
e só prazer.
Sua pele me acaricia
como mão de mãe
ou carinho de filho.
Terras de aventuras
onde desbravo
o impenetrável.
Terra aveludada
onde descanso
da vida
que já vivi.

 

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ALEGRIA DE VIVER

          Setembro de 1984

Caos mental
Devastação psicológica
Tortura, confusão
Vozes, burburinho, agitação
Salário, sobrevivência.
Merda!

Aí você aparece:
Tchan, tchan, tchan, tchan
Luz, alegria, compensação
* # * # * # * # * # * # *
Neon piscando
Gente feliz
Tudo bem
No ano que vem

 

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BUSCA

          Setembro de 1991

Eu queria
Uma noite de alegria
Em teu braço
Me perder no teu abraço
Na livre emoção
Da união.

Só queria
Por um dia
Junto ficar
E ser pó
Só para estar
junto; e só.

Se não mereço
Vou sonhar
É o preço
Que me custa
Te buscar.

 

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SAUDADE

          Vitória, março de 1992

Ai, que saudade. . .
Não de um homem;
Não de uma mulher;
Mas de uma cidade.
Não uma qualquer,
Mas a que me viu primeiro
E tem por nome
Rio de Janeiro.

 

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PONTE

          fevereiro de 1992

Agora eu sei:
Sou o primeiro
E sou o último;
Sou o belo,
Sou o feio;
O querido
E o enjeitado;
Sou enorme
E sou pequeno;
Medíocre
E Magnânimo.
Como disse o filósofo:
Sou o meio do caminho
Entre o animal
E o além-homem.

 

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MENINO DE RUA

          Vitória, novembro de 1992

(inspirado em "charge" de Ziraldo Alves Pinto)

Eu não sou de rua,
Eu sou o desejo de morar;
Eu não sou ladrão,
Eu sou o desejo de comer;
Eu não sou violento,
Eu sou o desejo de viver;
Eu não sou analfabeto,
Eu sou o desejo de saber;
Eu não sou criminoso,
Eu sou o desejo de justiça;
Eu não sou menino de rua,
Eu sou o desejo de ser só menino.

 

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ALICE

          Vitória, janeiro de 1993

Anjo que chegou
Lá das alturas
Infindáveis do etéreo
Celestial;
Eis-me aqui... Teu.

 

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DESEJO

          11.02.1988

Não me importo
que você não olhe
para mim.
Eu olho para você
assim mesmo.

Não me importo
que você não goste
de mim.
Eu gosto de você
assim mesmo.

Não me importo
nem mesmo
que você não me deseje,
porque meu desejo
ultrapassa os limites
do seu desejo.

O que vale
é a emoção
que me laça
e me mexe. . .
Quando você passa.

E só por desejar,
por puro desejo,
já cumpro
em mim
parte do prazer
que desejo viver
com você.

 

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UM MENINO JESUS

          Natal/1985

Era 25 de dezembro
de 1985.
Passava no céu
um cometa pequenino.
Da hora não me lembro,
mas a noite ia longe.
Maria, pobre como ninguém,
esperava, com José,
a ajuda de alguém.
Nisso, ao longe,
três homens senhores,
que pareciam monges,
mas eram doutores,
olhavam para o alto
em busca do cometa.
Mas a força do fato
trouxeram-os de volta
num sobressalto.
José, menino pobre,
amparava Maria
no início do parto.

Não tinha boi ou jumento,
nem o famoso cordeiro.
Mas tinha um cachorro,
muitas baratas e um rato. . .
E um terrível mau cheiro.
Era uma rua
qualquer da cidade.
E Maria, nua,
ali mesmo, sem maldade,
sem direito a voz,
sem direito a nada,
deu a luz, em prantos,
ao menino verdade
(que hoje está entre nós)
que se chama Jesus;
Jesus Carlos dos Santos.

 

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DEDÉ

          27.07.1986

Dedé menino,
menino homem,
menino criança,
Dedé esperança.

Tão perto de ontem,
tão longe do amanhã,
trago na lembrança
a sua aventura
sem destino,
sem ventura.

Dedé manhã,
alvorecer
e ternura.
Gente como eu,
ele quer saber
quem o prendeu.

Por que não ter escola?
Por que essa gaiola?
Jogar a vida fora
se a vida não tem hora;
a vida pulsa agora.

Homem bom,
homem mau;
digo em bom tom
aos que dirigem esta nau:
Deixem Dedé em paz,
já que não quis seus pais,
já que prefere dormir na rua
vestido de estrelas e de lua.

Dedé menino,
Adelson nasceu.
Dedé cresceu,
selou seu destino
como ninguém.
Dedé que procuro,
hoje um número:
Menor 208
do Instituto Padre Severino
da FUNABEM.

 

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DE UM AMIGO

          17.07.1984

Amigo.
Filho e irmão
Doce canção
Do inferno e da guerra.
Mas não há luta;
E não há paz.
Um fio de esperança
Deslisa na terra.
Criança,
Mães e pais,
Paz;
Quero paz, pais.
Quero mais, pais,
Paz.
Nada custa
A tempestade
Que me deixe
Dormir. . .
Em paz.
Quero dormir
Sem gemer;
Quero sorrir
Sem tremer.
Sozinho
Um ninho,
Um carinho. . .

Um pouquinho
De amor
Em pais
Em paz.
Sem dor
Quero um braço
Para um abraço.
Quero a vida
Que eu levo,
Não a vida
Que me leva.
Quero ser filho,
Ser irmão;
Quero ser igual.
Desejo a solidão
Sem pais
Em paz.

 

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CRÔNICA DE OUTRA MORTE ANUNCIADA

          06.10.1984

Era uma menina
De rua.
Perambulava,
Brincava,
Ria
E chorava.
Era uma menina.
Dez. . . Doze anos.
Talvez. . .
Pobre
Com certeza.
A praia próxima,
A rua
Entre as duas.
Sol,
Gente na praia,
Gente trabalhando,
Gente que vai,
Gente que vem,
Sempre.
Era uma menina.
A praia,
O mar,
A alegria,
A vida,
Tudo borbulhava
Na cabeça
De menina.
Dez. . . Doze anos.
Talvez. . .
Criança
Com certeza.

Um rabecão
Frio
Da Prefeitura.
Não precisaram
Dois homens
Para levantar
A caçamba.

Devo mais uma vez
Deixar a Neila
No trabalho
(Ela está mais bonita!),
Encher o tanque
Da moto
E, sem nenhuma vontade
De brincar com criança,
Não me lembrei
De nenhuma canção.

 

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URSA MAIOR

          27/04/1996

Mulher...
Filha do fogo,
Mãe da terra,
Da água e do ar.
Mulher...
Mulher fera;
Nova de amar.

Corpo, sexo,
Desejo e tesão.
Vida sem tempo
De alegria e paixão.

Tempo amanhã,
Liberdade que agita;
Febre terçã
Do gozo que grita.

Estrela luz
De beleza e calor;
Luz que conduz
Prazer e fragor.

Quero me perder
No abraço
Do teu braço
Quero me arder.

Da alegria,
Livre infinita,
Seja a fantasia
Clara e bendita.

Mulher...
Mulher maravilha,
Do astro que der;
Estrela que brilha.

Mulher...
Mulher melhor,
Nua e bela
Sabe o que quer:
Ser estrela...
Ursa maior.

 

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MINHA ESTRADA

          Setembro 2008

      À professora Regina Maria Pires Abdelnur

Tantas terras andei,
Plantando sementes
Em terras e mentes,
Que já nem sei.
Se mais aprendi;
Se mais ensinei;
Se mais renasci,
Eu não sei.
Sei que vivi
Para o mundo
Que eu vi e convivi:
Prenhe de amor fecundo.
Passageira da utopia,
Nada mais fiz
Do que divulgar alegria
Para quem quis ser feliz.
Já nem sei, desta estrada,
Se fui feliz ou se sofri,
Mas nesta caminhada,
Deixo de lado
o que chorei e o que sorri;
o que vale é o resultado.
Sei que nem a todos eu agradei
- é o preço da liberdade de pensar -
Mas nas estradas onde andei
Deixei sementes para se plantar.
Deste impossível chão,
Sei que um dia irá brotar,
Em cada coração,
A semente de um possível amar.
Perto de um adeus, volto meus pensamentos,
Que são só meus, aos melhores momentos.
Por ter trabalhado com todas as idades
No caminho talhado à brasa, penso nas felicidades
Vindas e idas de alguns arrabaldes.
Deixo outros em meu lugar
Para colher e plantar, amar e lutar
Por um futuro promissor
Onde resistam a fé e o amor.

 

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"ELAZINHA"

          Dezembro 2008

      À Emanuela

Desejos insanos
Pensamentos mundanos
De viso e verso
Voltado ao anverso.

É ela
Risonha e bela,
Rainha suprema
Do mais lindo diastema

De que vale o sonho
Se só ao acordar
Da louca prosa
O céu é medonho.
Onde está
A mulher poderosa,
Que pisa em pétalas
De rosa,
De cravo,
E no meu coração
Cativo e escravo
Perdido na imaginação?

Mulher
Que tem fome
de qualquer homem
Que clama e pensa
A vida tensa
Que vier.

Ó dama
De gran' frescor;
Dona de quem ama
O verdadeiro amor.
Agora sou aluno
De sonhos que sonharei
Mulier viro in manu
"Elazinha" amarei.

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