Ao mesmo tempo em que sua solidão o incomodava, não se interessava por ninguém. Gostava do jeito em que vivia e não pensava numa companhia, pelo menos por hora. Ir ao cinema sozinho era um prazer. Poder estar em casa para se locomover ao seu bel' prazer, era uma dádiva.
Escolheu um cinema perto de casa, para não andar muito. Durante o filme desinteressante, mas com o ar condicionado do cinema refrescando sua alma, ainda conseguiu dormir um pouco. No final do filme, sem tê-lo compreendido muito bem, ainda sonolento, cruzou com todas as pessoas que se dirigiam para a saída. Entre essas pessoas viu um rosto. Era uma mulher. Nunca a tinha visto antes, mas, diante do encanto de sua visão, sentiu que não poderia mais deixar de olhá-la. Sua beleza era singular. Seu semblante inspirava tranqüilidade. Com o coração descompassado aproximou-se dela. Como ela estava sozinha, arriscou:
- Parece que temos a mesma realidade.
- Que realidade? - respondeu ela.
- A de estarmos sozinhos.
Ela então explicou que não estava sozinha. Entrou no cinema para esperar uma amiga que foi tratar de negócios. A amiga deveria estar esperando na porta do cinema. Ela não morava na cidade e estava ali só para passar o sábado e retornaria ainda à noite para sua cidade.
Diante de tanto encantamento, ele deixou o número de seu telefone com ela, mas não pediu o número do dela. Dizendo que gostaria de revê-la, acompanhou-a até o carro da amiga e ele ficou apreciando a imagem do carro a se distanciar. Estava extasiado diante de tanta beleza e graciocidade. Gostaria de ter pensado numa maneira de perpetuar aquele momento. Mas não foi possível.
Voltou para casa e não conseguiu cumprir nenhuma de suas tarefas. Todos os seus sentidos estavam agora voltados para a mulher do cinema. Ainda sob o calor deitou-se na cama, com o olhar vago para o teto, e pensava se ela lhe telefonaria. Será que ela teria alguém? Será que se tentasse uma união daria certo? Será que ela se encantaria também por ele? Entre pensamentos e devaneios próprios de quem está preste a dormir, dormiu.
Dormiu a noite toda. Acordou no domingo, por volta de nove horas da manhã, com o telefone tocando. Era ela.
- Por que não vem me encontrar?
Mal podendo se conter, com a respiração ofegante topou o encontro. O trabalho poderia esperar. Qualquer outra coisa no universo poderia esperar. O brilho do sol, da lua ou das estrelas não tinha, naquele momento, a menor importância. No momento a imagem da mulher era mais forte do que qualquer outra decisão que pudesse tomar. Era mais forte do que ele próprio.
Ela deu as instruções de como chegar ao lugar marcado por ela. Ele não conhecia a cidade vizinha. Era preciso pegar a estrada, subir a serra e, depois de terminada a subida da serra, ficar atento ao transbordo, um terminal de ônibus, do lado esquerdo da estrada, já que a dois quilômetros dali havia uma ponte vermelha, onde ela o esperaria.
Ela disse que a viagem duraria cerca de uma hora e meia. Ele calculou que saindo às onze horas, estaria lá às doze e trinta. Poderiam almoçar juntos. De tão nervoso e agitado que estava, ele acabou se atrasando para sair de casa. Saiu às onze e vinte.
Tomou o rumo da estrada, dirigindo na maior velocidade que era capaz de dirigir. Cortando carros, avançando sinais, ultrapassando limites de velocidades impostos pelas placas, chegou à estrada. Estava com os olhos tão fixos na estrada que teve a impressão de que a estrada era engolida por sua vista. Enquanto dirigia não parava de pensar nela. Imaginava que estava iniciando uma relação amorosa. Com uma mulher linda. Imaginava o quão doce ela deveria ser; o quanto ela poderia lhe fazer feliz; o quanto ele devolveria de felicidade para ela. A imagem da mulher não lhe saía da cabeça.
Depois de algum tempo iniciou a subida da serra. As curvas tornavam-se retas, mesmo que jogando o carro de um lado para outro. Os pneus gritavam no asfalto da estrada, como uma sirene a abrir caminhos entre os outros carros. Ele pensava que poderiam ter uma relação perfeita. Quem sabe se casariam? Ou teriam filhos? E ficariam velhinhos, um ao lado do outro?
O dia estava especialmente lindo, talvez como todos os dias. Na subida da serra, ao mesmo tempo em que prestava atenção na estrada, observava a paisagem verde aos seus pés e sobre sua cabeça. Olhava o céu e as nuvens. Pensava, então, se ela estaria vendo o mesmo céu azul e as nuvens brancas a enfeitá-lo. Se estaria vivenciando a mesma beleza, a mesma pureza. Apreciaria a natureza de forma tão completa quanto ele?
A serra terminou. Precisava ficar atento ao terminal de ônibus do lado esquerdo da estrada. Depois a ponte vermelha, do lado direito. Sua emoção crescia a cada quilômetro de estrada rodado. Pensou que a beleza dela se equivaleria a beleza de Helena, cujos soldados, em Tróia sitiada, abaixaram suas lanças diante daquela exuberante presença.
A estrada passava por seus olhos e o terminal não chegava. Teria passado e não notou? Para complicar, todas as pontes do lugar eram vermelhas. Como estaria vestida? Estaria tão linda como na tarde do dia anterior? Criava em sua mente uma hipótese de imagem. Uma ponte vermelha e ela a lhe esperar. Linda e sorridente.
Via passar vários pontos de referências. Um posto de gasolina, uma fábrica, uma loja bonita, mas o terminal não aparecia. E se ele tivesse errado o caminho? Por que ela só citou como ponto de referência o terminal de ônibus e a ponte vermelha? Não queria acreditar que seus sonhos não se concretizariam. De tal forma estava encantado, que a possibilidade da frustração não lhe passava pela cabeça. Diria a ela que ser digno de seu amor era uma dádiva. E que ele se faria digno desta dádiva.
Chegando lá perguntaria a ela onde poderiam almoçar. E lá conversariam. Ele encontraria um modo de dizer-lhe de seus sentimentos e ela o corresponderia. Sabia que chegaria esbaforido, mas, com o passar do tempo e a companhia dela, ficaria tranqüilo. Sua emoção era tão violenta, tão imensa, que acreditava que a correspondência seria inevitável. Seria impossível não ser correspondido diante de tão forte sentimento.
Estava tão envolvido em suas fantasias que pensou que, se todos no mundo se apaixonassem ao mesmo tempo, a humanidade estaria salva. Os apaixonados jamais pensam em guerra, em brigar com ninguém. A não ser em defesa do motivo de sua paixão, como uma ira sagrada. A imagem mental que ele fazia dela era de tal forma encantadora que, naquele momento, só pensava em paz. Sentia-se leve; estava em paz.
Com o coração aos pulos viu, do lado esquerdo da estrada, o terminal de ônibus. Vários ônibus entravam e saíam do terminal. Foi obrigado a parar no sinal, para que os ônibus passassem. Percebeu que estava atrasado vinte minutos. Sua angústia não tinha mais limites na esperança da realização do encontro... E de suas fantasias.
Faltavam só dois quilômetros. A ponte vermelha estaria do seu lado direito. Um caminhão inoportuno colocou-se à sua frente e não desenvolvia velocidade. Será que o caminhão iria atrapalhar sua visão? Devagar, atrás do caminhão, ele ia atento ao seu lado direito. Esperava avistar logo a ponte vermelha que não chegava. Do terminal de ônibus até a ponte vermelha parecia que estava se passando uma eternidade.
Avistou a ponte vermelha ao longe e, mesmo a distância, procurou localizá-la, passeando com os olhos todas as caras, todos os tipos, todas as pessoas.
Finalmente ele chegou... Ele teve a certeza de vê-la no meio da ponte, com a cabeça baixa, olhando pensativa as águas do rio passar. Ele se permitiu ver que ela estava linda. Parou o carro e caminhou, trêmulo, em sua direção. Abriu os braços para lhe dar um abraço, mas abraçou o vazio. Ela não estava mais lá.
Só estavam lá, na ponte vermelha, ele, as águas do rio que passavam sob seus pés e a sua solidão...
Rio de Janeiro, fevereiro de 2003