Estava quase concluindo o Ensino Médio, que na época era chamado de segundo grau, e precisava se decidir. Uma vizinha sua, Lara, resolveu fazer o vestibular para tentar o curso de Licenciatura em História de uma universidade pública. De sua contumaz falta de emoção, "élan vital" e desanimação, Pedro sentiu seu coração bater mais rápido. É isso: vou ser professor! Professor de História!
Parece que uma das poucas profissões em que a maioria dos indivíduos da sociedade precisa passar é a de professor. Para exercer qualquer profissão nós precisamos de um professor. Talvez seja a profissão mais observada entre todas. Mesmo que freqüentemos consultórios médicos, não podemos saber das nuances da profissão de médico. Da mesma forma, mesmo que precisemos de algum auxílio jurídico de um advogado, não podemos saber o que se passa nos bastidores dessa profissão. Todos nós moramos numa casa, mas não sabemos como foi que o arquiteto a planejou ou o engenheiro a construiu. E assim é com praticamente todas as profissões. Menos com a do professor.
Para nos formar em qualquer profissão passamos boa parte de nossas vidas sentados numa carteira escolar, na maioria das vezes desconfortável e inadaptada, tendo na nossa frente a figura de um professor, nem sempre suficientemente preparado para exercer aquela função. A ação profissional do professor faz parte de nossa existência, de forma tão marcante, como se alguém de nossa família fosse. No nosso imaginário julgamos sempre ser mito fácil ser professor. Ter poder e ser admirado incondicionalmente é o que pensamos que vamos vivenciar ao optar pela profissão professor.
Pedro estava decidido: vou ser professor de História. Fez o seu vestibular e passou. É verdade que passou lá nos últimos lugares, mas - ufa! - passou. Como estudante foi um aluno na verdadeira concepção da palavra: sem luz. Lembro que a palavra aluno origina-se do latim e quer dizer sem luz: a, que quer dizer distante de e lux que quer dizer luz. Era um aluno assíduo e, durante o seu curso, pouco faltou aulas. Mesmo presente não participava, não contribuía com os colegas, não questionava seus professores e apenas decorava as matérias para fazer a prova e tirar uma nota que fosse suficiente para "passar de ano".
O seu curso foi realizado nos anos finais da década de sessenta e dos iniciais da década de setenta. Exatamente durante o período mais radical da ditadura militar. A reação ao regime estava irradiado no meio estudantil. Na França, Daniel Co-Bendit, o "Daniel Le Rouge", iniciava um movimento que culminou com a saída do poder de um presidente do porte de Charles De Gaulle. O mundo fervilhava e até nos Estados Unidos os estudantes se manifestavam contra a guerra do Vietnam. Algumas universidades brasileiras foram invadidas e muitos estudantes foram presos, torturados e alguns mortos. Corriam-se riscos imprevisíveis pelo fato de ser estudante naquela época.
O Pedro? Estava em outro planeta. Acompanhava os fatos pela imprensa censurada. Algumas vezes achava que seus colegas eram mesmos "subversivos", mas, na maioria das vezes, não achava nada. Quando chegava ao "campus" de sua universidade e alguma aglomeração de estudantes era vista nos pátios, passava direto e ia para a sua sala de aula, mesmo que naquele dia as aulas tivessem sido suspensas. Ficava lá, solitário, na companhia de sua amiga Lara, "observando os fatos" e esperando que tudo se acalmasse para poder voltar para casa.
Como não podia deixar de ser, depois de receber aquele pedaço de papel, que o rito de passagem chama de diploma, considerou-se "formado". Estava legalmente apto para exercer a profissão de professor, mesmo que não soubesse definir o que queria dizer a palavra didática, não soubesse o que era aprendizagem e, menos ainda, soubesse fazer um plano ou um planejamento de aula. No entanto, finalmente e no meio de sua indolência, de sua preguiça para pensar e de sua pasmaceira, era professor.
Ainda por iniciativa de Lara, Pedro conseguiu ser selecionado num curso de Mestrado. Na prova de seleção valeu-se da "cola" descarada da prova de sua inseparável amiga e colega. Como aluno repetiu seu desempenho do curso de graduação. Foi um aluno medíocre e apagado. O tema de seu trabalho de Dissertação de Mestrado foi "O descobrimento do Brasil: entre mentiras e verdades". Ninguém precisa saber que o trabalho foi praticamente escrito por Lara, apesar de a idéia ter sido dele. Sua intenção era "provar" que não foi Pedro Álvares Cabral o descobridor das terras brasileiras. Lara tentou demovê-lo dessa idéia, mas como todo medíocre tem fortes tendências para a teimosia e para fincar pé em idéias nem sempre plausíveis, foi isso mesmo que ele fez. Em quarenta páginas confusas, mal escritas e sem embasamento teórico procurou "provar" que o descobridor do Brasil foi Duarte Pacheco Coelho. Foi aprovado, com nota mínima, mais por pena da banca examinadora do que pela qualidade de seu trabalho.
No curso de Mestrado um acontecimento se tornou folclórico nos meios acadêmicos da instituição e motivo de risos de todos. Seu nome completo era Pedro Caio Augusto César Brasil e isso gerou uma observação jocosa de um de seus professores: "De Pedro, você não tem nada; de Caio, também não; de Augusto, tem ironia; de César, muito menos, mas de Brasil... tem bastante".
Lara teve uma importância muito grande em sua vida, por ser mais dinâmica e ter mais iniciativa para buscar soluções para a sua própria vida. Sempre que ela conseguia um emprego trazia a reboque a triste figura de Pedro. Foi assim por toda a vida profissional dos dois. Lara ainda trabalhava em três instituições de ensino diferentes, mas Pedro só trabalhava numa universidade de segunda categoria e por lá ficou acomodado. Sobreviveu assim.
Na faculdade Pedro faltou as aulas por uma semana e na semana seguinte apareceu com um bonito troféu embaixo do braço. Era uma placa de acrílico, cravada numa base da madeira. Na placa podia-se ler: "Premio Latino Americano de Educación mestra Ignácia Morales Ramblero. A maestro Pedro Caio Augusto César Brasil, el honor al mérito para sus servicios dados a la educación de América Latina". Em pouco tempo começou a juntar gente para ver o troféu. Todos estavam surpresos e espantados. Como podia ter acontecido aquilo? Professor Pedro nunca escreveu nada; nunca produziu nada inteligente; não contribuía sequer, de forma inteligente, para o progresso da própria instituição de ensino onde trabalhava; era um professor medíocre; detestado pelos seus alunos e uma figura apagada, sem iniciativa e inoperante.
Levou o troféu para a sala de aula, levantou-o com as duas mãos ao alto de sua cabeça, tal como Bellini erguendo a Taça Jules Rimet ao fim da conquista da Copa do Mundo de Futebol de 1958, e disse solenemente: "Dedico este prêmio a todos os meus alunos e a essa instituição que me acolheu". Os alunos, sentados imóveis em suas carteiras, apenas observavam atônitos àquela cena.
A vida do professor Pedro mudou a partir daquele dia. Passou a andar pelos corredores da faculdade com o peito estufado, a cabeça erguida e olhar no infinito, sem encarar ninguém. Sentia-se com o ego completamente inflado. Parecia que ia explodir. Sentia até certo calor nas bochechas como se fosse o maior e melhor professor do mundo. O comentário dos colegas e dos alunos era o Prêmio Professora Ignácia Morales Ramblero recebido pelo professor Pedro. Quando algum aluno fazia uma crítica negativa ao professor, o outro aluno respondia: "Mas ele recebeu o Prêmio Professora Ignácia Morales Ramblero". O professor Pedro não conseguia pensar em outra coisa a não ser no Prêmio Professora Ignácia Morales Ramblero. Pensou inclusive em sugerir a Lara que espalhasse entre os colegas e aos alunos que a partir daquele momento passaria a ser chamado pelo apelido de "Professor Pedro Ramblero". Acordava e dormia pensando no Prêmio Professora Ignácia Morales Ramblero. Mandou construir uma redoma de acrílico para colocar o troféu que ficou exposto na estante mais visível de sua sala. Qualquer um que entrava no seu apartamento era encaminhado para admirar o troféu. Foi buscar até mesmo o porteiro do prédio vizinho e as empregadas domésticas dos outros moradores do prédio. Sentia-se realizado profissionalmente e fazendo o maior sucesso.
Chegou mesmo a ser convidado para dar uma palestra numa grande escola do subúrbio da cidade. O tema da palestra era "A situação da educação na América Latina". Começou dizendo que "a tessitura da realidade educacional da América Latina descortina-se alvissareira pelas plagas e montanhas que revelam nosso relevo incerto e dúbio, num cenário incrivelmente belo". Não disse coisa com coisa, falou por mais de duas horas e ninguém entendeu nada, mas as quatro professoras presentes, que obrigaram a seus trinta e quatro alunos a assistirem a palestra, comentavam sérias e circunspectas entre si: "Ele recebeu o Prêmio Professora Ignácia Morales Ramblero". Apesar de todos apresentarem um aspecto enfadonho pela palestra apresentada, professor Pedro saiu radiante, com sentimento de que tinha feito o maior sucesso e disse à diretora da escola: "Quando quiserem é só me convidar que eu volto". Na verdade nunca mais foi chamado. Nem para aquela escola, nem para nenhuma outra.
Mas que Prêmio Professora Ignácia Morales Ramblero era esse? No círculo acadêmico ninguém jamais ouvira falar nessa Professora Ignácia Morales Ramblero. Nunca publicou nada e jamais se ouviu falar de algum fato importante em prol da educação que tivesse iniciativa dessa professora que deu nome ao prêmio. Mas isso não tem a menor importância para o professor Pedro.
O fato é que certo dia, quando chegou a casa, professor Pedro recebeu um prospecto, desses que quase ninguém lê e joga fora até mesmo sem abrir, anunciando um pacote turístico. Fazia propaganda de um "tour" de viagem pelo Peru, nosso país vizinho, planejado preferencialmente para professores brasileiros, mas não necessariamente só professores. Constava do pacote uma visita à Universidade de Lima, uma das mais antigas das Américas, numa manhã, um "city tour" pela cidade de Lima e uma ida a Machu Pichu. Todo pacote custaria cinco mil dólares, com direito a passagem, hospedagem e uma refeição por dia. Os cinco mil dólares doeram no bolso do professor Pedro que levou quase dois anos para pagar as prestações. O melhor de tudo para ele era a placa de honra ao mérito que seria entregue aos professores, que estivessem engajados no pacote e aceitassem pagar mais cem dólares, intitulada "Prêmio Professora Ignácia Morales Ramblero". Professor Pedro sabia disso tudo, mas mais ninguém precisava saber.
Em tempo: Professora Ignácia Morales Ramblero foi uma professora primária do agente de turismo, organizador do pacote, de quem ele gostava muito. Mas ninguém precisa saber disso.
Rio de Janeiro, julho de 2008