Não sabiam definir o que sentiam um pelo outro. Talvez a inocência, talvez a felicidade despreocupada, talvez a vontade de se sentir bem e protegidos, talvez a alegria inexplicável de viver, faziam com que desejassem estar juntos e procurassem estar juntos, sem saber bem porque.
A vida passava sem preocupações e sem compromisso. A vida girava em torno dos dois e os dois giravam em torno da vida. Cheiro de mato; cheiro de goiaba; goiaba com bicho; bicho de goiaba, goiaba é. Banho de rio, sol, frio e calor; carrapato nos dois e um cata carrapato no outro. Risos de alegria sem ter com que, nem porque. Corrida na roça, corrida nas trilhas dos bois e o tempo correndo atrás de tudo, de todos e dos dois.
Marcílio prestou vestibular para uma universidade em Belo Horizonte e foi estudar para ser professor de educação física. Mesmo distante a proximidade não se alterou: todos os fins de semana e nas férias voltava para estar com Daniella. Não corriam mais pelos campos, mas o mundo era mais mundo. Contava todos os detalhes para ela. Contava dos colegas, do campus da universidade, da cidade e das pessoas.
Quando Marcílio estava para se formar Daniella foi fazer um curso de Comunicação na cidade do Rio de Janeiro. Queria ser jornalista e abrir um jornal em sua cidade. Deslumbramento e medo na cidade grande. Morar em "república de estudantes", viver para estudar, sair pouco, estudar, dormir, sentir saudade. Não podia voltar todos os fins de semana, mas nos grandes feriados e nas férias sempre voltava. Marcílio estava por lá a lhe esperar. Contava tudo para ele.
Marcílio, formado em Educação Física, não conseguia trabalho em sua cidade. A mãe de Daniella, então, inaugurou na cidade a primeira e única academia de ginástica e entregou o projeto e a parte técnica para Marcílio. Ela, a mãe de Daniella, ficou responsável pela gerência administrativa. Marcílio tornou-se empregado da mãe de Daniella e passou a ter por ela uma relação de empregado e patroa.
Daniella gostou da idéia. O que ela não entendia na sua história com Marcílio ficou definida como paixão. Estava apaixonada por ele. Amor de chorar, de sentir saudade doída, de se imaginar em situações concretas diante da mais completa ilusão da fantasia. Trabalhando para sua mãe Marcílio estaria mais próximo dela.
Ele, crescido e amadurecido, descobriu-se também apaixonado por Daniella. Vivia sua fantasia de se casar com ela, de ter filhos e de terminar sua história como nos filmes de amor que chegavam em sua cidade do interior: felizes para sempre. De tal forma seus pensamentos estavam voltados para ela que se alimentava mal, dormia mal e sua concentração pelas coisas do trabalho estava definitivamente comprometida. Sentia-se como se sua cabeça estivesse girando.
Daniella vivia com seus pensamentos voltados para ele. Pensava nele por todo o dia. Só que, no caso dela, não chegava a atrapalhar suas atividades. De tal forma estava envolvida com os trabalhos da faculdade que na verdade não tinha tempo para voltar seus pensamentos totalmente para ele. Parecia que seus professores tinham por filosofia de educação de que quanto mais trabalho passassem para os estudantes, mais aprenderiam. Ela sabia que isso era mentira. Sabia que quanto mais trabalho se passa para os estudantes menos eles aprendem, já que são obrigados a entregar os trabalhos para serem aprovados e, para tal, inventam as mais diversas maneiras de burlar o professor, deixando de cumprir as tarefas pedidas. Pedia para que colegas do semestre anterior lhe passasse o trabalho já feito, copiava de "sites" da Internet, dividia partes do trabalho entre as colegas, e por isso, não tinha noção do todo, quando não apenas assinava o trabalho sem mesmo saber o que estava escrito. Essa situação gerava nela um certo ódio pelos estudos e pela vontade de aprender. Seu ódio pela educação fazia com que a figura imponente de Marcílio não tomasse conta do seu ser.
Ele gostaria de resolver logo sua situação com Daniella. Gostaria de se declarar para ela, mesmo que achasse que estaria correndo riscos nisso. Mais uma coisa, na confusão de seus pensamentos, o incomodava: ele achava que se tentasse uma aproximação mais concreta com ela, e fosse rejeitado, poderia parecer falta de respeito a confiança que a mãe de Daniella havia depositado nele. Ele ficava absorto em suas dúvidas: "e se ela e sua mãe acharem que é falta de respeito minha?", "e se ela não me quiser?", "e se ela achar que eu ultrapassei os meus limites?", "e se ela se ofender e eu perder pelo menos a amizade e a companhia dela?", "será que ela, ser humano tão maravilhoso, me merece?" e por aí caminhava seus pensamentos.
Ela, por sua vez, esperava que Marcílio tomasse a iniciativa de buscar a aproximação. Na conversa entre os dois buscava sempre deixar uma pista, mas nunca falava o que deveria ser dito de forma direta e clara:
- Estou completamente apaixonada por uma pessoa. - dizia ela para ele.
- Por quem? - perguntava ele, esperando que ela respondesse que era por ele.
- Você não conhece. - fugia ela da verdade.
Ele ainda tentava recuperar dizendo:
- Que bom que fosse por mim.
E era, mas ela desconversava.
Marcílio era apaixonado por Daniella. Daniella era apaixonada por Marcílio. Marcílio em sinal de respeito a mãe de Daniella não tomava iniciativa. Daniella por questões de formação ("é o homem que deve tomar a iniciativa. Se faço isso o que ele vai pensar de mim?") não tomava a iniciativa.
O tempo passou...
Daniella casou-se com Leandro, teve dois filhos e engordou.
Marcílio não se casou e emagreceu.
Rio de Janeiro, junho de 2003.