O Telefone

Érico Corrêa


     Domingo, dez horas da manhã. Ele acordou, extenuado pela semana cansativa, querendo dormir mais. Acordou suado com o calor insuportável da cidade do Rio de Janeiro. Ipanema fervia. Era domingo de Carnaval e tudo estava quente.

     Queria dormir mais, sabia que precisava dormir mais, mas o calor não deixava. Levantou-se sonolento. No banheiro lavou o rosto, para cortar a onda de sono, escovou os dentes e viu no espelho sua fisionomia amassada do sono findo-não-findo. Estava se sentindo cansado.

     Já que estava de pé deveria fazer alguma coisa. Ou deveria encontrar alguma coisa para fazer. Pachorramente cuidou dos gatos: deu comida, trocou a água e limpou a areia. Voltou para a sala e olhou o telefone. Pensou nela. Pensou que ela poderia ligar para ele. Pensou que ela poderia estar sentindo saudades dele; como ele dela. A saudade é a denúncia do amor. Achou que o telefone era uma máquina inútil. Estava ali mais para enfeitar sua sala do que para se comunicar com alguém. Se nem com ela ele conseguia se comunicar através do telefone, telefone para quê?

     Vagarosamente tomou seu café da manhã. Saboreava os primeiros sabores do dia e sentia prazer nos sabores. O leite adoçado com mel, a manteiga, o pão integral com gergelim, a geléia de goiaba, o biscoito de nata, o queijo tipo parmesão de Bocaina de Minas, o café, cada um com seu característico agradável sabor de um novo dia. Experimentava sensações. Estava convencido de que a beleza da vida entrava por todos os sentidos; a beleza da vida estava à flor da pele... Sempre e em todos os sentidos.

     Voltou para a sala e olhou em torno. Tentava encontrar alguma coisa para fazer. Muitas coisas tinham para ser feitas. O problema não era falta do que fazer, mas descobrir o que fazer. Na verdade sua cabeça não conseguia se concentrar. Uma lembrança surda tomava conta de sua alma. Esforçava-se para esquecê-la. Mas nada nele era mais forte do que aquela ausente presença.Tudo nela era mais forte que ele.

     Colocou um CD da Enya, pegou um livro e se deitou na rede. Seus gatinhos pularam para cima dele. A música, o livro, a rede e os gatos. Achava que ia ficar bem. Seus gatos dormiriam sobre sua barriga enquanto ele ouvia música e lia. Descobriu que seus gatos ficavam mais tranqüilos quando ouviam música. Poderia acontecer com ele também. Mas ele não estava ali.

     A saudade não chegava a doer, mas incomodava e atrapalhava sua concentração. O livro não era o livro naquela hora, nem a rede, nem a música, nem os gatos. Era a lembrança que dominava tudo. Também não era amor. Pelo menos amor por ela. Talvez fosse amor por ele mesmo, amor-próprio, auto-estima. Amava tanto a vida, o dia-a-dia e todas as coisas que o cercavam, que considerava mais importante o amor por si mesmo do que o amor pelo outro. Se a vida era esta maravilhosa aventura de incertezas, era preciso conviver com pessoas que compartilhassem desta maravilha. E que amasse tanto esta maravilha que desejasse compartilhar toda essa alegria e não da alegria de uma só pessoa. Os dois deveriam ser tão maravilhados pela vida que a companhia de um pelo outro se tornaria indispensável. Como uma realização plena da própria vida. Então, isso era amor.

     Seu desejo por ela era fruto da fé de que compartilhariam desta maravilha. Era esta certeza que não o permitia que a esquecesse. Não conseguia formar a imagem mental da fisionomia dela, mas conseguia imaginar a felicidade da relação a dois, vivendo juntos a maravilha da vida, no mesmo compasso, na mesma harmonia. Pensar nisso, apesar do peso no espírito, fazia-o feliz.

     Ele não se importava muito com o sentimento dela, tão envolvido que estava afetivamente. Achava que o mais importante era o que sentia, porque se sentia bem. Sentia-se tão bem que a reciprocidade, para ele, era inevitável. A vontade de tê-la era tão absoluta, que se sentia por ela repleto. A sua fantasia era absolutamente real.

     A tarde chegou e ele não estava ali. Ali estava a música, o livro, a rede, os gatos, mas não ele. Ele era sonho acordado, longe dali. Seus gatos tentavam lhe distrair, mas nada. Os pequenos felinos, tais quais leões em miniatura, corriam pela casa e se abraçavam, como que simulando uma luta. Mas, nesse momento, ele não via alegria nas brincadeiras dos felinos. Eles não estavam ali, ele também não.

     Sua cabeça estava voltada para o telefone. Poderia tocar. E ser ela. Poderia trazer uma mensagem, um sinal, uma fresta, uma porta aberta, um alento... Dizendo que estava com saudades e desejava vê-lo, estar com ele. Compartilhar a alegria e a maravilha de viver. Seu desejo, imenso, de que aquele telefone tocasse, fazia com que sua fantasia se transformasse na mais dura realidade.

     Já era fim da tarde quente. Vivia sua ansiedade quase triste. O telefone toca. Era seu desejo, tão intenso, sendo concretizado. De tão envolvido em suas fantasias estava, que não poderia ser mais ninguém além dela. Era ela. Só poderia ser ela. Se não fosse ela seria crueldade com sua alma. Estava convencido de que era ela. Talvez tudo tenha se passado em frações de segundos. Uma alegria indescritível passou por sua existência. Alucinado, pulou por cima dos móveis, bateu com força nas paredes e ofegante pegou o telefone:

     - Alô! Alô!

     - .....................

     Era engano.
 

        Rio de Janeiro, fevereiro de 2003