Último presente

Érico Corrêa


     Ele vivia bem em sua solidão. Talvez tivesse um quê de egoísta e não quisesse dividir a sua vida com ninguém. O trabalho o ocupava o dia inteiro e num fim de semana, observando o apartamento vizinho que se distanciava uns dois metros do seu, na parte dos fundos, viu que tinha sinais de ocupação. O apartamento 503 foi alugado para alguém. Quem será?

     Ele morava no apartamento 501 e os sinais de ocupação do apartamento vizinho, como roupa no varal, luz acesa, barulho, etc., geraram uma série de conjecturas com a amiga que dividia sua moradia.

     - Será que são velhos ou jovens? Serão ranzinzas?

     Até então ele não tinha visto pessoas, somente sinais. As conjecturas prosseguiram até o dia em que os vizinhos se encontraram no corredor. Era uma mulher e morava sozinha.

     - Oi, eu moro no 501. Acho que você é a nova vizinha. Se precisar de alguma coisa, não se acanhe em bater no meu apartamento.

     - Obrigada. Da mesma forma. Se precisar de alguma coisa é só me chamar.

     Pronto! Os vizinhos se conheceram. Ele a achou completamente linda. E o que mais chamou sua atenção, foi o olhar dela: parecia que brilhava. A partir daí, ele começou a matutar uma maneira de se aproximar dela. A oportunidade surgiu quando faltou açúcar no mercado. Muita gente tinha ficado sem açúcar, pois os produtores queriam um aumento de preço e não estavam distribuindo aos supermercados.

     - Ei! Você conseguiu comprar açúcar? - gritou ele da área de serviço que dava para a dela.

     - A minha faxineira trouxe bastante de onde ela mora. Lá não está faltando. Se quiser eu tenho.

     - Seria ótimo. Vou aí pegar.

     Com uma xícara na mão, lá foi ele pegar o açúcar e tentar uma conversa. A conversa foi rápida. Durou o bastante para que ele a convidasse para ir à praia. Ela não aceitou, para sua tristeza, mas ela sugeriu de verem um filme interessante que ia passar na televisão à noite.

     De noite ele tocou a campainha da casa dela conforme o combinado. Ela o convidou a entrar e foram para o quarto onde estava a televisão. Ela se deitou na cama e o convidou a fazer o mesmo para assistir ao filme. O que menos se viu foi o filme. Os dois não pararam de conversar. Depois desse primeiro encontro, os dois fizeram amizade e ela passou também a freqüentar o apartamento dele onde morava com a amiga.

     Ele já estava envolvido por ela. Para ele, ela era bonita, inteligente e simpática. Parecia ser o seu feitio. O desejo de solidão foi imediatamente esquecido.

     Um dia foram a uma festa. Lá dançaram e beberam bastante. Até que surgiu o primeiro beijo. O coração dele quase explodiu no peito.

     Quando chegaram ao prédio onde moravam, o convite foi inevitável.

      - Vem dormir comigo. - ele a convidou.

      - Não - foi a resposta seca e direta.

     A frustração dele foi enorme. Sua cama, nesta noite, esteve mais fria do que de costume. A solidão foi mais doída.

     Num outro dia ele a convidou para ir a um cinema. Ela aceitou, mas tinha que ir fazer uma visita a uma amiga e às sete horas estaria de volta para sair com ele. Ele esperou até as dez e ela não apareceu.

     Então ele pegou um papel grande e fez um cartaz com os dizeres do poeta: "A VIDA É A ARTE DO ENCONTRO, EMBORA HAJA TANTO DESENCONTRO PELA VIDA". E o prendeu em cima do seu tanque que dava para a área de serviço dela. Era inevitável que ela não visse. Pelo menos no dia seguinte ganhou umas desculpas secas. Já que era assim, ele passou a tratá-la como uma outra amiga.

     Foram finalmente, num certo dia, a um cinema. Ele estava sozinho e a convidou para ir ao cinema, mas sem nenhum compromisso ou intenção embutida. Na volta, outra vez no corredor, ele falou em tom de brincadeira.

     - Hoje você bem que poderia vir dormir comigo.

     - Eu vou. Deixa eu só pegar minhas coisas. - respondeu ela.

     Ele levou um susto. Não era isso que ele esperava. Já havia perdido a esperança e não estava preparado para uma resposta assim. Neste dia, quando ela chegou, não houve conversa. Deitaram-se logo e eles entrelaçaram seus corpos com carinho e transaram.

     Este dia foi um marco de felicidade. Parecia que ele vivia em plena euforia. Tanta era a euforia que ele não dava a menor importância se era correspondido ou não. O que valia naquele momento era o sentimento de felicidade que sentia.

     Descobriram muitas coisas em comum. Entre elas, a poesia. Foram muitas as poesias trocadas. Passavam boa parte do tempo escrevendo e lendo as poesias um do outro. Um dia quando ele a viu escrevendo uma, não resistiu:


     É noite
     Depois do café
     Hora de dormir
     Tarde da noite
     "- Já p'ra cama!"
     De olhos abertos
     Meus olhos vêem,
     Só a vêem,
     De noite e de dia
     Ela escreve,
     De olhos despertos,
     Talvez uma poesia
     Que descreva
     A poesia que ela é.

     No outro dia chegou em casa e encontrou esta:

     
     Ele foi embora
     Ele foi trabalhar
     Pisou no chão frio
     Escreveu um bilhete
     Procurou hora
     Encontrou sarna
     Começou se coçar
     Ele foi embora
     Bateu a porta
     Esqueceu a chave
     Ficou perdido
     Do lado de fora
     Vê se não chora
     Eu já vou acordar
     O dia está alto
     Não vou alcançar
     O tempo, o ônibus
     É preciso chegar
     Ei, o chuveiro
     Outro dia outra vez
     A noite já foi
     Só volta de noite
     Na hora do chá
     Tem música boa
     Pra gente escutar
     E ainda tem chimarrão
     Pra gente tomar
     Ei, não lamenta
     A marra que fazem
     A gente arrebenta
     Ei, vê se agüenta
     Que os meninos disseram
     Que o instante chegou
     Ei, não se espanta
     Que a rede balança
     Tem gato no armário
     E a maré tá no ar
     Ei, não se cansa
     O quarto, a estante
     A moto lhe leva
     E no mais é verdade
     Que Santa Maria dará
     Ei, não demora
     Que o claro acabou
     Tá preto
     Tá noite
     É hora de amor
     Ei, vê se dorme,
     Se sonha com os anjos
     E com o que não tem
     Amanhã tem mais dia
     Mais pressa
     Mais presas
     E não vai lhe esperar

     Certa manhã, enquanto ela dormia despida, ele pegou sua máquina fotográfica e tirou uma foto dela. A revelação da foto ficou muito bonita. Predominou um tom azulado valorizando a penumbra do quarto, lembrando um quadro de Picasso em sua fase azul. Ele mandou ampliar, escreveu uma poesia e mandou emoldurar entre vidros para que se pudesse ler o que escreveu atrás da foto:

     
     Um dia
     Tirei uma foto
     Nesta foto
     Revelei um corpo...
     Descobri
     Que a poesia
     Não se limita
     A extensão
     E ao poder
     Da minha palavra.

     A relação dos dois ia bem. Viviam tal paixão que parecia que seria eterna. Os casais apaixonados sempre vivem um pacto de troca de intimidade que, visto por outros, parece coisa de idiotas. Neste pacto trocavam os bilhetes dos mais "idiotas" possíveis. Os bilhetes foram tantos, e na maioria das vezes tão grandes, que provavelmente encheriam quinhentas folhas de um livro. Aqui ficam registrados aqueles de maior expressão.

     Eis um:

     "Doce,
     Bilhete pequeno, atraso grande. Você acredita que eu nem saí daqui e já estou morrendo de saudades? Nem eu. Mas tô! Acho que a saudade é a confissão do amor. Engraçado isso! Eu devo estar apaixonado por você. Mas também você é tão bonita! Hoje estamos com grana. Proponho uma bagunça qualquer. Depois telefono pra você.
     Um beijo doce no bico.
     Eu"

     E outro:

     "Amor
     Fui para faculdade. Volto mais tarde.
     Um beijo.
     Eu"

     E mais outro:

     "Amor
     Deveria estar no trabalho às 9:00 horas. São 9:40 agora! Azar! O importante é que eu te adoro.
     Dei um jeito na casa. Na cozinha falta pouco. Não arrumei o quarto para não te acordar. Você é tão bonita!
     Hoje tenho um monte de coisas para fazer. Acho que vai ser um dia cheio, mas tomara que seja um dia bom como ontem e anteontem. Você é linda.
     Vamos deixar já combinado que você me procura se você chegar depois, e eu te procuro se eu chegar primeiro.
     Como você é doce!
     Aliás, por falar em doce, deixei açúcar no açucareiro e botei um pouco na lata. Deixei também um pouco de café.
     Além disso tem pão congelado (no congelador). Além disso, o meu amor, o meu carinho, o meu respeito, a minha admiração, o meu orgulho, o meu prazer, o meu desejo por você é tão grande que me dá até medo. Eu, heim!?
     Amor, eu vou embora. Fico olhando você dormindo e me dá uma arretada vontade de pular em cima de você e... (Ah! O resto a gente inventa junto!)
     Adoro você; adoro.
     Eu".

     Os bilhetes dele quase se confundiam com uma carta. Na verdade ele revelava o imenso desejo de que sua vida se limitasse aos prazeres com ela. Ele tinha que sair para o trabalho mas perdia tempo para escrever tais bilhetes e normalmente chegava atrasado. Isto trazia problemas para ele no trabalho, pois nenhum patrão está apto a compreender coisas que vêm do coração. Muito menos para compreender um bilhete como este:

     

     "Amor, um bilhete.
     Você é tão linda!
     Ih! Não era isso que eu queria dizer. Alias, era isso também.
     Mas o bilhete é pra dizer que você é tão bonita! Ai! Errei de novo! Deixa eu dizer rápido senão vem outra crise: o vaso que está em cima da mesa tem que ficar de ponta-cabeça (de cabeça para baixo) até amanhã porque tá colando. Ufa! Este é o recado. Mas aproveitando a oportunidade digo também que você é tão bonita! Não!!! Não é isso! Isso eu já disse! Eu quero dizer agora que eu gosto muito de você e que você pode usar estas minhas declarações para o que você quiser. Use, abuse e se lambuze! Aproveita! Um beijo ENORME, doce e vibrante.
     Eu

     PB - Você é tão boni... Ah! Chega!

     P.B. = Post Bilhete"

     A relação vivida parecia um mar de rosas. Apesar das diversidades da vida, a vida para os dois parecia um paraíso. É provável que o desejo de todos os casais que vivem isso seja a perpetuação desta felicidade. Viver isso para sempre talvez seja o ideal de vida. Mas não é isso que sempre acontece. E com eles não foi diferente.

     Não se sabe se pela monotonia do relacionamento ou se pelo desejo de se estar com outras pessoas, mas na relação dos dois começou a existir desejos por outros que não um pelo outro. Somos ensinados para entender isso como traição. A sociedade dá mais valor ao casamento indissolúvel do que a uma relação sexual duradoura. O fato de se aventurar com outra pessoa, mesmo desejando-se continuar junto da mesma pessoa, é considerado traição. É como se um fosse proprietário do desejo do outro. Não temos o costume de valorizar o fato de que se nossa companheira experimenta outra relação e permanece vivendo em nossa companhia deveríamos nos sentir fortalecidos, já que ela experimentou uma outra relação e optou pela anterior.

     Foi isso o que aconteceu com eles. Não se pode dizer que houve um marco no desmoronamento da relação, mas o que foi alegria tornou-se drama; o que foi paraíso, tornou-se inferno. Parece que a paixão não permite que se enxergue a realidade com clareza e o que era carinho tornou-se agressão. As mágoas se acumulam somando um peso impossível de se tirar das costas.

     A relação estava definitivamente terminada. Cada um para o seu canto, distante um do outro. Ele não queria deixar que o que viveram caísse no esquecimento. Na verdade ele não estava certo se desejava mesmo o fim da relação. Estava triste. Resolveu então escrever a história dos dois. E pôs-se a escrever.

     Quando terminou de escrever o último capítulo e colocou o "FIM", sentiu-se aliviado. Escreveu a palavra fim com tranqüilidade, apesar de não ser exatamente isto o que ele desejava.

     Deixou os papéis arrumados na sala e foi para o quarto. Preparou a cama, que não era usada há muito tempo, porque ele vinha dormindo onde o sono o pegasse, e dormiu.

     Dormiu quinze horas seguidas. Acordou bem disposto e pronto para outra.

     O trabalho pronto foi oferecido a ela com a dedicatória:

     

     "Para você, que compartilhou de minha vida nestes últimos quase cinco anos, o meu último presente.

     Um beijo; saudades.

     O autor."
 

        Rio de Janeiro, agosto de 2003