A Viagem Rio/Vitória

Leonídio Leão


     - Calma mamãe! São quatro horas da tarde e o ônibus só sai as onze da noite! Vê se não me deixa nervoso!

     Mais uma viagem para Vitória. De avião, nem pensar. Carro não tenho. O jeito é mesmo enfrentar oito horas de viagem numa estrada esburacada e cheia de quebra-molas que fazem os ônibus parecerem um liqüidificador. E como a viagem é noturna a sensação de quem viaja é a de que está dormindo dentro de uma furadeira de impacto. O impacto é muito bem representado pelos quebra-molas. E o mais interessante é que tem gente que dorme a viagem inteira.

     Bem, já que não há outra solução vamos arrumar a mochila para a partida. As roupas couberam direitinho numa mochila, mas e os livros? Leva-se outra mochila. E como livro pesa! Se o conteúdo dos livros valessem pelo seu peso, a soma de todos os livros lidos valeriam toneladas de saber.

     - Calma mamãe! São nove horas e o ônibus sai as onze.

     Não adianta argumentar com mãe. Parece que elas tem o impressionante poder de não escutar, mesmo nos momentos onde se faz estritamente necessário. Então o melhor é ir embora para Rodoviária e esperar a saída por lá.

     São nove horas da noite e o ônibus que leva à Rodoviária demora só quarenta minutos para chegar. Andar de táxi na cidade do Rio de Janeiro é viver uma aventura errante. Já que a mãe apressa tanto para sair, o jeito é ir para a rua e tomar uma cerveja no bar mais próximo e fazer uma horinha até o momento certo de ir embora.

     O tempo passa, a cerveja desce e o relógio marca dez e meia. Pronto! Não dá mais para ir para a Rodoviária de ônibus. Ou pega um táxi, ou perde o ônibus para Vitória.

     -Táxi!

     E para um fusquinha caindo aos pedaços, dirigido por um motorista que mais parece um bandido.

     - Boa noite. Eu vou para a Rodoviária.

     Apesar das diferenças de formações a conversa é inevitável. Depois como a cara do motorista assusta criancinha é melhor puxar uma conversa para perceber melhor quem está ao seu lado.

     - E o Brasil, hein? Quanta corrupção.

     - É, "dotô", tá uma vergonha. Os "cara" se enchendo de "grana" e nós aqui na "batalha". Lá em cima "tá" todo mundo roubando. É por isso que eu "róbo" também. Ser honesto "num tá cum nada".

     Até que ele estava sendo honesto. Confessou para o passageiro que estava roubando. Mas qual será a malandragem dele? O que será que ele está fazendo para roubar naquela corrida? Não vai dar para reclamar. A não ser que ele diga como é que ele faz para roubar. Não há jeito de perguntar. Com aquela cara, vá lá que ele não goste da pergunta. Sabe-se lá se além de ladrão, é assassino?

     O trajeto entre Ipanema e a Rodoviária demorou apenas quinze minutos. Nem Ayrton Senna faria este percurso em tão pouco tempo. Ainda por cima naquele fusquinha. O carro tremeu, gritou, arranhou marcha, sacudiu, andou a mais de cem quilômetros por hora pelas ruas e lá está a Rodoviária onde se vai esperar mais quinze minutos.

     Um monte de gente sobe e desce as escadas de cimento, já que as rolantes não estavam funcionando. E como pesa esta mochila de livros. O peso só diminui um pouco quando se cruza com uma velhinha carregando uma mala enorme e com um ar perplexo de desespero. Os administradores da Rodoviária não devem viajar de ônibus. Se fizessem isso regularmente não teriam posto uma roleta entre o salão de espera e a plataforma dos ônibus. E ainda por cima os fiscais que ficam nas roletas exigem impassíveis que se mostre a passagem. Fazer esforço decididamente não é com eles. A velhinha faz um esforço sobre humano para levantar a mala e passar por cima da roleta. Observando bem pode-se notar que o fiscal tem um risinho maroto no canto da boca.

     Antes de entrar no ônibus é bom fazer xixi. Duas mochilas nas costas e o banheiro é pago. Tirando-se mão de onde não tem é possível pegar o dinheiro no bolso.

     - Não tem trocado não? Então vai lá, faz o teu xixi e na volta pega o troco.

     Lá dentro não tem um lugar para descansar a bagagem. Com jeitinho consegue-se abrir a calça e se desaguar. A perna molhada é tão somente uma conseqüência mais que provável. Além do que as torneiras da pia não têm água o jeito é enxugar na calça mesmo. Aí se aproveita a parte que já está molhada.

     Na saída o porteiro do banheiro ainda está contando o troco: um monte de dinheiro miúdo, velho, amarrotado e fedido. Parece que foi usado na falta de papel higiênico. É bem provável que eles façam isso para ver se o usuário deixa o troco como gorjeta. Mas como dinheiro hoje em dia não pode ser mais jogado fora temos que pegá-lo e enfiar no bolso porque alguém vai pedir esmolas e esse dinheiro é ótimo para nos livrar de qualquer sentimento de culpa.

     O ônibus das onze horas encosta e todos os passageiros se prostram diante da porta. Por mais que se forme uma fila tem gente que não quer nem saber. Passa a frente de todo mundo como se ele fosse o único a carregar peso e estar louco para entrar de uma vez para sentar numa poltrona. Quando se consegue chegar ao motorista é um alívio que só é interrompido quando se entra ônibus. Sempre tem alguém que guardando seus pertences no bagageiro interno e toma conta do corredor do ônibus como se mais ninguém precisasse passar. Lá dentro então forma-se mais uma fila. Pelo menos aí a fila é organizada, já que ninguém pode passar à frente de ninguém. Corredor liberado segue-se o caminho até a poltrona.

     - Desculpe, mas a poltrona dezenove é minha.

     - Ih! Então a companhia vendeu duas poltronas com o mesmo número!

     Coloca as mochilas pesadas no bagageiro e vai-se falar com o motorista. Quem vem resolver o problema é um fiscal.

     - Deixa eu ver a sua passagem.

     O fiscal leva um tempo enorme examinando as duas passagens. Faz uma cara compenetrada como se estivesse analisando um processo jurídico. Depois de muita tensão, chega a um veredito e pergunta para o homem que estava comodamente sentado e nem se moveu enquanto a situação estava sendo resolvida:

     - O senhor comprou sua passagem para quando?

     - Por que? Tem alguma coisa errada?

     - A única coisa errada é que sua passagem era para ontem.

     - Ué! E não pode viajar hoje não? Eu pensei que podia.

     O passageiro pouco inteligente se levanta e sai do ônibus, retirando a sua tralha e indo resolver o problema dele com o fiscal lá fora. Finalmente sentado fica-se imaginando quem vai sentar ao seu lado. Será uma menina bonita? Será um homem feio? Será alguém que dorme e ronca alto?

     Primeiro entra a maior gata passa direto pela poltrona vinte e vai sentar lá atrás. Depois entra um senhor com ar distinto que parece ser educado e não ser de incomodar ninguém, mas passa direto. Então entra um homem enorme de gordo, todo suado e com uma bunda que iria ocupar as duas poltronas, mas também vai lá para trás. De repente entra uma mulher gorda com duas crianças. Uma ainda de colo e outra com seus três ou quatro anos. Passa pelas primeiras poltronas e caprichosamente senta na poltrona de número vinte.

     Assim que ela senta a criança de colo começa a chorar. O mais velho, que ainda não tinha conseguido se sentar porque a mãe estava preocupada apenas com o bebê, não se dá por vencido e cumpre a sua parte: abre um berreiro. O passageiro da poltrona ao lado tenta ajudar e leva um safanão do menino. O motorista liga o motor do ônibus e lá estamos nós: a mãe com o bebê no colo, eu e o menino entre nós.

     O fiscal entra no ônibus para a última inspeção e quando chega na nossa poltrona pergunta:

     - Vocês estão juntos?

     Prontamente respondo que não. E o fiscal insiste:

     - É uma passagem só para os três?

     A mãe, também prontamente, responde que sim. Viajar mais apertado que aquilo era impossível. Se a mulher desse um espirro durante a viagem eu sairia pela janela. Nem mal o ônibus saiu da Rodoviária e o menino mais velho começou a chorar. Talvez fosse uma boa estratégia chorar também. Mas... e a vergonha? Depois, o menino tinha um olhar meio agressivo. Como quem perguntasse: o que é que você está fazendo aqui? Bem, só resta relaxar nas próximas oito horas da escuridão da noite.

     A senhora ao meu lado abaixa a sua poltrona (aliás, poltrona é um termo meio exagerado para aquela cadeira desconfortável em que somos até obrigados a dormir) e aconchega o bebê em seu colo para dormir. E o maior? Primeiro chorou nas duas horas iniciais da viagem. Tentei brincar com ele mas não fui muito bem aceito. Fico penalizado com o desprezo do graúdo e proponho que ele se deite no colo da mãe e coloque os pés no meu colo. Acho que ele estava cansado e espantosamente aceitou minha proposta.

     Finalmente o menino dormiu. Talvez ele tenha dormido menos de uma hora até que o ônibus encostasse na parada entre as duas cidades. Mais do que depressa pulei por cima dos três e antes mesmo que o ônibus estacionasse eu já estava pronto para descer. Juro que se não fosse o risco de ser internado num hospital psiquiátrico da cidade de Campos, eu teria dado um ataque histérico. Teria gritado, chorado, me atirado no chão e arrancado tufos de cabelo da cabeça. Mas corri para o banheiro para fazer um relaxante xixi. Depois de ter lavado minhas mãos corri mais uma vez para a lanchonete para comer alguma coisa. No caminho passei pelos meus companheiros de poltrona que também haviam descido. Pedi um sanduíche e um copo de leite quente. O leite chegou num minuto mas o sanduíche demorou uma eternidade.

     Segundo o motorista a parada deveria durar quinze minutos, mas depois de passados apenas dez, ouvi o alto-falante gritar: "Atenção senhores passageiros do ônibus 22360, vindos do Rio de Janeiro com destino à Vitória, horário 23 horas, queiram retornar aos seus lugares para prosseguimento da viagem". Era o meu e ainda não tinha dado uma mordida sequer no meu sanduíche de queijo quente que estava pelando. Não sei como consegui comer aquele sanduíche, naquela temperatura, em tão pouco tempo. Com a boca queimada e a caminho do ônibus ainda acendi um cigarrinho para tentar relaxar.

     Na porta do ônibus um fiscal com uma prancheta anotava alguma coisa. Falei com ele que o relógio da companhia andava mais depressa que o meu. Ele olhou no relógio e viu que mesmo na hora que eu estava entrando no ônibus ainda não tinha completado os quinze minutos. Falou que eu poderia ficar fora mais um tempo. Só que eu já tinha apagado o meu cigarro e o melhor mesmo era voltar para o meu lugar. Chegando lá a mãe e os dois filhos já estavam por lá. O mais velho estava refastelado com todo conforto no meu lugar, como se eu tivesse desistido da viagem. Perguntei à mãe dos dois se não preferia sentar-se na janela. Capciosamente pensei que se eu sentasse no corredor poderia fugir com mais facilidade. Mas a mãe recusou minha proposta. Tirou o filho aos prantos da minha poltrona e eu pulei novamente por cima dela para voltar ao meu lugar.

     O menino, revoltado por ter sido retirado da poltrona, fazia um escândalo. Sentado entre a mãe e eu batia com as pernas, dando chutes para todos os lados, em mim e na mãe. Por mais que eu tentasse acalmá-lo não conseguia. Já que estava encurralado tive vontade de pular pela janela. O ônibus retomou a estrada e o menino fazia um escarcéu. A mãe então teve a brilhante idéia de perguntar se ele queria comer. Abriu um saquinho de papel e tirou caprichosamente de dentro, nada mais nada menos do que um pastel. E de carne! Acho que o menino comeu a metade do pastel, porque a outra metade estava espalhada na poltrona, no chão, na mãe e em mim. A mãe pegou uma fralda completamente fedorenta de dentro de uma sacola no chão e começou a esfregar na poltrona, no chão e na cara do menino. Enquanto o menino era limpo, descansadamente ele descansou sua mão na minha perna, deixando uma marca de gordura na minha calça. Eu, por minha parte, peguei rapidamente meu lenço, antes que a mãe resolvesse passar aquela fralda também em mim, e comecei a me limpar.

     Mal a mãe terminou sua faina higiênica o menino recomeçou o choro:

     - Quero mais pastel! Eu quero mais. Tô cum fome! Buáááááá!

     A mãe, impassível, olhava para frente, com os olhos fixos na estrada, e aplicava a psicologia de fingir que não estava ouvindo. O menino então gritava mais alto ainda.

     Ouvi uma senhora sentada na poltrona detrás dizer:

     - Tadinho, ele tá com fome…

     Por pouco não me virei para trás para perguntar se a bondosa senhora não queria trocar de lugar de lugar comigo. Mas a mãe finalmente acabou cedendo e meteu a mão na bolsa, tirando um saco de papel já todo engordurado do pastel que estava lá dentro. Deu o saco inteiro para o menino, que ainda deveria ter uns três pastéis e disse para o filho:

     - Toma! Come tudo e vê se não me enche!

     Relaxa Darcy! Relaxa que ainda estamos na metade do caminho.

     Se com um pastel o menino fez uma lambança, imaginem com três! Foi carne moída e massa de pastel cozida para todos os lados. Até na cabeça do passageiro da frente tinha restos de pastel. O menino comeu os três; um depois do outro.

     Quando acabou os pastéis quis dormir e novamente recostou a cabeça na mãe e as pernas no meu colo, agora completamente engordurado de restos de pastéis. Fixei meu olhar na claridade que a luz do ônibus provocava na beira da estrada e acho que até cochilei. Quando acordei, com o dia já amanhecendo, já tinha me esquecido que estava imundo e cansado. O menino acordou logo depois e novamente abriu um berreiro. A mãe, impacientemente, mandou o menino voltar a dormir mas o menino não parava de chorar.

     - Não viajo mais com você - vociferou a mãe com toda raiva.

     Mal ela acabou de proferir estas palavras e o menino, talvez por maligna vingança, vomitou para todos os lados. Não tinha um espelho para me ver mas tenho certeza que minha expressão era de alguém em pleno estado catatônico; olhos arregalados, boca aberta e músculos completamente rígidos. Eu não estava acreditando no que tinha acontecido ao meu lado: o menino vomitou! É bem verdade que ele começou a vomitar em cima da sua própria mãe. Eu disse começou porque quando a mãe viu que ela estava vomitando, sem a menor cerimônia, pegou a cabeça do menino…E A VIROU PARA O MEU LADO!!! Depois que todos os pastéis foram devidamente devolvidos pela natureza o menino então voltou a chorar, gritando mais alto ainda. Todos os passageiros do ônibus acordaram. Todos não. Uns três ou quatro continuaram dormindo e acho que nem uma bomba atômica os acordaria. Mais que depressa peguei meu lenço, já todo engordurado, e comecei a me limpar. A senhora da poltrona detrás, que não foi afetada pelos respingos, ofereceu uma caixa de lenços de papel que foi devidamente toda usada. Honra seja feita, o menino era um craque: conseguiu vomitar dentro do meu bolso da calça. Quando tudo estava aparentemente limpo a mãe resolveu levar o menino até o toalete para passar uma água na cara do guri. Advinhem com quem ela deixou o bebê de colo?

     - Dá para segurar um pouquinho enquanto eu levo o menino no banheiro?

     Juro que eu tive vontade de dizer não. Mas ela fez a pergunta numa altura em que todos pudessem ouvir. Antes de reagir ainda olhei para as pessoas em volta e os olhares delas diziam de diferentes formas: "Pega o neném!" Então eu peguei. Quando pus a mão por baixo do bebê para ele não cair percebi que estava todo molhado. Pensei que se não tinha chovido dentro do ônibus o bebezinho só podia estar todo mijado. Jogar um bebê pela janela seria cruel demais para a minha formação. Então tive que esperar a mãe voltar com o filho do banheiro. Demorou séculos. Achei até que ela tinha sentado na privada da toalete, posto o filho deitado no chão e estavam lá para aproveitar e dormir. E eu com o bebê todo mijado no colo. As pessoas que passavam olhavam para mim e perguntavam:

     - Seu filho passou mal?

     - Não é meu filho.

     - Sua esposa está precisando de ajuda?

     - Não é minha esposa.

     Teve um que eu achei até que ele estava me gozando quando olhou para o bebê com um sorriso idiota nos lábios e disse:

     - É muito parecido com o pai. Vocês só têm esses dois?

     Quando a mãe voltou botou o filho sentado na poltrona e começou a arrumar um monte de sacolas. Tira sacola dali e põe ali; tira uma fralda de dentro de uma sacola e põe na outra; pega novamente a sacola que ela já tinha guardado, e inventou um monte de atividades, enquanto eu estava com aquele bebê todo mijado no meu colo. Finalmente ela pegou o bebê, trocou sua fralda e sentou.

     Abri a janela para arejar um pouco o ambiente, o que foi repetido por todos. Estava em petição de miséria. A calça era uma pasta de restos de pastel, vômito e mijo de criança. Mal podia me mexer para a roupa não esfregar no meu corpo. Mas para minha felicidade, e de todos, o ônibus já tinha passado pela entrada de Guarapari, o que representaria menos de uma hora de viagem. Na verdade esta hora demorou como se fosse dez.

     Quando meus olhos puderam enxergar a rodoviária de Vitória comecei a rir nervosamente. A mãe das crianças e o menino me olhavam com os olhos arregalados, mas eu não conseguia me controlar. Quando o ônibus parou eu pensei em descer rapidamente e correr para o banheiro, tomar um banho lá mesmo, trocar de roupa e ir para casa. Só pensei, porque a mãe reiniciou a atividade de tirar sacola do bagageiro e não me deu passagem para sair. Mesmo atrapalhando a todos, ficando no meio do corredor, a mãe, com toda calma, arrumava sua tralha para descer do ônibus. Passando meio que apertados os demais passageiros conseguiram descer do ônibus, mas eu fiquei.

     Quando consegui descer, não pude me conter, caí de joelhos e beijei o chão da rodoviária de Vitória.